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Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar (1)

Posted: 14 Jun 2006 09:48
by Pedro Farinha
Eu sou a voz incómoda que não se cala.
Que te diz que para além do Mundial e da porra das novelas existe Guantanamo.
Que te lembra que cada morto no Iraque não é apenas um flash noticioso de cinco minutos na abertura de cada telejornal.
De cada telejornal que perde mais tempo a discutir o último casamento falhado da princesa não sei das quantas.

Eu sou aquela voz irritante do grilo que não mata mas moi.
A voz que descobre no sorriso feliz de cada criança a imagem apagada de todas aquelas para quem o sorriso é uma miragem que cai do céu em caixotes de arroz atirados de um helicóptero de uma ONG.
Sou a voz que pergunta quanta parte dessa ajuda vai parar a quem faz a guerra.

Eu sou a voz incómoda
A voz que não esquece e que se pergunta amargurada se pode ser mais do que apenas a estúpida de uma voz que ninguém ouve. Que pergunta se pode ganhar braços. Braços que segurem os corpos enforcados em celas de Guantanamo e que calem as obscenidades de quem chama ao desespero um acto de guerra.
Braços que cultivem a terra lado a lado com quem mais precisa. Braços que ajudem sem paternalismos. Braços que distingam a caridade da solidariedade.

Eu sou a voz triste que por vezes fala, que já não incomóda, que se repete, se entristece e nada faz. Eu sou a voz inconsequente do desespero da impotência. Eu não queria ser uma voz. Eu queria ser um mar de esperança e de alegria, de luta e de força. Queria ser um mar de sustento, um mar que apenas banhasse a alma dos homens bons. Que lhes desse alento e esperança, que fosse espelho, que obrigasse cada homem a ver o outro lado, que obrigasse cada um a conhecer o outro, a perceber, a conviver.

Eu sou a voz falsa e afónica. Eu não sou nada. Eu sou a voz que fala mas não age. Sou a merda do grilo falante sem os poderes da fada azul.


(1) - Título de um poema de Sophia de Mello Breyner Andersen

Re: Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar (1)

Posted: 14 Jun 2006 10:02
by Cerridwen
Não podia não comentar este texto, adorei a leitura. Apesar de ser essencialmente uma crítica, tem um toque literário sublime. :)

Re: Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar (1)

Posted: 14 Jun 2006 10:28
by Lyquid
Continua a surpreender-me a quantidade de Verdade que cabe numa folha de papel e na tinta de uma caneta.

Jorge O.

Re: Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar (1)

Posted: 14 Jun 2006 23:32
by Riobaldo
Apesar de dizer algumas verdades, acho que o diz de forma banal e pouco original. Não gostei muito do texto, desculpa. Prefiro ler-te a "ficcionar".

Re: Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar (1)

Posted: 15 Jun 2006 18:18
by Pedro Farinha
Sem Problema Triiad, a critica só vale a pena se for sincera.

E Cerridwen mais do que uma critica, é uma auto-critica.

Re: Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar (1)

Posted: 22 Jun 2006 11:15
by Samwise
É uma auto-crítica que toca a todos nós. Um texto destes só toma expressão e voz se estiver bem articuldo - e é essa a minha opinião. Está recheado de frases bem encontradas.

O título do texto (retirado do tal poema de S.M.B.A.), atinge-me por razões muito pessoais. Recordações...

Sam

P.S. Essa expressão "Eu sou a voz..." fez-me lembrar o Tyler Durden no "Clube de Combate". Já sei que não vem nada a propósito... mas de facto aconteceu...

Re: Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar (1)

Posted: 15 May 2011 21:09
by Pedro Farinha
Caro Sam,

Ao fim deste tempo todo descubro de que razões pessoais falavas. Pois, ainda que de forma muito mais distante, também foi assim que eu conheci este poema.

Re: Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar (1)

Posted: 16 May 2011 12:35
by Samwise
Nem a propósito (e também porque a letra continua tão actual como noutros tempos): http://www.dailymotion.com/video/xbdnep ... z-li_music

Foi neste que estava uma chaimite a "decorar" a entrada do Coliseu.