Ó Morte, ao que vens?

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Samwise
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Ó Morte, ao que vens?

Postby Samwise » 06 Jul 2006 11:59

Baseado vagamente em trabalhos dos autores: Ancalagon, Venom e Agnor


Segundos para o embate...

[Do lado de fora]

Apeia-se a custo do elevador, fecha a porta-em-harmónica atrás de si e, depois de fazer habituar a vista à escuridão, olha em redor. O espaço é estreito, pouco mais largo que a distância entre os seus ombros, e recorta-se aqui e ali com as entradas para as habitações. Distingue a letra J por cima de um porta ao fundo do corredor. Dirige-se até lá.
Há um tapete castanho, gasto, feito de corda e pelo sintético, a dormir em frente à porta. Várias moscas que aí repousam levantam voo quando o mensageiro das trevas se aproxima. Há uma campainha de plástico creme, redonda, com o botãozito de trriim pendente no centro, à direita da porta.
O vulto não a utiliza.
A música produzida pelo bater contínuo dos nós dos dedos sobre a madeira envernizada - duas ou três vezes por cada chamamento - é um dos raros prazeres a que ainda se permite desfrutar. Inebria-o deveras aquele som, "nóque-nóque", e a ressonância inquisitória que produz nos cérebros das pessoas que habitam para lá das portas. Substituir aqueles sustenidos graves, naturais e harmoniosos, pelo som estridente dos aparelhos campaínhicos seria como desatar a tocar concertina na ópera de Viena a meio de uma valsa de Strauss.
Ergue a mão, uma junção sobrenatural de carpos e metacarpos, bate ao de leve e aguarda. Minutos e nada. Dispõe de tempo. Todo o tempo do mundo... mas bate novamente, com mais força. Passos ao fundo... uma sombra atravessa-se na frincha por baixo da porta; a claridade que escapa pela monócolo-vigia desaparece subitamente.

- - -

Round 1 - The Grim Reaper vs The Ugly Maiden

[Do lado de dentro]

Hmmm? Mas que caralho quererá este palhaço! ‘Inda faltam uns meses p’ró Carnaval... Virou a cabeça e berrou: "Ó Zé... Zé...! Está aqui um pacóvio de aspecto esquisito à porta."
"Manda-o dar uma curva", ouviu-se ao longe.
"Quem é?", perguntou a mulher, através da porta.
"É aqui que mora o senhor José António Caruncho Perdigão?"
"Não sei... depende. Ao que vem?"
"Venho para o levar."
"Para o levar? Para o levar para onde? É da polícia? Olhe que não foi ele que assassinou o catraio. Ele nem tem fusca sequer..."
"Para o levar para o outro mundo. Personifico a Morte."
"Olhe... vá mazé gozar c'o caralho, 'tá bem. Muito boa tarde, então."
"Espere! Isto não é uma brincadeira. Estou a falar muito a sério."
"Pois se é morte, porque é que está a bater-me à porta, hã? Não tenho nada a ver com os seus assuntos."
"Não tem agora, mas terá um dia, não duvide. Estou a bater porque necessito de autorização para agir. Não posso levar comigo ninguém que não queira ir de livre vontade..."
"Essa é boa, sim senhor... ir de livre vontade... então e tem tido muitas aceitações?"
"Não tenho tido recusas. Sou muito persuasivo."
Lá de dentro: "Ó Maria... mas quem é? Já te disse para mandares o gajo dar uma curva!"
"Ó Zé... hás-de ouvir este tipo a falar, que tem muita graça..."
"Vê lá é se não é algum bófia disfarçado..."
"Ó senhor que vem da morte... tire lá o capuz e mostre-me essa carantonha..."
"Lamento. O meu rosto só os mortos podem contemplar."
"Então e uma identificaçãozita, não há? Como é que eu sei que está a dizer a verdade?"
"Terá de se contentar em acreditar na minha palavra. A morte não mente. Quando aparece é para matar. O meu assunto não é consigo, todavia. Desejo falar com o senhor José Pe..."
"Não é comigo??!! Como que não é comigo? Nesta casa quem manda sou eu... ninguém entra aqui sem a minha autorização, tás'ouvir, ó morte dum caneco!"
"O senhor José Perdigão, por favor."
"Vai pró raio que ta parta, aldrabão da treta."
"Esperarei até que ele saia, então."
"Faz como quiseres, ó palhaço. Vais ficar aí fora muito tempo, já t’aviso."
Lá de dentro: "Ó Maria, mas que porra, ainda aí estás? Daqui a pouco obrigas-me a levantar, foda-se, e olha que não me queres ver levantado. Vai-me já é buscar uma cervejola a frigorífico, q'esta aqui já s'acabou!"
"Anda cá, ó Zé, q'io gajo diz que é a morte... e... e que está aqui para te matar."
"Quê?"
"Anda cá e fala tu c'o gajo, q'eu já perdi a paciência..."
"Se vou aí para me chatear, a seguir levas na tromba, 'tás m'ouvir? Vou-te às fuças cá c'uma pinta..."
"Anda cá falar c'o tipo, porra!"

---

[Do lado de fora]


Novamente passos a aproximarem-se da porta, desta feita mais pesados - o som de botas à vaqueiro, botas à "pintas". A sombra que paira por baixo da porta desaparece de repente, como se tivesse sido empurrada para o lado. O baque de algo pesado a desabar sobre uma carpete faz-se ouvir: "Plófe" - "Ai, bruto d'um cabrão! Já me fodestes o joelho.". Uma sombra diferente aparece a cobrir a linha de luz horizontal.

---

Round 2 - The Grim Reaper vs J.P.

[Do lado de dentro]

"Então, diga lá o que vem a ser isto?"
"É o senhor José António Caruncho Perdigão?"
"O próprio."
"Represento a Morte. Estou aqui para o levar. É chegada a sua hora."
"Deves estar à espera que eu te abra a porta, não? Na volta tens aí uns manos escondidos nas escadas para me assaltarem a casa, é o que é!"
"Sai de livre vontade ou prefere arcar com as consequências?"
"Hã? Olha cá, chaval, nem vale a pena estares com essas conversas. Eu já vi muita gente a morrer e nunca te vi lá ao pé..."
"Eu só apareço em determinadas situações... como por exemplo enfartes de coração derivados de congestões alimentares... por falar nisso, o que é que comeu hoje ao almoço?"
"Pira-te daqui p'ra fora. Tens dez segundos. Depois disso vou buscar o cão e solto-te às canelas."
"Não foi por acaso cozido à portuguesa, acompanhado de pão alentejano e umas fresquinhas para regar o feijão, ou terá sido"
Para dentro: "Ó Maria, puta do caralho, então 'tivestes a dizer ao gajo o que comi ao almoço? Mas que porra é esta?"
Lá de dentro: "Eu na disse nada! Nem abri a boca, carago! Que mau feitio que tens..."
De fora: "Senhor José Perdigão, aceite o seu destino, de hoje não passa."
"Ah, sim? Então e onde está a minha certidão de Óbito?"
"Isso vem depois - é um caso com a lei deste mundo. Primeiro morre-se, depois a certidão. Há todo um caminho lógico para o procedimento legal."
"Tou a ver...Vamos fazer assim: tu ficas aí fora quietinho, ou vais-te embora, se quiseres, tanto me faz, e eu fico aqui dentro à espera, a ver se morro. Se até ao fim do dia não morrer, então solto-te o cão em cima."
"Não pode ser. Para morreres tens de me dar a mão de livre vontade. Se não o fizeres, o teu corpo desfalecerá com a alma lá dentro, tornar-te-ás um morto-vivo, e depois ninguém te pode valer. Vais para o caixão plenamente consciente."
“Pá, não parece assim tão mau… um morto-vivo. Como aqueles que aparecem todos rotos nos filmes…”
“É uma perspectiva. Outra é que os mortos-vivos não se conseguem mexer. O corpo torna-se hirto, mas a alma subsiste, como que aprisionada, consciente, a sentir tudo o que se está a passar… Dizem que a parte pior é a autópsia, e que depois disso, a eternidade são favas contadas…”
"Olha lá, não tens mais marmelos para ir chatear? Hoje só morro eu?"
"Há outros como eu por aí..."
"Balelas. Olha que hoje não é dia das bruxas... Se és a morte, porque é que não atravessas a porta como aquele super-herói, o homem invisível? Olha, digo-te o que vou fazer: vou soltar o cão, que fica já o problema resolvido."
"Como queiras."

----

O Juri decide...

[Do lado de fora]

Passos a afastarem-se da porta. De repente, um berro aflito, o gorgolejar de uma tentativa de vómito e o ruído abafado de mais um corpo a beijar o tapete.
"Ó Zé! Ó Zé! Mas o que é que tens... pareces um caranguejo desarticulado... AiAi - ACUDAM - ACUDAM"

---

[Do lado de dentro]

“Nóque-nóque”. A mulher abre a porta e recua dois passos, aterrorizada. A visão do estranho à sua frente obriga-a a cobrir a boca com as mãos. Primeiro entra a lâmina, uma espécie de foice-não-tão-curva suportada na ponta de uma cabo-lança, por sua vez suportado por uma mão de esqueleto. Depois entra o vulto; parece que desliza, em vez de caminhar. O vulto ajoelha-se e estende a mão ao condenado, que a aceita sem hesitações.
Num último esforço, J.P. levanta a cabeça e murmura: "Maria, falas disto a alguém e venho cá pessoalmente arrear-te os cornos com porrada..."

FIM

[img]http://img473.imageshack.us/img473/271/thegrimreaper14xz.png[/img]
the grim reaper


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Re: Ó Morte, ao que vens?

Postby Venom » 20 Jul 2006 18:17

:rofl2: Está aqui um texto interessante. Penso que é evidente que parte do teu texto baseaste no meu. Gostei do contraste entre as varias personalidades, e a forma como o "grim" reage. Estás de parabéns.
no sci-fi masterpiece depicts an AI that, upon coming online and searching its database in an effort to better understand mankind, responds by shouting, “You guys are awesome! We should get nachos!

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Re: Ó Morte, ao que vens?

Postby Aignes » 20 Jul 2006 19:31

Bem, o grim reaper acabou por ter razão.. :mrgreen4nw:

Gostei da diferença entre o discurso, das visões das personagens, da história em si, e também dos títulos de cada parte.. :thumbup:
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Re: Ó Morte, ao que vens?

Postby Samwise » 21 Jul 2006 09:30

Bom... isto foi um tipo de reacção completamente diferente da que eu estava à espera.
Sinceramente, contava uma recepção muito mais fria e cruel.
Por várias razões: o disparate pegado que é tudo isto, o uso mais que intensivo de calão, as onomatopeias em "português tradicional", a tentativa de ter graça que podia não resultar de todo, os títulos de um combate de boxe colocados em inglês, aquele tratamento marido-mulher tão nosso português... enfim...

Repararam na diferença de tratamento da terceira para a primeira pessoa que às tantas a morte adopta? Acho que já estava farta de formalidades :biggrin:.

Obrigado pelos vossos comentários. São eles o sal do entusiasmo.

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