Mais um número na carteira

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Samwise
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Mais um número na carteira

Postby Samwise » 21 May 2007 16:50

Mais um número na carteira

"Who cares about an ID number?" - MarlonBrandy


Mais um número na carteira. Seria assim que o definiria se me perguntassem o que significa para mim; um número para juntar a outros, que na verdade surgiram na minha vida depois dele, e que também passam os dias na escuridão do bolso do casaco, asfixiados e prensados pelo cheiro de couro de animal morto e de notas nauseabundas. Um número. Um código. Uma impessoalidade tornada intima à força da obrigatoriedade burocrática estatal e da quantidade de vezes que temos de repetir em voz alta os algarismos ao longo da nossa participação cívica na comunidade. Um simples 10621918 - um zero seis dois um nove um oito - o número sequencial que foi impresso no bilhete de identidade no dia em que os senhores dos serviços deram seguimento ao meu processo de cidadania. Era tão novo que só me lembro dos borrões de tinta-da-china que tinham de ser esfregados dos dedos com um toalhete húmido e da claridade difusa e amarelada que emanava não sei bem de onde, lá do alto de um tecto alto. Sei que tirei o retrato numa Fotomatom, e que a minha mão me alinhou a risca com o pente antes de me fazer sentar quieto no banco giratório da máquina; sei que foi assim mas já não me lembro de nada disso...

Cento e seis, duzentos e dezanove, dezoito. Dividir para conquistar. Não parece tão impessoal dito desta maneira; já não são simples algarismos, são associações que tornam barras de código em sons agradáveis, quase tão simpáticos como sorrisos nos rostos de mulheres bonitas; são sobretudo mais informais de transmitir a terceiros, mesmo pelo telefone, mesmo que por vezes obriguem a uma repetição de segmentos, e talvez daí o tratamento mais pessoal, "Desculpe, importa-se de repetir? Pois não, minha senhora: dezoito; um, oito".

Não sei quantas vezes peguei no cartão e me perdi na contemplação dos dizeres inscritos no verso. Logo a iniciar: o número, naquela letra cursiva rigorosa e austera de impressora térmica que imagino de tamanho gigantesco, mil válvulas e alavancas, óleo seboso nas juntas, a ocupar vários andares de um edifício, debitando cartões à ordem de milhares por segundo, e os funcionários de uma certa secção a correrem atrás deles pelo ar porque se esqueceram de colocar o tabuleiro de recepção – cartões que parecem borboletas monocromáticas a esvoaçar numa sala perdida nos confins de um edifício ancestral numa história de Kafka, e só falta que os ditos funcionários os persigam com redes de grandes exploradores tropicais, calções e colete de caqui, sandálias sobre meias pelo joelho, e chapéus de palha por cima de narizes aduncos.

Quantas vezes terão sido que olhei para número, que pensei nele mesmo sem olhar?

Enquanto esperava numa qualquer fila de pessoas; enquanto aguardava sentado numa sala de espera, a ver os dígitos verdes saltarem ao som do *PLIM*Venha-o-próximo-ao-balcão-três*; enquanto tirava fotocópias do documento para entregar junto de um certificado de vida; enquanto se calhar em casa o retirava da carteira para olhar para ele por nenhuma razão específica, só porque não tinha mais nada que fazer e a solidão me obrigava a entreter a mente através dos olhos, envolvendo-me numa nuvem de empatia material onde os nomes dos meus pais soavam a ecos do passado, lendo e relendo as mesmas linhas onde também se agrupavam de forma abusadora o registo de identificação do documento, o meu estado solteiro e a minha altura.

O que acontecerá a este número quando eu morrer? Será que é atribuído a outra pessoa? Será que ficará para sempre reservado ao mim por uma questão de histórico, uma chave primária numa base de dados, impossível de se repetir, se calhar à espera de uma improvável reencarnação? - "Ó Joca, este é retornado do outro mundo, procura aí o nome no arquivo-morto."

Um número que encerra mais recordações que um baú poeirento no sótão. Um número que levo sempre comigo, junto do coração. Mais um número na carteira.



Sam
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

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Re: Mais um número na carteira

Postby Aignes » 22 May 2007 22:19

A quantidade desnecessária de tempo que eu própria já despendi a observar o BI, naquelas situações em que temos de esperar algures com o cartão na mão...por acaso, não sei o que acontece ao nosso número...fica para sempre ligado a nós? Certamente não nos substituem depois da nossa morte?
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Re: Mais um número na carteira

Postby Venom » 24 May 2007 00:08

Tenho de concordar com o Marlon Brandy. Curioso a atracção que mostras pelo documento. Nunca lhe dei muita atenção, mas sejamos sinceros, gostas de mostrar interesse pelas coisas mais triviais. Primeiro paginas deixadas propositadamente em branco, agora números de BIs. :mrgreen4nw: I wonder what comes next...
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Re: Mais um número na carteira

Postby elsefire » 06 Jun 2007 11:27

por vezes sou obrigado a ficar impressionado, com a capacidade que alguns escritores, têm de tornar a pura banalidade numa história bem sucedida. Acho que isso só acontece a quem tem de facto potencial. E eu acho que tens potencial e vejo um crescimento teu.
Parabéns.

Enquanto esperava numa qualquer fila de pessoas; enquanto aguardava sentado numa sala de espera, a ver os dígitos verdes saltarem ao som do *PLIM*Venha-o-próximo-ao-balcão-três*; enquanto tirava fotocópias do documento para entregar junto de um certificado de vida; enquanto se calhar em casa o retirava da carteira para olhar para ele por nenhuma razão específica, só porque não tinha mais nada que fazer e a solidão me obrigava a entreter a mente através dos olhos, envolvendo-me numa nuvem de empatia material onde os nomes dos meus pais soavam a ecos do passado, lendo e relendo as mesmas linhas onde também se agrupavam de forma abusadora o registo de identificação do documento, o meu estado solteiro e a minha altura.

genial.

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Re: Mais um número na carteira

Postby Samwise » 06 Jun 2007 12:26

Venom wrote:Primeiro paginas deixadas propositadamente em branco, agora números de BIs. :mrgreen4nw: I wonder what comes next...


Nem queiras saber... :whistling: (se bem que aqui o next aplica-se a um texto que só será publicado lá para Novembro - e espero que até então ainda me surja inspiração para escrever mais coisas).

elsefire wrote:por vezes sou obrigado a ficar impressionado, com a capacidade que alguns escritores, têm de tornar a pura banalidade numa história bem sucedida. Acho que isso só acontece a quem tem de facto potencial. E eu acho que tens potencial e vejo um crescimento teu.
Parabéns.


Já não é a primeira vez que um comentário teu me faz levantar o ânimo, embora continue com dificuldade em enquadrar as minhas capacidades nos elogios que lhes fazes.

Obrigado!

Quanto à banalidade - foi isso mesmo! A ideia/desafio foi pegar numa insignificância e despejar tudo o que me viesse à cabeça sobre a dita; resultou neste texto! Demorou meia hora a escrever e, da mesma maneira como saiu, assim ficou. Daí que esteja impregnado de abusos, desequilíbrios (a parte que menciona Kafka, por exemplo, não faz qualquer sentido na analogia), deambulações erráticas e tlavez alguns momentos bem conseguidos...


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Re: Mais um número na carteira

Postby Maloveci » 11 Aug 2007 23:30

Aignes wrote:...por acaso, não sei o que acontece ao nosso número...fica para sempre ligado a nós? Certamente não nos substituem depois da nossa morte?


Fica descansada que ficará para sempre ligado a nós... por uma questão legal :blush:


Samwise, como sempre as "pequenas coisas da vida" tornam-se importantes quando são analisadas mais a fundo e prova disso foi que mexeu com quem aqui fez comentários :biggrin: .
Por este tipo de palavras, contornadas por ti de maneira metafórica (que eu adoro), faz com que a vida seja diferente aos olhos de cada um de nós e por isso "todos os dias é uma conquista" como alguém me disse este ano :unsure:

Samwise, trés bien :thumbsup:
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