Um Dia de Cão

User avatar
anavicenteferreira
Edição Limitada
Posts: 1355
Joined: 04 Apr 2005 19:45
Location: Torres Vedras
Contact:

Um Dia de Cão

Postby anavicenteferreira » 18 Jun 2005 23:32

À saída da porta, o calor atingiu-o como um murro no estômago. Bafo de um dragão bêbedo soprando sobre a cidade, enchendo as ruas de luz e febre, fazendo a realidade tremeluzir como uma miragem, murchando flores e gente.

Caetano arriscou uns passos pelo passeio, o sol ardendo-lhe no cabelo escuro, os olhos procurando em vão um táxi nas faixas movimentadas da avenida. Decidiu caminhar até à estação de metro mais próxima, ao mesmo tempo que olhava primeiro para o relógio e depois para a rua vazia de beges, ainda tinha tempo e talvez estivesse mais fresco lá em baixo. Estava parado junto à passadeira, esperando que o sinal mudasse para alcançar o oásis de sombra do outro lado, quando ela chegou; tinha vindo a correr e no rosto longo duas rosetas vermelhas tinham desabrochado. Falava entrecortadamente, cada sílaba de tal modo ponteada pela sua respiração ofegante que ele demorou algum tempo a perceber a urgência que a levara a um esforço tão grande num dia de cão como aquele.

Hugo, nem o assunto poderia ser outro, claro; recebera mais um telefonema de alguém que dizia tê-lo visto, que tinha a certeza absoluta que era ele, que não podia ser outra pessoa e quando é que podiam receber a recompensa. Infelizmente, Caetano suspeitava que este novo telefonema seria um falso rebate como todos os outros: apenas mais uma pessoa que vira alguém vagamente parecido com Hugo Madruga ou que vira apenas um dos muitos anúncios que Ximena espalhara por tudo quanto era jornal e revista e decidira que ela parecia rica o suficiente e desesperada o suficiente para comprar um bilhete para uma qualquer caça aos gambuzinos.

Já se tinham passado seis meses desde que o marido dela desaparecera; saíra mais cedo do trabalho um dia, dizendo que tinha um assunto pessoal para resolver e nunca mais fora visto, tinham encontrado o carro abandonado junto ao Campo Pequeno, aberto, sem nada lá dentro a não ser um livro. Kafka, A Metamorfose – Caetano suspeitava que o tipo tinha realmente sofrido uma metamorfose: abandonara a mulher, talvez tivesse já outra alinhada, à espera dele em qualquer sítio, e começara uma vida nova; mas Ximena nem queria ouvir falar disso. Lá no fundo, Caetano achava que ela já o sabia e que se insistia em manter um detective privado no caso era porque se recusava a acreditar; também era verdade que as provas de fuga eram poucas ou nenhumas: Hugo não tinha levado nenhuma bagagem com ele e não tinham sido feitos nenhuns levantamentos significativos das contas do casal. Mas podia sempre haver uma outra conta algures, Caetano trabalhava há uns bons anos como detective – casos de adultério sobretudo – e sabia que tipos como aquele tinham sempre uma na manga.

No café para onde a tinha levado, Caetano pediu a Ximena que lhe contasse, com calma, exactamente o que lhe tinham dito ao telefone. Ouviu dela aquilo que já esperara e disse-lhe que tinha quase a certeza de que se tratava de mais uma mentira, de mais um engano – honesto ou não. Pôs-se de pé, dizendo-lhe que estava atrasado: tinha um encontro com um tipo que talvez soubesse qualquer coisa sobre o paradeiro de Hugo e arrependeu-se imediatamente de o ter dito.

Queria ir com ele, insistia em ir com ela, tinha de falar com esse senhor que talvez soubesse onde estava o querido Hugo, mas Caetano não o podia permitir. Receava que o tal tipo soubesse realmente onde estava Hugo e que a verdade a despedaçasse como o cristal submetido às notas altas de uma cantora gorda. Saiu sem lhe dar tempo para argumentar e despistou-a rapidamente quando ela tentou segui-lo, já perdera pessoas bem mais experientes do que ela nas multidões da cidade.

Tinha combinado encontrar-se com Yves num certo bar da baixa, conhecido pelas salas escusas e pela clientela ainda mais escusa que o frequentava. Uma vez tinha encontrado um dos grandes criminosos do mundo lá – um dos poucos que ainda não se escondiam atrás de gravatas e secretárias e títulos importantes – um tipo dos velhos tempo: bastara um telefonema para a polícia e outro para um jornalista que lhe devia um favor e o seu negócio triplicara num mês; embora não tivesse aparecido na reportagem, claro, a discrição era essencial ao negócio, mas aquelas coisas sabiam-se sempre, a palavra corria mais depressa que um taxista a quem ofereceram uma gorjeta gorda para quebrar as leis do tempo e do espaço.

Viu Yves sentado numa das mesas do fundo, no canto mais escuro da sala escura do bar, e sentou-se em frente a ele. Winston aceso no canto da boca, Yves estendeu-lhe um envelope por cima da mesa; Caetano estendeu-lhe outro em troca, viu o argelino sobressaltar-se e seguiu-lhe o olhar. Ximena tinha acabado de entrar no bar e olhava em volta, procurando-o – parecia que a tinha subestimado. Yves encolheu os ombros quando ele lhe explicou, resmoneou qualquer coisa sobre les femmes e deixou-os a sós, enquanto Ximena tomava o lugar dele à mesa e Caetano abria o envelope e lia a informação que continha.

Zurique, devia ter adivinhado!
Ana

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14973
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: Um Dia de Cão

Postby Samwise » 20 Jun 2005 11:29

Os teus textos são, para mim, muito imaginativos e interessantes. Este não é excepção.
Para além disso gosto das temáticas que abordas e da maneira como as tratas.

Está muito bom!

SamW
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -


Return to “anavicenteferreira”




  Who is online

Users browsing this forum: No registered users and 1 guest