O Elevador

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anavicenteferreira
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O Elevador

Postby anavicenteferreira » 12 May 2005 10:52

Seis pessoas num elevador. Entre os andares 12 e 13 uma delas cai morta. A autópsia revela a presença de veneno – um veneno extremamente raro, extraído de uma planta amazónica. Extremamente virulento também: uma gota sobre a pele e a morte sobrevém cerca de um minuto depois. Cinco pessoas tinham partilhado o elevador com a vítima durante o seu último minuto de vida. Uma delas era o assassino. Simples. Ou nem por isso.
O crime acontecera há duas semanas. Todos os presentes tinham sido identificados e contactados e o Inspector Santos continuava tão confuso como no primeiro dia.
O elevador onde tudo se passara ficava num moderno prédio de escritórios e tinha uma câmara de segurança. Tinha revisto as imagens do momento da morte de Mário Freire vezes sem conta. Nenhuma das outras pessoas parecia ter feito qualquer gesto na direcção dele, mas, com o elevador cheio, era difícil ter certeza.
Recostou-se na cadeira e fechou os olhos. À sua frente estavam as transcrições das conversas que tivera com os suspeitos. Nem precisava de olhar para elas: por esta altura, já conhecia cada palavra.
Falara primeiro com Aires Fonseca, a única pessoa no elevador que conhecia a vítima. Era administrador da clínica que ocupava os três últimos andares do edifício e onde o Dr. Freire dava consultas de cirurgia plástica. Tinha entrado intempestivamente na sala do inspector e sentara-se.
– Vamos despachar isto, tenho uma reunião daqui a uma hora. Francamente não percebo o que estou a fazer aqui. Não vi nada, cumprimentei o Freire e depois encostei-me a um canto a ler o jornal. Ele estava no centro do elevador, uma questão de personalidade, suponho. Mas só voltei a olhar para ele quando desmaiou. Chega?
Não chegara. O inspector tivera dúvidas, muitas dúvidas. O Sr. Fonseca tinha, infelizmente, chegado bastante atrasado à tal reunião.
A seguir falara com Maria da Luz Pereira, fora a casa dela para isso: uma casinha de um piso perdida no meio de prédios de muitos andares. Flores no jardim e nos estofos da sala.
– Eu não gosto nada de elevadores, mas o consultório da Dra. Amélia fica no décimo terceiro andar, são muitas escadas, senhor guarda, muitas escadas. Mas passei a viagem toda com o coração na boca, passo sempre, mas desta vez foi pior, parece que estava a adivinhar. Nunca ouvi um elevador fazer tanto barulho. Era um ranger e um roçar e uma vez até me pareceu ouvir uma pancada. E depois o senhor doutor a cair daquela maneira. Foi horrível. Horrível!
Marília Sousa fora ter à sua sala. Entrara, empurrando a porta com as pontas dos dedos. Olhara para a cadeira com ar duvidoso e sentara-se mesmo na bordinha. E começara imediatamente a falar:
– Fiquei tão aliviada, que não imagina. Quando o homem caiu, eu estava mesmo a ver que ele tinha uma doença esquisita qualquer, daquelas contagiosas. E eu que apanho tudo. Os elevadores são terríveis, sabe? As pessoas ali todas encostadas umas às outras. Ainda por cima, o ar condicionado estava avariado, que eu bem vi a humidade a pingar da grelha. Imagino a quantidade de bolor que aquilo não deve ter dentro.
Tatiana Henriques chegara acompanhada dos pais e fizera uma declaração breve, os braço magros cruzados à frente do tronco e as pernas ossudas agitando-se sem parar.
– O elevador estava muito cheio. Quer dizer, a placa dizia seis, mas há pessoas que pesam demais, percebe, não deviam contar só como uma. Quando o senhor desmaiou, eu achei que fosse por causa disso. Também me estava a sentir mal.
Carlos Peres fora o último. Enquanto falava, parecia examinar todos os cantos à procura de qualquer coisa.
– Estava de olhos fechados. Por causa das aranhas. Não gosto de aranhas. E havia aranhas no elevador. Não vi nenhuma, mas vi a teia. Quer dizer, não era bem uma teia, era só um fio, a descer do ventilador. Elas usam-nos para ir de um lado para o outro, sabe?
Resumindo, nada de útil. Nenhuma das pessoas naquele elevador tinha razões para matar Mário Freire, mas uma delas devia tê-lo morto. Não havia outra explicação.
Irritado, levantou-se e pegou no casaco. Na televisão, James Bond tentava passar por japonês. Deu um piparote no botão e saiu. Ia voltar à cena do crime, mais uma vez.
O edíficio era moderno, mas o arquitecto tinha tentado dar-lhe um ar antigo. Isso incluía o elevador, com o seu gradeamento de protecção, a porta e os painéis de madeira e a pequena grade de ventilação no meio do tecto. O inspector colocou-se no sítio exacto onde Mário Freire morrera e recordou o que vira na cassete de vigilância.
O Dr. Freire mantivera-se parado a maior parte da viagem, olhando em frente, as duas mãos na pega da sua pasta. Quando passaram o décimo segundo andar, tinha alisado o cabelo e olhado para os dedos. Ajeitara a franja. Depois, começara a cambalear e, pouco depois, caía, morto.
O Inspector olhou em volta e o seu olhar deteve-se na grelha do ventilador. Nada de teias de aranha e nada de humidade. Passou a mão pelo cabelo e parou.
Percebera finalmente como as coisas se tinham passado: um fio de nylon deixado cair pela grelha de ventilação, directamente sobre a cabeça do médico, e uma gota de veneno a escorrer pelo fio até ao seu couro cabeludo. Murmurou um palavrão. Passara de cinco suspeitos para tantos quantos não gostavam do Dr. Freire. E, pelo que percebera do carácter do morto, deviam ser muitos. Mas quantos deles teriam acesso ao veneno? E quantos deles seriam loucos o suficiente para estarem no topo de um elevador em movimento?
– Desculpe, o elevador está a funcionar?
Virou-se e encarou um homem magro que não conhecia.
– Ah, inspector, desculpe, – disse o homem. – Pensei que tivessem chamado um técnico, com o barulho que o elevador tem feito e o estado em que os cabos estão.
O homem pareceu aperceber-se do que tinha dito no exacto momento em que o inspector compreendeu o que as palavras dele significavam. Largou a correr, direito às escadas. O inspector correu atrás dele, mas só o encontrou dois andares abaixo, onde um dos segurança o tinha detido. Foi uma detenção ofegante.
O homem chamava-se Fernando Campos. Trabalhava também na clínica, a maior parte do tempo a supervisionar o laboratório de análises. No entanto, recebera há pouco uma bolsa de investigação. Estava a trabalhar com as propriedades de plantas amazónicas. Quando lhe o inspector lhe tinha perguntado o porquê do crime, limitara-se a responder: “Estava farto!”
Ana

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Re: O Elevador

Postby Cerridwen » 14 May 2005 20:06

Gostei imenso do texto. Especialmente da descrição do decorrer dos acontecimentos, tão realista. :)

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Re: O Elevador

Postby Samwise » 16 May 2005 17:44

Tu falas no James Bond... (mascarado de japonês... hehehe)

Em "You Only Live Twice" (http://www.imdb.com/title/tt0062512/), uma das formas de assassinato usadas pelos ninjas era preceisamente um fio de nylon por onde escorria uma gota de veneno (no caso a gota ia parar à boca de uma vítima, que estaria a dormir).

Eu essas apanho-as todas!
Boa homenagem!

Está um texto bem engraçado. É daqueles que prende a atenção logo de início...

Sam
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

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Re: O Elevador

Postby Thanatos » 16 May 2005 19:14

O que a anavicente não referiu ainda é que tanto este como o "Sentidos" foram vencedores dum concurso!

É muito modesta! ;)
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

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Re: O Elevador

Postby Samwise » 16 May 2005 19:20

AAAAhhhhhh :lol: :lol: :lol:

Muitos parabéns!!!! :clap:

Amanhã já tenho leitura.... e ainda por cima vem recomendada!!!

Sam
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Re: O Elevador

Postby anavicenteferreira » 24 May 2005 15:37

Samwise wrote: Tu falas no James Bond... (mascarado de japonês... hehehe)

Em "You Only Live Twice" (http://www.imdb.com/title/tt0062512/), uma das formas de assassinato usadas pelos ninjas era preceisamente um fio de nylon por onde escorria uma gota de veneno (no caso a gota ia parar à boca de uma vítima, que estaria a dormir).

Eu essas apanho-as todas!
Boa homenagem!

Está um texto bem engraçado. É daqueles que prende a atenção logo de início...

Sam

É. Achei que, já que ia roubar a ideia, mas valia pôr a indicação do roubo! :D
Ana


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