Canetas de Filtro

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Samwise
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Canetas de Filtro

Postby Samwise » 12 Sep 2007 01:59

Canetas de Filtro


O meu nome é Luís, tenho trinta e quarto anos, trabalho como crítico literário para um semanário de grande tiragem, e dou aulas na Faculdade de Letras três vezes por semana, na cadeira de Literatura Portuguesa Contemporânea.

Aos quatro anos pensava que canetas de feltro eram canetas de filtro. Pensava que o filtro era aquele tubo fofo que está dentro da caneta e que eu e os meus colegas de infantário passávamos por água quando a caneta já estava seca, para ver se rendia mais um ou dois riscos coloridos. Aquele tubo fofo servia para filtrar alguma coisa. Afinal o tubo fofo, o filtro, era feito de feltro. Às vezes, o filtro já estava tão seco que pintávamos o papel directamente ele.
Aos sete anos descobri que existia a palavra feltro. Que se lia filtro. A associação por imagens foi imediata: nas capas das sacolas de canetas de filtro, estava escrito canetas de feltro.

Sou uma pessoa distraída, muito de cabeça na Lua. Enquanto caminho pela rua não vejo nada do que está à minha frente, do que se passa à minha volta, vejo-sou uma sucessão encadeada de pensamentos em catadupa. Ia sendo atropelado por duas ou três vezes porque decido – o meu corpo decide - atravessar a rua onde não há passadeiras, atravessar a vida onde não há atalhos. Não sei onde ponho os pés, onde coloco a memória. Chego a dar comigo em ruas que não conheço, em vielas de memórias obscuras. Penso que o tempo e o espaço não querem nada comigo, que me atravessam o corpo como se eu não existisse.
Como se eu fosse…
Como se eu fosse…
A minha mãe faleceu quando eu estava no secundário. Morreu de uma pneumonia. De complicações durante uma pneumonia. Foi brusco, imprevisto. Até então imaginava-me viver com ela para o resto da vida. Imaginava a segurar-lhe na mão, eu já de cabelos grisalhos. Nunca me havia faltado com nada, a mãe. O meu pai ficou arrasado. Não voltou a casar. Agarrou-se ao trabalho desde então. Trabalha dez a doze horas por dias e às vezes faz fins-de-semana. Gosta de mim. Não tanto como a mãe gostava. Não nos vemos muito. Não vejo o meu pai tanto quanto um dia cheguei a desejar. Não vejo a minha mãe porque já não me recordo dela. As fotografias são rostos sem rosto.
A casa vazia das vozes e dos risos. O olhar que não tornou a humedecer-se. Os espaços que deviam estar preenchidos com a presença dela e apenas levavam contornos de ar e silêncio. De esquecimento.
…Incolor.
…Transparente.
Na altura, a vida demorou novamente a arrancar. Enfiei-me nos livros. Esqueci tudo aquilo que me foi permitido esquecer.

Aos vinte e três anos saí de casa, deixei o meu pai.

Vivo sozinho num apartamento de duas assoalhadas numa zona agradável e pacata da cidade. A vizinhança é boa. Acabei os estudos, o curso superior em Literatura, e arranjei na altura um trabalho como copy numa redacção.
Metade da casa foi paga a pronto, pelo meu pai. A outra metade estou a pagá-la a prestações, num plano a trinta anos, com uma renda confortável por mês. Confortável para o banco. Lá para os meus cinquenta e tais hei-de lembrar-me que um dia fiz um acordo vantajoso com determinado banco. Vantajoso para o banco.
Comecei por baixo. Fui subindo. Hoje apenas tenho de passar na redacção dois dias por semana. Trabalho os restantes dias em casa, em regime de tele-trabalho. Tenho direito a duas páginas inteiras e a mais uma coluna no suplemento de artes da publicação. As minhas críticas nunca reuniram o consenso por parte de escritores, jornalistas e leitores, mas sou frequentemente convidado para fazer parte de júris em concursos e eventos literários.

Aos dezassete anos vivi a primeira relação de amor correspondida. Amor, segundo consta. Correspondida, segundo consta.

A rapariga, conheci-a nas férias do Verão, as últimas antes de entrar para a faculdade, em Tavira. Ela trabalhava de noite. Servia às mesas num pub local. Na escuridão, sentado, melancólico, apaixonei-me por uma cara incolor, nos olhos pequenos reflexos de luz aos quadrados, um vulto que ia e vinha pela noite dentro. À terceira noite consecutiva, deixou-me um papel com uma morada em cima da mesa, quando me trouxe a cerveja. A seguir à morada, dizia: amanhã, 14:00, não tragas fato-de-banho. Fui. Não levei. Quando me abriu a porta também ela não trazia fato de banho vestido.

A Mónica em três frases?
As unhas pintadas; vermelho vivo, espesso, brilhante.
As vestes sempre negras, a pele sempre branca, láctea, uma penugem loura, quase invisível, a cobrir.
Não pedia autorização para usar as coisas dos outros.

O caso durou as férias de Verão desse ano e mais seis meses à distância, por meio de correspondência cor-de-rosa, picante, e promessas incumpridas de visitas nos fins-de-semana seguintes. As cartas num único sentido: Lisboa-Tavira. A Mónica recusou-se a dar-me o número de telefone. Disse para escrever. Escrevi. Cartas decrescentemente apaixonadas. Crescentemente espaçadas.

Um dia deixei de escrever.

Achei que estava a fingir sentimentos, a torná-los eloquentes de mais através de palavras que me soavam a oco. Ela não respondia. O desvairo passou-me. Nunca mais a vi. Não regressei a Tavira.

A Mónica era mais velha do que eu (quatro, cinco anos?). Ficou a saber o que era a vida aos treze anos, segundo me disse, com um rapaz holandês, da mesma idade que ela. Acreditei-acredito nela.

Não tiveste, no teu passado, nem arranjas, agora, uma professora para te dar as aulas teóricas - as aulas de código. Confias no teu instinto infalível, na tua larga experiência empírica, nas tuas capacidades físicas de jovem vigoroso, achas-te o melhor condutor do mundo, estás prestes cair numa ravina e não fazes a mais pequena ideia. A queda vai deixar-te mais cicatrizes na memória do que quando viste o primeiro filme pornográfico, os dedos das bofetadas marcados nas nádegas, os beijos na boca que pareciam de borracha, os intermináveis close-ups a vulvas adulteradas. A Mónica disponibiliza-se generosamente para te ensinar as questões práticas. Tu vais na conversa, encantado da vida, julgando que a amas profundamente apesar de a conheceres há menos de trinta e seis horas. A Mónica esquece-se (desculpa lá qualquer coisinha) de te ensinar onde fica a fronteira entre o que é o amor (teu) e o que é a diversão sexual (dela). Os conceitos misturam-se de tal forma na tua cabeça que ao fim de uns dias de curso intensivo, com a Mónica a servir de orientadora, não sabes mais onde termina um e começa o outro. Nessa altura já passaste muito para lá do ponto de não retorno. Ou de retorno, para seres mais exacto. Os travões não funcionam, a caixa de velocidades parece uma embraiagem encostada a fundo e o volante tem duas mãos de unhas pintadas a segurá-lo. À tua frente uma recta a pique, lá em baixo uma curva em cotovelo, o ponteiro encostado nos 260.


A Mónica, quando fazíamos amor, grunhia como um animal selvagem e torcia os lábios para o lado esquerdo. Fechava os olhos. Fiz amor pela primeira vez na vida com ela por cima de mim. Fiz amor mais de cem vezes durante esse Verão. Perdi a conta quando passámos das trinta. Quase todas as vezes acompanhadas de grunhidos. Nem todas as vezes com ela por cima de mim.

Lembras-te de tudo como se fosse ontem.

Tardes em casa dela, todas as tardes dos dias de semana, os pais voltavam do trabalho ao cair da noite…

…os pais dela ao cair da noite, vocês no quarto, deitada na cama, despes-te à pressa enquanto ela mole, na cama, de pernas abertas numa descontracção habituada-controlada, o estore corrido a meio, os cortinados laranja, o silêncio todo de um mundo que só existe lá fora, o quadro torto na parede com um cavalo branco e uma planície dourada, a memória das pessoas que conheces e que não imaginas a verem-te ali a fazer aquilo, ela a fazer-te aquilo. A memória dos mortos que te espiam de uma outra dimensão.
Fecham a porta do quarto sem a trancar; no ar uma sensação de ansiedade, a aquiescência de uma transgressão cúmplice, proibida, e uma vaga percepção de que são nada de nada no passar infinito do tempo. Inquieta-te o temor de veres alguém (a mãe dela, o pai) a abrir a porta a qualquer instante. Vinte e tal dias cosidos uns aos outros por fios de noites mal dormidas, fora fins-de-semana. Amanhã vais-te embora e parece que foi ontem ainda que …


… cheguei no comboio, de mochila às costas e saco de bagagem ao ombro, perdido, virgem, uma penugem de barba a despontar-me por baixo do maxilar, um croqui com indicações do caminho para casa dos meus tios.

Tinta fresca. Feridas por sarar.

Quando terminava o festim, assim que separávamos os corpos, deixava-me na cama como um trapo velho, usado, exangue, e ia para a casa de banho pintar as unhas dos pés, limá-las, cortar os espigões. Apanhava o cabelo atrás com um elástico, sentava-se no bidé, uma das pernas recolhidas ao peito, o pé da outra apoiado em cima da borda da banheira, o sexo usado exposto ao ar. Apoiava a cabeça de lado e punha-se a entoar canções de forma que me fazia lembrar as velhas lá da terra à porta de casa a bordar os tapetes de Arraiolos no fim das tardes quentes de Verão. Um hábito irritante.

Abdiquei da leitura pela primeira vez em anos. Um mês sem ler. Acordava ao meio-dia, almoçava, casa da Mónica, jantava fora, pub, cama às três da manhã. Aos fins-de-semana escondíamos-nos no meio dos arbustos do parque botânico da cidade para ela se enfiar em cima de mim, para me sentir a sofreguidão, mesmo por cima das roupas.

A vagina dela, o tufo púbico em redor, foi a primeira em que toquei. Estava rompida no local do hímen. Tive um orgasmo no momento que a penetrei com o dedo. Ela riu-se.

A Mónica não me deixou beijá-la na boca até a ter penetrado. Era o género de rapariga que olhava para a vida como uma interminável sucessão de quecas em perspectiva. Não me teria espantado se um dia me tivesse pedido para lhe bater com força, para lhe encher o corpo de nódoas negras, e a seguir para lhe dar uma canzana.



(continua... lá para a semana que vem... tenho de corrigir o texto...)


Sam
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Re: Canetas de Filtro

Postby João Arctico » 01 Nov 2009 01:35

Um conjunto de canetas de feltro... recheado de cores vivas e alegres.
Uma vida rabiscasda a preto e branco, com um lápis de carvão "6B"!...
Entre os quatro e trinta e quatro passaram-se trinta anos que consumiram as cores de uma vida!...

Belo texto este, sem dúvida!
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"Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois de algum viés da lembrança" Chico Buarque in Estorvo

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Re: Canetas de Filtro

Postby urukai » 05 Jan 2010 00:35

Para quando um novo escrito?

Estes apesar de vintage, já acusam a validade! :tongue:

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Re: Canetas de Filtro

Postby Samwise » 05 Jan 2010 12:40

urukai wrote:Para quando um novo escrito?


Não tenho resposta para essa pergunta.

Para escrever ficção necessito de ter uma conjugação de vários factores a acontecerem em simultâneo, e neste momento estão a faltar-me alguns (plural). Entre eles, inspiração, vontade/dedicação e motivação.

Não sei bem onde pára a continuação deste texto. Sei que a escrevi na altura e sei o que narrava, mas não sei o que lhe fiz...

Olhando para este "Canetas de Filtro", vejo tanto disparate estilístico/gramatical exibicionista que até tenho vergonha. :rolleyes:
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Re: Canetas de Filtro

Postby Bugman » 15 Jul 2010 13:24

Pessoalmente é das coisinhas melhores que tenho lido por aí recentemente! Acho que merecia continuaçao, mas concordo que continuar por continuar nao vale a pena... :tu:
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Re: Canetas de Filtro

Postby Samwise » 15 Jul 2010 15:50

monicaleal wrote:Esta história é mesmo ficção?


Há outros textos meus que não são ficção, mas este é - na sua totalidade. As personagens e as situações foram inventadas a partir do nada.
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