Cemitério

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Samwise
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Cemitério

Postby Samwise » 10 May 2007 11:29

Cemitério

A imagem é esta: o homem aproximando-se ao longe, desfocado como que por uma lente fixa num objecto menos distante. O halo de transpiração em redor da figura vai ganhando nitidez, fundindo-se ao centro, à medida que ele mais perto, a cada metro reduzido. Caminha todos os dias até mim

(estou no meio do nada, sentado na terra, alguns tufos de relva despontam aleatórios, um joelho dobrado onde abraço e descanso as costas redondas, uma perna esticada de bota na ponta, o cabelo largado ao vento, sentindo-se que existe um quando sopra o outro)

no seu fato formal de gato-pingado que cheira a naftalina e a traças de roupeiro, calças cinzentas escuras, jaqueta preta em cima de colete em cima de camisa que só distingo na brancura do colarinho, sapatos escuros, enlameados, confortáveis como que ténis, e a enxada movendo-se com as ancas, assente no vale do ombro, segura pela dobra do pulso da mão que nos dedos prende um cigarro. O fumo perde-se de vista logo que lhe sai da boca. Árvores de cemitério, frondosas e esguias, frias como o vento que entre elas passa, alinham-se numa postura militar severa dos dois lados da estrada. Bolotas espalhadas no chão. Dão-nos vontade de as pontapear, de as mandar para longe junto com as recordações obsoletas. E por detrás, um imenso mar de lajes brancas sujas de fungos e de inscrições que nunca chegarão a seu destino - não há correio que faça o serviço. Alguns véus negros debruçam-se sobre o passado, colocam flores, limpam as ervas daninhas dos lençóis de pedra, falam com os mortos que ainda vivem dentro de si.

O coveiro chegou. Atira o cigarro fora depois de uma última e mais sofrega inspiração e pisa-lhe o arder.

Mostro-lhe a flor que arranquei há uns meses da terra. Ele assente com a cabeça um entendimento vago de veneração pela dor - faz isso todos os dias, comigo, com outros desgraçados, leva treino e experiência -, o olhar revela uma empatia presa no anzol da profissão. Retira a enxada do ombro, o casaco de cima, arregaça as mangas, cospe para a mão, esfrega-a na outra, e afasta as pernas enquanto aguarda o meu sinal. Deito-me então no chão húmido à sua frente, desabotoo da camisa, e com o dedo aponto no peito o local exacto - como se ele o não soubesse do hábito diário, como se a cicatriz não o revelasse mesmo que ele o não soubesse. Um golpe profundo, terra que se retira, uma pétala que se solta. Sobram poucas. Seguro o meu amor nos lábios, pelo caule, enquanto me vou levantando novamente, a seiva sabe a ácido de bateria, a memória sabe a fel. Há muito que o sangue não brota da ferida. Vai secando como toalha muda pendurada na corda trágica do tempo.

Desfocando-se...


Sam
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Re: Cemitério

Postby Aignes » 13 May 2007 23:50

Samwise wrote:no seu fato formal de gato-pingado que cheira a naftalina e a traças de roupeiro, calças cinzentas escuras, jaqueta preta em cima de colete em cima de camisa que só distingo na brancura do colarinho, sapatos escuros, enlameados, confortáveis como que ténis, e a enxada movendo-se com as ancas, assente no vale do ombro, segura pela dobra do pulso da mão que nos dedos prende um cigarro. O fumo perde-se de vista logo que lhe sai da boca. Árvores de cemitério, frondosas e esguias, frias como o vento que entre elas passa, alinham-se numa postura militar severa dos dois lados da estrada. Bolotas espalhadas no chão. Dão-nos vontade de as pontapear, de as mandar para longe junto com as recordações obsoletas. E por detrás, um imenso mar de lajes brancas sujas de fungos e de inscrições que nunca chegarão a seu destino - não há correio que faça o serviço. Alguns véus negros debruçam-se sobre o passado, colocam flores, limpam as ervas daninhas dos lençóis de pedra, falam com os mortos que ainda vivem dentro de si.


Que imagem tão intensa...fica gravada enquanto lemos, a 'enxada segura pela dobra do pulso da mão que nos dedos prende um cigarro'.

Mais uma pequena prosa que adorei :wink:
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Re: Cemitério

Postby Samwise » 14 May 2007 13:09

Obrigado, Aignes.

Já estive a cuscar o teu blog, e também gostei muito do que li (li tudo... lol).

Sam
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Re: Cemitério

Postby Venom » 15 May 2007 13:50

Ainda não tinha comentado o texto, apesar de já o ter lido. Li-o duas vezes, gostei da imagem que apresentas, mas curiosamente não a compreendo :dry: . Talvez tenha de reler.
no sci-fi masterpiece depicts an AI that, upon coming online and searching its database in an effort to better understand mankind, responds by shouting, “You guys are awesome! We should get nachos!

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Re: Cemitério

Postby Samwise » 15 May 2007 15:20

Venom, acabaste por me alertar para uma coisa mais que óbvia (e que eu não estava ao corrente): às vezes escrevemos coisas de significado tão pessoal que acabamos por não perceber que podem não ser facilmente interpretadas pelos leitores... :sad:

Talvez isto te ajude a compreender melhor a enorme metáfora que começa com "A imagem é esta": o texto trata do lento, inexorável, e desgastante efeito do tempo sobre do sentimento do amor; os pedacitos de felicidade que vão desaparecendo sem que nada possamos fazer, alguns até mesmo debaixo do nosso nariz, com o nosso consentimento, até que um dia já não resta mesmo nada. É o ver a vida a sumir-se por entre os dedos.

Associação ao cemitério pelo sentimento de perda, associação ao coveiro pela dor que a cada dia é maior/menor...

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Re: Cemitério

Postby Venom » 15 May 2007 17:26

Vistas as coisas dessa maneira já consigo perceber melhor o texto. Diga-se,também, que não sou o melhor dos interpretadores.
no sci-fi masterpiece depicts an AI that, upon coming online and searching its database in an effort to better understand mankind, responds by shouting, “You guys are awesome! We should get nachos!

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Re: Cemitério

Postby Aignes » 15 May 2007 22:40

Obrigada, Sam. :smile:

E depois dessa explicação tenho de ler o texto outra vez...eu li algo completamente diferente. Se bem que isso não seja necessariamente mau, cada um conseguir ler diferentes coisas é até fascinante.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»


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