Um Dia Como Tantos Outros

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Um Dia Como Tantos Outros

Postby Cerridwen » 28 Apr 2007 16:57

Um Dia Como Tantos Outros

Olhou para o relógio. 08.30. Contemplou a vista em redor, passou os olhos pela fila de trânsito que se estendia até à rotunda do Marquês de Pombal, enquanto batia os dedos levemente no volante. Mirou um pouco os edifícios altos, ligeiramente enegrecidos pelo fumo dos milhares de veículos que, dias após dia, por ali passavam.

Na rádio, uma voz anunciava os resultados de uma análise efectuada por um jornal à documentação referente às habilitações académicas do Primeiro-Ministro. Uma enorme confusão que se desencadeara num momento inoportuno, em que, mais uma vez, uma instituição educacional portuguesa de nível superior portuguesa via a sua imagem perturbada por acontecimentos inoportunos. Nada que despertasse muito o interesse de Marta, jovem recém licenciatura em Marketing por um mui nobre instituto superior público isento de colossais polémicas e com razoável prestígio.

Há muito que para Marta pouco interessavam as conversas, discussões ou outros aspectos, verbais ou escritos que rondassem a questão das licenciosidades ou demais graus académicos de qualquer lusitano. Quando terminara o ensino secundário, como estudante aplicada que era, decidira continuar com o estatuto de estudante a aumentar as suas habilitações com a supracitada licenciatura, com expectativa de que o futuro pudesse assemelhar-se à imagem que visualizava em sonho. O curso, porém, revelara-se mais insípido e menos interessante do que esperava, os resultados, pior. Mais tarde, com uns anos subtraídos na cadeia da vida e uma referência somada no currículo, partira à grande aventura que é a busca pelo desejado local de trabalho. Pesquisa e subsequente resposta a anúncios em jornais, Internet, registo no Centro de Emprego, envio de Curriculum para empresas grandes, médias, pequenas. As respostas, muito poucas. Seguiam-se as entrevistas em locais abafados, mirradas pelo volume humano que o ocupava. Uma pergunta, sempre a mesma. «Experiência profissional na área?» A resposta cada vez mais elaborada todavia, continuamente ineficaz. A sua vida deambulou durante longos meses nestes percalços, que não são mais do que o pão nosso desta vida a cada um infligida sem consentimento, não obstante os instantes de êxito e felicidade.

Olhou para o relógio. 08.45. O trânsito continuava o seu andar lento e constante, apesar do passar do tempo acelerado, na contagem decrescente para mais um dia de trabalho. Aqui e acolá a impaciência ia dando lugar ao barulho de algumas buzinas. O sol já incidia no metal, encadeando os olhares mais sensíveis.

Marta, enquanto isso, habituada ao stress matinal da vida na grande cidade, viajava um pouco em pensamento. Há muito que algumas questões dançavam no pensamento, as palavras girando umas entre outras, até formarem interrogações comuns. «Qual o sentido da vida?» «Existiria realmente um ser divino, fonte de toda a criação?» «A partir de que momento terá início a designada existência?» Bem como muitas outras questões. Insignificantes? Talvez. Quem poderia dizê-lo? Os próprios filósofos, imponentes, não encontravam respostas mais que individuais para as grandes questões que com afinco acolhiam e várias vezes, apesar das respostas conclusivas, estas eram apenas fundamentadas com entendimentos que resultavam de processos de exclusão de outros entendimentos.

Já dizia Descartes, na sua prestigiada obra Princípios da Filosofia: Será mesmo muito útil que rejeitemos como falsas todas aquelas coisas em que pudermos imaginar a menor dúvida, a fim de que, se descobrimos algumas que, não obstante essa precaução, nos pareçam manifestamente verdadeiras, consideremos que elas são também muito certas e as mais fáceis que é possível conhecer.

Não sabia Marta porque se prestava a estes pensamentos, melancólicos, incómodos, sem interesse para os mais comuns mortais, tal como era o seu caso. Não demorou por isso a acordar do transe de pensamentos.

Olhou para o relógio. 08.55. Já se encontrava nas imediações do edifício de tamanho mediano, desprezado no amontoado de tantos outros prédios de vários tamanhos e semelhantes formas, com igual tonalidade. Um branco de há décadas atrás que, hoje, apresentava-se acinzentado com laivos negros. Ao subir a larga Avenida, apercebeu-se de que iria chegar, mais uma vez, com um atraso relativo, ao local que gostava de apelidar de «posto de conversação».

Olhou para o relógio. 09.00. Guiada para a realidade. Conduziu o veículo a um pequeno espaço, num parque de estacionamento por onde havia há pouco surgido um espaço vazio. Desceu bruscamente a pala à procura do pequeno espelho. Tirou da mala um pequeno batom vermelho-pálido e passou-o com delicadeza pelos lábios. Assim que abandonou do veículo, ajustou a saia curta, porém, rudimentar como se exige a uma mulher séria de hábitos discretos. E, aos solavancos, em cima dos saltos frágeis, por entre a calçada irregular, dirigiu-se a uma porta pela qual passou rapidamente assim, como de seguida, por entre outras portas e corredores até um computador igual a tantos outros, todos dispostos em linhas horizontais sobre secretárias compridas, separados por placas finas de um qualquer material insignificante.

Olhou para o relógio. 09.05. Procurou velozmente ligar todas as aplicações necessárias. De súbito, o ecrã torna-se azul-escuro e assim permanece. «Merda!» – exclama silenciosamente por entre lábios entreabertos. E repete todo o processo.

- Precisas de ajuda? – palavras pronunciadas por um jovem de cabelos louros, curtos, que estava sentado próximo e de olhos postos em Marta.

- Não. Obrigada. Uma mulher acaba sempre combater as infelicidades que se entrepõem no seu caminho.

E após estas palavras, Marta terminou os procedimentos aborrecidos que antecedem a agitação do seu dia-a-dia laboral.
Mais uma vez, iniciava-se o cair das chamadas, uma após outra. Ás quais Marta procurava atender da melhor forma possível. Os clientes, que ligavam à procura de uma solução para os seus problemas, encontravam-se demasiado susceptíveis de ao menor pormenor dificultarem uma conversação que deveria ser simples e curta.

- «Bom dia. Está a falar com Marta Silves. Eu tenho o prazer de estar a falar com… Verifico que… Conclui a alteração. Demorará cerca de uma hora a ser efectuada pelo sistema… Tem alguma outra questão que pretenda ver resolvida? Obrigada pelo seu contacto. Continuação de bom dia.»

Preparava-se para atender mais chamadas quando uma mão pousou no seu ombro. Olhou para trás. Retribuiu um sorriso, preocupado, distante do que lhe fora enviado.

- Como sempre atrasada. O mês passado foi a desgraça que se viu. Se não fossem os teus méritos comportamentais… – apesar do ar sério esboçou um sorriso que contrastava com as suas palavras.

Marta conhecia aquele jovem sério e educado a quem estava subordinada durante oito horas diárias.

- Criar um filho sem auxílio considerável é uma tarefa árdua e cansativa. Um dia compreenderás estas m
inhas palavras. Ou talvez não. O fardo é sempre menor para o elemento viril do casal. – suspirou. Logo se apercebeu de que falara de mais e procurou mudar de atitude. – Qual o assunto que o trouxe até mim?

- Vim apenas como mensageiro. Pediram-me que a levasse até um gabinete. Um director pretende falar consigo. Ao que parece, algo de importante. Acompanha-me?

- Com certeza. - proferiu em tom sério.

Enquanto passavam por uns corredores estreitos e longos, Marta não conseguia deixar de pensar no quão insólita era a situação. Era invulgar um assistente ser convocado à direcção. A confiança que lhe era tão característica foi abalada. Tinha noção de que a pontualidade era um factor importante naquela casa. E, tendo esse aspecto em atenção, movia o corpo com algum desassossego.
Uma porta abriu-se. Um Sr. Dr. Bem vestido, com um aspecto respeitoso contudo, com uma cara levemente rosada, talvez devido a uns goles do conhaque chiquíssimo que tinha guardado de modo descuidado num pequeno móvel colocado atrás de si, convidou-a a sentar-se.

(Continua)

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Re: Um Dia Como Tantos Outros

Postby Thanatos » 28 Apr 2007 22:45

Raras vezes nos presenteias com os teus textos Cerridwen mas quandos o fazes... UAU :ohmy:
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

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Re: Um Dia Como Tantos Outros

Postby Samwise » 30 Apr 2007 10:37

Acrescenta aí o meu Uau!

A sua vida deambulou durante longos meses nestes percalços, que não são mais do que o pão nosso desta vida a cada um infligida sem consentimento, não obstante os instantes de êxito e felicidade.


E mais... num texto que fica a meio, é importante que o leitor fique com o interesse agarrado ao fio da expectativa, na completa ignorância acerca do rumo futuro dos acontecimentos - e esta primeira parte cumpre as duas premissas com afinco.

Sam
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

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Re: Um Dia Como Tantos Outros

Postby Cerridwen » 04 May 2007 18:20

Thanatos, são tão poucos os textos que escrevo e geralmente incabados que não tenho possibilidade de publicar mais textos do que os que tenho vindo a publicar. Também o tempo é tão escasso e tantas vezes o cansaço impede que a inspiração apareça.

Samwise, este texto ficou a meio por mera falta de tempo. O objectivo era aproveitar algum tempo que tinha para escrever um texto com princípio, meio e fim, no entanto, faltou a inspiração e o tempo. Tive de o deixar por terminar e como não tenho possibilidade de o terminar entretanto, bem como, há muito que não publicava nada, resolvi deixá-lo por aqui, mesmo assim, incompleto.

Agradeço os comentários.


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