Preto e Branco

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14974
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Preto e Branco

Postby Samwise » 20 Sep 2007 00:11

Nota prévia: Este texto foi inicialmente escrito para uma colectânea a publicar ao abrigo do projecto Lulu.com. Por falta de quorum literário, essa colectânea nunca chegou à estampa final.

À primeira vista, há muitas influências da escrita de José Saramago neste texto. À segunda vista, acredito também haver umas quantas. Quem tiver paciência para olhar mais vezes, pode ser que apanhe ainda uma ou outra "obsessão" à Lobo Antunes.
Não há aqui nenhuma tentativa de cópia ou até de homenagem quer a um quer a outro autor. Apenas há uma fluência natural e ligeira, originada pelo hábito da leitura.

Atenção: está prestes a iniciar um texto com cerca de 6.000 palavras.



Preto e Branco


"Rage, rage against the dying of the light.” – Dylan Thomas in Do not go gentle into that good night
“Time is a face in the water.” - Stephen King in The Dark Tower
“A noite enfeita-se de negro
Porque as memórias
Só dão filhos na escuridão” – Daniela Pereira in Inspiração Invertida



Numa qualquer metrópole, sobre quem não dorme, a noite cai...

Três da manhã, diz o relógio, lê-se na mímica dos ponteiros, lá fora está um tecto sem lua, um céu sem candeeiro, algumas nuvens deslizam, tudo dorme, ou quase tudo, dia calmo foi o de ontem, Domingo. Só nesta cidade, na rua, um milhão, duzentas e quarenta e três mil, cento e vinte e oito lâmpadas, descontando as colocadas pela iniciativa privada, fazem por copiar as expansões energéticas do sol. É uma pipa de massa todas as noites, um grande consumo de recursos, pagam as gentes a talhada, claro, democracia plena e justa, o Zé-povinho, o João-povinho, o Pobre-povinho, e não é que dêem por isso, vai a conta misturada nos impostos, destes e doutros abusos escusa-se a factura em papel. Iluminar a noite?... Puro fogo de artifício! Esta vontade de ser, a cíclica batalha contra o escuro, contra o frio, contra o vazio da inexistência… é inútil! Inútil! Ainda por cima estão as pessoas esforçando-se por dormir, que vem a ser esta claridade toda agora, a noite fez-se para ser negra, para dar descanso ao dia, para dar descanso do dia, para dormir e para amar, ou antes ao contrário, mais depressa ferra o dente a inércia depois do banquete carnal. Não parecendo a quem olha de longe, a cidade afunda-se nos mistérios do sono, mergulha-se a si e a toda a fantasmagórica claridade na superfície calada do rio, o que dela vemos é um reflexo invertido, como a noite o é do dia, ora nítido, ora intermitente, a todo o minuto desalinhando-se e voltando a construir-se no nervoso agitar das águas negras, é a lei de tudo o que existe, o tempo se encarregou de o confirmar, a água de no-lo mostrar.

O Sr. Mendes arrasta, com ajuda do Sr. Sócrates, um contentor de plástico verde pelo alcatrão fora, leva uma roda partida, está atafulhado de lixo, vai de rojos, raspa no chão, solta um ruído infernal; levam-no ao castigo, ao braço mecânico que se encarregará de fazer a força necessária à despeja de seu conteúdo, levantando-o pelos ares, VRRRRR, o rabo para cima, a boca para baixo, abre-se a tampa com violência, agita-se o braço de alavanca, CATAPLAN – CATAPLAN – CATAPLAN, sai o vómito, vão os rejeites da sociedade para dentro do camião dos serviços municipais. Serão revolvidos, queimados, prensados, reunidos em blocos cúbicos, atirados para o desterro, sepultados sobre pó e terra, e finalmente votados ao esquecimento; apodrecerão durante uma eternidade, se mais tempo não for, caso esse o dos plásticos sacos, melhor imagem do inferno não encontramos na Bíblia, mas aí, enfim, trata-se de homens, não de lixo, mal menor, no final vai tudo dar ao mesmo, acerca desta questão tem a morte uma palavra a dizer, da merda nos erguemos e à merda tornaremos. Sobre a carlinga do veículo está uma sereia luminosa disparando o foco à distancia por entre o fumegar pesado do diesel, alcança longe, esta luz, veste os edifícios em redor de laranja, os que nas sombras se encontram, torna-os subitamente visíveis, sinistras aparições, ilumina também os outros, adiciona-se às claridades das fachadas e empenas, a palidez destes rostos ganha uma tonalidade clínica asséptica, de morgue, de betadine amarela espalhada sobre pele branca, de pinças e gaze, de luvas de látex e bisturi, rodopia a lâmpada no redoma, ora sim, ora não, ora luz, ora sombra, luz, sombra, escuridão, já lá vai na outra rua. É o último turno da noite, o camião percorre as zonas mortas da cidade, a industria cimenteira, a refinaria, a fábrica dos cafés, as docas mercantis, os armazéns ribeirinhos, o interminável duplo-carril dos caminhos-de-ferro, as montanhas e montanhas de grandes contentores metálicos que para outros países vão destinados, que por vezes trazem pessoas lá dentro; imobiliza-se perto de uma roulote de farturas, os homens descem das plataformas, tiram as luvas, o condutor salta para fora do assento, também ele tem fome, é coisa que toca a todos, há mesmo quem morra dela, há quem, nascido tendo, nunca chegue a comer, secos estão os campos onde o leite não chega. O Alcino dos Comes e Bebes já sabe o que vai ser, o turno é fixo, os hábitos não mudam, são dois cachorros com tudo e uma bifana com mostarda, três minis fresquinhas, um pires de amendoins. Há mais pessoas no ajuntamento, sob a sibilina luz branca do toldo, mastigando maquinalmente o bolo desenhado na bochecha, como se as bocas não lhes segregassem saliva; vão dormitando de pé, apoiando-se ora numa ora noutra perna, vestem kispos em segunda mão amarrotados, de cores que desagradam a vista, calças de ganga esburacadas, vincadas nas dobras, sujas de muitos dias, e ténis de sola gasta - roupas de número desadequado que recolheram na paróquia. Um deles, o mais novo, de cabelo encaracolado na nuca, veias picadas pelo vício, a pele tisnada, sulcada de rugas, na retina o peso resignado da solidão, observa o carro do lixo pelo canto do olho, o motor a trabalhar, ninguém lá dentro, tão fácil seria, e pensa nas bisgas, no aterrorizar dos outros condutores, um tanque de combate pela rua fora, nas derrapagens a travão de mão, no espetar com a charuteira na montra de um stand de automóveis, um chique, de preferência, Mercedes, Lexus, no encher daquele espaço com lixo, mandar duas ou três encomendas milionárias para a sucata com a força do embate, partir aquela substância desagradável de cor castanha toda. Os homens de riscas florescentes vão-se embora, não levou o Juca a avante a vontade do rali, lá terá pensado na polícia, de tempo de esquadra conta o Juca meses, se somarmos os dias, de cadeia conta anos, se somarmos os meses, contentou-se com o desvairo do pensamento, pelo menos deu para rir, coisa rara nos dias que correm. A felicidade, há quem diga, mede-se em nós pela percentagem de criança que ainda levamos na memória – pelos actos com que, tomando essa mesma memória, vamos construindo o presente. O Juca não se lembra que tempos houve em que foi pequeno, pertenceu a uma família, foi estragado com mimos, a sua carne não recorda o toque macio das mãos de sua mãe, a ternura de seus beijos, a doçura das palavras, o amor que passa entre um olhar e outro quando os dois se encontram sendo o um o de uma mãe e o outro o de um filho. A mãe do Juca morreu há dois anos. Nem disso sequer o Juca se lembra – não esteve presente nos últimos momentos, não foi ao funeral, contaram-lhe tudo uns dias depois, quando o encontraram a curar a ressaca num barracão abandonado, os olhos injectados de sangue, de heroína, saliva a escorrer para a camisa, havia uma casa em Nova-Orleães, chamavam-lhe o sol nascente. O Juca já não sabe o que quer dizer família, pertencer a quem de nós gosta. Não há quem goste dele, pelo menos neste mundo terreno, como amigos só a colher, o isqueiro e a seringa, de vez em quando a assistente social, outros rapazes perdidos, convívios que facilitam a vida, e a morte facilitam. O Sr. Mendes e o Sr. Sócrates acabaram o turno, lavaram da pele o sebo, esfregaram o mau cheiro no duche, um deles dá boleia ao outro para casa, revezam-se na tarefa, amanhã será ao contrário, a gasolina está cara, o salário nunca foi grande coisa, são velhos amigos, dentro do carro podem falar à vontade, vão sentados, conseguem ouvir-se bem um ao outro, não têm de ir aos berro pelas ruas da cidade afora, cada um no seu poleiro na traseira do camião, Olha lá, Diz, Viste o Benfica, Hã, Se viste o Benfica, Não, não é para Benfica, é para a Damaia, ademais o diálogo é proibido por norma do ofício, de noite é mister haver silêncio, já basta o estrépito do braço mecânico, seriam postos na rua, devolvidos sem farda nem honra ao local onde trabalhando esfolam a pele. Vão no carro para casa, no horizonte rompe o sol daqui a nada, o Runaldo e o Córesma viajam com eles entre bocas e ouvidos.

Em um quarto solitário de uma casa antiga, uma edificação aí dos tempos do Marquês de Pombal, um quarto amplo, vazio de mobiliário, onde apenas existem uma mesa e uma cadeira, em que os floreados de estuque no tecto ameaçam cair, e caíram já até em alguns locais, Ricardo está sentado em frente a um computador, de pijama, robe e chinelos, tem os pés frios na região do calcanhar, esqueceu-se de calçar as meias, esfrega o direito no esquerdo e pouco aquece. Escreve ou tenta escrever. Volta atrás, acrescenta, apaga, emenda, reescreve, reescreve-se a si próprio naquilo que não soa bem, esforça-se por ajustar as palavras ao pensamento, por encontrar equivalências, vai por aproximação, só assim se lá chega. É solitária, como todas têm sido, esta noite para Ricardo, em cuja através da escrita vai reavivando as suas feridas, colocando no papel o que doendo lhe passa na cabeça, senão no coração, e que não é mais do que sentimentos, imagens de sentidos; teima em mascarar tudo com palavras que aparentam outras coisas, fingindo, fugindo a um confronto directo que de resultado daria um conjunto vazio. Está uma garrafa de brandy em cima da mesa, intacta, ao lado do tapete do rato, ainda com rótulo plastificado sobre a rolha, foi comprada na loja de conveniência, depois do jantar de turma. Seria fácil a Ricardo esticar o braço, deitar-lhe a mão ao pescoço, puxá-la para si, apertá-la contra os lábios, tratá-la como se a uma mulher da vida, como se a uma puta, sorver-lhe o sabor azedo como se mais líquidos não houvesse à face da terra. Em estômago vazio cairia essa saliva, fria como ácido, cortante na descida como garras de tigre sobre cortinado de seda, o jantar já aí não se encontra, seguiu mais para baixo, daqui a nada quererá ele também sair desse invólucro chamado intestino, por entre gases e sustenidos o conseguirá. É contra o perigo desta tentação, deste abismo do álcool, que Ricardo escreve. Saltar de um abismo para outro não é grande negócio, mormente quando é mais fundo aquele para onde nos propomos saltar. Enquanto os dedos magros, ossudos nas articulações, estiverem debitando letras de plástico para o ecrã - téque-le-téque - os braços continuarão imóveis, apoiados sobre o espaço que vai de si ao teclado. Enquanto este genocídio de palavras não cessar, e pode ser que o sono chegue no entretanto, no entretãopouco, a garrafa de brandy permanecerá distante, até parece, na sua curvatura delicada, uma imagem distorcida nas lentes de um binóculo invertido - está longe, está perto, ao alcance de um membro que terá de se esticar até a infinidade aqui ao lado para a agarrar. Um animal. É mais fácil neste mundo ser-se animal, um pato, por exemplo, é só andar às voltas no lago, comer a ração que vem a horas certas, dormitar à sombra do sovaco, debicar o pão na mão dos turistas, sentimentos não sei o que sejam, vida, tanto eu gosto de ti, qualquer dia levo-te a dar um passeio, vamos ver o mar, coisa de águas que não acabam, dobram o horizonte, dão a volta o mundo, na realidade, na imaginação de quem observa. Mais tarde, lá para as quatro da manhã, este homem apagará o computador, deixará em paz a garrafa da tentação, sairá deste quarto, entrará em um outro, pelo caminho, no corredor, olhará e ouvirá as crianças, dormem profundamente, tudo está bem, a paz reina, sobra-lhes tempo de alegria, de inocência. Deitar-se-á sobre o colchão cautelosamente, os chinelos deixando por baixo da cama, entrará nela muito ao de manso, para não acordar o corpo que dorme do outro lado, alheio no sono às feridas que estão sangrando dentro de Ricardo, enganou-se aquele que disse: a noite é boa conselheira.

Num apartamento de quatro assoalhadas situado em zona nobre da cidade, a Ana prepara e coloca, dentro de pequenos reservatórios de plástico, vulgo tupperwares, as porções de carne para os jantares da semana que chega, meia do cozido e meia de arroz em cada um, fecham-se e vão para o congelador. Não pretende ter o trabalho de cozinhar no dia-a-dia, já lhe basta o estado em que chega do trabalho, arreliada com o filha da puta do patrão, e mais o transito, as buzinadelas, a poluição, os sapatos que lhe estão apertados nos pés, será que encolheram, os sapatos, não os pés, as notícias das mortes das criancinhas em África, de fome e de miséria, de mentiras ditas por pessoas de fato e gravata e ar sério no rosto, a cultura do capitalismo, o caralho a sete e o raio que os parta a todos, aos sete e aos outros, mais fácil será descongelar e aquecer, e a diferença de sabor nem é assim tanta que lhe faça espécie. Quando não lhe apetecer, quando o estômago rejeitar, sairá ao café da esquina, servem minipratos, caminha-se e cozinha-se para o infinitesimal, a nano-tecnologia está aí às portas, qualquer dia não cabe a pouca comida dentro do forno. O corpo do marido, agora sem uma perna, continua pendurado sobre o poliban na casa de banho, lentamente exangue-indo-se, já poucos líquidos comporta, pingando os que sobram sobre a porcelana ressequida, sobre o ralo enferrujado, os braços ao alto, presos por algemas a um gancho no tecto, dois pulsos partidos, torcidos na articulação, os ligamentos abertos, a morta pele a suportar o peso todo, e a cabeça inerte, assente queixo sobre peito, a pequena calva no cocuruto a notar-se deste ângulo, e a cara oculta, careta leva, é melhor que não se veja. A Ana é uma pessoa forte, corpulenta, só assim se explica como teve forças para subir com o João aos ombros pelo escadote acima, já se sabe que pesa mais quem de morto se finge, quem dormindo está, quem apunhalado foi. A Ana lembra-se da sua vida no campo, de quando era moça, das sardas-cenoura que não desapareciam da imagem no espelho, das tranças que sua mãe lhe fazia, da mão forte e firme com que o pai segurava a faca, com ela penetrando a pele do porco, dos guinchos e dos esguichos, da inexorável repetição dos segundos no tempo, esses que o coração de quem parte já não consegue acompanhar, esses que no coração de quem fica parecem tambores a rufar, a carne morreu, daí a dias vai para o fumeiro, bons presuntos para oferecer na Quaresma, este é o meu corpo, este é o meu sangue, comei todos e bebei, estão aqui as azeitonas, marchou tudo com broa, valeu a pena jejuar no feriado. O João gritou com a Ana, atirou-lhe palavras desagradáveis ao rosto, não se tratam assim as mulheres, as esposas, mesmo quando o motivo é futebol, mesmo quando no plasma de metro e meio de diâmetro esteja correndo o Simão para a baliza, por tão pouco perdem os homens a cabeça, é apenas uma bola, a que têm sobre os ombros e a que leva a direcção de golo, às vezes também a perdem as mulheres - e depois vem-se a dizer que fulana de tal não estava boa da bola, comeu o marido, Olha a grande novidade, é isso que fazem as esposas aos esposos, vice-versa também é costumeiro, se o matrimónio for recente e não estiver o casal de trombas, com os azeites, Espera, não estávamos desta vez metaforizando, não foi na cama a refeição, foi no prato, com batatas fritas e ketchup, um ovo a cavalo, curiosa expressão esta, onde terão deixado o animal?, à mesa só chegou o ovo, crina e cascos nem vê-los, fará o João vezes de equídeo, e já que às palavras estamos brincando, também poderíamos ter usado estas outras: que a Ana fodeu o marido, e que bem fodido ele ficou, trinta e sete penetrações no abdómen, agora sim, metáfora mais ironia, foder e penetrar, termos ancestrais que tanto designam o acto de gerar embriões, de trazer proxenetas ao mundo, como o de lhes anunciar fim adverso, entre outros usos e costumes, e há centenas deles, segundo velhas filosofias indianas ilustradas. Mais adiante na linha do tempo, na estrada dos acontecimentos, a Ana será presa, ao manicómio irá parar, camisa branca usará, dessas que não têm botões, apertam-se à retaguarda com correias, as mangas têm pano para contos, este mundo conta-se todo ao contrário. Um dia, todas as esposas serão assim, firmes na decisão, rápidas no acto, continuem as coisas a evoluir desta maneira, um enorme exército de donas de casa assassinas, uma legião silenciosa de índias Apache brandyndo tomahawks sedentos de vingança, quem sabe se não para utilizar numa dessas noites europeias, esfolar os primeiros escalpes, dedilhar manchas de sangue na cara, por cima de pinturas de guerra de rouge e pó-de-arroz, Ááááááá-Uá-Uá-Uá-Uá-Uá-Uá-Uá. Por ora não há-de ser nada, pelo menos a comida fica pronta para o resto da semana, pode ser que para o resto do mês, se entretanto a carne não apodrecer, se o João não fizer beicinho, se larvas não lhe vieram habitar a boca. Que pensarão as pessoas no trabalho da Ana quando a notícia lhes chegar? Que pensará o Ricardo, por exemplo, rapaz tão atinado, tão calado, tão ausente da realidade, sempre de nariz enfiado no monitor, como se dentro do computador houvesse outro mundo, um outro Ricardo nesse outro mundo, existindo o duplo nas limalhas cibernéticas apenas para entreter o seu criador? Passou-se dos carretos, a Ana, eis o que dirá… olha!... “passar-se uma pessoa dos carretos”, outra expressão curiosa.

O Sr. Augusto varre o chão lá fora e pragueja para dentro de si. Revê e medita nos acontecimentos da noite. Os tempos mudaram. Já não há respeito hoje em dia, um homem é um criado-feito-mula de outro homem se assim se estabelecerem entre eles determinadas relações sociais, determinados vínculos laborais. O Sr. Augusto é patrão, e é nesse traje de patrão que lhe faltam mais ao respeito, quase todos os dias o fazem, coisa estranha, parece anedota, e não pode o pobre reclamar, não pode protestar, é comer e calar, foram bem escolhidas as palavras, o Sr. Augusto é dono de um tasco elegante, aquele do qual a esplanada está agora limpando, à luz das lâmpadas do município. Na praça só se ouve a vassoura juntando lixo, QSHHH – QSHHH – QSHHH, as garrafas, os cacos, as beatas, os talheres, a comida que caiu do prato, a que escapou da boca, a que jorrou do estômago, a porcaria toda arrastando-se pelo chão, isso e as cigarras, e mesmo assim o ouve-se é apenas a expressão que o autor deste texto escolheu, porque ouvir-ouvir ninguém o está fazendo, estão todos dormindo, sobre as fachadas de betão as pálpebras da cidade quedam-se mudas, as de plástico, as de madeira, as de pano, e as de pele humana e pestanas, portadas última entre o cá de dentro e o lá de fora, amanhã é dia de trabalho, descanse-se agora, daqui a pouco não haverá tempo. Pequenos batmans felpudos agitam-se esvoaçando irrequietos pelo ar, peluches membranosos de caninos afiados que parecem recortes de tiras de papel químico e varetas de guarda-chuva, as asas afiadas como lâminas, cegos para as tristezas do mundo, fossem os homens assim, dormíssemos nós de cabeça para baixo em grutas e tocas de árvore, e é certo que o mundo caminharia mais a direito para a salvação, fosse ela feita de nuvens, fosse ela feita de vácuo. Trinta e sete lugares, pela segunda vez surge este número neste texto, reserva feita na semana passada, festança de faculdade, as piores que há, ainda não são homens, já não são miúdos, as mesas juntam-se em comboio, põe-se o sítio de pantanas, enchem o ar de barulho, de tabaco e de ervas mais fortes, incomodam os outros clientes, o lugar até é pacato, velas sobre as mesas dentro de ninhos de cristal, arreliam as raparigas, apalpam-lhes a nádega, as travessas caem ao chão, perde-se a paciência, perde-se o tino, venha mais uma garrafa destas, ó chefe, e um cinzeiro, já agora, mas sorri-se, o cliente é o patrão e o patrão é o servente, mesmo sabendo que no fim não há gorjeta para ninguém, que às vezes até falta dinheiro. Olhe lá, menina, estão faltando sete euros, Não mos peça a mim que a minha parte paguei, Nem a mim, Nem a mim, palavra de honra não fui eu, Quem não pagou já se pisgou, ao fresco se pôs, mais para mais estando a noite fria, Então quem paga?, não posso ficar eu com a dívida, aqui não se joga ao fiado, fica sempre a casa a perder, Fazemos assim, não se preocupe, eu falo com eles e amanhã venho pagar-lhe, está bem? sete euros, não foi o que disse, Foi, mas olhe, menina, já sei como as coisas são, deixe-me cá o relógio, serve de caução, Está bem, está bem, fique lá com ele (é desta que o despacho, já estava velho, usado, dei um tusto por ele, aqui não torno, que vergonha), até amanhã, obrigado, não leve a mal, já estavam tocados, perdoe-lhes, senhor, eles não sabem o que fazem, quanta vezes não terá esta frase sido dita sem que os respectivos perdões se soltassem, o que nasce torto tarde ou nunca desentorta, Eva o saberá, ela que há tanto tempo pecou e ainda não foi desta que levou perdão. Ao som das cigarras, com lâminas de vento a passarem-lhe rente à cabeça, o Sr. Augusto varre a esplanada, e varre, e varre...

O Zé Pedro está no jardim com o cão, por baixo do miradouro, contempla absorto a distância, a outra margem, os navios cargueiros ancorados ao porto, as estruturas industriais, os gigantescos guindastes ferrugentos, as imagens que no rio tremeluzem de reflexos, a ponte duas linhas de luzes suspensas na escuridão, claridades ardendo à tona de água, a noite acariciando a cidade, e ao fundo, o mar, o oceano, bebendo de toda esta ilusão, embriagando-se de vontades humanas que se acham perdidas na corrente. O Zé Pedro chegou tarde a casa, o dia foi de pesca submarina, na Berlenga, com os amigos, ao serão esteve com a namorada no cinema, jantaram e foram a um filme, ele gostou, leu Scorsese nos créditos finais, o nome disse-lhe qualquer coisa, a ela nem tanto, para dizer a verdade, e usando de suas palavras: achou o filme uma porcaria, muitos tiros na cabeça, uma obsessão quase animalesca pela violência do tiro na cabeça, a realizadores não liga nada, ainda valeram os actores, o Damon, o Di Caprio, o Wahlberg. Foi para casa a Mariana, sempre esteve um pouco com o Zé, recebeu alguma atenção, palavras doces, o lume da paixão é recente, é fogo que arde sem se ver, quando a cegueira acabar vai haver arrancar de olhos, pior cego é aquele que já viu, talvez então o amor encontre uma saída, nem que seja a porta da rua. Sempre teve companhia no escuro da sala, a Mariana, mesmo que não por palavras ou actos, melhor seria se o escuro fosse outro, debaixo dos lençóis, sem mais espectadores em redor, juntando-se no calor húmido as carnes, soltando odores que apenas os amantes entendem. O Zé dedica uma chispa de pensamento ao Ricardo, faltou à pescaria, não avisou, não disse nada, não respondeu ao telemóvel, não é seu costume, amanhã é a primeira coisa que faço depois de ligar à Mariana, falar com o gajo. O Skip fareja os arbustos, focinho negro em terra negra, espirra de comichão, corre de um lado para o outro, lambe a mão do Zé, abocanha-lhe a trela que vai dependurada, por vénias pede brincadeira, larga baba pelo chão, é boxer, é irrequieto, coisas da raça, é noite mas parece dia, veja-se a alegria do bicho, dá a entender que valeu a pena ter ficado este tempo todo fechado em casa, na marquise, a aliviar-se nos cantos, sem comida nem água, temendo a mão severa do dono, só para no final do dia ter este merecido conforto, nem todos os dias se passam assim, às vezes nem à rua vai, maus humores os do Zé. São estes os melhores amigos do homem, e vejam só que tratamento vão tendo, é assim que se tratam os amigos, eles compreendem, sem mágoa nem ressentimento, são cães, e sorte muita a do Skip, o não ter nascido rafeiro ou perdigueiro, esses que às vezes levam chumbo quando a caça corre mal, e são largados na berma da estrada, a cabeça desfeita, as tripas de fora, já não sofrem, nem de corpo nem de alma, sentimentos, ao menos, nunca os tiveram, afirmam os cientistas, olhem agora a dor que não seria se adivinhassem de antemão o destino traçado no carregar do gatilho. O Skip vai para casa, segue o Zé, alça a perna uma última vez, calhou ser o marco do correio o receptor, de cartas e de mijos, um dos antigos, vermelhos, cilíndricos, a base preta, agora aquecida e molhada pelo Skip, as pedras da calçada escurecidas em redor, não de lágrimas mas de urina, de manhã se confirmará, que nunca se viu a calçada chorar. Fecha-se a porta do prédio. O que daqui para a frente se vai passar, com o Skip, com o Zé, com os vizinhos da mesma habitação, enfim, com a Mariana, em casa dos pais, já chegou, sozinha no quarto, está dentro da cama, suportando no corpo, no baixo-ventre, a dor da ausência, hoje não houve o fazer de amor físico, o Zé estava cansado da pesca, bem se viu no cinema, nem a perna lhe acariciou durante a maior parte do filme, mas adiante, que tudo isto não diz respeito a este conto.

Num lago no jardim do miradouro, a pouca distância do local farejado pelo focinho do Skip há nem dez minutos, no meio das ramagens acolhedoras que, partindo da solidez do solo na margem, pendem para a superfície das águas, um pato bravo está tendo um sonho: um ovo enche-se de fissuras, alguém bate lá de dentro, arranca buracos na casca, parece que está querendo sair, mal sabe ao que vem, este mundo é coisa nefasta, logo a primeira coisa que vê é a cloaca da mãe. Uma parte da casca saltou, o pequeno ser põe a cabeça de fora, espreita o mundo exterior, traz uma cartola na cabeça, fato e gravata no corpo, guarda-chuva e mala de executivo na mão. Como será ser-se homem, pensa o patinho no sono, ter as pernas compridas, mãos e dedos nos braços, uma boca para beijar, dentes para mastigar, lá diz o ditado: em terra de patos quem tem dentes é rei. O homem de fato está no autocarro, vasculha os bolsos à procura do passe, não sabe bem o que há-de procurar, que formato terá esse cartão, desiste, pergunta então ao condutor se pode comprar um bilhete, Sim, senhor, é um euro e trinta, vasculha outra vez os bolsos à procura de dinheiro, nada encontra, pede imensas desculpas, já estão algumas pessoas reclamando lá de trás, Mas esta substância desagradável de cor castanha não anda, encolhe os ombros e diz que se esqueceu da carteira em casa, embora não se lembre de alguma vez ter tido uma carteira. Desce do autocarro. Lá fora, na paragem, as pessoas que aguardam por outros números e carreiras observam-no com a curiosidade que quem olha para um pato-feito-homem, é estranho, não se lhe vislumbram sinais exteriores de pateza, alguns cochicham, riem-se, outros afastam-se, será doença que se pegue? O homem sabe que tem um compromisso importante em algum lado da cidade, não sabe como o sabe, nem sabe onde é, apenas sabe que o sabe, inquieta-se então com o passar do tempo, em como lá chegar, nas reprimendas que o esperam, a sociedade não tolera estas falhas de formalismo, lembra-se de fazer uso do telemóvel, ligar a dizer que chega atrasado, o aparelho só tem dois botões, o liga e o desliga, é fácil de usar, do outro lado da linha ninguém atende, vai para as mensagens, ...após o sinal... BEEEEP, que desespero, olha se fosse para a namorada – feito ao bife estaria, pato à Pequim. Resolve pôr-se a caminho, vai a pé pela rua fora, segue as linhas do eléctrico, não havendo estrada de empedrado amarelo, é o que de mais parecido se arranja, pode ser que na outra ponta encontre a cidade esmeralda, o grande feiticeiro, se pudesse voar é que era bom, num ápice se punha lá, que disparate este tão grande, os homens não fazem isso, quem lhe dera umas asas, uns pós mágicos da fada Wendy. O homem andou meia cidade, está a meio caminho de lado nenhum, nem a Alice andou tão perdida do outro lado do espelho, ao menos, pensa o homem, só meio caminho já falta, está com fome e com sede, não sabe se há-de comer comida ou ração. O sol larga-se a pique, o homem tira a cartola, com as costas da mão afasta o suor que lhe molha a testa, abre o guarda-chuva tornando-o guarda-sol, estivesse vento hoje e com esta artimanha voaria como Bentley ou Mary Poppins, não seriam cá precisas as boas almas de Blimunda. A mala de executivo vai pesada no tiracolo, leva um portátil dentro, ou isso ou são pedras, mas para a carne é a mesma coisa, que o ombro não distingue, é parte de um membro info-excluído, quantos mais membros haverá pelo corpo do homem que excluídos de alguma coisa ficaram, não faz mal, é tudo a fingir, é a mente pregando-nos partidas, aproveitando-se dos canais pensantes enquanto estamos dormindo, não vem mal ao mundo por causa disso, há até quem profetize que é nestas alturas que a esfera pula e avança, burro, burro, não são esses sonhos os do poema, são os que se praticam fora do sono, por iniciativa própria. Está ali um jardim do outro lado da rua, talvez me faça bem um pouco de sombra, um banquinho para descansar, para lá me dirijo, daqui estou vendo um lago bonito. O homem debruça-se sobre as águas verdes e começa a beber, sacia a sede de uma forma que lhe parece familiar, até o gosto amargo da água lhe traz uma qualquer recordação, vamos ver se o atrevimento não acaba em diarreia. Quando levanta a cabeça das pequenas ondas que se afastam, repara que lhe encostam dois canos à têmpora, uma arma, é um cão-feito-homem, está mesmo a seu lado, Desta vez não levo eu a chumbada. BANG! Uma bandeirola a dizê-lo, era partida de mau gosto. O pato acorda sobressaltado, quem estará neste momento sonhando ser pato para que eu esteja sonhando ser homem?, este mundo está todo doido, diz grasnando por entre um quá e um quois?, pato de boas famílias este, fala patês e francês, pode ser que toque piano também, depois aninha a cabeça debaixo da asa e torna de volta para o sono, não era conhecido que os patos sonhavam, que dirão deste feito os cientistas, de um pato que uma noite, ao julgar ser humano, nasceu vestido à cobrador de fraque.

Pra cá a carteira, o telemóvel e o relógio, mas péra, antes dabrires a boca pra dizer disparates, pra te queixares dque não tens dinheiro, dco telemóvel não presta, dco relógio é imitação, enfim, pra pedires ajuda, toma lá esta mão na cara e este joelho nos colhões, lérias conheço-as todas, é pra veres que não me custa bater-te, e que se não me deres o que te estou pedindo agora de bons modos, quem canta a seguir é este chino que aqui vês, muitos lábios de ferida já abriu, alguns curaram, outros morreram, outros sangraram, e tocá despachar que não tenho a noite toda, a vida custa a ganhar e depois desta não vem outra. O Mário passa os pertences sem mais nem ais, nem um gemido se lhe solta, bem lhe apetece, dói-lhe lá em baixo, muita sorte não ter sido em cheio, que aí, então, bom podia o preto ameaçar com a navalha que de gritos ninguém o calava. Neste cu de Judas, neste beco escuro para onde foi arrastado, entre apertadas vias travessas de um bairro já de si apertado nas avenidas, não é que as haja, serve o dito para ilustrar a tipologia, o Mário observa as estrelas no céu, deixa-se estar deitado, mole, quieto, não lhe apetece levantar-se, os braços abertos em cruz, não como os de Judas, esse morreu de corda, de um nó a crescer da nuca, pendurado pelo pescoço, bem arrependido ia, é até provável que tenha assegurado um espacito de céu à conta dessa nesga de remorso. O preto desapareceu há um bom quarto de hora, cabrão do preto, ladrão da merda, fosses tu de outra cor, ó Mário, e roubar-te-iam os brancos em todos os dias da tua vida, é a tua crispação que está falando por ti, bem o sabemos, se calhar durmo aqui mesmo, nem uns trocos para o táxi deixou, o cabrão, amanhã vou à polícia, ou talvez não vá, não lhe fixei os contornos, tão escura a cara como esta noite, as estrelas não aquecem no firmamento, apetece cortar-lhes os fios que as sustentam. Foi porreiro o jantar, os amigos da faculdade, a algazarra, a fumarada, os olhares de cobiça, os resignados, o tinto e o branco, o digestivo, o Antunes foi ao grego, sujou a roupa toda, o Ricardo, o tipo da cadeira em atraso, parecia triste, afastado, foi para casa mais cedo, não espanta, nunca pertenceu muito a este grupo, e tu, Marla, meu amor, de tão longe me olhaste, não sabes o que aqui vai dentro, e é tanto, não sei como cabe o tanto em mim, como caibo eu próprio em mim, na alma, no coração, é como se todo o mar estivesse transbordando em meu ser, tu que agora dormitas em frescos lençóis de linho branco, como cantará o teu ressonar, que perfumes libertará a tua pele, que refulgências em teu sorriso nocturno, de tudo, tudo, só te peço que me permitas o sorriso, olhar para ele, gosto de ti como se te amasse, amo-te como se de ti não gostasse, parece contra-senso, não o é, sabe quem ama, o amor também é feito de tristeza, de desilusão, de contrariedade, de uma dor tão dorida, a da não reciprocidade, pior só a de corno, que apetece calar a palavra angústia sobrepondo-lhe a palavra morte, pôr-se uma pessoa a salvo das inquietações da memória, como diria García Márquez. Para viver chega-me o ar que respiro e amar-te. Amá-la, como o Sol faz à terra, aMarla, como a palavra faz à letra. Sinto-me tão longe de ti, se é que longe é uma medida de distância, um traço na escala métrica da fita, mais parece um estado de alma, um redoma em volta dela, quero sair e não consigo, longe, perto, junto, Marla, cinco letras cada uma, as palavras são mesmo fodidas, falam por pensamentos, dizem o que lhes apetece, não as podemos enganar com ambiguidades, são a nossa consciência, traidoras que falam de amor, uma lágrima se me desprende, depois outra, e outra, chorar, chover, os meus olhos duas nuvens à deriva, perdidas na imensidão cinzenta do céu, condensando mágoas em formato de gotas, molha-se também a calçada nesta parte da cidade, parece que a moda pegou, de manhã não estará suja, para sujidade já chega a que miseravelmente está banhando o pensamento de Mário. É como onda brava fustigando praia de seixos lisos e areia branca. Meio lá meio cá, entre o sono quente e o frio do empedrado, os primeiros sonhos carregam o Mário para outra dimensão – está na rua, vai ser abordado para um estudo de mercado por um adolescente hercúleo quase em pelota, mascarado de Cupido, com asas de esferovite afiveladas às costas, sandálias romanas de atilhos interlaçados perna acima, tanga de cetim a esconder o frente-e-verso sexual, peitorais dilatados por esteróides artificiais, e uma auréola de arame sobre a cabeça. No questionário, apenas uma pergunta: de que cor é o amor. Preto e Branco, pode ser? Não, escolha só uma opção, por favor, O amor é… é da cor da música, de uma valsa de Strauss correndo ao som de um ribeiro manso, um Danúbio de sentimentos partilhados a dois, Então vou assinalar azul, Jovem, apague daí essa cruz, você não sabe o que está fazendo, quem encomendou esta idiotice? Descontente, o Cupido voa para longe, o cenário desvanece-se, o amor é agora um quarto de luz resplandecente com uma cama lá dentro, com uma Marla lá dentro, a nudez dos ombros destapando-se dos lençóis brancos, o formato do corpo por baixo deles, está sorrindo, aguarda que a tomem por amante. Antes de perder o vinco à realidade, o Mário tem ainda tempo de pensar que o amor de vez em quando é cor-de-algodão. Escuridão…

…escuridão…

…escuridão…

Quatro da manhã, o Ricardo vai-se deitar, terminou o que estava escrevendo, não foi poesia, não leva este homem de apelido Reis, segue pelo corredor, faz uma pausa em um dos quartos, o repouso sem sonhos começará, não tarda, em um outro, e, se é que não nos fizemos entender bem com estas palavras, por aqui ficamos nós também, chega de espreitar a vida alheia, eis o fim do primeiro capítulo deste conto que não traz segundo


------------


MarlonBrandy / Samwise
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

User avatar
azert
Edição Única
Posts: 2705
Joined: 14 Sep 2007 12:30
Location: Braga
Contact:

Re: Preto e Branco

Postby azert » 20 Sep 2007 11:04

Lamento muito saber que a colectânea não foi avante por falta de quorum. :unsure:

( Prometo ler o teu conto mais tarde - 6.000 palavras é demais para ler no trabalho :devil: ).

azert / pragana
Image Image

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14974
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: Preto e Branco

Postby Samwise » 20 Sep 2007 12:53

Eu votei não avançar com o projecto. Nessa votação era essencial que houvesse unanimidade (senão não havia páginas suficientes para inscrever o projecto no Lulu.com). Considerei que não estavam reunidas as condições ncessárias para a publicação do trabalho.

(isto é só para te deixar descansada em relação a possíveis pensamentos)

Sam
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

User avatar
azert
Edição Única
Posts: 2705
Joined: 14 Sep 2007 12:30
Location: Braga
Contact:

Re: Preto e Branco

Postby azert » 20 Sep 2007 14:27

Samwise wrote:(isto é só para te deixar descansada em relação a possíveis pensamentos)

Sam


:smile:
Image Image

User avatar
azert
Edição Única
Posts: 2705
Joined: 14 Sep 2007 12:30
Location: Braga
Contact:

Re: Preto e Branco

Postby azert » 20 Sep 2007 14:30

"(...) da substância desagradável de cor castanha nos erguemos e à substância desagradável de cor castanha tornaremos."

"substância desagradável de cor castanha"?! :whistling:
Image Image

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14974
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: Preto e Branco

Postby Samwise » 20 Sep 2007 14:47

:lol2:

Fui vítima da minha própria brincadeira. Nem consigo parar de tanto me rir.

Há uns dias atrás andei a brincar com a ferramenta de "Bad Words" na administração do fórum e deixei lá duas entradas de substituição para dois supostos termos de calão.... um deles é precisamente esse que apanhaste. Portantos, "substância desagradável de cor castanha" no texto original é só uma palavra, e começa por "m".

Nunca mais me lembrei disso.

Vou desfazer as entradas, antes que haja confusão à séria.

Sam
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

User avatar
azert
Edição Única
Posts: 2705
Joined: 14 Sep 2007 12:30
Location: Braga
Contact:

Re: Preto e Branco

Postby azert » 20 Sep 2007 17:09

"Seria fácil a Ricardo esticar o braço, deitar-lhe a mão ao pescoço, puxá-la para si, apertá-la contra os lábios, tratá-la como se a uma mulher da vida, como se a uma puta, sorver-lhe o sabor azedo como se mais líquidos não houvesse à face da terra. Em estômago vazio cairia essa saliva, fria como ácido, cortante na descida como garras de tigre sobre cortinado de seda."

Gosto da analogia. :biggrin: (Tenho estado a ler aos bochechos!)
Image Image

User avatar
Thanatos
Edição Única
Posts: 13871
Joined: 31 Dec 2004 22:36
Contact:

Re: Preto e Branco

Postby Thanatos » 20 Sep 2007 17:11

Caraças! Este texto é enooooorme!

E sim isto dito por um gajo que os escreve no mínimo com 3000 palavras soa a hipócrita mas a verdade é que eu não leio os meus textos :laugh:, mas gosto de ler os teus.

Não arranjas em formato pasta de papel, vulgo folha A4, para um amigo e levavas logo à noitinha? :wink:
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

User avatar
azert
Edição Única
Posts: 2705
Joined: 14 Sep 2007 12:30
Location: Braga
Contact:

Re: Preto e Branco

Postby azert » 20 Sep 2007 17:21

"(...) estão todos dormindo, sobre as fachadas de betão as pálpebras da cidade quedam-se mudas, as de plástico, as de madeira, as de pano, e as de pele humana e pestanas, portadas última entre o cá de dentro e o lá de fora (...)"

Nice!
Image Image

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14974
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: Preto e Branco

Postby Samwise » 20 Sep 2007 18:10

Thanatos wrote:Não arranjas em formato pasta de papel, vulgo folha A4, para um amigo e levavas logo à noitinha? :wink:


Sure thing. :smile:

Sam
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

User avatar
azert
Edição Única
Posts: 2705
Joined: 14 Sep 2007 12:30
Location: Braga
Contact:

Re: Preto e Branco

Postby azert » 20 Sep 2007 23:50

Done! Está lido, ainda estou a digerir, mas digo que gosto da forma como os trechos têm sempre alguma relação uns com os outros, como a personagem (autor??) que escreve também se relaciona com os restantes trechos, custa um bocadinho a ler, com tão poucos pontos, abundam as vírgulas :wink: , mas vale a pena pelos momentos de "flagrante humanidade", deixa-me lá dizer esta piroseira, que isto não são horas nem eu crítica literária, faz-se o que se pode. :mrgreen4nw:

É assim uma espécie de postal-ilustrado-panorâmico-da-cidade, ou uma espreitadela pelas "janelas" dos outros, à la Jimmy Stewart na "Janela Indiscreta". :cool:
Image Image

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14974
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: Preto e Branco

Postby Samwise » 21 Sep 2007 10:24

Obrigado, azert (ainda me está a custar adaptar-me a este novo teu alter).

Como de costume, os teus comentários fazem "móssa" boa aqui por dentro. Tal como disse numa entrevista improvável, os vários excessos deste texto, vírgulas incluídas, tornam-no um bocado indigesto, mas mesmo assim não lhe quis mudar a leveza, sob pena de diliuir/destruir, entre outras coisas, os tais momentos de "flagrante hum(an)idade".

Tzimbi, agradeço-te o reparo do "ladrão". Tinha-me escapado quando fiz a primeira correcção - o que significa que o Thanatos tem à disposição, em formato de pasta de papel, mais uma gralha para me espicaçar...

Sam
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

User avatar
Thanatos
Edição Única
Posts: 13871
Joined: 31 Dec 2004 22:36
Contact:

Re: Preto e Branco

Postby Thanatos » 24 Sep 2007 18:23

Acho que este é o teu texto mais auto-biográfico.

Está muito bom mesmo mas se me permites um reparo (e não é sobre as inúmeras gralhas que isso é coisa de somenos) só penso que as várias personagens têm "vozes" muito semelhantes, i.e. não se diferenciam muito umas das outras, exceptuando o Ricardo, por razões óbvias :wink:
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14974
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: Preto e Branco

Postby Samwise » 24 Sep 2007 18:37

Thanatos wrote:Acho que este é o teu texto mais auto-biográfico.

Está muito bom mesmo mas se me permites um reparo (e não é sobre as inúmeras gralhas que isso é coisa de somenos) só penso que as várias personagens têm "vozes" muito semelhantes, i.e. não se diferenciam muito umas das outras, exceptuando o Ricardo, por razões óbvias :wink:



Thanatos, a ti permito todos os reparos do mundo.

Esse em concreto tem algo de explicável: quase todos os personagens são um alter-ego meu.... :wink:

Sam
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

Lord Wimsey
Dicionário
Posts: 548
Joined: 29 Nov 2005 21:01
Location: Aveiro
Contact:

Re: Preto e Branco

Postby Lord Wimsey » 24 Sep 2007 20:18

Estarei eu a ver um heterónimo pseudónimo Ricardo e um outro (o mesmo?) heterónimo pseudónimo Ricardo?

:lol2:


Return to “Samwise”




  Who is online

Users browsing this forum: No registered users and 1 guest

cron