O tudo e o NADA

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Samwise
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O tudo e o NADA

Postby Samwise » 03 Jul 2006 19:25

- Puta!

Forte, estrondoso, decisivo, o punho cerrado atinge o tampo da mesa. Copos, pratos e talheres saltam desamparados, rodopiam sobre os eixos e espalham-se em redor, quais peças de dominó aleatoriamente derrubadas.

Surge da insignificância, a dúvida, talvez até do vazio absoluto, da ausência impalpável do etéreo - surge num espaço novo, num sítio onde momentos antes nada havia. A esta como que combustão espontânea segue-se a tomada de posse, uma afirmação lenta mas voraz, a conquista do poder através da eliminação sucessiva dos principais opositores: a razão, a sensatez, e por fim o domínio das capacidades interpretativas mais elementares. A dúvida toma freio nos dentes, à medida que se expande; a ascensão é implacável, subversiva, letal. "Take no prisoners", parece ouvir-se à distância. De um nada fez-se um tudo; o átomo submeteu o universo; a dúvida já não é dúvida - o ciúme transforma-a em certeza, a raiva em confirmação.

Há vinho tinto sobre a toalha; há ervilhas a rolar pelo chão; há fúria de um lado e perplexidade de outro; há um par de olhos que procura e outro que evita; no meio da mesa há um tripé com velas que dentro em breve sairá pela janela.

- João, ouve-me, por favor...

- Nem te atrevas a abrir a boca! Tu! Essa boca imunda fica fechada. Essa boca onde ele te enfiou o ... o...!Nossa Senhora, Joana! Mas porquê? Porquê?

O tripé, pesada peça de ferro forjado, voa janela fora. Mil cacos de vidro acompanham-lhe a descida, rasgando e retalhando as cortinas da sanidade, perfurando a carne, aliviando-a desse sangue incomodativo que arde e teima por sair a jorros.

- Sai! Já! Não te quero ver mais à frente! Deixa as chaves onde estão!

Uma corrente de ar frio entra pelo buraco recém-criado no vidro. Dentes cerrados, o olhar envolto em água, João observa a neblina no horizonte, o local onde o amarelo e o cinzento se misturam num lodo vaporoso. O tempo passa e abranda, imobiliza-se até. A noite está para chegar. João escuta apenas o seu próprio ritmo cardíaco; o bate-bate embalado num oco sepulcral - o vazio da alma desejando o esquecimento. A ira esvai-se com as lágrimas.

- Ouves-me, ao menos...

- Rua, desgraçada! Sai!

Passos. Primeiro indecisos, depois firmes. A porta da rua fecha-se ruidosamente.

Sam
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Re: O tudo e o NADA

Postby Samwise » 06 Jul 2006 09:35

Oh ThUnDDeR, claro que aceito a tua opinião, sendo ela favorável ou desfavorável ao texto em si. Mal de mim se não fosse assim.

Alguém disse anteriormente que é com das críticas negativa que aprendemos a melhorar, e eu concordo inteiramente com isso.

Como tu dizes, este texto é desequilibrado... tem momentos.

Quanto ao sentimento que queria transmitir... bem... se tinha ou não esse sentimento comigo, não sei, mas acho que não. Este texto não tem nada a ver comigo (lol). Escrevi-o por causa de um desafio no escreva.com, que tem por tema "a raiva".

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Re: O tudo e o NADA

Postby Pedro Farinha » 06 Jul 2006 09:45

Eu gostei, a raiva está toda lá.

apenas achei o terceiro parágrafo demasiado extenso ainda que bem escrito. Ou seja, a raiva tem de ter ritmo e ser sincopada.

Por exemplo este paragrafo:

O tripé, pesada peça de ferro forjado, voa janela fora. Mil cacos de vidro acompanham-lhe a descida, rasgando e retalhando as cortinas da sanidade, perfurando a carne, aliviando-a desse sangue incomodativo que arde e teima por sair a jorros.

está excepcional, bem escrito misturando os sentimentos com os factos que estão a ocorrer e nitidamente a escrita acompanha a raiva da personagem.

quanto a teres escolhido um tema que mão o tinhas dentro de ti, um dia em convesa com um escritor português - Possidónio Cachapa, que teve a amabilidade de ler alguns escritos meus e de conversar sobre isso, disse-me que a melhjor maneira de treinar a escrita é pensar em algo que nada tenha a ver connosco, incorporar esse sentimento e depois escrevê-o como se fosse o que na verdade nos ia na alma.

Acho que ele tinha razão, mas claro que podia estar só a armar-se para me mostrar que escrevia melhor que eu :-)

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Re: O tudo e o NADA

Postby Samwise » 06 Jul 2006 10:10

Obrigado pelo comentário, Pedro.

É interessante essa perspectiva sobre o escrever algo que não sentimos. Já tinha pensado nisso, mas não sei ao certo o que achar. Por uma lado obriga-nos a pensar mais sobre o "tema", mas por outro, como não o temos a nadar dentro de nós, torna-se mais complicado acertarmos com a coisa (se calhar é por isso mesmo que é um bom exercício)...

- Off-Topic - Vi lá no teu blog um artigo sobre um livro BD do Bilal... quando era mais novo também me fartei de ler coisas dele e do Moebius... adorava aquelas atmosferas completamente surreais e "alien" à nossa realidade. Não foste tu que uma vez mencionaste o "Incal" algures na secção de BD?

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Re: O tudo e o NADA

Postby Pedro Farinha » 09 Jul 2006 15:39

Samwise wrote:Obrigado pelo comentário, Pedro.

É interessante essa perspectiva sobre o escrever algo que não sentimos. Já tinha pensado nisso, mas não sei ao certo o que achar. Por uma lado obriga-nos a pensar mais sobre o "tema", mas por outro, como não o temos a nadar dentro de nós, torna-se mais complicado acertarmos com a coisa (se calhar é por isso mesmo que é um bom exercício)...

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Foi, eu quando era mais novo era um leitor fanático de BD dos mais variados tipos. Hoje já é mais raro ler BD mas ainda aprecio.

O Bilal e o moebius são o tipo de ficção cientifica que aprecio, parece que não tem nada a ver, mas os sentimentos das personagens são como os nossos.

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Re: O tudo e o NADA

Postby elsefire » 10 Jul 2006 13:43

um texto muito bem escrito, e não digo mais nada, além de um simples: parabéns.

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Re: O tudo e o NADA

Postby Samwise » 10 Jul 2006 15:58

Os meus agradecimentos, elsefire. Não é todos os dias que alguém me dá os parabéns por causa de um texto.

Como já disse lá para cima, acho este "ensaio" meio desequilibrado. Tem os seus bons e maus momentos. Revejo-me um pouco nas críticas que o Thundder e o Pedro Farinha fizeram e que lhe apontam algumas impurezas.

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Re: O tudo e o NADA

Postby Lyquid » 19 Jul 2006 11:22

Sam, quanto aos comentários pós-texto devo concordar contigo em relação ao quão difícil é escrever (e aqui julgo que se aplica quer à prosa quer à poesia) sobre algo pelo qual não estamos a passar. Já o tentei por variadas vezes e fico sempre com um sentimento de "artificialidade". Mas sabes que por vezes pode ser a sensação que fica a quem escreve e não a quem lê.

Quanto ao texto, adoro ler frases curtas, ríspidas, bruscas especialmente num tema como a raiva e apesar de não ser este o caso do teu texto, acho que conseguiste em frases menos curtas (num caso excessivamente longa) transmitir essa urgência da confrontação, da raiva palpável. Muito bom, apesar de ter que admitir que não é dos melhores que já li da tua autoria. O final quanto a mim está excelente.

Jorge O.
Amo todas as palavras... especialmente as que não podem ser ditas em voz alta para não quebrar o encantamento, por isso são escritas e são entregues de peito aberto a quem quiser entrar nos nossos sonhos, nas nossas dores.

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Re: O tudo e o NADA

Postby Samwise » 19 Jul 2006 18:44

Já estou como o Lyquid... este parece ser o meu texto mais lido dos últimos tempos :smile:.

Pelos vistos, os gostos dividem-se quanto à parte que as pessoas mais gostaram, com o terceiro parágrafo a ir ao tepete mais vezes (já agora deixo a informação: esse parágrafo originou o texto todo... foi o primeiro a ser escrito e daí surgiu/cresceu o resto).

Muito obrigado pelos comentários, Lyquid e Dark Angel.

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Re: O tudo e o NADA

Postby Venom » 20 Jul 2006 18:03

O que dizer? Não vou repetir o que os outros disseram, apenas vou dizer que gostei, e sublinhar que recentemente debruças-te sobre a relação Homem-Mulher. Agora falta me ler o outro :mrgreen4nw: .
no sci-fi masterpiece depicts an AI that, upon coming online and searching its database in an effort to better understand mankind, responds by shouting, “You guys are awesome! We should get nachos!


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