OS SAPATOS DE AUSCHWITZ

j.t.parreira
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OS SAPATOS DE AUSCHWITZ

Postby j.t.parreira » 01 Jul 2005 00:17

Por estes sapatos que tiveram
dentro da noite os pés
arrastou-se a eternidade.
Aonde vão os pés a flutuar?
Subindo uns pelos outros
os sapatos têm cor de cinza
como a cinza dos corpos
que lhes estão a faltar.
Estes sapatos traspassam
nossa alma
como um rio de névoa
como um rio de lama.

© j.t.parreira


Uma proposta para uma abordagem poética do que se passou em AUSCHWITZ, tomando também a frase de Adorno: «depois de A.não seria possível mais poesia.»

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Thanatos
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Re: OS SAPATOS DE AUSCHWITZ

Postby Thanatos » 05 Jul 2005 10:09

Não consigo abordar poeticamente Auschwitz. Primeiro porque me falta a «veia» poética e criadora. Segundo porque é um assunto que sempre abordei duma perspectiva histórica e sobre o qual tenho fortes sentimentos.

Para quem já tenha visitado o campo, principalmente se o fez durante os meses de Inverno em que um manto de neve cobre os arames farpados, as torres de vigia, as barracas e outros edifícios, tudo servido pelo som ululante dum vento gélido que é como se uma sinfonia de vozes nos sussurrasse aos ouvidos os hediondos crimes que ali se perpetuaram, sabe que é impossível ficar imperturbado pela enorme onda de tristeza e desespero que emana do local.

É difícil conceber que seres humanos tenham feito o que se fez a outros seres humanos. É difícil entender os porquês, perdoar os carrascos e esquecer o passado. E no entanto continua-se a matar... não interessa em que nome ou sob que pretexto, seja ele económico, religioso, político. Para quando a reforma da mentalidade?
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

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Re: OS SAPATOS DE AUSCHWITZ

Postby j.t.parreira » 05 Jul 2005 14:14

Thanatos escreveu:
«tudo servido pelo som ululante dum vento gélido que é como se uma sinfonia de vozes nos sussurrasse aos ouvidos».
Nesta frase, Thanatos veio a abordar poeticamente Auschwitz. A metonímia, mais do que metáfora, aqui empregue - «uma sinfonia de vozes» -, acaba por ser poderosamente poemática, porquanto nos remete para as vozes do passado, que nesse terrível Campo de Extermínio nazi gritaram, falaram, suspiraram, silenciaram, até serem fumo com a única saída pelas chaminés.
De facto, Teodoro Adorno falhou a profecia, quando disse que não poderia haver mais poesia depois de Auschwitz: pôde haver ao longo destes 60 anos, continuará a haver, porquanto poesia é denúncia também, e memória.
A poesia de Paul Nizan, a prosa de Primo Levi ( SE ISTO É UM HOMEM)ou de Imre Kertesz ( SEM DESTINO), e não apenas, aí estão para o debate.
Um abraço
João


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