Amar na primeira pessoa

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Samwise
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Amar na primeira pessoa

Postby Samwise » 16 Jun 2006 13:39

Nesta carta, uma parte de mim, para que não caia no esquecimento.

O teu silêncio é revelador. Desaba sobre mim pesado, cruel, devastador; desce em surdina, impelido pelo eco ensurdecedor da negação, pelo frio cortante do desespero.

Aproxima-se o Verão; com ele a tristeza e a dor de uma solidão impenetrável, imperscrutável - indefinida. Cada vez mais o sol estende os seus braços ao longo dos dias, a Primavera capitula, a claridade preenche os lugares comuns, os vazios da existência, faz resplandecer a curva do esquecimento e da distância, e cada vez mais a dúvida e a incerteza pariam sobre a minha vontade.

A paixão, o amor; por enquanto a fagulha aguarda no abrigo selado dos meus lábios - só eu sei: Amo-te.

Sinto-o com a mente, sei-o no corpo. Amo-te do que te conheço e amo-te do que te imagino - de como construo os espaços que de ti não revelaste, de como faço cintilar a luz que não vejo já no teu olhar, no teu sorriso, no teu gesto casual. Não duvides, não questiones, crê apenas. O coração encerra certezas que a razão contraria. Quando, mas quando poderei serenar-me de novo na inspiração da tua presença?

O teu rosto flutua no ar à minha volta, ilumina-me com a sua frescura, com a sua graça serena, enternece-me. Atormenta-me na sua postura inexpugnável e distante. Estendo o braço como que a tocá-lo, todo harmonia, proporção e unidade. A imagem desvanece e os meus dedos atingem o nada. Sofro a frustração inicial dos primeiros momentos de paixão: encontro-me sujeito ao constante esquecimento. Não me recordo de ti nem de como as linhas se conjugam no teu rosto para formarem a imagem; não alcanço tua voz no seu timbre original; não me chega ao olfacto o aroma nu e inquietante da tua existência. Quão doloroso é amar-te sem te ter, no entanto, presente. A companhia reconfortante que a minha imaginação me pode proporcionar vê-se subitamente limitada pela fraqueza da memória táctil, pelo imperturbável afundar do pormenor, pelo deslizar constante e impiedoso do tempo. E é tão estranho, tão dilacerante, tão profano, amar-te nessa indefinição, amar-te subjugado pelo pendor da recordação.

Nascentes, afluxos de sentimentos fustigam-me a atenção incansavelmente, quase me impedindo de escutar a consciência, de me concentrar na tarefa imediata. Vivo como dentro de um sonho, e o destino, parecendo tão ao meu alcance, escapa-se-me como água cristalina por entre os dedos semi-cerrados de uma mão. Os acontecimentos sobrepõe-se, confundem-se, atropelam-se e atropelam-me furiosamente - e eu permito que tudo aconteça. A apatia toma conta de mim. Desmaterializo-me lentamente, dissolvo-me no espaço, aproximo-me da transparência irrisória, da pequenez das coisas sem importância. Sou uma miragem de mim mesmo. O espelho devolve-me o infinito. Defino-me em ti. Não existo. A minha força vital esvai-se com o afastamento. A saudade estropia-me o corpo, reduz-me à ambiguidade da matéria inerte tolhida pela roda implacável e turbulenta da impermanência.

Identifico e isolo: medo, urgência, insegurança, egoísmo. Mágoa e euforia, alegria e tristeza, nostalgia e serenidade. Raiva, raiva...e desespero!

Equilibro-me a custo, aterrorizado, na agonia e na necessidade de te contar; rastejo debaixo da urgência esmagadora da vontade, sem conseguir definir um rumo, uma acção. Acabará tudo um dia sem ter havido uma tentativa de resolução: o pensamento é agonizante, mas avança sem oposição. E nada direi, no entanto, no medo cobarde da rejeição, da indiferença. A ilusão é bem real, arde e queima e deixa marcas: não quero que acabe. Tão simples ("Amo-te. És tu a minha escolhida.") e tão distante. Permaneço incógnito; vivo, a partir das sombras e dos recantos, a felicidade que brota dos candeeiros no espaço aberto. O medo... o medo de não conseguir achar força suficiente para te desculpar; o medo de te condenar, ré inocente, por um homicídio cometido por mim; o medo de ouvir da tua boca as palavras "é amizade", "nunca daria certo" ou até "deixa passar um tempo" - seria como cair morto a teus pés ao ouvir de tua boca inscrições para a minha pedra tumular.

Cobiço-te como uma criança cobiça o brinquedo em destaque numa montra. Todos os dias, espremido pela agudez violenta da paixão, corro a ver o brinquedo - aquele que desejo por demais, que tem de ser meu a todo o custo, que me faz sofrer só de imaginar que está ali também ao alcance de outros. Mas tu, brinquedo, és especial: és peça única, não há mais como tu em stock, não estás à venda noutras lojas, e sei que nunca poderei consolar a tua falta com produtos substitutos. Não os há. Na verdade, tu brinquedo não estás à venda - não tens preço. És tu no fundo que vais escolher a quem queres dar a mão. É tu que decides quem vai sair premiado. Encho-me de temor.

Pensas que falo sob o efeito da embriaguez natural dos apaixonados?, da cegueira que atinge quem se vê enrodilhado em tão poderosa e doce teia? Não. Tu és bela - belíssima - muito para além do meu amor. Vi-o antes de ter sido trespassado pela flecha incandescente, e vejo-o no olhar atentos de outros. Sei o que pensam ao olharem para ti. Sei onde repousam a vista, onde descansam os sentidos, em que partes de ti soltam rédea ao desejo e à volúpia. Encho-me de temor.

Por vezes penso no futuro como se fosse um passado. Parece irreal, mas sabe a doces memórias - imagino que estou velho e que ao abrir uma janela, ao desviar a cortina, lanço um olhar ao passado. Vejo através da vidraça, envolta numa claridade celestial, aquela planície da nossa vida conjunta; uma existência carregada de felicidade, de momentos de alegria partilhados, de flores e harmonia e sorrisos. E depois penso em como tudo começou. A curiosidade, o fascínio natural - o encanto - revelado na tua presença, e em como subitamente tudo evoluiu para uma estranguladora obsessão.

Este documento é para ti, este cantar de criação em teu redor; pode ser que um dia te encontre as mãos e se revele aos teus olhos, figura graciosa, eixo de paixão. Pode ser que nesse dia me ache dominado por uma espécie de loucura e te resolva revelar a minha única lucidez: Amo-te.


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Re: Amar na primeira pessoa

Postby elsefire » 16 Jun 2006 14:51

Eu gosto. Aliás tem requintes poéticos ali pelo meio:
-"eixo de paixão" bestial.
e existem mais.

Um senão parece-me por vezes que o texto é pouco sereno(ok talvez não fosse para ser admito) e demasiado repetitivo na mesma ideia.

Agora cingindo-me ao mais concretamente, dou enfoco a esta frase:"Cobiço-te como uma criança cobiça o brinquedo em destaque numa montra", acho que prefiro a metáfora à comparação e por isso escreveria da seguinte forma:" És o brinquedo em destaque numa qualquer montra da cidade."
e depois mais à frente continuaria:"Todos os dias, espremido pela agudez violenta da paixão, corro a ver o brinquedo - aquele que desejo por demais,". evitava-se a repetição da ideia e alterava-se para melhor(digo eu) a figura de estilo.
já agora digo que o título é extraordinário.
aprincípio pensei que fosse algum escrito egocentrista mas depois vejo que não.

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Re: Amar na primeira pessoa

Postby Samwise » 16 Jun 2006 17:55

elsefire wrote:Um seão parece-me por vezes que o texto é pouco sereno(ok talvez não fosse para ser admito)

É propositado.

e demasiado repetitivo na mesma ideia.

Também é propositado, embora admita que fique cansativo o andar tanto às volta com as mesmas ideias. Foi para dar um pouco a ideia do "inferno obsessivo" a que as coisas podem chegar.

Agora cingindo-me ao mais concretamente, dou enfoco a esta frase:"Cobiço-te como uma criança cobiça o brinquedo em destaque numa montra", acho que prefiro a metáfora à comparação e por isso escreveria da seguinte forma:" És o brinquedo em destaque numa qualquer montra da cidade."
e depois mais à frente continuaria:"Todos os dias, espremido pela agudez violenta da paixão, corro a ver o brinquedo - aquele que desejo por demais,". evitava-se a repetição da ideia e alterava-se para melhor(digo eu) a figura de estilo.

É, no mínimo curioso, mencionares isso. Eu andei um pouco às voltas a pensar em como havia de juntar ao texto a ideia do brinquedo/urgência na "aquisição"... Acabei por me decidir por uma via diferente da tua. :rolleyes: Acho que preferi expor directamente a associação à palavra "criança", talvez porque faço mais tarde também uma ponte para a terceira idade (ou algo parecido)...

Thanks for the comment!

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Re: Amar na primeira pessoa

Postby Maloveci » 17 Jun 2006 00:00

Samwise wrote:Pode ser que nesse dia me ache dominado por uma espécie de loucura e te resolva revelar a minha única lucidez: Amo-te



Gostava de me exprimir dessa forma, mas não posso, não posso ... Era entregar o resto de amor próprio que ainda me resta :( :(

Boa Sam ;) Estes são daqueles que me "tocam".
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Re: Amar na primeira pessoa

Postby Venom » 19 Jun 2006 11:31

Gostei, está repleto de momentos geniais por todo o texto. Não irei falar do que já foi "dito" e "apontado". Mais uma vez quero dizer que gostei do modo como descreves as coisas ao longo do texto.É grande mas gostei de o ler. Não me leves a mal, mas sinceramente perfiro os teus textos "fictícios". :tu:
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Re: Amar na primeira pessoa

Postby Samwise » 22 Jun 2006 16:14

Pode não parecer, mas este texto transpira a fictício... (tem como é natural, ideias muito reais, mas ainda assim...).

Mas eu entendo o que referes, Venom... gostas mais das ficções não contemplativas, por assim dizer.

Maloveci, este texto foi construído (não há outro termo) para "tocar". E como o Pedro Farinha dizia num texto seu... isto é uma espécie da auto-crítica... um exame a mim próprio (e nesse sentido o sub-título impõe-se logo no início), para não me poder furtar a determinados sentimentos.

Era entregar o resto de amor próprio que ainda me resta

Também entendo muito bem o que queres dizer aqui....Isto só me faz lembrar o título do poema do Lyquid... "No Dia da Minha Morte"...

Obrigado a todo pelos comentários.

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