A Artista

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Samwise
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A Artista

Postby Samwise » 23 Feb 2007 17:06

A Artista

Texto original:

A Teresa não está para meias medidas, isto de meia família não é família de todo, e se o grandessíssimo filho-daquela não quer ser da família, então também não quero ser eu. Vai à clínica, a Teresa, vai aspirar a semente que o João se divertiu a plantar, vai raspar a terra que leva no útero, mas não vai só para isso, que a vida custa a ganhar. Tem um plano na ideia. Está disposta a pagar mais, a Teresa, é um investimento, diz o que pretende à enfermeira do balcão e passa-lhe um envelope para as mãos, o envelope tem notas, "Quer ou não quer?", e se ela não quiser, paciência, adeus, pode ser que noutro sítio.

Mexe as pernas, ó João, corre a esconder-te, larga a fugir enquanto é tempo, que se calha Deus estar a espreitar lá de cima da varanda, é tão certo fulminar-te como dois mais dois serem quatro.

"Grávida? Como assim, grávida?"
É da boca do João que sai esta voz. Fala no presente, é assim que a Teresa o ouve na sua cabeça. Fala no passado, que foi nesse passado que as palavras se disseram, num passado que foi presente há seis meses, em casa dela, sentados no sofá, uma dúzia de rosas frescas na jarra sobre a mesa, rosas brancas, rosas de esperança.
A Teresa está subitamente nervosa. Olha para o João e o que vê não é euforia, não é alegria. O que vê são riscas na testa do João, são lábios descaídos, são olhos assustados.
"Não... não estás contente?"
"Eu é que sou o pai?"
Está ferida, a Teresa, é pássaro com chumbo na asa, se é ele o pai, "Pois quem havia de ser? Por quem me tomas?", os olhos pesam-lhe nas órbitas, deve ser do sal que se anuncia, e ele nada, nem sal, nem água, nem sim, nem sopas.
"Mas...como?"
João abana a cabeça, para um lado, para o outro, não entende, não quer entender, prefere por enquanto questionar, pode ser que seja um mal entendido.
"Tens a certeza, Teresa?"
A Teresa, o pássaro no chão à espera do cão, coitada, chora, soluça, não sabe o que dizer, não sabe como tornar em felicidade aquele aperto que lhe vai na alma, e é por isso que pega nas mãos frias do João, que as acolhe no calor das suas, que as afaga, que lhes tenta insuflar razão à custa de afectos.
"Eu julgava que querias, João... julgava que... que...", e não sai mais nada. Não há palavras que sustentem a dor, que aparem argumentos, que alterem a realidade às tiras na testa do João.
O João levanta-se e olha para o tecto. Liberta-se a si e às mãos dos afectos da Teresa. Coça a cabeça e olha para o tecto. Não vê o branco no tecto, não vê as brechas que estalaram por baixo da tinta, o que vê é o escuro do tecto de uma cela, uma cela sem porta nem janela, um miúdo a berrar por alimento.
"Vou-me..."
É assim, o João. Sempre foi. Não é capaz de dissimular o que sente, não é capaz de fingir para agradar. Não davas para jogador de poker, ó João. És recto. Tão recto como a recta que percorres agora em direcção à porta da rua.
"Adeus, Teresa. Até outro dia."
A Teresa é forte. Sai atrás dele e chama-lhe nomes. "És isto para aqui e és isto para ali, és um grandessíssimo filho-desta e vai para além, e vai para acolá...". Grita alto para o prédio ouvir, atira-lhe com palavra tão pesadas que se fossem de ferro esmagavam o João de vergonha, palavras que semanas volvidas serão ainda razão de discussão no café da esquina: "À menina Teresa saltou-lhe a tampa," diz o Alberto, enquanto serve um galão ao Sr. António, "Também, depois do que o outro lhe fez...," responde a D. Firmina, ela que percebe da vida, ela que carrega oitenta e sete anos no corpo.

A rapariga que aqui vêem ajoelhada à sanita chama-se Teresa Gouveia, é artista plástica e ganha sustento a vender quadros e estátuas. O cubículo da casa-de-banho onde se encontra prostrada situa-se num recanto da Galeria Comercial Ópus, local onde hoje abre ao público uma exposição - "Traços de Sangue" - exibindo os mais recentes trabalhos da Teresa.
Acabou de expelir as lulas à sevilhana e o arroz que ingeriu ao almoço, a Teresa, e espera agora que os espasmos na barriga diminuam de intensidade, por forma a regressar ao convívio dos visitantes - é que é dia de estreia na galeria, sabem, e não fica nada bem faltar aos convidados.
O problema da Teresa foi o julgar que tinha estômago suficiente para aguentar a pancada. Como daqui bem podemos observar, enganou-se a bem enganar. É o problema de muita gente, julgam-se rijos como o betão, e vai-se a ver e a mistura tem mais de água que de areia.
A Teresa afasta com a mão um fio de baba que lhe pende da boca. Agarra-se às bordas da retrete, levanta-se a custo. O rosto ferve de sangue, o sangue que se acumulou enquanto esteve dobrada, tem a garganta áspera, o estômago sabe-lhe a papel mata-borrão, a vista vê desfocada. E tresanda a mijo, ali dentro.
"Puta de vida!...Se ao menos o João...", a frase fina-se pela metade. As recordações dão cabo da cabeça à Teresa, parecem martelos sobre azulejo, e a rapariga, levantada do chão nem há três segundos, torna agora a baixar-se, ao que parece sobejaram dois ou três bagos de arroz.
Foi quando olhou uma última vez para o quadro que o sorriso se lhe desvaneceu. Foi ao fixar-se no meio das pernas brancas daquela mulher de rosto agastado - uma mulher que não é senão um auto-retrato -, foi ao ver-lhe o sexo exposto, o sexo adulterado, que a Teresa se enojou. Aqueles relevos vermelhos e negros a formarem contornos púbicos incertos, aquela mistura seca de água, pastel e entranhas... o seu filho ali no meio, à venda para quem der mais.


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Proposta de alteração - texto revisto e emendado:


Para a Teresa, meia família é igual a família nenhuma, e se o João não quer pertencer a esta família, então também ela o não quer. Vai à clínica, a Teresa, vai aspirar a semente que o João se divertiu a plantar, vai raspar a lama que leva no útero, mas não vai só a isso, que a vida custa a ganhar; tem um plano em vista, a Teresa, diz que é um investimento. Sussurra o que pretende à enfermeira do balcão e passa-lhe um envelope para as mãos, um envelope cheio de notas, "Quer ou não quer?", e se ela não quiser, paciência, adeus, pode ser que noutro sítio. Arrecadado o envelope, “Sente-se e aguarde, minha senhora.”

"Grávida? Como assim, grávida?"
É a boca do João, esta de onde sai a voz. Fala no presente, o João, e é assim que a Teresa o ouve na sua mente; fala no passado, nesse passado em que as palavras foram ditas, nesse passado que foi presente há seis meses, em casa dela, os dois sentados no sofá, e em frente a eles, sobre a mesa, numa jarra de cristal, uma dúzia de rosas brancas, frescas, rosas compradas pela Teresa.
A Teresa está subitamente nervosa. Olha para o João e o que vê não é a euforia que esperava, nem sequer vê alegria. O que vê tristemente são riscas na testa do João, são lábios descaídos, são dois olhos assustados.
"Não... não estás contente?"
"Eu é que sou o pai?"
Está ferida, a Teresa, o pássaro leva chumbo na asa, se é ele o pai, "Pois quem havia de ser? Por quem me tomas?", os olhos pesam-lhe nas órbitas, ardem, deve ser do sal que se anuncia. Dele, nenhuma reacção.
"Mas...como?"
Agora sim, esboça um movimento; o João abana a cabeça, para um lado e para o outro, não entende, não quer entender, prefere por enquanto questionar, pode ser que seja um mal entendido.
"Tens a certeza, Teresa?"
A Teresa, o pássaro jaze no chão à espera do cão, coitada, chora, soluça, não sabe o que dizer, não sabe como se aliviar do aperto que lhe vai na alma, da pontada que sente no corpo, e é por isso que pega nas mãos frias do João, que as acolhe no calor das suas, que as afaga, que as agarra - com força, para não perder o norte.
"Eu julgava que querias, João... julgava que... que...". Não sai mais nada. Não há palavras que sustentem a dor, que amparem argumentos, que alterem a realidade às tiras na testa do João.
O João levanta-se e olha para o tecto. Liberta-se a si e às mãos dos afectos da Teresa. Coça a cabeça e olha para o tecto. Não vê o branco no tecto, não vê as brechas que estalaram por baixo da tinta, tudo o que vê é o escuro do tecto de uma cela.
"Vou-me..."
É assim, o João. Sempre foi. Não é capaz de dissimular o que sente, não é capaz de fingir para agradar. Não davas para jogador de poker, ó João. És recto. Tão recto como a recta que percorres agora em direcção à porta da rua.
"Adeus, Teresa. Até outro dia."
A Teresa é forte. Sai atrás dele e chama-lhe nomes. "És um isto, és um aquilo, és um filho-desta, vai para aqui, vai para ali, e não voltes cá...". Grita alto para o prédio todo a ouvir, atira-lhe com palavra tão pesadas que se fossem de ferro morreria o João de vergonha, palavras que semanas volvidas ainda serão motivo de discussão no café da esquina: "À menina Teresa saltou-lhe a tampa," dirá o Alberto, enquanto serve um galão ao Sr. António, "Também, depois do c’o moço lhe fez...," responde a D. Firmina, ela que percebe da vida, ela que carrega oitenta e sete anos no corpo.

A rapariga que aqui vemos ajoelhada à sanita chama-se Teresa Gouveia, é artista plástica, e ganha sustento a vender quadros e estátuas. O cubículo da casa de banho onde se encontra prostrada situa-se num recanto da Galeria Comercial Ópus, local onde hoje abre ao público uma exposição - "Traços de Sangue" - exibindo os seus mais recentes trabalhos.
Acabou de expelir as lulas à sevilhana e o arroz que ingeriu ao almoço, a Teresa, e espera agora que os espasmos na barriga diminuam de intensidade por forma a regressar ao convívio dos visitantes - é que em dia de estreia não fica nada bem faltar aos convidados.
O problema da Teresa foi pensar que tinha estômago suficiente para aguentar a pancada. Como daqui bem podemos observar, enganou-se a bem enganar. É o problema de muita gente, julga-se rija comó betão, e vai-se a ver e a mistura tem mais de água que de areia.
A Teresa afasta com a mão um fio de baba que lhe escorre da boca, agarra-se às bordas da retrete e levanta-se a custo. O rosto ferve-lhe de sangue, do sangue que se acumulou enquanto esteve dobrada; tem a garganta áspera, o estômago sabe-lhe a trapos velhos, a azedo, e a vista vê desfocada.
"Se ao menos o João...", a frase fina-se pela metade. As recordações dão cabo da cabeça à Teresa, parecem martelos sobre azulejo, e a rapariga, levantada do chão nem há três segundos, torna agora a baixar-se, ao que parece o arroz ainda não saiu tudo.
Foi quando olhou uma última vez para o quadro que o sorriso se lhe desvaneceu. Foi ao fixar-se no meio das pernas nuas daquela mulher de rosto amargurado, daquela mulher deitada no quadro que por cima diz “Eu – óleo sobre tela – 100x200”, foi ao ver-lhe o sexo exposto, o sexo adulterado, que a Teresa se enojou.
No quadro, relevos vermelhos e negros formam contornos púbicos difusos, e as cores apresentam-se nele mais vivas e naturais do que no resto dos trabalhos expostos – é da mistura das tintas, dirão os entendidos, que aquilo não é só óleo que ali vai.
De hoje a uma semana surgirá um artigo prestigiante num jornal de referência. Falará por alto da exposição, e falará, em particular, daquele quadro inquietante. E não daqui a meia hora, um pequeno cartaz dizendo “Reservado” será colocado a tapar o preço de venda.


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Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

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Re: A Artista

Postby Lord Wimsey » 03 Apr 2007 23:14

Confesso que não consegui ler a nova versão, mas a 1ª basta para ver que se isto não é literatura madura - um estilo que flui límpido e rápido - não imagino uma que o seja. Até se pode dar o caso, talvez se dê mesmo, de este texto ser apenas uma experiência, o que obviamente não contradiz, realça antes, um talento incrível, uma versatilidade que não encontra par neste fórum (bem sei que é pouco, não se passeiam por estas bandas grandes penas, é facto). Parabéns, não por este pedaço de génio, pelos vários pedaços de génio teus que fui lendo e cuja particularidade comum é a qualidade.

(Estou curioso em ver uma tua entrada no campo da poesia, não? :wink: )

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Re: A Artista

Postby Samwise » 05 Apr 2007 09:25

O que faço eu com palavras destas (logo agora que decidi parar de escrever)??? Agradeço-as com vénias pelo meio, é o que m'apatece.

Trata-se de facto de uma experiência - com a curiosidade de ser composta por parágrafos independentes, que podem trocar de ordem a seu bel prazer, uma vez que nem sequer nessa ordem foram escritos (na segunda versão a coisa foi aprimorada, tendo por fim de eliminar o "parágrafo desmancha prazeres" - aquele do "Mexe as pernas (...)").

Pedaço de génio? Desculpa, mas essa é a parte com a qual não me identifico. (nem o meu génio tenho, pois, a declarar, só de for o mau génio, mas esse é melhor deixá-lo cá dentro...)

Quanto a poesia, e para não utilizar a palavra nunca (ooops, acho que acabei mesmo por o fazer), o que posso dizer é que tão depressa dessa água não sorverei. Estão para aí uns versos postados que de tão maus que são me fazem pensar naquele smilie a deitar esparregado pela boca - coisas que agora me envergonham.

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