Lezíria

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anavicenteferreira
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Lezíria

Postby anavicenteferreira » 22 May 2005 08:31

O rio ficou para trás. A lezíria estende-se em todas as direcções, um bordado de castanhos, amarelos e verdes. Azinheiras e enormes eucaliptos ladeiam a estrada, uma fita negra, sem curvas, que corta os campos. O céu é de um cor-de-pérola uniforme, não se distingue a forma das nuvens, não se vislumbra o sol, não há sinal de chuva.

O carro avança.

Marta recosta-se no assento, olhos fixos na paisagem que vão ultrapassando. Num dos campos, um tractor abre a terra e é seguido por um bando de garças brancas que perscrutam os fundos sulcos na terra arenosa. No campo seguinte, três cegonhas fitam a água rasa de um canal, enquanto uma quarta levanta vôo em direcção ao ninho massivo instalado sobre a velha caixa de água de uma quinta em ruínas. Marta desvia os olhos a tempo de ver qualquer coisa pequena apressar-se através do asfalto: uma lagartixa, talvez.

Tantos sinais de vida e o mundo continua a parecer-lhe morto, dormente, pelo menos. Como se ainda não tivesse acordado de uma longa hibernação. Apesar do calor abafado que se faz sentir.

Faz descer mais a janela. O vento quente despenteia-lhe o cabelo. Olha-se no espelho da pala que baixou para se proteger do brilho branco do sol invisível. Há manchas escuras sob os seus olhos, linhas na testa e em redor da boca apertada.

Sérgio ainda não se calou. Conduz com os olhos na estrada e ela nem precisa olhar para o lado para saber que as mãos dele estão tão apertadas em redor do volante que se pode traçar cada osso. Sempre adorou as mãos dele, são grandes e longas, com dedos elegantes e pele macia, dourada. Ele continua a falar, num tom mecânico, que ele quer fazer parecer alegre, sobre coisas que ela não ouve.

Dói-lhe a cabeça. A vontade que tem é de tirar uma das latas de 7Up que estão no compartimento refrigerado entre os bancos e encostá-la à testa. Mas não o faz. Sérgio já está quase à beira da histeria, qualquer sinal de dor da parte dela, agora, vai fazê-lo vir-se abaixo. Vai fazê-lo pensar que tomaram a decisão errada.

A dor insiste, latejando-lhe na têmpora direita. No ponto exacta onde ela sabe que aquilo está. Como se estivesse a crescer, pensa, como se a maldita coisa estivesse a crescer.

E está mesmo a crescer, embora o médico não o tenha dito por tantas palavras, está a crescer e vai continuar a crescer, ou ele não teria sugerido a cesariana. Marta pousa as mãos sobre a sua barriga de sete meses. O bébé está a começar a agitar-se. É da dor, estou a ficar alterada e ele sente.

As mãos rolam-lhe sobre a barriga em círculos que se entrecruzam. Sente um pé espetar-se contra o interior do seu ventre, uma pequena saliência contra a palma da sua mão. Mais dois meses, dois meses não vão fazer diferença. Dois meses só não vão fazer diferença.

– Estás bem? – A voz de Sérgio treme só um pouco.

Ela assente, mas desvia o olhar para a janela.

– Está a dar pontapés.

– É forte. Grande para um bébé de sete meses. Se quisesses, mesmo que estivesse alguns dias na incubadora, os dois meses não fariam diferença …

– Eu vou começar a quimioterapia quando o bébé nascer. – A voz dela é calma, os olhos fixaram-se no pára-brisas onde alguns pingos leves de chuva começaram a cair. – Os dois meses não vão fazer diferença.

A chuva engrossa, começa a fazer ruído no tejadilho do carro. Ela reclina um pouco o assento e olha para cima, através do tecto de abrir, as gotas parecem pequenas bolas de cristal que se dirigem ao carro. Sérgio fechou a janela do lado dela e está cada vez mais abafado.

– Pára o carro!

– Estás a sentir-te mal, voltamos a –

– Não. Pára o carro.

Abre a porta, ainda antes de estarem completamente imobilizados. Já livre do abraço do cinto de segurança, corre para lá do renque de árvores onde as garças se abrigaram, para a lezíria, campo aberto.

As pernas cedem e deixa-se cair de joelhos na erva nova. A chuva rodeia-a, cada vez mais forte, batendo-lhe na testa, desmanchando a dor. Água escorre-lhe pela cara e o sabor a sal brinca-lhe nos lábios. Um triângulo de azul irrompe no meio do cinzento.
Ana

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Re: Lezíria

Postby Thanatos » 22 May 2005 08:52

Brutal, acutilante e perturbante. Um dos teus melhores textos até à data.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

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Re: Lezíria

Postby Cerridwen » 22 May 2005 19:49

Sinceramente não sei bem que dizer, não vejo maneira de expressar aquilo que penso acerca do texto. :unsure:

E engraçado como em algumas linhas, com uma pequena história, conseguiste construir um texto tão interessante e tão realista que me senti puxada para perto daquelas personagens. :)

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Re: Lezíria

Postby Samwise » 23 May 2005 10:49

Aquela frase no fim pode ser interpretada como um sinal de esperança? ou percebi mal?

Um texto que fala sobre a vida e a morte como se andassem de mãos dadas. Sinais que são engolidos pela paisagem envolvente e pelas sensações que ela proporciona.
É perturbante e está mesmo muito bem escrito.

:bow: :tu:

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Re: Lezíria

Postby anavicenteferreira » 24 May 2005 15:36

Não, não leste mal. :)
Ana

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Re: Lezíria

Postby Samwise » 06 Oct 2005 12:11

Depois do E-zine lançado.. falar um bocadito sobre este texto.

Dos textos todos que saíram no E-zine, e após tê-los lido um a um com muita atenção, posso dizer que este é o meu favorito.

Já tinha gostado bastante dele na altura em que foi aqui publicado, e, como é normal, após uma segunda leitura saltaram-me aos olhos várias coisas: a falsa serenidade da escrita, a maneira como a trama que se vai enredilhando aos poucos no cenário (Alentejano?), para depois nos bater forte com a brutalidade das nossas vidas, o título, certíssimo em relação ao texto...
E o resultado global, no seu conjunto, de uma precisão que nos sufoca os sentidos.
Está fantabulástico, Ana!!!

:bow: :bow: :bow:

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