Sentidos

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anavicenteferreira
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Postby anavicenteferreira » 12 May 2005 10:50

Era tudo tão recente, ainda. Nos primeiros segundos acordado da maior parte das manhãs ficava a pensar que acontecera alguma coisa ao despertador e que ainda era noite cerrada. E os cheiros e os sons... A intensidade era tão grande, tão nova, que por vezes parecia que a cabeça me rebentava com o esforço de os descodificar.
Talvez por isso tenha levado tanto tempo a reparar em todas as coisas que não estavam bem.
Estava tão optimista quando fui à entrevista na Transorg. Um pouco intimidado, talvez – afinal, não é todos os dias que se tem a oportunidade de nos juntarmos a uma das melhores companhias no nosso ramo – mas optimista mesmo assim. Isso foi antes do acidente.
Nunca pensei que me contratassem, mas chamaram-me, assim que os médicos me deram alta. Tinham estado a seguir o meu caso com atenção. À espera que eu me recuperasse. À espera que eu estivesse pronto para me juntar a eles.
Contrataram-me apenas como intérprete, claro. Traduções, só em simultâneo. Mas, mesmo assim, estranhei que não tivessem preferido um candidato sem as minhas limitações.
Martina disse-me que são muito selectivos com as pessoas que contratam. Muito selectivos. Que na minha contratação tinham pesado os meus conhecimentos sólidos de sete línguas – romeno, russo, japonês, cantonês, mandarim, inglês e alemão – mas também outros factores. Nunca me disse que factores eram esses.
Martina Müeller-Santos. Luso-alemã; aliás, a maior parte do pessoal da Transorg em Lisboa parece ser luso-qualquer-coisa. Martina é a minha superior hierárquica mais imediata. Na Transorg não gostam de falar em chefes – estamos todos a trabalhar juntos para o mesmo fim – mas continua a haver quem dê as ordem e quem as siga.
Lembro-me da única vez que vi Martina. Foi quando vim para a minha entrevista. Estava a falar com a recepcionista, quando ela passou. Loura, alta e magra, mas nada de muito interessante. Pelo menos até se voltar e olhar directamente para nós. Não me lembro das feições, mas lembro-me dos olhos. Uns olhos estreitos, de um verde vivo, pouco natural, que nos atravessam como se conseguissem discernir cada canto escuro da nossa alma.
E foi com Martina que senti pela primeira vez o cheiro.
Era uma quinta-feira. Ia ter uma reunião com ela e com um novo cliente. Já estava no elevador, quando ouvi a voz de Martina, pedindo-me para esperar. Segurei as portas e ela entrou, saudando-me efusivamente.
– Chegou cedo, Rogério, – disse, enquanto o elevador subia até ao andar onde ficava a sua sala. – A reunião com o Sr.Tonegawa só está marcada para daqui a meia hora.
Era a primeira vez que me encontrava a sós com Martina e não me sentia confortável. Ouvi a respiração dela sobre o meu ombro esquerdo. Porque tinha ela de estar tão perto?
– A Márcia não me pôde trazer hoje, – respondi, – por isso saí de casa mais cedo. Às vezes, ainda me engano nos transportes.
Ela aproximou-se ainda mais e, acompanhando o som da porta do elevador a abrir-se, rodeou-me os ombros com o braço e disse:
– Mas ainda bem que já cá está, temos uma surpresa para si.
Sabem quando abrimos uma caixa que nem sabemos há quanto tempo está no frigorífico e descobrimos que desenvolveu população própria? Lembram-se do cheiro que costuma acompanhar esse tipo de descoberta? Não começa sequer a descrever a brutalidade do cheiro que me atingiu naquele momento. Lembro-me agora que já o sentira antes, mas nunca de tão perto. Na altura, pensara apenas que Martina usava a versão feminina de um daqueles perfumes de essência de couro. E havia realmente uma sugestão de couro velho à superfície do cheiro. Por baixo, no entanto, havia algo mais, que agora não tenho qualquer dificuldade em identificar: um odor nauseante a carne em decomposição.
– Surpresa? – perguntei e acho que em nenhum outro momento me esforcei tanto para parecer natural.
Senti-a a mover-se, assentir talvez, ao mesmo tempo que me guiava ao longo do corredor, em direcção à sua sala. Com o movimento, o cheiro tornou-se ainda mais intenso. E ela mantinha o braço firmemente em redor dos meus ombros.
– Um computador, – disse Martina. – Com um teclado especial.
Dezassete passos. Estávamos à porta da sala dela, mas ela continuou. Mais cinco passos e ouvi uma porta a abrir-se.
– Esta vai ser a sua sala. Fica mesmo ao lado da minha, se precisar de alguma coisa.
Entrei na sala com cuidado. E ouvi-a dizer atrás de mim:
– A secretária está às doze horas e a mesa com as impressoras às onze. Há um arquivo à uma hora e um sofá à direita da porta. Tem janelas às doze e às três horas.
Duas outras pessoas entraram na sala. Martina disse:
– Pensei que podíamos ter a reunião aqui.
As duas pessoas junto à porta falavam baixo entre si em japonês. Qualquer coisa sobre comida, deviam estar a combinar um jantar para depois da reunião. Reconheci a voz de Joel Killham, do escritório de Londres da Transorg. Nunca soube ao certo qual é a posição dele na empresa – ainda hoje não sei – mas há uma certa postura subserviente que infecta todo o corpo directivo de Lisboa cada vez que ele aparece.
– Não estava à espera que estivesse aqui, Joel, – disse-lhe.
Ele fechou a porta e quase posso jurar que ouvi o sorriso na sua voz, quando disse:
– Eu estou sempre presente nos momentos mais importantes.
Percebi que aquela reunião não ia seguir a ordem de trabalhos estabelecida. Encostei-me à secretária. Podia ouvi-los a aproximar-se. Podia sentir a fome deles. Podia cheirá-los também. Mas não conseguia fugir.
Já lá vão três semanas. Agora, já consigo ver, de certa forma: o mundo tornou-se um grande conjunto de manchas, como se estivesse a vê-lo através de uma câmara sensível ao calor. Não sei se a visão de todos eles é assim, ou se a minha cegueira teve alguma influência.
A Márcia não percebeu porque acabei tudo de repente. Espero que nunca venha a perceber. Ainda não me alimentei – a fome é avassaladora, mas tenho conseguido resistir. Só não quero que ela esteja por perto quando a minha vontade ceder finalmente.
Ana

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Thanatos
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Re: Sentidos

Postby Thanatos » 12 May 2005 11:33

E - S - P - E - C - T - A - C - U - L - A - R!

Este é o género de textos que eu gosto de ler. Desenvolvem uma ideia lentamente, sem pressas de chegar ao climáx, com suficientes pormenores periféricos para o leitor se emergir num mundo que se pretende real.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

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Re: Sentidos

Postby Samwise » 17 May 2005 16:31

Pow Wow!!!!

Definitivamente espectacular...

É engraçado que também já abordei esta temática. Foi no meu primeiro conto... hehehe

Adorei este texto. Mais que o do Elevador!

Sam
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Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

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