O Fascínio

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O Fascínio

Postby Samwise » 26 Oct 2006 17:58

O Fascínio

A pergunta surgia frequentemente no pensamento de McCallister com a natural insistência de uma obsessão, sempre sucedida de numerosos pontos de interrogação que lhe lembravam gigantescos balões insufláveis amarelos - aquele tipo de balões que vemos na televisão, utilizados nas acções de sponsoring de grandes eventos desportivos internacionais, como a maratona de Nova Iorque, por exemplo.

O fascínio - este fascínio - de onde vem, por que vem...?

Colocando-a assim por meio de palavras, tudo bem certinho e alinhado no papel, a questão tornava-se banalmente simples, um assunto trivial, respondível através de um quase sinónimo atirado ao ar, e também por hábito, quase ao calhas - gosto. Uma resposta satisfatória!

Ahhhh, o "gosto": essa escarreta esverdeada, asquerosa, distopicamente aglomeradora, que tudo justifica, que por acção enzimática dissolve todas as explicações, e que na verdade, ao poupar um exaustivo trabalho de exame de consciência, não serve senão para enganar a pergunta, como uma pastilha elástica engana a fome, enchendo o estômago de saliva.

Satisfatória, dizíamos. Talvez. Talvez que o "gosto" servisse para um descarte superficial, confortável e despreocupado. Mas nunca para acalmar o desejo interposto por esse complexo ser chamado "eu","consciência". A esse não conseguia McCallister enganar tão facilmente. E satisfatório, para o caso, seria igual a medíocre. Não se pretendia uma resposta satisfatória, antes se exigia - EXIGIA - uma reposta conclusiva, desmistificadora, anti-dogmática. Uma resposta libertadora.

Por outro lado, reflectia McCallister, tudo isto se lhe afigurava como uma pretensão arrogante. Talvez mesmo estupidamente desnecessária. Algo semelhante às eternas: "O que é o homem?" e "Qual é o sentido da vida?". Questões para as quais nunca se obterá quaisquer repostas, nem num futuro próximo, nem daqui a milhão de anos. Recolheremos apenas o devastador eco silencioso do universo.

De onde surge o fascínio? a obsessão?, a compulsão?... e, em último caso, o vício? estas faces distintas da mesma figura?

De cada vez que estendia a sôfrega mão para um livro, que o tomava no colo como uma mãe acolhe um filho nos braços, que o folheava, passando os dedos sobre o texto, quase sentindo pequenos relevos nas letras, quase absorvendo tactilmente aquele outro mundo representado no papel, a alma de McCallister inundava-se de uma alegria melodiosa, iluminava-se toda por dentro, abstraía-se de tudo aquilo que não era livro.

Quão agradável pular para o lado de lá e passar uma esponja sobre esta realidade opressora; desligar a luz e trancar este mundo para além de uma porta selada a vácuo. E vaguear. Deixar-se primeiro tomar por um vago temor - o da adaptação às primeiras linhas da história, talvez até às primeiras páginas -, sentir aquele desconforto familiar que é passar os primeiros momento na companhia de alguém que não se conhece, até que, um pouco por habituação, um pouco por amor, o convívio se torna indispensável.

Então, com a rapidez com que uma luz se acende no tecto ao premir de um interruptor, abrir o livro era, para McCallister, penetrar instantaneamente naquela outra realidade. Nem sequer havia a sentir os efeitos do jet-lag. Era como um tele-transporte - num instante aqui, no instante seguinte lá!

Libertação. Eis a pragmática resposta à pergunta de McCallister - uma resposta surgida do efluviante sabor do papel de impressão. Alheado no fascínio entorpecedor da leitura, vergado pelo gosto que suporta esse fascínio, McCallister perdia então a noção de que havia uma pergunta.

Morria por momentos, dando vida ao mundo que lia.


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Re: O Fascínio

Postby Thanatos » 26 Oct 2006 18:13

Ena, ena, uma celebração da leitura! Por mim este texto figurava já no próximo e-zine mas como não tenho voto na matéria fica aqui a congratulação por um trabalho bem feito, se bem que não concorde com o termo "respondível".
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Re: O Fascínio

Postby Samwise » 26 Oct 2006 18:31

Não tenho qualquer explicação para este texto. Não estava na minha cabeça, não tencionava abordar nada do que aí está, e nem sequer sei se tem algum propósito (alguma resposta, em último caso) concreto. Comecei a escrever e saiu assim.

No meio da escrita acho que inventei alguns sucedâneos de palavras, tanto que o dicionário se queixou de alguns termos (que mantive, mesmo assim).

Por acaso o "respondível" não foi um deles, mas entedo a aversão à palavra.

O que sugeririas em substituição?

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Re: O Fascínio

Postby Thanatos » 26 Oct 2006 19:57

É mesmo uma questão de gosto ou neste caso de desgosto pessoal meu com o termo. Como mais à frente escreves "que por acção enzimática dissolve todas as explicações," eu usaria o "explicável". But to each his own! :thumbsup:
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Re: O Fascínio

Postby Aignes » 26 Oct 2006 21:47

Samwise wrote:O fascínio - este fascínio - de onde vem, por que vem...?

Colocando-a assim por meio de palavras, tudo bem certinho e alinhado no papel, a questão tornava-se banalmente simples, um assunto trivial, respondível através de um quase sinónimo atirado ao ar, e também por hábito, quase ao calhas - gosto. Uma resposta satisfatória!

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Satisfatória, dizíamos. Talvez. Talvez que o "gosto" servisse para um descarte superficial, confortável e despreocupado. Mas nunca para acalmar o desejo interposto por esse complexo ser chamado "eu","consciência". A esse não conseguia McCallister enganar tão facilmente. E satisfatório, para o caso, seria igual a medíocre. Não se pretendia uma resposta satisfatória, antes se exigia - EXIGIA - uma reposta conclusiva, desmistificadora, anti-dogmática. Uma resposta libertadora.


Esta parte pode ser aplicada a tantas coisas que quando comecei a ler fui transportada para os meus próprios fascínios.

E que boa explicação da sensação de pegar num livro... :thumbsup:
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Re: O Fascínio

Postby Samwise » 27 Oct 2006 10:19

Sim, é verdade, há muito de abstrato (o se quiseres, de interiorização subjectiva) nesse trecho todo.

Ainda estou meio baralhado quanto ao real sentido/objectivo deste texto. Não sei ao certo se me identifico com esse McCallister...

Quanto à parte da sensação, do fascínio, de abrir um livro: tem um pouco de mim, como é natural.

Thanks for reading it! :wink:

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Re: O Fascínio

Postby Pedro Farinha » 29 Oct 2006 21:49

Gostei dos textos Sam. Ponho o plural porque para mim foram dois textos, a escarreta esverdeada do fascinio e a elegia da leitura.

Gostei particularmente da imagem que crias do principío do livro ser como uma nova amante. Não foi isso que escreveste ? Bem. Foi isso que eu li ;-)

Acho que só a passagem do primeiro "texto" para o segundo está pouco natural. Eu preferia que tudo tivesse começada "Da primeira vez que estendia a mão..." mas isso é o meu gosto, essa escarreta esverdeada :thumbup:

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Re: O Fascínio

Postby Samwise » 30 Oct 2006 10:50

Pedro,

A tua interpretação de "dois textos" é muito acertada. Também é isso que me deu a parecer quando acabei de escrever aquilo. Podia ter ligado a primeira parte a qualquer outro assunto que não "a leitura".

Quanto ao caso "o princípio do livro ser como uma nova amante": não me passou sequer pela cabeça essa interpretação, mas olhando para as coisas desse ponto de vista, todo o restante texto, a partir dessa parte, ganha novos e deliciosos contornos - ganha uma subjectividade especial que, de facto, não estava nos planos do escritor. :thumbsup:

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Re: O Fascínio

Postby Pedro Farinha » 30 Oct 2006 20:13

Sam, ao ler isto:

Deixar-se primeiro tomar por um vago temor - o da adaptação às primeiras linhas da história, talvez até à primeiras páginas -, sentir aquele desconforto familiar que é passar os primeiros momento na companhia de alguém que não se conhece, até que, um pouco por habituação, um pouco por amor, o convívio se torna indispensável.


foi a leitura que fiz, até porque usas algumas palavras ambíguas depois... como o verbo penetrar... mas como diria Freud, às vezes um charuto simboliza mesmo um charuto. :devil2: :stu:


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