Gonçalo M. Tavares

Escolha um autor e fomente uma discussão sobre a sua obra e a sua vida
Pedro Farinha
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Gonçalo M. Tavares

Postby Pedro Farinha » 02 May 2005 18:28

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Gonçalo M. Tavares é um dos novos rostos da literatura portuguesa e, a meu ver, um dos melhores e com mais futuro.

Nascido em 1970 apenas publicou o seu primeiro livro em 2001 apesar de ter escrito uns tantos antes dessa data. Segundo ele, numa excelente entrevista publicada no último Jornal de Letras, criuou a disciplina de durante 12 anos acordar todos os dias às cinco da manhã e escrever a essa hora no sossego da casa.

É um escritor original que prima pela contenção nas palavras, pela lógica matemática que introduz na literatura, pela descontrução de frases feitas e por algum experimentalismo.

Os seus livros são organizados em "séries".

Existe a série Senhores constituída por quatro livros, onde sob o ponto de vista de cada personagem, surgem pequenas histórias. Quase que parecem posts de um blog.

Um exemplo:

A morte de Deus

O senhor Juaroz pensou num Deus que, em vez de nunca aparecer, aparecesse, pelo contrário, todos os dias, a toda a hora, a tocar à campainha.
Depois de muito meditar sobre esta hipótese, o senhor Juaroz decidiu desligar o quadro da electricidade.

in O Senhor Juaroz

Existe a série "Investigações" da qual nunca li nada, e a melhor série que são Os livros pretos constituídos por três dos melhores livros que já li escritos em português:
Um homem, Kalus Klump

A máquina de Joseph Walker

Jerusalém


são livros sobre a guerra, a ditadura e sobre a maldade existente nos homens. são livros dificeis de escrever sobre eles, num outro tópico pediram-me a sinopse do Jerusalém e não consegui fazê-la.

Quando se está preso, uma das vontades é urinar para cima de uma árvore. É completamente estúpido, mas penso vezes sem conta nisto. Com o pénis entumescido e a bexiga cheia, chegar ao pé de uma árvore e urinar. Apenas isto.

Aqui dentro a natureza usa farda e tem botas, e por vezes até é simpática. E o mais díficil de suportar é quando eles são simpáticos. Quando o inimigo é simpático é sinal de que somos completamente inofensivos. És tão fraco que até o inimigo te ajuda.

in Um homem, Kalus Klump

Gonçalo M. Tavares publicou nestes dois últimos anos cerca de 15 livros e varia de formato a um ponto de ter um livro escrito sob a forma de tabelas A perna esquerda de Paris seguida de Roland Barthes e Robert Musil em que podemos ler aforismos e pensamentos, do tipo:

Termina-se um texto, um romance, quando se tem a sensação (ilusão) de que, finalmente, se conseguiu corrigir um erro que a primeira palavra constituiu.

Não sei se conseguiram ficar com uma ideia do autor. mas acho que é daqueles escritores que quanto mais os lemos menos sabemos deles, pois surgem sempre novas revelações.

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Re: Gonçalo M. Tavares

Postby Riobaldo » 02 May 2005 19:45

Eu ainda só li dois livros dele. "Um homem: Klaus Klump" e "O Senhor Valery" (penso que foi este, ou o Senhor Henri, não me recordo bem). É, sem dúvida, um grande escritor e acho que o descreveste muito bem. Ou pelo menos, melhor do que eu conseguiria fazer.

Quem não leu, devia ler. É muito, muito bom!

PS: Pedro, referiste-te duas vezes ao livro Um homem: Klaus Klump, escrevendo Kalus. Ai ai... mais anteção. E já agora, no outro, não é Joseph Walker, mas sim Joseph Walser ;)
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Re: Gonçalo M. Tavares

Postby Thanatos » 02 May 2005 19:48

TRiiAd wrote: Ai ai... mais anteção.

:P Fala o roto do rasgado.

Agora a sério não vou dizer que é o caso do Pedro mas é decerto o meu que sofro de dislexia e muitas vezes deixo passar coisas incríveis. Não vale a pena ser Nazi Dictionary porque em 90% dos casos são gralhas perfeitamente inocentes.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: Gonçalo M. Tavares

Postby Riobaldo » 02 May 2005 20:38

LOL... realmente devia ter ficado calado :whistle:

Mas eu só disse porque ele referiu-se duas vezes ao mesmo livro com o mesmo erro. Claro que eu percebo essas teclas trocadas :P como se viu, também acontece comigo.
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Re: Gonçalo M. Tavares

Postby Pedro Farinha » 02 May 2005 20:40

No problem :) comigo acontece a toda a hora e ainda piora porque tenho a mania de escrever de cor, sem verificar se os títulos estão correctos.

quem quiser conhecer este autor leia o último Jornal de letras que passa um por um todos os livros dele... e vale a pena !

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Re: Gonçalo M. Tavares

Postby Riobaldo » 03 May 2005 15:10

Um homem: Klaus Klump é bom para começar :) é pequenino, lê-se bem, mas é espectacular. :bow:
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Re: Gonçalo M. Tavares

Postby Cerridwen » 19 Nov 2005 10:26

[size=125]Gonçalo M. Tavares

Entrevista elaborada a partir de questões formuladas pelos leitores[/color]



Eu sou um jovem escritor. Que conselhos me dá para melhorar o meu nível de escrita?

As experiências são determinantes, mas o fundamental é mesmo ler, ler, ler muito e ler bem, ler os melhores autores – e escrever, não parar de escrever.

Saiu agora um livro muito divertido de Vila-Matas que lhe aconselho - Paris nunca se acaba sobre o seu início na actividade de escritor. Desmonta um pouco os mitos e brinca com a questão dos conselhos.



Os escritores que conheço são por norma geniais mas apresentam grandes falhas nas capacidades humanas (principalmente relacionais), sendo que a família e as pessoas mais próximas tendem a sofrer muito com isso. O Gonçalo M. Tavares é, para mim, um raro exemplo que contraria esta regra. É um escritor genial que soube muito bem traçar prioridades e dedicar-se a seu tempo à escrita e a seu tempo à família, de forma plena nas duas áreas. Pessoalmente, pensa que as falhas humanas são o reverso da medalha da genialidade dos escritores? Como conseguiu conciliar tão bem a família (os afectos) e a escrita?

Tento proteger aquilo que me protege: a família. Por isso ela está sempre num local pouco visível.

De qualquer maneira, cada autor é diferente, há artistas e criadores com os gostos privados mais variados. Há grandes escritores que tiveram uma vida de família e grandes escritores que não a tiveram. A vida pessoal e a criação artística não se cruzam; não é por se ter uma determinada vida pessoal que se faz uma grande obra. Faz-se uma grande obra quando se faz uma grande obra.



"Os senhores" são narrativas difíceis de catalogar, de tal forma que chegaram a ser consideradas narrativas infanto-juvenis. Qual é a intenção que preside a esta ambiguidade no género?

Um dos meus livros a que dou maior importância é O Senhor Valéry, precisamente porque tem leituras que passam pela filosofia - leitores da ‘pesada’ associam-no a Wittgenstein e a outros filósofos e escritores - ao mesmo tempo que pode ser lido por crianças. Ser simples e ter diferentes leituras (camadas) agrada-me.

Os senhores andam muito à volta de episódios lógicos.



Pensa contemplar alguma figura da cultura portuguesa em próximos livros da colecção "O Bairro"?

De imediato não, mas daqui a uns tempos talvez. Vamos ver. O bairro não tem nacionalidades: sairam agora O Senhor Kraus e O Senhor Calvino.



Na colecção "O Bairro", porquê a escolha desses nomes para personagens centrais? A escolha é aleatória ou intencional?

É uma escolha intencional. Começa por ser, de certa forma, uma homenagem a autores. Da mesma forma que podemos dar o nome de alguém de quem gostamos a uma sala ou a um objecto, também podemos dar nomes assim a personagens. É o caso. São nomes de escritores de que gosto.



Partindo do princípio de que alguns dos nomes tratados na colecção "O Bairro" se referem a outros autores, na construção dessas obras o Gonçalo tenta aproximar-se da escrita de cada um deles ou tenta encontrar, na escrita de cada um, pontos de contacto com o seu universo literário?

As histórias de cada senhor são um pouco influenciadas pelo espírito do nome da personagem. Há um cruzamento: não tanto no tipo de escrita, mas mais nos temas: há uma certa influência do universo literário de cada autor. O Senhor Brecht conta histórias cujo pano de fundo tem uma certa relação com os temas que preocupavam B. Brecht.



O nome da colecção "livros pretos" pressupõe alguma relação com os temas neles tratados?

Sim. São livros agressivos e por isso tento avisar os leitores: a capa é um sinal. Para que os leitores não vão ao engano e pensem que é um tipo de escrita semelhante aos Senhores.



Ainda nos "livros pretos", qual a razão para a atribuição de uma sub-classificação "o reino"?

“O Reino” é o título de um romance extenso que é composto de diferentes romances. Para já saíram Um homem: Klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser e Jerusalém. São romances ligados entre si (com personagens que estão em diferentes livros) que partem de uma tentativa de compreender o mal. Provavelmente existirão livros pretos que não pertencerão ao “O Reino”, daí a separação.



Qual a razão para a escolha de nomes maioritariamente não-portugueses para os personagens dos "livros pretos"? Esta escolha dos nomes pretende remeter-nos para algum campo ficcional ou geográfico/espacial?

Não foi uma escolha pensada, foi uma escolha instintiva, que surgiu no acto de escrita. A certa altura, os nomes impõem-se, é como se as personagens só se pudessem chamar assim, como se não existissem outros nomes possíveis. Sinto que estas personagens teriam que ter estes nomes, mas não é para as localizar geograficamente. Estes romances poderiam passar-se em qualquer sítio.



Discute-se hoje em dia, a propósito de um grupo de novos autores, a ausência de uma escrita que seja reflexo de um modo de ser e de pensar português. Onde é que o Gonçalo se enquadra, tendo em conta que os seus livros parecem apontar para uma temática universalista?

Julgo que a resposta anterior também responde em parte a esta pergunta. O meu instinto primário foi escrever romances para tentar perceber o mal, como é que ele surge, em que situações se desenvolve e manifesta, etc. A possibilidade de o homem fazer o mal não é característico do nosso país, é característico dos homens em geral. Pessoalmente não quero conhecer e investigar o Homem Português, quero sim perceber e investigar o homem, no geral, e os seus comportamentos.

Julgo que não é muito entusiasmante definir e ficar circunscrito a um pensamento ou uma escrita portuguesas. Eu escrevo em Língua portuguesa e esse é um ponto de partida fundamental. Mas a literatura é um assunto do homem, não de pátrias. Os grandes temas humanos atravessam os vários homens dos vários países. Podemos exprimir a dor que sentimos numa Língua, mas a dor, ela própria não tem gostos ou restrições linguísticas.

Fonte: <a href='http://www.editorial-caminho.pt/cache/html/default_main__q1area_--_3Dcatalogo__q236__q30__q41__q5.htm' target='_blank'>Editorial Caminho</a>

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Re: Gonçalo M. Tavares

Postby EJICCA » 19 Nov 2005 12:32

TRiiAd wrote:Um homem: Klaus Klump é bom para começar :) é pequenino, lê-se bem, mas é espectacular.  :bow:

Tens a certeza? :sick:
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Re: Gonçalo M. Tavares

Postby Riobaldo » 19 Nov 2005 12:55

Tenho :D Por falar nisso. Li há pouco tempo A máquina de Joseph Walser, o segundo dos Livros Pretos. Já não me recordo muito bem do primeiro, mas creio que este segundo consegue ser ainda mais genial. Quando tiver tempo (leia-se: €) leio o Jerusálem.

Os senhores, li apenas um e gostei muito. Gostava de os comprar mas o que contém é que cada um custa cerca de 10€ e lê-se em meia hora :(
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Re: Gonçalo M. Tavares

Postby Pedro Farinha » 19 Nov 2005 15:53

Todos os livros dele merecem a pena, e TriiAD a vantagem dos "senhores" é que podes ler cada um dez vezes e continuas a gostar e descobrir novas coisas.

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Re: Gonçalo M. Tavares

Postby EJICCA » 19 Nov 2005 19:01

:stars: Para mim, o Gonçalo Tavares é apenas mais um "hype", mas isto proventura é de mim :stars:

Li um senhor, que não me recordo qual era, mas achei aquilo um monte de banalidades e de lugares comuns. Tentei ler o "Um homem: Klaus Klump" mas era novamente muito mau, cheio de pretensões de dizer grandes coisas que mais não são do que lugares comuns ditos de outra forma, tenho lido mais alguns excertos que constatemente aparecem na impresa (porque será que o acho um hype?) e fico sempre com a mesma sensação, agh!!! nojo... nojo!! Não me dou bem com a escrita dele.

Peço desculpa pela heresia!!

Triiad, não me deixes de amar, por favor.
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