A primeira viagem da Capitã Bonsaint

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anavicenteferreira
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A primeira viagem da Capitã Bonsaint

Postby anavicenteferreira » 01 Oct 2006 17:48

– Mãe; tens de meter o nariz em tudo? – Morgan Boswell afastou o espelho que tinha encostado ao nariz do marido.– Está morto.
Sentou-se na cama com um suspiro e olhou para o fantasma de Marie Bonsaint, que flutuava uns metros acima do belo tapete persa que cobria o chão da sua alcova.
– Estás satisfeita?
– Cheri, é normal ta manman querer conhecer o homem com quem te casaste. Já que ninguém se dignou a informar-me de nada.
– O teu Jojo deve ter achado que, visto estares morta há quatro meses, não terias muito a dizer. Caso não tenhas reparado, o meu querido irmão também não pediu a minha opinião quando me vendeu ao Boswell.
– O teu irmão estava apenas a cuidar do teu futuro, já que le mauvé chen desapareceu sem se preocupar convosco.
– E uma certa bolsa de ouro não teve nada a ver com o assunto. Quanto ao pai, mal sabe cuidar dele, quanto mais de nós. Já agora, sabias que o teu querido menino vendeu o SeaGoat?
– Ele vendeu o meu barco?
Morgan fez-lhe sinal de que se calasse. Ouviam-se passos na escada.
– Deve ser a criada. Vai-te. Tenho de resolver isto.
A morte de Simon Boswell não surpreendeu ninguém e, ao contrário do que Morgan esperava, não lançou qualquer tipo de suspeita sobre a sua esposa. Afinal, disseram alguns, quando um homem casa com uma mulher quase setenta anos mais jovem do que ele, não é de admirar que tenha um ataque cardíaco na noite de núpcias. Assim, menos de uma semana depois de se ter casado, Morgan achou-se viúva, com todos os assuntos do marido resolvidos e em posse de uma boa quantia. E Morgan sabia exactamente o que fazer com o dinheiro.

– É um belo barco, – disse o negociante.
– Pertenceu à minha mãe.
– Sem dúvida, uma beleza, – disse outra vez, atrás dela.
Um homem que teria mais uns dez anos do que Morgan observava-a com interesse. Sacudiu a cinza do cachimbo e começou a enchê-lo novamente.
– Precisa de um capitão?
– Não. – Ela olhou-o de alto abaixo. – Mas preciso de um imediato.
O nome do homem era Peter Ashby e Morgan começou a chamar-lhe Ash por causa do seu hábito de estar permanentemente a fumar. Ash nunca questionou a decisão dela de capitanear o barco e Morgan habituou-se a confiar nele.
Estavam há quase uma semana no mar, quando Ash entrou no camarote dela e se sentou à enorme mesa coberta de mapas.
– Há elementos nesta tripulação que nos vão dar problemas, Capitã Bonsaint.
– O Jeremy Donne?
Ash assentiu.
– E outros, mas ele é a cabeça da besta, sem dúvida.
Morgan recostou-se no seu cadeirão e suspirou.
– Foi difícil achar uma tripulação que quisesse partir para o Mar da China.
– Isso é uma das coisas que tem causado murmúrios. Não percebem porque vamos para tão longe de Port Royal. Há muito mar nas Caraíbas.
Não havia mar que chegasse para ela e para o irmão.
– E quais são as outras coisas?
Ash olhou para o cachimbo apagado e respondeu cautelosamente:
– Alguns da tripulação acham que ter uma mulher a bordo dá azar.
Morgan sorriu e não disse nada.

Era noite de lua nova. Um grupo de homens estava reunido na ponte, junto à amurada do navio. Não eram muitos, mas achavam que eram os suficientes. Um dos homens falava em voz baixa, enquanto os outros ouviam.
– A rapariguita já deve estar a dormir, – disse. Os outros riram-se. Com um gesto, Donne silenciou-os. – Eis o que vamos fazer…
Não chegou a dizer mais nada. Uma luz acendeu-se, iluminando uma ponta aguçada sobressaindo da sua garganta. Atrás dele, Morgan soltou o seu florim e empurrou Donne por sobre a amurada, para o mar.
– Parece-me que o senhor Donne teve azar.
Ao lado dela, segurando a lanterna, Ash sorria.
– Já vocês, – disse, – tiveram a sorte de ele morrer antes de serem considerados amotinados.
Morgan estendeu a ponta do florim a cada um deles.
– Voltem aos vossos postos, agora.
Marie apareceu atrás dela:
– Não ouviram o que cheri mwen disse?
Enquanto os homens se apressavam a sair dali, Morgan voltou-se para Marie.
– Mãe; tens de meter o nariz em tudo?
Ana

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