Miguel Torga, a complexidade de ser simples.

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Bugman
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Miguel Torga, a complexidade de ser simples.

Postby Bugman » 09 Mar 2010 17:47

O simples desfraldar da sua vida não nos diz quem era Miguel Torga.
O simples listar dos prémios que ganhou, não traduz a simplicidade da sua escrita.
Apenas a simplicidade da sua escrita nos permite alcançar a complexidade do seu ser.

Miguel Torga é um nome maior da literatura portuguesa. Não tem grandes romances, mas tem muitos contos. Contos que não saturam, passados num Portugal esquecido, num Portugal tão longínquo e no entanto tão próximo e ali ao virar da esquina, mesmo quinze anos após o falecimento do autor.

Os contos de Torga poderiam ser os contos da infância de um Portugal atrasado, mas que contam, como as aventuras de uma criança, o que é o Portugal adulto.

A escrita dos Contos de Miguel Torga é feita numa linguagem rústica e dura e simples, como os seus personagens, postos à prova pela dureza da vivência diária. É uma escrita que nos relata os imaginários de todo um povo obscurantista desde sempre e demasiado ocupado a conseguir ter pão na mesa ao jantar para se preocupar com o dia de amanhã.

Os Contos de Miguel Torga são o Portugal e a sua memória colectiva. Neles encontramos a essência do ser Português e tudo envolto nessa simplicidade complexa a que chamamos Portugal.
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Re: Miguel Torga, a complexidade de ser simples.

Postby Thanatos » 09 Mar 2010 19:36

Uma coisa que sempre me fez alguma espécie foi o facto dele não chegar a ter prémio Nobel. Mas quem sou eu para por em causa as decisões da Academia...
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Re: Miguel Torga, a complexidade de ser simples.

Postby Arsénio Mata » 10 Mar 2010 01:05

Eu por acaso lembro-me de quando andava no ciclo achava o senhor uma grande seca, sempre a falar das plantas, das vaquinhas e das pedras da calçada... Mas pronto, nessa altura o mais profundo que havia lido era o Bando dos 4 e os Cinco (que não eram um bando). Tenho que ler algo dele outra vez. Alguma sugestão?

Thanatos wrote:Uma coisa que sempre me fez alguma espécie foi o facto dele não chegar a ter prémio Nobel. Mas quem sou eu para por em causa as decisões da Academia...

Acho que o problema está todo em ele não ter nascido no Tibete ou na RD do Congo. :P
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Re: Miguel Torga, a complexidade de ser simples.

Postby Bugman » 10 Mar 2010 03:17

Pega num livro de contos. Pessoalmente gosto dos "Contos da Montanha" ou "Novos Contos da Montanhas". O "Pedras Lavradas" parece-me ser o expoente dos contos, mas pede já alguma habituação ao estilo.

A questão do Nobel é algo que me questiono também. Dos escritores modernos que se ensinam no secundário era já aquele que eu considerava maior. A poesia é um outro campo. Prometo para breve (do tipo três meses ou assim :whistle: ) juntar aqui comentários à sua poesia.
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Re: Miguel Torga, a complexidade de ser simples.

Postby runa » 17 Dec 2010 02:40

Thanatos wrote:Uma coisa que sempre me fez alguma espécie foi o facto dele não chegar a ter prémio Nobel. Mas quem sou eu para por em causa as decisões da Academia...


Ele foi considerado várias vezes, mas o governo Português nunca fez força por ele por ser visto como um 'saloio'. Tal como ele disse, as pessoas sobre quem ele escrevia, não sabiam ler.

No meu entender, as melhores coisas dele estão nos Diários. Não que o resto seja mau...

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Re: Miguel Torga, a complexidade de ser simples.

Postby mellon-fa » 19 Dec 2010 23:42

Torga é um potentado!
É um dos poucos que figura, realmente, no elenco dos GRANDES.
Gostei muito da tua abordagem, Bugman, fizeste-lhe justiça.
Gosto dos contos, mas o que verdadeiramente me toca, aquilo que, em mim, masi manifesta a grandeza de Torga é a sua poesia. É algo avassalador.

Livro de horas

Aqui, diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
das virtudes teologais,
que são três,e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
e o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!


GRANDE!
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Re: Miguel Torga, a complexidade de ser simples.

Postby annawen » 20 Dec 2010 11:32

Realmente.

urukai
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Re: Miguel Torga, a complexidade de ser simples.

Postby urukai » 20 Dec 2010 11:50

nhééééé...
Faço melhor!!!!



Joking! :devil:
Muito bom! :tu:

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Re: Miguel Torga, a complexidade de ser simples.

Postby mellon-fa » 20 Dec 2010 17:57

Desculpem lá, mas a culpa é do Bugman :whistle: é que Torga é.... TORGA

Orfeu Rebelde



Orfeu rebelde, canto como sou:

Canto como um possesso

Que na casca do Tempo, a canivete,

Gravasse a fúria de cada momento;

Canto a ver se o meu canto compromete

A eternidade no meu sofrimento.


Outros, felizes, sejam rouxinóis...

Eu ergo a voz assim, num desafio:

Que o céu e a terra, pedras conjugadas

Do moinho cruel que me tritura,

Saibam que há gritos como há nortadas,

Violências famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte

No corpo dum poeta que a recusa,

Canto como quem usa

Os versos em legítima defesa.


Canto, sem perguntar à Musa

Se o canto é de terror ou de beleza.


O negrito é meu ;) "O destino destina, mas o resto é comigo!" :bow:
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Re: Miguel Torga, a complexidade de ser simples.

Postby Thanatos » 20 Dec 2010 19:54

Por favor não dêem oportunidade à mellon-fa de falar de Mário de Sá-Carneiro. Quem vos avisa... :whistle:




mellon-fa: just kidding ;) :friends:
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Re: Miguel Torga, a complexidade de ser simples.

Postby mellon-fa » 28 Dec 2010 11:18

Thanatos wrote:Por favor não dêem oportunidade à mellon-fa de falar de Mário de Sá-Carneiro. Quem vos avisa... :whistle:




mellon-fa: just kidding ;) :friends:



:twisted:


:D
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