Essa chama que arde onde o amor não alcança

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Samwise
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Essa chama que arde onde o amor não alcança

Postby Samwise » 23 Mar 2007 12:34

Vejo o teu rosto nas palavras que me diriges, próximo, estranho, as pequenas marcas irregulares por sobre uma pele tratada a cremes de limpeza, incomodativa a mim que não me pertence, assim ao perto, o maxilar de baixo mais saliente que o normal, os dentes, brancos no passado, rebrilhando amarelados de saliva, torturados que foram ao de leve pelo tempo e pela nicotina de Marlboros, os lábios grossos fortemente gretados de húmida secura, carnudos como pétalas redondas de orquídea, dobrando para mim veludos molhados de veneno tropical, e imagino-me sorvendo deles, recolhendo em minha boca o líquido amolecido dessa morna volúpia.

Este telemóvel que estamos ouvindo tocar em minha imaginação é o teu; é tua mãe que te liga chorando, vem informar-te do acidente, o teu irmão não tornará a casa, está no hospital, aguarda médico que lhe passe certidão, que a morte, essa, já não a tem de aguardar.

É nessa dor insuportável que teu corpo está vergando, nessas lágrimas que escorrem de teus olhos e vão caindo desamparadas, inúteis, sobre a alva campa de teu irmão, é nessa merda liquefeita em que tuas entranhas se desfizeram, é nessa dor que não me atinge, sentado aqui mesmo à tua frente, as pernas tocando as tuas, e a não sinto, é nessa régua traçada a metros feitos quilómetros que meço a extensão do meu egoísmo: eu triunfante, inchado de ego e de carne; aqui tens este corpo para te abraçar, para te suportar de modo a que não tropeces ao caminhar em cima de pernas frágeis como caules de malmequer; aqui tens este ombro para que possas esconder tuas magoadas faces da vergonha de quem olha, para onde possas lançar esse bafo rouco de putrefactos odores e pegajosas salivas que deslizam em viscosas pontes entre dentes; aqui tens este órgão erecto, de ti sedento, para que, meu corpo dentro do teu, tua mente possas distrair de tão pesado sofrimento.

Talvez que essa tua figura tão amarrotada de angústia, invólucro amolecido e por momentos desmerecedor da alma que sustenta, aceite agora sôfrega a carne que entre as pernas me cresce sempre que nua te vejo não te tendo visto nunca, esta carne enrijecida à força de prenhas nervuras sanguíneas que me disponho a fornecer-te sem contrapartidas sentimentais, tal como a casa de abate fornece de carcaças o talho onde a arca congeladora vazia aguarda.

E se é apenas este desejo de corpo sobre corpo, um abrindo-se para que outro o penetre, que me lança cuspo na língua - o amor, esse que me cansei de aguardar, não chegou a florescer em mim, e tampouco traços dele vejo em teus olhos -, se tanto se me dá seres tu como ser outra e só és tu porque aqui estás à minha frente e todos os dias contigo converso no autocarro maneiras que te avalio como a mais provável das hipóteses, se é a tua imagem que distante consigo ainda fixar sem perder o contorno às ancas, o perfil macio às coxas, essa curva saliente descendo de tua nuca, então em ti me torno cliente da prostituta que não és, em prostituta te torno do cliente que não sou, disposto a deixar à cabeça o maço de notas sobre estante nesse quarto de cama em que nos lençóis nos deitamos para o coito.

Aqui termina o mar e a terra se inicia, disse-o o poeta, repetiu-o o prosador, Aqui termina a alma e o corpo se inicia, poderíamos nós acrescentar, nestas mãos que percorrem tua pele tentando saciar-te, saciar-se, nestes dedos que se te enterram na carne, na boca, nestes lábios que teu cheiro, teu hálito, não cessam de sorver. Não é quarto de hotel ou pensão, este em que por diferentes necessidades nos entregamos um ao outro; nas prateleiras distingo sinais de tua infância, ecos distantes de uma vivência em que teu irmão estaria quem sabe presente. Desculpa-me se faço uso do teu corpo neste momento de aflição. Quem o diz? Sou eu? És tu? Vejo-me reflectido em teu olhar, esse que estranhamente ausente, à medida que vamos ligando nossas carnes; o teu rosto permanece impassível, fixo no tecto do quarto, apenas teus lábios se arreganham de vez em quando e um gemido se solta, estou dentro de ti, também o está teu irmão, é nele que pensas enquanto me sentes, enquanto me vou afogando e ao desejo em ti.

Eis-te chegada à paragem de saída, levantas-te, eu sentado quieto, meus lábios secos olham para ti, seguem extasiados os volumes salientes na tua blusa, suculentos gémeos que por momentos se aproximam a uma distância quase palpável, quase alcançável à minha língua, e murmuram então um obrigado que de tão sumido não ouves.

Até amanhã.



Sam
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Re: Essa chama que arde onde o amor não alcança

Postby elsefire » 25 Mar 2007 21:52

raramente gosto de ler algo assim do género, mas deste gostei e digo-te com a mais completa sinceridade, muito. Fez-me passar por diferentes hipóteses de como terminaria, levou-me a elas pela mão e no fim surpreendeu-me.

Parabéns está muito bem escrito.

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Re: Essa chama que arde onde o amor não alcança

Postby Thanatos » 26 Mar 2007 12:55

Estou sem palavras. Aqui tens um texto forte em vários sentidos. Numa linguagem crua, nua e dura. Nos sentimentos/emoções, no desenhar do perfil duma personagem em que nos podemos conhecer. Enfim, um texto bem elegante e muito interessante.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: Essa chama que arde onde o amor não alcança

Postby Samwise » 29 Mar 2007 10:00

Agradeço os comentários abonatórios, representam muito para mim - mais a mais tendo em conta as pessoas que os escreveram.

O texto é talvez a coisa mais importante (ou se calhar a única de importância) que escrevi até hoje, não pela razão mais óbvia (que seria a de representar a minha realidade - que não representa, de facto), mas porque pela primeira vez desde que escrevo, e antes de iniciar o trabalho, tive a perfeita noção daquilo que pretendia atingir no final.
Não foi fruto do acaso ou de inspiração repentina, e a confirmá-lo devo dizer que a primeira versão (que não estava má, a meu ver) foi apagada ao verificar não estar tão forte/agressiva como pretendia que estivesse. Apaguei-a sem olhar para trás, comecei do zero, e deu nisto.
Foi também o primeiro texto que escrevi depois de ter prometido a mim mesmo que nunca mais me dedicava a escrevinhar pequenos textos (ou outros que fossem)... desta vez, ainda bem que quebrei uma promessa.

Obrigado.

- EDIT - Já agora, esqueci-me de mencionar, a ideia principal deste texto parte de uma "pequena" subversão à realidade das coisas: é normal (acho eu) criármos fantasias que têm a ver com a existência da dor noutra pessoa quando amamos essa pessoa - é o egoísmo de querer que algo a magoe de modo a que a possamos reconfortar, é um modo de imagirnarmos uma aproximação. Agora tomemos o caso de não haver amor e haver apenas interesse sexual... (e qual destas duas é a forma mais grotesca de desejo???).

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Re: Essa chama que arde onde o amor não alcança

Postby Pedro Farinha » 08 Oct 2009 19:24

Nem sei bem porquê :whistling: fui procurar textos teus antigos e levei com este na cara. Tão forte como uma chapada dada por um camionista TIR. Nunca o tinha lido e pela data deve ter correspondido a um período em que estive num retiro espiritual e fora do BBdE :wink:

Mas é muito bom MESMO MESMO para usarmos as palavras e a métrica da nossa amiga.

Aliás já te devo ter dito isto umas tantas vezes, mas mais uma não faz mal, que podes não ser a pessoa que melhor escreves por aqui (aliás varia muito porque ninguém mantém muito o mesmo nível) mas és de certeza o que melhor cria o esqueleto que sustenta a história. Infelizmente, por um lado, desde há muito tempo, mais de fantasia que fantasista.

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Re: Essa chama que arde onde o amor não alcança

Postby pco69 » 08 Oct 2009 19:33

:notworthy:
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: Essa chama que arde onde o amor não alcança

Postby Samwise » 08 Oct 2009 22:37

Tempos que já lá vão...

Obrigado pelo comentário, Pedro, e pelo boneco, Pco.

Acho que se tentasse escrever coisa semelhante, agora, não conseguia. Desabituei-me um pouco de escrever.
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