Quem me dera que fosse apenas cansaço

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Cerridwen
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Quem me dera que fosse apenas cansaço

Postby Cerridwen » 01 Aug 2007 15:12

<!--sizeo:3-->[size=100]<!--/sizeo-->Quem me dera que fosse apenas cansaço<!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->

Quem me dera que fosse apenas cansaço este sentimento que, enfraquece mente e corpo, tolda os movimentos, o raciocínio. Os pensamentos libertam-se perante tal inércia.

Surgem das memórias, escondidas pela vontade de enfrentar as adversidades do quotidiano. Vêem do manto de nevoeiro que cobre este patamar situado na serra do nada. Aparecem subitamente como D. Sebastião numa manhã de nevoeiro. Dizem que não é bom agouro entranharmo-nos nos sonhos de uma juventude morta, tentar dar nova vida ao corpo morto cuja alma vive para além dos portões eternos, em paz. Dizem que um país que vive do seu passado nada é para além de uma caravela embrenhada no nevoeiro marítimo.

Sol, mar, as crianças a brincar na areia, a vaca que em desespero se atira à água fria do mar para depois ter de regressar à prisão de ferro sem força. Tudo parece ilusório quando a mente se encontra em local remoto, junto de um coração feito em pedaços.

Num caminho em baixo caminha um casal. Passeiam abraçados, passo certo, anel dourado na mão esquerda. Vejo-os ao longe, a uma distância de anos, estão felizes, ela toda vestida de branco, ele vestido de preto e branco, são recebidos por uma chuvada de arroz. A distância aumenta, as expressões faciais de ambos modificaram-se, caminham por entre a cozinha atarefados, na sala espera-os um grupo de pessoas sorridentes em volta de uma criança, em cima da mesa um bolo coberto por creme branco, encimado por uma vela.

Algures, encontra-se um casal parado, de atitudes serenas e olhar feliz. Ela de cabelos castanhos desidratados, ele de cabelos de cores cinzento e branco. Tento olhá-los, contemplo-os mais jovens, vão lado a lado na praia, não vão abraçados nem sequer de mão dada, olham o mar tristemente, despedem-se, ele sai apresado para o carro que se encontra na esquina, ela senta-se na areia, ali fica a ver o final do dia aproximar-se, deixando as memórias apoderar-se de si, vejo agora que por aqui passou.

Estilhaços de memórias. Visões ensombradas pela angústia e a fértil imaginação.

Abro finalmente os olhos e contemplo o mesmo dia com sabor a novo. Pelas narinas entra o odor a camélias em flor. Na minha cabeça uma frase forma-se.

«Tenho de plantar rosas amarelas.»

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