Dragão Subindo Para o Céu

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anavicenteferreira
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Dragão Subindo Para o Céu

Postby anavicenteferreira » 16 Jan 2008 20:33

Só hoje reparei que não tinha posto isto aqui
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Por vezes penso que o criei na minha cabeça; colando pedaços mal-recordados de notícias, fotografias vistas de passagem, segmentos recortados de figuras pintadas em tela-madeira-papel, trechos de músicas tristes retidos nos cantos mais escuros da minha memória.
Chamava-se Alexandre.

Estava sentada no café da esquina, o jornal do dia por ler, dobrado em cima da mesa. Tinha-o comprado na banca à entrada do Instituto quando saíra. Houve um problema com os exames, tinham-me dito. Só estão prontos à tarde. Aconselharam-me a ir para casa. Afinal de contas, morava em Lisboa, não era. O melhor era esperar em casa.
Mas não era melhor. A última coisa que queria era estar sozinha em casa enquanto me afogava em incerteza e medo. Por isso tinha ido para ali, para o café do outro lado da rua, para uma mesa junto à janela, de onde podia vigiar os portões.
Como se isso fizesse alguma diferença. Como se alguém viesse a correr com um cartaz que dissesse em letras verde-brilhante: ESTÁ TUDO BEM!!! E eu pudesse voltar a respirar.
A minha volta, a sala estava quase vazia. Faltava bem uma hora para que começassem a servir os almoços. Da cozinha vinha um cheiro a molho de carne e óleo de fritar batatas que não contribuíam em nada para desembrulhar o nós que se tinham formado no meu estômago e na minha garganta.
Ele chegou e sentou-se. Mal olhou para mim. Sentou-se simplesmente na cadeira à minha frente, tirou um bloco branco e um lápis e começou a rabiscar. De vez em quando olhava pela janela e parecia-me que o seu olhar se dirigia para os portões do Instituto.
Achei que devia estar à espera, tal como eu. Talvez não quisesse esperar sózinho. É uma má altura para se estar sózinho.
Não lhe dirigi a palavra, não nessa altura. A necessidade de companhia não implica a necessidade de som. E, se as minhas conjecturas sobre as motivações dele estivessem certas, a conversa de ocasião que se costuma manter com os estranhos da sala de espera – e era realmente numa sala de espera que estávamos – seria quase uma ofensa.
O empregado perguntou-me se eu queria mais alguma coisa. Pedi um chá de cidreira e ele afastou-se, sem sequer um olhar para o meu companheiro de mesa, que continuava debruçado sobre o seu bloco, desenhando como se não houvesse nada à sua volta. Perguntei-me, na altura, se seria costume ele estar ali.
O empregado acabara de me pousar o chá sobre a mesa, quando ele rasgou a folha do bloco e ma estendeu, dizendo:
– Alexandre. – Fez uma pausa e acrescentou. – É o meu nome.
Não respondi, estava a ocupada com o desenho dele: um retrato meu, em traços breves, mas firmes, e ligeiros sombreados. Parecia quase mais real do que eu mesma. E, no entanto, era capaz de jurar que o tempo todo ele mal olhara para mim.
– Tens alguém ali? – perguntou, apontando com a cabeça para os portões do Instituto.
Sacudi a cabeça.
– Estou à espera de uns exames. E tu?
Ele sorriu. Olhou para o outro lado da rua. Demorou a resposta.
– Não. Já não.
Abriu novamente o bloco e folheou-o.
– Gosto dos teus olhos. Gostava de os ter podido pintar. Quero que fiques com isto.
Estendeu-me mais uma folha de papel.
– Dragão subindo para o céu. É o meu signo chinês. Supostamente sou brilhante. – Riu baixinho. – Quando nasceste?
Acho que nessa altura já não seria possível não lhe ter respondido. Disse-lhe. Ele sorriu como se partilhasse uma piada consigo mesmo.
– Rato caminhando na trave.
Levantou-se. Olhou-me nos olhos e disse:
– Vai correr tudo bem, sabes? Vai mesmo correr tudo bem.

Almocei ali mesmo. Uma sopa e uma tosta, que ficaram pela metade nos pratos. Mal tinha dado pela saída dele. Perguntei ao empregado se o rapaz que tinha estado sentado comigo vinha ali muitas vezes. Ele olhou-me de um modo estranho e disse que não tinha reparado.
Eram três horas quando atravessei a rua, o jornal ainda por ler debaixo do braço. Passei os portões, subi as escadas, caminhei entre as árvores. Mal vi as pessoas sentadas na pequena esplanada do quiosque, embora tenha registado uma predominância de batas brancas.
Menos de quinze minuros depois, saía. O coração leve, batendo descordenadamente, mas não já de medo. Não já de medo.
Sentei-me num dos bancos junto ao lago. Um pato examinou-me por momentos, avaliando as probabilidades de eu ser uma fonte de alimento, antes de se dirigir à esplanada onde haveria decerto restos à sua espera.
Abri o jornal e os meus olhos prenderam-se em duas imagens que ilustravam um artigo curto. Um rosto e um quadro. E eram ambos inconfundíveis.
E o nó na minha garganta, que não se desfizera com a notícia de que o tumor era benigno, foi cortado, como o da lenda, pela lâmina da compreensão.
E as lágrimas correram-me pelo rosto, chorando não de alívio, mas por alguém que eu poderia ter amado. Se não o tivesse conhecido tarde demais.

<div align="center"><!--fonto:Garamond--><span style="font-family:Garamond"><!--/fonto-->O Dragão Que Subiu Para o Céu
Quadros de Alexandre Lobato na galeria Arquétipo<!--fontc-->[/color]<!--/fontc--></div>

<!--fonto:Garamond--><span style="font-family:Garamond"><!--/fonto-->A mais recente galeria de arte da capital é inaugurada esta semana com uma exposição da obra de Alexandre Góis Lobato. Na exposição que se inicia na próxima sexta-feira, dia sete, poderá ser vista pela primeira vez em conjunto a maior parte dos quadros do malogrado pintor.
Paulo Miguel Sanches, dono da Arquétipo e amigo de longa data de Góis Lobato, planeou este evento para marcar não só a inauguração do novo espaço, mas também o primeiro aniversário da morte do pintor. A exposição recebeu o nome do seu quadro mais conhecido, Dragão Subindo Para o Céu.
Na sua maior parte, as obras não estarão para venda, já que procedem de diferentes colecções privadas, incluindo a do próprio artista. No entanto, será possível adquirir reproduções em formato de poster ou postal, havendo ainda à venda na galeria colecções de serigrafias, de edição limitada, reproduzindo os quadros mais significativos da obra de Alexandre Góis Lobato.
A encerrar a exposição, no dia trinta e um do próximo mês, realizar-se-á o leilão de um dos últimos quadros do pintor. O dinheiro que resultar deste leilão e das vendas relacionadas com a exposição será distribuído por diversas organizações não-governamentais de apoio às vítimas de cancro.
Lembramos que fará exactamente um ano no dia sete que o pintor faleceu, após longos meses de combate a um tumor cerebral. Paulo Miguel Sanches considerou que seria a maneira mais apropriada de assinalar esta efeméride e que “o Xande teria ficado muito feliz se visse a sua obra usada para tornar menos adverso o tempo que resta a algumas destas pessoas e talvez até para ajudar a impedir outros dragões de subirem ao céu cedo demais.”<!--fontc-->[/color]<!--/fontc-->
Ana

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Re: Dragão Subindo Para o Céu

Postby Thanatos » 22 Apr 2008 11:46

A Ana é daquelas escritoras que é um crime ainda não ter nada publicado. Pelo menos tanto quanto eu saiba.

Do pessoal que aqui vai metendo textos e sem desmérito para todos os outros penso que a Ana, o Pedro Farinha e a Cerridwen demonstram verdadeiro potencial e dominam a arte de contar estórias.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: Dragão Subindo Para o Céu

Postby anavicenteferreira » 02 Jun 2008 23:09

Thanatos wrote:A Ana é daquelas escritoras que é um crime ainda não ter nada publicado.


Muito obrigada! :rolleyes: Mas é um crime em vias de ser remediado. Finalmente encontrei uma editora que entende que eu sou um génio incompreendido :lol2: (e que não me manda cartas de rejeição a falar de livros de outra pessoa :ranting:), mas mais pormenores só depois de tudo firmado e assinado (é uma das poucas superstições que tenho).
Ana

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Re: Dragão Subindo Para o Céu

Postby Thanatos » 03 Jun 2008 02:39

Ena! Finalmente uma notícia interessante para desenjoar dos rodriguinhos da Leya e do acordo ortográfico. :smile:

Fico torcendo para que dê tudo bem (sim, também sofro dessa superstição :wink:).
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Re: Dragão Subindo Para o Céu

Postby Titantropo » 28 Apr 2009 13:54

E agora que já passou quase um ano? Correu tudo bem? Parece que me apercebi noutro tópico que sim mas gostava de confirmar.

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Re: Dragão Subindo Para o Céu

Postby pco69 » 28 Apr 2009 14:04

Titantropo wrote:E agora que já passou quase um ano? Correu tudo bem? Parece que me apercebi noutro tópico que sim mas gostava de confirmar.

:lol2: :lol2: :lol2:
<!--sizeo:4-->[size=125]<!--/sizeo-->Sangue de Dragão<!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: Dragão Subindo Para o Céu

Postby Titantropo » 12 May 2009 00:55

Já vi que sim. Pá, eu sou relativamente novo aqui, se bem se lembram.

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Re: Dragão Subindo Para o Céu

Postby samuelperegrino » 15 Sep 2010 22:19

Sou novo aqui, Ana, mas o título do texto me chamou a atenção. Escreves como quem lapida a própria realidade à procura das frases perfeitas que esclarecem melhor o simbolismo de sua escrita. Parabéns, vou ler mais contos teus a deixar meus comentários. :)
Sam
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