Far-se-á jamais presente

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Samwise
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Far-se-á jamais presente

Postby Samwise » 08 Jan 2007 19:16

O artesão não acordou esta manhã. Não acorda há vários dias porque não se deita para descansar. Trabalha. A pena, o bico suave amolecido pelo uso delicado, viaja laboriosamente através do papel, erguendo rotas de tinta entre nações que são ideias.

Não tem pressa, mas, pleno de intuito, trabalha sem intervalos. Transcreve, letra após letra, a essência da inspiração com a mesma cadência com que esta surge à face do pensamento. Fluentes, precisas, as palavras trotam para o papel ordeiramente. Formam montinhos de areia no meio de um oceano de brancura. Expandem, crescem, tornam-se ilhas, nascem países e continentes. Nos gestos redondos do artesão ancestral, navegador petulante do inexplorado, a palavra vai privando a água de uma parte da sua alvura.

Há muito tempo que não escreve assim tão bem, que não sente a pena verter com tanta certeza. Entusiasmado, quase embevecido, consciencializa-se da importância vital de cada pequena parcela, de cada detalhe ínfimo, do seu papel no rigoroso firmamento universal. Mas também da necessidade de harmonia como objectivo final.

Tudo faz sentido, tudo encaixa, e a obra vai crescendo, admirável mundo novo. Aproxima-se do final, do momento que tudo ficará assente.

Mas, com a mesma impiedade com que noite avança sobre o dia, encurralando-o, com a mesma inevitabilidade com que lhe apaga a chama de encontro às águas frias do horizonte, um temor súbito apodera-se do artesão.

Do barro, surge a dúvida.

A besta prende-lhe as articulações com a força de uma artrose, rasga-lhe as artérias por onde a vontade aflui aos dedos, substitui-lhe a vontade criativa pelo desejo de abortar.

Agora, temendo, tremendo, a pena deambula erraticamente ao longo da última página do pergaminho. Hesita, tropeça, e esbarra no muro da indecisão. E o ancião, pela primeira vez em dias, recolhe-se na reflexão e reúne pensamentos. A brisa já não o carrega. A costa está à vista, mas a barcaça impetuosa rasgou as velas. Triste, deixa-se levar pela corrente.

Extenuado, ponderando o rumo a dar ao manuscrito, o criador deita-se sobre os lençóis. É o sétimo dia. Hoje, descansará. Permanecerá assim imóvel, na quietude do leito, esperando por um regresso que se fará jamais presente.



---------------------- Versão alternativa ---------------------------

O artesão não acordou hoje de manhã. Nem na manhã de ontem. Trabalha em contínuo há várias luas.

Na sua mão, a pena, o bico suave amolecido pelo uso delicado e regular, viaja laboriosamente através do papel, erguendo rotas de tinta entre nações que são ideias.

Sem pressa, todavia pleno de intuito, não toma intervalos. Transcreve, letra após letra, a essência da inspiração na mesma cadência com que esta surge à face do pensamento. Fluentes e precisas, as palavras trotam para o papel ordeiramente. Formam montinhos de areia no meio de um oceano de brancura. Expandem, elevam-se, tornam-se ilhas, nascem países e continentes. Nos gestos redondos do artesão ancestral, navegador petulante do inexplorado, a palavra vai privando a água de uma parte da sua alvura.

Há muito tempo que não escreve de forma tão exacta, que não sente a pena verter com tanta certeza. Entusiasmado, quase embevecido, consciencializa-se da importância vital de cada pequena parcela, de cada detalhe ínfimo, do seu papel no rigoroso firmamento universal. Mas também da necessidade de harmonia como objectivo último.

Tudo faz sentido, tudo encaixa, e a obra vai crescendo, admirável mundo novo. Aproxima-se do final, do momento que tudo ficará assente.

Mas, com a mesma impiedade com que noite avança sobre o dia, encurralando-o de encontro ao fio do horizonte, com a mesma inevitabilidade com que lhe afoga o brilho, um temor súbito apodera-se do artesão.

Por entre os fios de tinta, surde uma dúvida.

A besta prende-lhe as articulações com a força de uma artrose, rasga-lhe as artérias por onde a vontade aflui ao táctil dos dedos, substitui-lhe a vontade criativa pelo desejo de abortar.

Agora, temendo, tremendo, a pena deambula erraticamente ao longo da última página do pergaminho. Hesita, tropeça, e esbarra no muro da indecisão. E o ancião, pela primeira vez em dias, recolhe-se na reflexão e reúne pensamentos. A brisa já não o carrega. A costa está à vista, mas a barcaça impetuosa rasgou as velas e deixa-se então levar pela corrente.

Extenuado, ponderando o rumo a dar ao manuscrito, o criador deita-se sobre os lençóis. É o sétimo dia. Hoje, descansará. Permanecerá assim imóvel, na quietude do leito, nas amarras do tempo, esperando por um regresso que se fará jamais presente.

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--------------- 3ª Versão ------------------------

Na mão do artesão, a pena, o bico suave amolecido pelo uso delicado e regular, viaja laboriosamente através do papel, erguendo rotas de tinta entre nações que são ideias.

Sem pressa, todavia pleno de intuito, o ancião lavra em contínuo. Transcreve, letra a letra, a essência da inspiração na mesma cadência com que esta surge à face do seu pensamento. Fluentes e precisas, as palavras manam para o papel ordeiramente. Formam montes de areia no meio do oceano de brancura. Expandem, elevam-se, tornam-se ilhas, e daí nascem países e continentes. Nos gestos redondos do ancestral navegador, a palavra vai privando a água de uma parte da sua alvura.

Há muito tempo que não escreve de forma tão exacta, que não sente a pena verter com tanta certeza. Entusiasmado, quase embevecido, consciencializa-se da importância vital de cada pequena parcela, de cada detalhe ínfimo, dos seus papeis no rigoroso firmamento universal.... E também da necessidade de harmonia como objectivo último.

Tudo faz sentido, tudo encaixa, e a obra vai crescendo, admirável mundo novo. Aproxima-se do final, do momento que tudo ficará assente.

Mas, com a mesma impiedade com que noite avança sobre o dia, encurralando-o de encontro ao fio do horizonte, com a mesma inevitabilidade com que lhe afoga o brilho, um temor súbito apodera-se do artesão.

Uma dúvida surde por entre os fios do tear.

A besta prende-lhe as articulações com a força de uma artrose, rasga-lhe as artérias por onde a vontade aflui ao táctil dos dedos, substitui-lhe a vontade criativa pelo desejo de abortar.

Agora, temendo, tremendo, a pena deambula erraticamente ao longo da última página do pergaminho. Hesita, tropeça, e esbarra no muro da indecisão. E o ancião, pela primeira vez em dias, recolhe-se na reflexão e reúne pensamentos. A brisa já não o carrega. A costa está à vista, mas a barcaça impetuosa rasgou as velas e deixa-se levar pela corrente.

Extenuado, ponderando o rumo a dar ao manuscrito, o criador deita-se sobre os lençóis. É o sétimo dia. Hoje, descansará. Permanecerá assim imóvel, na quietude do leito, nas amarras do tempo, esperando por um regresso que se fará jamais presente.

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Re: Far-se-á jamais presente

Postby Samwise » 16 Jan 2007 16:26

A segunda versão vai estar ---- em construção ---- até final do mês.
É suposto melhorar em relação à primeira (era suposto já estar até ligeiramente melhor :tongue:).

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Re: Far-se-á jamais presente

Postby Lord Wimsey » 16 Jan 2007 21:45

Não li a 2ª versão mas 'devo dizer' que invejo esta tua pena que "ergue rotas de tinta entre nações que são ideias" (adulterado)
gostei da descrição do artesão que acaba por ser uma auto-descriçao de quem o desceve (era essa a ideia?)

Lembra-me aquelas imagens televisivas de um homem que tem uma televisão ao lado na qual se vê ele e a televisão que está ao lado. Onde, por sua vez, se vê o homem e a televisão que está ao lado, onde se vê o homem e a televisão que está ao lado sempre em tamanho decrescente, etc, etc, até ao limite imposto pelo tamanho diminuto do ecran ou a imprecisão visual.

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Re: Far-se-á jamais presente

Postby Samwise » 17 Jan 2007 11:24

Lord Wimsey wrote:acaba por ser uma auto-descriçao de quem o desceve (era essa a ideia?)


Errr.... Não era essa a ideia, embora sim, haja algo de quem escreve o texto no próprio texto. Era algo... completamente diferente. Algo mais bíblico, para ser exacto. Há alguns indícios no texto que apontam directamente para o Génesis.


Lembra-me aquelas imagens televisivas de um homem que tem uma televisão ao lado na qual se vê ele e a televisão que está ao lado. Onde, por sua vez, se vê o homem e a televisão que está ao lado, onde se vê o homem e a televisão que está ao lado sempre em tamanho decrescente, etc, etc, até ao limite imposto pelo tamanho diminuto do ecran ou a imprecisão visual.

Gosto muito de ler/ver esse tipo de construções, mas não o fiz no texto. Pelo menos não de forma consciente. Há um pequeno texto muito curioso que aplica essa fórmula no Hyperdrivezine, nº2 , a defunta publicação do colega Thanatos.

Ver o conto: "Bonecas Russas": http://efanzines.com/Hyperdrivezine/index.htm

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Re: Far-se-á jamais presente

Postby Lord Wimsey » 17 Jan 2007 22:54

Errr.... Não era essa a ideia, embora sim, haja algo de quem escreve o texto no próprio texto. Era algo... completamente diferente. Algo mais bíblico, para ser exacto. Há alguns indícios no texto que apontam directamente para o Génesis.


Claro que sim, percebi isso pelo menos na referência ao barro e ao descanso do 7º dia.

Estava só a cagar uma posta de pescada pseudo-original :laugh:



'E viu que era bom'.

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Re: Far-se-á jamais presente

Postby Samwise » 18 Jan 2007 11:49

Lord Wimsey wrote:Claro que sim, percebi isso pelo menos na referência ao barro e ao descanso do 7º dia.


Uff... por momentos pensei que não estava a ser explícito o suficiente. Em contrapartida, antes do teu post pensava que estava a ser explícito demais (a agora resumi essa linha de pensamento).

'E viu que era bom'.


LOL... essa parte é que não ficou bem assim...

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Re: Far-se-á jamais presente

Postby Lord Wimsey » 18 Jan 2007 21:29

Maneira infantil e óbvia que encontrei de dizer: Hey, já li o Génesis. xD


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