Pai

Pedro Farinha
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Pai

Postby Pedro Farinha » 13 Oct 2011 00:15

Um cheiro a putrefacção e a urina velha. Escaras gritantes a invadirem o corpo. A respiração rarefeita em espamos de dor e aflição. O coração nas mãos. Nas de todos. O telefone como um arauto da desgraça (já que tu permanecias hermeticamente calada).
As memórias afogadas num olhar baço.
E eu a desejar ardentemente o indesejável sem saber o que aí vinha, pensando na minha ingenuidade que um morto já não podia morrer, que o infinito da dor, como todos os infinitos, não se altera quando multiplicado por dois. Eu parado e seco. O meu olhar baço também. Um sorriso postiço colado com cuspo, na cara, na esperança ridícula que fizesse alguma diferença a expressão facial com que lhe pegava ao colo, papeis invertidos da infância, e o fazia percorrer os seus escassos domínios para quem sempre viveu como se o universo fosse seu.
O meu pai morto.
A dor aguda.
O abraço quente.
E finalmente os dias do antigamente a prevalecerem sobre as memórias recentes no espaço da minha cabeça.
Só a morte pôde me devolver o meu pai por inteiro. Morto, mas outra vez ele.


PS. Pedia para não comentarem este texto.

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