A Presença

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A Presença

Postby Samwise » 29 Sep 2006 12:57

3 de Julho de 1923

Caro Joaquim Ossos,

Escrevo-te numa altura em que passaram já cinco dias sobre a minha chegada a esta mansão, e, mais do que a refulgência quente e acolhedora desse sol de verão, são as trevas sombrias do desconhecido que descem estranguladoras sobre o meu espírito. O restabelecimento do meu estado de saúde, motivo a que me propus inicialmente, torna-se, à luz dos últimos acontecimento, impraticável.

Encontro-me a sós desde há dois dias - consegui finalmente, a muito custo, dispensar os serviços do caseiro, o prestável Sr. António, que mora na vila de Antão, as umas boas 20 milhas deste ermo local. Por certo, já te chegou às mãos a primeira carta que enviei. Desde então muito mudou. Meu prestável e fiel amigo, escrevo-te a solicitar a tua presença, o teu auxílio; a tarefa que se me revela imediata tolhe-me a coragem e quebra-me a rectidão.

O primeiro indício de uma presença sobrenatural nesta mansão manifestou-se do segundo para o terceiro dia da minha permanência: o livro de memórias de família, que havia estado a consultar sobre uma mesa poeirenta na biblioteca, e que aí deixei a repousar, aberto sobre uma árvore genealógica, apareceu, na manhã seguinte, arrumado na estante de onde o tinha retirado. Interroguei o Sr. António sobre o assunto, mas o pobre homem, de cara lívida e lábios pendentes, quedou-se mudo e assustado, negando envolvimento com um leve aceno de cabeça. Desde então, de noite para noite, tenho reparado num conjunto de pequenas ocorrências - alguns objectos que mudam inexplicavelmente de local: uma cadeira mais próxima do pescoço da lareira, como se alguém lá tivesse desejado repousar; um candelabro maciço, de cinco gargantas, deslocado da sala de estar para a biblioteca; um par de cortinados cerrado, quando ainda no dia anterior penetrava sala adentro uma claridade celestial; uma gaveta deixada aberta, com vestígios de desarrumo interior.

Empreendi então uma busca meticulosa, divisão a divisão, cave e arrumos, visando desvendar a presença de algum estranho na mansão. Não dei com ninguém, e não encontrei nenhuma possibilidade que, por desleixo, permitisse o acesso à casa a partir do exterior. Descobri, no entanto, uma passagem que me era desconhecida – uma pesada porta de ferro negro que, erguida em abóbada, e a julgar pela arquitectura bisonha, bloqueia o acesso a algum salão ou ala. Confrontei novamente o Sr. António, que desta feita, encolhendo os ombros, afirmou nunca, em toda a sua estadia ao serviço da família, ter visto aquela entrada aberta ou usada. Tão pouco sabe o que quer que seja sobre o paradeiro da chave que lhe destranca os ferrolhos, ou sobre o que poderá ser encontrado do outro lado da passagem.

Ossos, esta noite acordei ao som distinto dos soluços do choro de uma mulher, carpindo dentro das paredes desta mansão, pareceu-me. De candeia em punho, resistindo ao medo que retesava os nervos, e sob o olhar atento que os meus antepassados me deitavam das paredes, vagueie pela casa – mas debalde, mais uma vez fui iludido. Pelos meus sentidos?

Estou determinado em levantar o véu deste mistério. A porta negra será arrombada. Mas não sem a força do teu carácter a meu lado, caro amigo. Aguardo-te impaciente,

O teu sempre,

L. Vidigal.





Sam
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Re: A Presença

Postby Thanatos » 29 Sep 2006 13:10

Por mais voltas que dê ao miolo não estou a localizar qual o conto do SK. Mas adorei o estilo epistolar. Lembrou-me mais Poe que King, que se há-de fazer. A cada leitor sua sentença :smile:
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Re: A Presença

Postby Samwise » 29 Sep 2006 13:22

Peço desculpa, esqueci-me de mencionar a fonte: "Jerusalem's Lot", creio que do "Night Shift".

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Re: A Presença

Postby Thanatos » 29 Sep 2006 13:26

Ahhhhh. É que o estilo lembrava-me o 'Salem's Lot mas como referias um conto. Epá já li isso vai para uns bons 15 anos ou mais. Sim de facto já me lembro que era em forma epistolar também. Nice work Sam! :thumbsup:
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Re: A Presença

Postby anavicenteferreira » 30 Sep 2006 19:15

Gostei. Também li o conto, mas só me consigo lembrar do romance. Tenho ver se releio o conto, para ver as ligações.

Quando li o destinatário da carta, pensei que o conto fosse baseado no Gerald's Game ( :sick: ) e fiquei um bocadinho preocupoada, mas depressa percebi que era outra coisa completamente diferente.

E já que o senhor é um dos que me está sempre a atazanar por causa dos meus finais em aberto, que tal uma continuação?
Ana

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Re: A Presença

Postby Samwise » 02 Oct 2006 12:53

anavicenteferreira wrote:Gostei. Também li o conto, mas só me consigo lembrar do romance. Tenho ver se releio o conto, para ver as ligações.
Quando li o destinatário da carta, pensei que o conto fosse baseado no Gerald's Game ( :sick: ) e fiquei um bocadinho preocupoada, mas depressa percebi que era outra coisa completamente diferente.


A ligações começam precisamente no nome do destinatário da carta (Bones, no conto de King). Depois é a situação: um proprietário acupa uma valha mansão que aparentemente está assombrada, e escreve então a um amigo a informá-lo da situação. O conto começa com uma série de cartas.

Tenho também a confessar a apropriação de uma ideia do "The Hound of the Baskervilles" para compor este conto.

E já que o senhor é um dos que me está sempre a atazanar por causa dos meus finais em aberto, que tal uma continuação?


Ui... isto foi feito para um desafio no escreva-com. Pensei que estava safo, com a história do limite de palavras. :devil:

Por enquanto, não faço promessas...!

Sam
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