O telefone que não toca

Pedro Farinha
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O telefone que não toca

Postby Pedro Farinha » 31 Jul 2010 19:19

O som de um carro que passa na rua mas não pára. A campainha está muda e eu sento-me e levanto-me do sofá.

O telefone que não toca.

O vidro frio na minha testa e as mãos inúteis no parapeito. Sento-me. Levanto-me. Ando. Estaco. Nada faço. Não consigo não fazer nada.

A porta imóvel, o silêncio na rua e o telefone que não toca.

A água que bebo e me custa a engolir tem um travo a ausência e a dias que não passam.

Levanto-me. Sento-me. Deito-me na cama. A almofada vazia, a cama tão larga e o telefone mudo que não toca, não vibra, não faz nada. Objecto estúpido e inútil que me provoca com sua paralisia atroz. Coisa estúpida um telefone. Imbecil.

O telefone não toca nem podia tocar. Eu sei.

O estômago lastima-se e percorro o frigorífico e os armários em busca de algo que não me cause fastio. Não há.

A vida parada, o calendário parado, os ponteiros que não andam e o telefone que não toca.

Nem vai tocar.

Eu sei.

Por vezes há domingos tão longos que cabem lá dentro vidas inteiras. E ainda hoje é sábado.

Pedro Farinha
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Re: O telefone que não toca

Postby Pedro Farinha » 31 Jul 2010 20:55

ps: tocou...

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Ripley
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Re: O telefone que não toca

Postby Ripley » 02 Aug 2010 11:50

Pedro Farinha wrote:A água que bebo e me custa a engolir tem um travo a ausência e a dias que não passam.
(...)
A vida parada, o calendário parado, os ponteiros que não andam e o telefone que não toca.
(...)
Por vezes há domingos tão longos que cabem lá dentro vidas inteiras. E ainda hoje é sábado.


Também conheço esse sabor - bem como o torpor dos sentidos embotados tacteando o vazio em volta.
Ponteiros que não andam podem ser uma benção para evitar que possamos medir exactamente o tamanho desse vazio. E a vida que, mesmo quando não está parada, se arrasta indefinidamente como que num continuum diferente. Cabe uma vida inteira em cada dia, amontoando-se como folhas de uma enciclopédia feita apenas de repetições da mesma página, todas com uma só entrada.

Dicotomias. Um texto melancólico mas não triste. Quase resignado mas ainda assim lutando contra a inexorabilidade. A esperança ténue mascarada de desprendimento.

Gostei muito.



p.s.: há toques que são como saltos a velocidade hiperluminosa para uma outra dimensão ;)
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]


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