O dia em que fiquei debaixo de um autocarro

Pedro Farinha
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O dia em que fiquei debaixo de um autocarro

Postby Pedro Farinha » 21 Nov 2009 15:58


O dia em que fiquei debaixo de um autocarro


12:55
O mostrador do telemóvel relampeja nos meus olhos e mostra-me as horas. Estou atrasado. Faltam só cinco minutos e eu detesto chegar atrasado ou mesmo em cima da hora. Sei que por muito que não o queira os meus passos ganham ritmo próprio quando caminham ao teu encontro e que é sempre com a respiração descompassada que me sento no café, à espera que entres, os teus olhos feitos catavento até encontrarem os meus. É então que me levanto e os nossos passos se sincronizam quando abrimos a porta e deparamo-nos com o vento que nos abraça.
E por isso, por parecer que afecta a nossa serenidade neste ritual diário, que detesto quando chegas e eu ainda estou ofegante, o coração a querer tocar a valsa por te ver, mas com o batuque da kizomba da caminhada apressada.

13:00

Nunca fui de pensar muito nos riscos que corro. Tu sabes bem disso. Um homenzinho vermelho luminoso não é coisa que me faça parar. Mas a física tem as suas leis, e quando dois corpos tentam ocupar o mesmo espaço, é sempre o mais leve e que se deslocava mais devagar que cede o caminho ao outro e voa, como eu voei, até ao passeio mais próximo. A cabeça na calçada agora vermelha tenta rivalizar em cor com o laranja do autocarro que me abalroou.
Não desmaio. A mão inerte em vão tenta caminhar na direcção do bolso onde o meu telemóvel inútil poderia permitir avisar-te que vou chegar mais tarde. Mas a mão não se mexe e o peso morto do telemóvel é bem pequeno face ao peso inerte de todo o meu corpo que não me obedece.

13:10
O que estarás a pensar. Será que já estás impaciente com a minha demora. Que pensas que não vou aparecer, que te vou deixar aí, pendurada, sem uma palavra de aviso. Não, não podes pensar uma coisa dessas. Porventura olhas para o teu telemóvel e para a tua mão que funciona ao contrário da minha e pensas em ligar-me. Hesitas? Não queres parecer demasiado ansiosa? Tens medo que eu te leia nos sinais? Não, nada disso. Tu sabes que eu te leio no fundo dos olhos e provavelmente tens as horas esquecidas nas páginas de um livro.

13:30,
diz-me o homem da ambulância. Como se chama o homem da ambulância? Socorrista? Maqueiro? Tu saberias de certeza ou pesquisarias rapidamente e dar-me-ias a resposta certa, segura e todas as suas possíveis variantes e nuances. A minha boca entreabre-se e pergunto-lhe a custo – como se chama. Bruno, responde. Aceno com a cabeça, não era isso. Não interessa. Que me interessa isso? Ao fim de meia hora deves estar furiosa comigo. Irritada. Provavelmente já saíste do café e pensas no que me vais dizer quando eu te ligar, que bem podia ter avisado, uma mensagem que fosse. Mas por outro lado deves duvidar, como seria possível que eu não te dissesse nada. Tu sabes que eu preocupo-me com essas coisas. Estás preocupada comigo, meu amor?
A ambulância interrompe o trânsito da cidade com o seu troar frenético. Devemos passar frente ao café em direcção ao hospital mais próximo. Vês a ambulância passar? Faço sinal ao Bruno, quero que ele pare mas os meus lábios teimam em não conseguir articular audivelmente qualquer palavra. Ele olha para mim, sorri e pousa a mão no meu braço e diz que vai ficar tudo bem. Como é que ele sabe se vai ficar tudo bem? Podes estar a imaginar coisas e a esta hora teres apagado o número do meu telemóvel no teu e rasgados os poemas que te escrevi. Não, tu nunca o farias, mesmo que me rasgasses da tua vida, as palavras que nos unem permaneceriam intactas.

16:00
Acordo numa cama hospitalar. Tenho a cabeça envolta em ligaduras. Os ponteiros cruéis do relógio de parede mostram-me as horas. A esta hora já estás no banco onde trabalhas outra vez. Será que me ligaste? Que esperas que eu te diga alguma coisa? Estás zangada ou preocupada? Dói-me a cabeça mas dói-me muito mais esta incerteza.


17:32
Oiço a tua voz e a custo abro os olhos. Não quero saber como souberam que era a ti que te deviam contactar, nem se estás irritada ou preocupada. Estás aqui. Comigo. Chega-me.

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