Frio

Pedro Farinha
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Frio

Postby Pedro Farinha » 07 Jan 2010 11:22

A casa está fria e sobreocupada. Em vão procuro divisões onde me esconder. Sufoco. Onde está um cantinho onde me possa esconder?

Dá-me os teus braços. Aperta-me neles.

Sento-me. Levanto-me. Pego num livro para pousar logo de seguida. Dou três voltas à sala para me voltar a sentar no mesmo lugar. Ligo a televisão mas o comando é um objecto inútil, amorfo e nem lhe toco, ainda que as vozes acesas que saltam do ecrã me agoniem. Levanto-me de novo e desligo a televisão e ponho música a tocar. A voz rouca do Tom Waits, que normalmente me envolve, chega-me do fundo de um poço. Distante. Asséptica. O que faço aqui?

Dá-me os teus braços. O calor do teu abraço. Leva-me para longe, para longe de mim.

Fecho os olhos mas não sonho. A casa grita em silêncios perenes. Levanto-me e vou espreitar os quartos que me interessam. Sou recebido com sorrisos formais como qualquer outro fantasma. Aos poucos a casa adormece. Eu não.

Dá-me os teus braços. Deixa-me afogar a minha cara nos teus cabelos. Sentir o teu cheiro e repousar no teu colo.

Os lençóis frios recebem-me com a alegria de um funcionário público a entrar na repartição de finanças numa segunda-feira de manhã. Enrolo-me neles. Tapo-me e afogo-me. Fecho os olhos e fujo.

Dou-te os meus braços. Enroscas-te neles. Aperto-te com força e levantamos voo.

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