A Biografia de Martin Miller

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A Biografia de Martin Miller

Postby Samwise » 16 Oct 2007 01:07

nota prévia: para quem desconhece, na obra de Jorge Luis Borges, os títulos: "História Universal da Infâmia" e "Ficções", as referências presentes no seguinte conto poderão não fazer qualquer sentido. Asseguro-lhes, no entanto, que, à excepção do nome do protagonista, nenhuma delas é fruto do acaso, ou da minha imaginação.
Acho que tive uma boa ideia para escrever este texto. Mesmo uma boa ideia. Como em todas as minhas boas ideias, seria escandaloso que alguém não tivesse pensado nela antes de mim. Pensaram, de certeza absoluta, e deram-lhe um desenvolvimento muito melhor que o meu, também por certo. Quero com isto dizer que não a copiei de ninguém, mas sei que ela anda por aí...

"Não ser um homem, ser a projecção do sonho de outro homem, que humilhação incomparável, que vertigem!"
in "As Ruínas Circulares", Jorge Luis Borges

"Nalguma estante de algum hexágono (pensaram os homens) deve existir um livro que seja a chave e o resumo perfeito de todos os outros (...)"
in "A Biblioteca de Babel", Jorge Luis Borges



A Biografia de Martin Miller

A 20 de Outubro de 198-, aos primeiros sinais de enevoado ocaso dessa tarde outonal, Martin Miller desceu os sete degraus que o colocavam dentro da Livraria. Ficava ao fundo de uma viela suja e mal iluminada, rodeada de obscuros bordeis e tascas de reputada desordem, na periferia de num bairro histórico da cidade de Buenos Aires; uma rua de más recordações, frequentado por assassinos, faquistas e malandros, e ainda por escritores e poetas falhados, intelectuais de obra na gaveta, gentalha disposta a fazer uso da naifa ou do gatilho ao menor sinal de desafio à honra, sua ou da damas de ocasional companhia. A Martin Miller, atraiu-o um letreiro luminoso intermitente (por mau funcionamento de algum fusível, por certo) que anunciava a compra e venda de magazines, raridades, primeiras edições e publicações marginais.

Achou-se num amplo espaço rectangular, rodeado de livros armazenados em estantes agarradas às paredes e em mesas de madeira ao centro. As prateleiras estavam repletas de sabedoria acumulada, distribuída por fileiras de lombadas dispostas em irregular alinhamento, couros enrijecidos de cor creme, castanha, grená, preta, com inscrições a dourado e fivelas de marcação suspensas no ar, milhares e milhares de publicações, desde o chão até ao tecto - um tecto baixo o suficiente para que Martin Miller conseguisse alcançar a última prateleira ao esticar o braço. No espaço exíguo, estreitos corredores geométricos formavam-se entre as mesas - quatro mesas, também rectangulares. Aos cantos da sala, nos vértices do rectângulo maior, poltronas individuais de couro negro e marroquim dourado aguardavam os inquilinos sequiosos da leitura. Por cima de cada uma, pendurado em plano diagonal, um espelho monumental multiplicava quase até ao infinito a quantidade de volumes existentes na Livraria. Não havia um balcão de atendimento naquela sala, talvez porque não sobrava espaço para tal, talvez porque não fosse necessário. O silêncio crepitante das velas que ardiam nas paredes parecia querer confirmar que a loja estava deserta de pessoas.

Martin Miller começou por fixar os livros na mesa à sua frente; o seu aspecto era rugoso e amarelado, como a pele dos velhos enfermos. Libertavam um odor a papel antigo e saliva seca de canto de página, um odor refinado através dos anos em armazéns poeirentos, dentro de caixotes de cartão cheios de outros documentos fedorentos e ninhos de traça do papel. Não conseguiu reconhecer nenhum dos títulos para que olhou: "IX Tomo da Enciclopédia de Uqbar", "Segunda adenda ao Trigésimo Sétimo Regulamento da Lotaria", "O Dom Quixote de Menard", ou "Abril Março", e furtou-se a abrir qualquer um deles, com receio de os danificar. Percorreu o primeiro corredor, e de igual forma os livros nas prateleiras eram-lhe totalmente desconhecidos. Chegou ao vértice oposto ao da entrada e deteve-se numa estante de publicações mais recentes, todas da mesma largura, altura e cor, objectos pertencentes à mesma colecção; eram biografias de gente de quem nunca tinha ouvido falar. Por exemplo, aí figuravam: "A biografia de Monk Eastman", "A biografia de Lazarus Morell", " A biografia de Arthur Orton" e "A biografia de Bill Harrigan". Pegou num deles. Leu a primeira página. Leu as seguintes. Folheou algumas páginas ao acaso. Pegou em mais livros. A estrutura era similar; tratavam-se dos diários desses indivíduos, escritos, na terceira pessoa, fazendo assim justiça aos títulos. A primeira página depois da capa começava sempre com a data e a descrição do dia nascimento, e a última página antes da contra-capa terminava sempre com o momento da morte. Pelo meio, afigurou-se-lhe, uma selecção escolhida das datas de maior relevo na vida desses indivíduos. O discurso era directo, quase ríspido, não havendo lugar a sentimentos ou juízos de valor. Alguns mistérios, contudo: quem teria escrito tais documentos apócrifos? E quem eram aquelas pessoas a ponto de terem interessado ao mundo, ou a alguém, a ponto de lhes dedicar uma biografia?

Martin Miller preparava-se para seguir corredor fora quando uma impossibilidade lhe captou a atenção. Ali estava, no meio aparentemente aleatório e desordenado de todas as outras biografias, a sua biografia. A biografia de Martin Miller. Hesitante, perplexo, pensando tratar-se de uma ficção, de uma infâmia (primeiro porque não havia dado autorização para escreverem sobre si, depois porque nunca lho haviam pedido tal coisa), retirou o livro da prateleira e olhou para a capa vazia durante largos minutos, antes de o abrir, por fim.
Leu:

"Martin Desmond Ferdinand Miller nasceu a 3 de Março de 194-, em Londres, ao som do assobio e da explosão das bombas V2 alemãs, numa clínica militar erguida sob os escombros de uma antiga capela, no bairro de ..."

Afundou-se na poltrona mais próxima e começou a folhear com mais atenção as páginas do seu livro. De início absorveu com amargura os pormenores de infância que já não recordava, e ia formando imagens mais concretas, mais pormenorizadas, daqueles momentos que ainda persistiam. As linhas do texto forneciam pistas detalhadas que lhe iam corrigindo a falhas preenchidas com invenções. Relembrou de forma cristalina, com os dedos por sobre a cicatriz, o dia em que num jogo de cabra-cega uma esquina de um tampo de mármore lhe fendeu a têmpora com sangue e violência.

Avançou mais no livro e achou-se subitamente invadido pelo medo. Ainda não havia morrido, e todos os outros livros terminavam na morte do biografado. Quis conhecer o momento da sua morte, mas deteve, a tempo e a custo, a mão que passava as folhas. Por certo, se persistisse com a teimosia, viveria até ao fim da vida aterrorizado com a imagem, com o saber da morte, num desejo misto de antecipação e de repulsa pela chegada do fim. Folheou então o livro até chegar à data desse mesmo dia:

"A 20 de Outubro de 198-, aos primeiros sinais de enevoado ocaso dessa tarde outonal, Martin Miller desceu os sete degraus que o colocavam dentro da Livraria. Ficava ao fundo de uma viela suja..."

Parou. Pressentiu que, para além de si próprio, outros o estavam a ler. Estavam a ler aquilo que ele próprio estava a ler, como se de um personagem de um conto fantástico se tratasse. Fechou o livro. O medo agora, maior do que conhecimento da morte, era que esse pensamento atroz fosse verdade. Que o tornasse um personagem fictício e que, a qualquer momento, a leitura que estava a fazer da sua vida alcançasse o espaço temporal da realidade, que essa junção infernal o aprisionasse num ciclo de infinitas duplicações. Estaria então condenado a viver apenas quando outros o lessem, quando abrissem o seu conto, a sua biografia, largado no limite absurdo da repetição das mesmas acções, colocadas sempre pela mesma ordem, através das mesmas palavras. Ficaria impossibilitado de ser livre, de agir por acção própria. De se evadir de uma prisão de tinta e papel!

Desconhecendo, por vontade própria, o conteúdo da página seguinte, Martin Miller voltou a diluir a sua biografia no meio das demais, e dirigiu-se para os degraus de saída sem outra vontade que não o oblívio. Desconhecendo que a página seguinte estava em branco, assim com as restantes, não por incerteza do autor face ao seu destino, mas precisamente pelo contrário, pela infalibilidade de não haver um dia seguinte, Martin Miller subiu os sete degraus e saiu para a rua.

A História não conserva mais factos acerca da sua vida.


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Re: A Biografia de Martin Miller

Postby annawen » 16 Oct 2007 12:37

he, he, he, mais um Borgesiano.

Está fixe, Sam :smile:

O escritor sérvio Zoran Zivkovic, no livro "Biblioteca", tem um conto parecido mas as preocupações do protagonista são diferentes das do Martin Miller. O chama-se "A Biblioteca Nocturna". O livro está publicado pela Cavalo de Ferro.

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Re: A Biografia de Martin Miller

Postby Samwise » 16 Oct 2007 15:32

annawen wrote:he, he, he, mais um Borgesiano.


Digamos que estou a iniciar uma calma militância... :notworthy:

Sobre o Zivkovic, li um artigo sobre esse livro numa das "Bang!", salvo erro. Havia muitas variações acerca dos livros. Agora que sei que inclui um conto de temática semelhante, pode ser que me decida a dar uma epsreitadela, para ver se aprendo a escrever como deve ser. :tongue:

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Re: A Biografia de Martin Miller

Postby annawen » 16 Oct 2007 18:20

Sim, são vários contos sobre livros. É muito J. L. Borges. Lês num instante porque é muito fininho. Até podes lê-lo numa tarde na Fnac.

Agora que sei que inclui um conto de temática semelhante, pode ser que me decida a dar uma espreitadela, para ver se aprendo a escrever como deve ser. :tongue:


There is nothing wrong with your writing :smile:


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