Cormac McCarthy

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grayfox
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Re: Cormac McCarthy

Postby grayfox » 11 Oct 2010 16:30

concordo que a annawenn aprecia a arte com uma profundidade bem acima da minha por exemplo, o que eu acho intimidatório e me desmotiva a tentar argumentar com ela. o sam la vai conseguindo no cinema :D

Em relação ao meridiano, eu li em português e foi dos livros que mais me custou a avançar (mais do que o Clockwork Orange em inglês), a escrita é muito boa e muito dificil, mas acho que gostei. Se me pedirem uma sinopse so me lembro de uma data de gajos pelo deserto a matar, pilhar, etc.
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Re: Cormac McCarthy

Postby Samwise » 11 Oct 2010 17:42

grayfox wrote:concordo que a annawenn aprecia a arte com uma profundidade bem acima da minha por exemplo, o que eu acho intimidatório e me desmotiva a tentar argumentar com ela. o sam la vai conseguindo no cinema :D


Barely... (sempre que discuto cinema com a Oaklie Ann Wen acabo por descobrir mil e quinhentas coisas que não tinha visto nos filmes antes das discussões. :D )
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Arsénio Mata
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Re: Cormac McCarthy

Postby Arsénio Mata » 13 Oct 2010 00:22

Em relação aquilo que a annawenn dizia ali atrás sobre a relação entre a paisagem e as personagens, esta passagem do "Meridiano de Sangue" parece-me um bom exemplo disso:

Cavalgaram sem parar e o Sol a oriente lançou veios pálidos de luz e em seguida uma faixa de cor mais escura como sangue a coar-se para o alto em jorros súbitos que flamejavam na horizontal e no ponto em que a terra se diluía no céu, no limiar da criação, o cocuruto do Sol emergiu do nada como a cabeça de um enorme falo vermelho até se libertar da orla invisível e ficar imóvel atrás deles, com um pulsar malévolo. As sombras das pedrinhas mais minúsculas estendiam-se como compridos lápis por sobre a areia e as longas silhuetas dos homens e das suas montadas avançavam diante deles como vestígios da noite de onde acabavam de emergir, como tentáculos a ligá-los à escuridão que ainda estava para chegar. Cavalgaram de cabeça pendida, homens sem rosto por baixo dos chapéus, qual um exército que marcha adormecido.


Acho este parágrafo das coisas mais belas e bem escritas que li nos últimos tempos.

Concordo com quem diz que o livro é muito descritivo, e eu até nem gosto de muitas descrições. Mas há certos casos em que é tão bem feito e tem uma relação tão grande com a estória e com as personagens que me parece quase necessário que assim seja. Este livro parece-me ser um desses casos. Outro que me lembro, embora num registo completamente diferente, é O Deus das Moscas.
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Re: Cormac McCarthy

Postby grayfox » 13 Oct 2010 10:33

Por acaso acho que foste buscar um mau exemplo. Em três frases, cinco metáforas. Não há mais figuras de estilo para adornar o texto? Demonstra falta de versatilidade e sobrecarrega o texto de forma desnecessária.Purple prose pura.


PS: não acho que esta passagem seja representativa da escrita dele.
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Re: Cormac McCarthy

Postby Samwise » 13 Oct 2010 15:44

grayfox wrote:Por acaso acho que foste buscar um mau exemplo. Em três frases, cinco metáforas. Não há mais figuras de estilo para adornar o texto? Demonstra falta de versatilidade e sobrecarrega o texto de forma desnecessária. Purple prose pura.


Eu por acaso até gosto muito desse excerto (e até me lembro de o ler no livro, por causa de uma determinada comparação. :mrgreen: ).

Não acho que demonstre falta de versatilidade (nem estou a ver como é possível chegar a esse entendimento a partir daqui), e quanto ao excesso de metáforas, até me parece que estão bem estruturadas no texto a ponto de não se dar pelo excesso, ou seja, a leitura flui bastante bem sem cairmos fora das imagens que cria.

PS: não acho que esta passagem seja representativa da escrita dele.


Certo, mas é complicado, deveras, encontrar um excerto assim pequeno que seja representativo da escrita de qualquer autor.
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Re: Cormac McCarthy

Postby Pedro Farinha » 13 Oct 2010 17:59

Samwise wrote:
Certo, mas é complicado, deveras, encontrar um excerto assim pequeno que seja representativo da escrita de qualquer autor.



Não concordo. Há alguns autores que têm um estilo muito vincado e que mesmo num pequeno trecho são facilmente identificáveis. Se isso é verdade, significa que esse mesmo trecho acaba por ser representativo do autor.

Neste caso, não é o caso ainda que eu goste do trecho.

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Re: Cormac McCarthy

Postby Arsénio Mata » 13 Oct 2010 23:49

grayfox wrote:Por acaso acho que foste buscar um mau exemplo. Em três frases, cinco metáforas. Não há mais figuras de estilo para adornar o texto? Demonstra falta de versatilidade e sobrecarrega o texto de forma desnecessária.Purple prose pura.


PS: não acho que esta passagem seja representativa da escrita dele.


Purple prose não sei o que é, mas quanto ao ser representativa da escrita dele, não era esse o meu objectivo. O que eu queria demonstrar era a relação que a paisagem pode ter com as personagens. ;)
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Re: Cormac McCarthy

Postby DreamGazer » 16 Oct 2010 23:04

annawen wrote:A questão não é gostar ou não. Gostarei eu do Capitão Ahab, Iago, Edmundo, Thomas Sutpen? Não. Mas adoro ler sobre eles. São aquilo que eu chamo (e já chamei aqui no fórum) personagens ao mesmo tempo "bigger" e "lower than life". Do meu ponto de vista, quem perde és tu. São estas personagens que tornam a literatura (e acrescento, todas as artes narrativas, como o cinema, o teatro) inesquecíveis.


Devo ter-me expressado mal. Eu quando falo em "gostar" não quero dizer simpatizar com a personagem, mas antes que quero "importar-me" com ela. E, muito sinceramente, já li metade do livro, e se há coisa que não me "importa" mesmo são as personagens.
Obviamente que também gosto de personagens ambíguas e que me levem a questionar tudo e todos, não quero ler apenas sobre personagens "boazinhas" com as quais me identifique. nem é isso que está aqui em causa. O que eu não quero é ler um livro em que tanto me interessa se aquela personagem está ali ou não, porque não sinto nenhuma conexão com nenhuma das personagens mostradas. Infelizmente, é isso que sinto em relação a este livro. pelo menos para já.


Todas as personagens do livro têm interesse. Mesmo as muito secundárias. Por isso não concordo com o "nenhum é realmente estudado a fundo". Ai são, são.


Essa é a tua opinião. Mas a minha não. Por isso permite-me concordar discordando.


Já pensaste que as duas coisas andam interligadas? Que as paisagens por ando eles passam reflectem as personagens e ao mesmo tempo as enquadram num espaço que é maior do elas? As paisagens nunca são pano de fundo em McCarthy. São personagens como as humanas. Relativizam por vezes o tamanho das personagens humanas (quando digo isso refiro-me ao facto das pessoas se sentirem pequenas) e noutros casos, a imensidão engrandece-lhas. Os grandes livros sobre expedições nunca deixam de relacionar a natureza com o ser humano.


Fiz essa ligação, pois já no "Estrada" o tinha percebido. E mais, nunca escondi que gostava das descrições do autor, mas demais é demais e chegou a uma altura que me aborreceu. Mas também não vou acreditar que as descrições das paisagens se reflictam em todas as personagens (são tantas e tão insignificantes), por isso acho que o autor não deveria ter recorrido somente a isso como auxiliador da percepção das suas personagens, porque acaba por funcionar muito parcamente.

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Re: Cormac McCarthy

Postby annawen » 17 Oct 2010 14:26

DreamGazer wrote:Essa é a tua opinião. Mas a minha não. Por isso permite-me concordar discordando.


Mas com certeza, estamos só a conversar.


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