Jorge Luis Borges

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Samwise
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Jorge Luis Borges

Postby Samwise » 29 Dec 2006 11:19

http://en.wikipedia.org/wiki/Jorge_Luis_Borges

http://www.themodernword.com/borges/


Este é um autor que parece ser bastante acarinhado pelas várias vertentes do mundo literário: ora pela facção "Literatura Séria", ora pela facção "Ficção fantástica e outros sub-produtos sem interesse".

As referências à sua obra aparecem nos mais diversos cantos imagináveis, desde livros de Eça de Queirós (de quem Borges era aparentemente admirador), até anúncios a créditos bancários que passam na rádio.

Estou com vontades de investi(ga)r para estes lados.

De quem já leu este autor (e não duvido que andemo por aí alguns fãs incondicionais), o que é que aconselham para começar? Pode ser o "Ficções"?

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Re: Jorge Luis Borges

Postby Thanatos » 29 Dec 2006 12:11

O Aleph, porque é para ti Samwise :wink:

Mas se fosse a ti esperava uns tempinhos. Penso que uma certa editora vai fazer uma surpresa ao pessoal Borgiano.
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Re: Jorge Luis Borges

Postby Samwise » 29 Dec 2006 12:33

http://www.fcsh.unl.pt/borgesjorgeluis/tex...uis/textos1.htm

Podes-me confirmar se estes textos estão completos?

"O Aleph" que referes é a colectânea onde se encontra este conto (que por acaso também se chama "O Aleph"), certo?

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Re: Jorge Luis Borges

Postby Thanatos » 29 Dec 2006 13:00

:ohmy: Olha hoje já aprendi uma coisa! Não fazia ideia que esses textos estivessem na net nacional! Mas respondendo à tua questão, sim, tanto quanto pude ver parecem-me textos integrais (ganda paxorra do gajo :smile:).

Sim existe por cá uma colectânea já dos anos 80, salvo erro, com esse título. Agora não tenho o livro à mão e não me apetece empoleirar-me nos armários, mas quase tenho a certeza que é da Estampa e aparece muito na Feira do Livro.
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Re: Jorge Luis Borges

Postby Steerpike » 29 Dec 2006 14:14

Thanatos wrote:Sim existe por cá uma colectânea já dos anos 80, salvo erro, com esse título. Agora não tenho o livro à mão e não me apetece empoleirar-me nos armários, mas quase tenho a certeza que é da Estampa e aparece muito na Feira do Livro.


Exactamente, edição de 1976. Entretanto comprei a obra completa em quatro volumes e desfiz-me desse exemplar.

Abraços,
Luís
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Re: Jorge Luis Borges

Postby Samwise » 29 Dec 2006 14:19

Steerpike wrote:
Exactamente, edição de 1976. Entretanto comprei a obra completa em quatro volumes e desfiz-me desse exemplar.

Abraços,
Luís


Acho que vi esses volumes nas prateleiras da FNAC.

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Re: Jorge Luis Borges

Postby annawen » 29 Dec 2006 16:37

Borges é um dos meus escritores favoritos. Tenho a obra completa dela, os volumes de que falou o Steerpike e mais dois com as colaborações dele com outros escritores. Também da Teorema. Mais um livrinho sobre conferências que deu sobre poesia. Mais um de entrevistas.

A melhor maneira é realmente começares pelas colecções de contos: "Ficções"; "O Aleph" (o conto Aleph está incluído nesta colecção); "O Livro de Areia"

Dele também gosto dos artigos e das críticas a livros.

Também de alguns poemas.

Devo a Borges a descoberta de muitos escritores: estou a lembrar-me por exemplo de Wells e Chesterton.

O livro "Genius" do Harold Bloom dedica-lhe um capítulo.

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Re: Jorge Luis Borges

Postby acrisalves » 29 Dec 2006 21:57

Ohh! Também já andei a ler para aquels 4 volumes do Borges... o orçamento não o permite... por enquanto fico-me por ter lido Ficções... :smile:

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Re: Jorge Luis Borges

Postby annawen » 30 Dec 2006 13:13

Em relação ao post do Alexandre, acrescento que Alberto Manguel também é autor de um livro muito borgesiano: "The Dictionary of Imaginary Places". Aqui estão compilados muitos dos lugares imaginários alguma vez criados pelo homem. Aparecem muitos lugares criados por Borges, por exemplo a famosa Biblioteca.

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Re: Jorge Luis Borges

Postby Steerpike » 04 Jan 2007 15:29

Já que estamos numa de recomendar pérolas borgesianas, aproveito para relembrar a delirante _Nova história universal da infâmia_ do Rhys Hughes, que a Livros de Areia Editores publicou o ano passado.

Abraços,
Luís
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Re: Jorge Luis Borges

Postby vampiregrave » 06 Jul 2010 19:32

Deixo aqui a minha recente critica a Ficções, semelhante à que disponibilizei no meu blog:

Ficções
2009 (Edição original: 1944)

Título Original: Ficciones
Autor: Jorge Luís Borges
Editora: Teorema
Tradução: José Colaço Barreiros
Páginas: 171
ISBN: 978-972-695-861-1


Ficções é uma compilação de contos que engloba dois livros diferentes, tendo sido uma das publicações que mais contribuiu para o impacto a nível internacional de Jorge Luis Borges. Os temas centrais da sua obra, tais como a distinção da realidade da percepção da realidade, a infinidade, o tempo, e a memória, são perfeitamente identificáveis nas peças aqui incluídas.

O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam

Tlön, Uqbar, Orbis Tertius

Este primeiro conto descreve o conteúdo de um livro imaginário, conteúdo esse fruto também da imaginação, em que uma sociedade secreta trabalhou ao longo de séculos, para criar uma enciclopédia que retrata um mundo único e verosímil. A teia aqui entretecida é uma das características comuns em diversos contos de Borges, mas neste caso, espelhando em demasia a sua erudição, acaba por tornar o seu conteúdo excessivamente confuso.

Pierre Menard, autor do Quixote

Uma inteligente paródia, em que são enumeradas as absurdas publicações de um autor (ficcional), entre as quais uma nova versão de Dom Quixote. Facto interessante é essa versão ser uma transcrição à letra, da obra original:

“O texto de Cervantes e o de Menard são verdadeiramente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais rico.”

Tal pode ser lido como uma crítica à ambiguidade da análise literária, demonstrando que as especificidades de cada indivíduo têm impacto ao nível do significado atribuído a um texto ou, por outro lado, como uma ridicularização do acto de plágio, que progressivamente se veio a tornar mais comum.

As ruínas circulares

Aqui, Borges joga com a dualidade sonho-realidade (temas recorrentes na sua obra), algo que serve apenas de véu para a total irrealidade contida no conto. Um clássico que demonstra a capacidade do autor em condensar uma ideia em poucas páginas.

A lotaria em Babilónia

Ilustrando uma sociedade baseada na aleatoriedade, em que cada decisão é tomada recorrendo a uma lotaria, uma sociedade de inteira desresponsabilização. Carece, talvez, de uma simbologia tão profunda, mas demonstra os extremos que Borges consegue atingir com as suas ideias.

Análise da obra de Herbert Quain

À semelhança de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, o conto trata de obras ficcionais, denotando-se influências de Freud. Infelizmente os excessos que apontei no primeiro conto, são também aqui visíveis, tornando o conteúdo mais denso do que seria necessário.

A biblioteca de Babel

“O universo (a que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poções de ventilação no meio, cercados por parapeitos baixíssimos.”

É com esta introdução que somos transportados para um labirinto temporal e espacial, em que testemunhamos a busca de conhecimento por parte dos bibliotecários, e o seu desespero, inerente ao facto de saberem que esse conhecimento é praticamente inalcançável. Mas mesmo essa esmagadora realidade demove o homem na sua vontade em atingir o conhecimento perfeito, no seu desejo de tocar Deus.

O jardim dos caminhos que se bifurcam

Este policial que dá o título ao primeiro livro, gira em torno da tentativa do seu protagonista em fazer chegar uma importante informação aos seus superiores. Indiferente ao país que serve (Alemanha), e às consequências da divulgação de tal informação, o espião de origem chinesa pretende apenas demonstrar que, apesar da sua origem, é capaz de influenciar o destino dos exércitos. A execução do seu plano sem escrúpulos dá-se em paralelo com a explicação da obra de um dos seus antepassados, conjugando os aspectos já referidos, com a temática do tempo (e da sua unicidade ou multiplicidade).

Artifícios

Funes ou a memória

Segundo o próprio autor, este conto funciona como uma metáfora da insónia. Nele se retrata a prodigiosa memória que Ireneo Funes adquire, após um acidente a cavalo que acaba por o deixar paralisado.

“Dormir é distrair-se do mundo.”

Invadido por uma imensidão de minuciosas recordações, a abstracção dessas recordações e do mundo é-lhe bastante difícil, pelo que o acto de dormir se torna uma árdua tarefa.

A forma da espada

Centra-se na história de uma cicatriz, passada em tempos de guerra, em que contrastam a coragem e a honra, com a cobardia da traição. O final não é de todo imprevisível, mas vem solidificar o tema desenvolvido ao longo do conto.

Tema do traidor e do herói

Apresenta-nos um paralelo entre a literatura e a realidade, relembrando-nos que a História é uma peça escrita pelos seus próprios actores, e em que a influência do seu desempenho se estende para o futuro. Um conceito que poderia ter sido mais desenvolvido, apresentando um fim demasiado abrupto, pelo que o resumo da ideia principal não está à altura do que acontece noutros dos contos presentes no livro.

A morte e a bússola

Um conto policial, relatando a investigação de um série de crimes aparentemente relacionados com uma seita, cujo propósito é a busca do verdadeiro Nome de Deus. Proporciona-nos um ponto de vista menos comum entre o género, em que o investigador desvenda o mistério que envolve as mortes, apenas para descobrir foi manipulado para o fazer.

O milagre secreto

Jaromir Hladik é preso pela Gestapo e posteriormente condenado à morte. Enquanto aguarda o cumprimento da sentença, na escuridão da noite que precede a sua execução, Hladik pede a Deus que lhe conceda um ano, de modo a poder concluir um drama em verso, com o qual se pretendia redimir da sua restante obra, da qual se arrependia. O seu desejo é concretizado, embora num momento e de uma forma inesperada e, de facto, secreta.

Três versões de Judas

Classificado por Borges como uma fantasia cristológica, este conto apresenta uma curiosa perspectiva de Judas, interpretando a sua traição de um forma que quebra os raciocínios geralmente aceites.

O fim

Um curto relato de uma luta com facas, cuja simplicidade, apesar de refrescante, não deixa de contrastar com o restante conteúdo de Ficções.

A seita de Fénix

Trata de um culto que se baseia num segredo (que não é esclarecido no conto), que se mantém vivo apesar do desgaste provocado pela passagem do tempo, uma sobrevivência baseada no instinto, quando as suas bases originais se apagaram da memória. Creio poder estabelecer uma relação com as religiões actuais, em que muitas pessoas sacrificam o seu espírito crítico, permitindo que a sua crença se transforme num mero hábito.

O Sul

Encerrando o livro, O Sul narra os vertiginosos pensamentos e os surreais sonhos de Juan Dahlmann, em parte amplificados por uma doença. Após ter recuperado, viaja para a sua quinta no sul, indo ao encontro de um destino fatal.


Apesar de existirem compilações mais abrangentes (como os volumes de Obras Completas de Jorge Luis Borges também editados pela Teorema, ou o Collected Fictions da Penguin), Ficções não deixa de incluir alguns dos melhores contos de Borges, funcionando como uma óptima introdução para quem nunca teve oportunidade de conhecer a obra de um dos autores mais influentes do século XX.


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