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Ausência

Posted: 23 May 2006 18:10
by Samwise
E assim, sem que nada o fizesse prever, deu consigo a tentar recordar-se das linhas naquele rosto; olhava para o vazio, para aquela indefinição vaga com uma quase certeza - algo que não chegava, no entanto, a ser figura. Por vezes as linhas uniam-se, transmutando-se em algo belo, melodioso e sereno - construíam um rosto que lhe despertava alegria, saudade, tristeza - tudo para voltarem a desaparecer nos momentos seguintes, diluindo-se nas transversais da sua memória.

Mas porquê? Por que deambulava a sua mente - e agora também o seu pensamento racional mais directo, a sua atenção - em torno de alguém que nem sequer conhecia? Alguém que apenas vira duas ou três vezes a tomar pequeno-almoço em frente a si no café? Da última vez, disso lembrava-se bem, os olhares haviam-se cruzado por acaso, prendendo-se como se fossem os braços de dois trapezistas em pleno voo.

Fora ele que desenlaçara o nó incomodativo.

E agora, a poucas horas de distância, lamentava por demais tê-lo feito. Desesperava por uma imagem que, de tanta ausência, teimava em não se materializar. A noite não passava, não conseguia dormir, a manhã avizinhava-se distante e o seu amor, esse, não passava de uma ideia às voltas na sua imaginação.

Sam

Re: Ausência

Posted: 26 May 2006 14:02
by Venom
Mulheres.... nem nos deixam dormir :devil: . :tu: Gostei da forma como descreves as vagas imagens dela na cabeça do "sujeito". Folgo em saber que os teus textos ja te começam a agradar :P

Re: Ausência

Posted: 26 May 2006 18:33
by Samwise
Em qual acreditar? A razão ditava-lhe uma opinião peremptória: não a amava - nunca havia falado com ela, quanto mais...; o coração, esse, esfalfava-se em acrobacias para lhe dizer o contrário, feria-lhe o peito a cada batida, lançava-o para um abismo de incertezas - sempre, sempre com aquela musa presente.

Que suave era o seu rosto, o sorriso, o estar...

De um momento para o outro todas as outras haviam desaparecido da face da terra. Vi-as na rua e não lhe diziam nada. Estranhamente, orgulhava-se disso. A ele, que vivera anos prostrado à luxúria da devassidão, invadia-o agora uma inebriante euforia, a sensação constante de que o mundo finalmente lhe arranjara um cantinho para viver.

... o cabelo em arco, ligeiramente descaído em redor das faces, dos olhos verdes - de vez em quando afastava as madeixas para trás da orelha - ...

Uma aproximação. Mas como? Não queria fazer figura de parvo. Sobretudo não a queria assustar. Não podia. Uma quantidade irreal de diálogos e desfechos amontoavam-se-lhe na cabeça. Normalmente acabava por conseguir arrancar-lhe um sorriso de tímida aceitação. Se tudo pudesse ser assim tão fácil... Como lhe doía.

... a leveza de movimentos, o pulso delicado, o trato sóbrio...

Tinha de a ter para ele. A sua felicidade ou a sua miséria dependiam disso. A vida passava-lhe em frente aos olhos como numa película em fast-forward - sem som, as cores desbotadas, um vazio de significados, um fim abrupto.

E foi a um fim abrupto que tudo eventualmente chegou. Durante duas semanas o seu amor não apareceu no café. Dias contados. Dias agonizantes em que ele julgou nunca mais a ver. Havia-se mudado! Antes tivesse o destino optado por esse caminho. Não. Ao invés, arranjou-lhe uma anilha redonda, fininha e dourada para adornar o anelar.

Sam

Re: Ausência

Posted: 26 May 2006 19:34
by Pedro Farinha
Muito bem Sam, estás a ganhar pesia na tua escrita sem perderes o ritmo.

Só um reparo, não é anular mas sim anelar. Mas isso é um detalhe sem importância. :tu:

Re: Ausência

Posted: 30 May 2006 10:19
by Samwise
Obrigado, Venom e Pedro Farinha,

Venom, para falar a verdade, ainda não estou assim tão à vontade com os resultados da minha escrita. Vou vivendo naquele equilíbrio precário que separa o gosto pelo acto do gosto pela obra.

Pedro,

Estranho isso do dedo. Tinha essa mesma dúvida e fui ver ao dicionário... e escrevi "anular" porque foi o que lá encontrei. Mas sempre ouvi dizer "anelar", se bem me recordo.

A última frase deste texto está particularmente desinspirada (está horrível, para dizer a verdade...).

Sam

Re: Ausência

Posted: 10 Jun 2006 09:48
by Thanatos
No geral não desgostei do texto se bem que haja alguns pormenores da personagem que eu acho que não «encaixam» mas isto é o meu olhar crítico e nada tem a ver com a qualidade do texto em si. Admito que tu Samwise és capaz de melhor, sei que és capaz de melhor, e aqui não estavas no teu melhor do meu ponto de vista.

Uma dos aspectos a nível de caracterização que me «afastou» do texto foi esta aparente incongruência: "A ele, que vivera anos prostrado à luxúria da devassidão" seguida de "Uma aproximação. Mas como? Não queria fazer figura de parvo. Sobretudo não a queria assustar. Não podia. Uma quantidade irreal de diálogos e desfechos amontoavam-se-lhe na cabeça". A mim soa-me a falso! Um gajo que é tipo Don Juan nunca tem problemas em acercar-se duma mulher e com duas ou três frases apresentar-se. Eu sei que podes argumentar que tal é fácil quando não se sente nada de especial pela pessoa mas quando a paixão bate forte as pernas tremem, os joelhos ficam de borracha e o estômago em água. Tudo bem mas mesmo assim... anos de lúxuria... alguma coisa deviam ter deixado ;)

Depois o desfecho pareceu-me muito apressado quase como se tu já estivesses farto do texto e quissesses arrematar as coisas o mais rápido possível para seguires para outra.

Como disse no início não desgostei do texto. Apenas acho que és capaz de bem melhor. Mas tal como a matemática quanto mais exercícios mais a ponta do aparo se agudiza, por isso força nessas teclas! ;)

Re: Ausência

Posted: 12 Jun 2006 09:39
by Samwise
Thanatos wrote:Depois o desfecho pareceu-me muito apressado quase como se tu já estivesses farto do texto e quissesses arrematar as coisas o mais rápido possível para seguires para outra.


Assim foi.

A primeira parte foi escrita com cabeça e com cuidado. A segunda parte não estava nos planos, mas veio a inspiração e resolvi escrever... escrevi depressa porque tinha coisas para fazer e não queria deixar o texto a meio :P .

Os teus comentários fazem todo o sentido. Essa parte das incongruência foi bem apanhada ( :blush: ). Obrigado.

Sam