O Adeus

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Cerridwen
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O Adeus

Postby Cerridwen » 23 Apr 2005 21:00

O Adeus


Ainda me lembro da última vez que te vi, dos teu sorriso, do teu olhar ingénuo e das palavras doces que me sussurraste ao ouvido. Palavras que pairavam no ar doce e que se misturavam com o cheiro doce a maresia. A areia lisa e brilhante, e o mar, negro e profundo, do qual emanava um odor doce, límpido, que me libertava os sentidos, pareciam contemplar a nossa união.

Ao longe viam-se alguns barcos que nos alertavam para o passar das horas. Não tardaria a amanhecer e tudo mudaria, as palavras que me dirigias não passariam de lembranças e aquele lugar passaria a ser a principal fonte da minha amargura. Irias então reclamar um pedaço de mim. Pedaço esse que logo daria, mas que mais tarde, tornar-se-ia no meu tesouro perdido, pedras preciosas que ainda hoje procuro sem cessar. Tornou-se numa busca sem esperança, em que apenas a dor me acompanha. A estrada por onde caminho é árida. O nevoeiro denso e húmido paira sobre mim, tapando as roseiras por onde os meus pés calejados, sem protecção, caminham, salpicando com o meu sangue a terra quente e áspera.

A cobardia vai tomando posse do meu corpo, desde o dia em que não quis dizer-te adeus. Receava aumentar a minha dor mas consegui o inverso. Hoje as lágrimas despontam dos meus olhos e correm lentamente, inundando a minha face, e humedecendo os meus lábios, até finalmente caírem nos cravos que trago nas mãos. São para ti.

Nada mais tenho para juntar a este pedido de desculpa. Sim, esta é a minha despedida, parece que cheguei ao fim da minha caminhada. Consigo agora ver o teu corpo. Pareces confortável aí, no meio dessa erava verde e fresca, donde crescem algumas flores brancas como a tua pele pálida e vermelhas como o sangue que a cobre.Vejo nos teus lábios aquele sorriso ingénuo que eu tanto adorava. E aí está, aninhado ao teu lado, o pedaço que me roubaste. Posso agora recuperar aquilo que me pertence e ir-me embora, mas não sem antes pronunciar um leve e amargo...Adeus.

Pedro Farinha
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Re: O Adeus

Postby Pedro Farinha » 23 Apr 2005 22:10

Gostei !

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Re: O Adeus

Postby Maloveci » 25 Apr 2005 22:06

Cerridwen : Sim, esta é a minha despedida, parece que cheguei ao fim da minha caminhada


Se esse dia chegar, olha para cima porque eu já estou lá há muito tempo, mas se esse dia não chegar ... olha para o lado que eu dar-te-ei forças para continuares a sorrir . :bye:


Ai ai ai ai ... então onde está a menina que me disse para eu escrever outras coisas sem ser sobre o meu EU e afinal faz o mesmo ??? :pissed: :pissed:


Beijos :blush:
<!--coloro:#0000FF--><span style="color:#0000FF"><!--/coloro-->Desabafas??? Eu também... Estou aqui: <!--colorc--></span><!--/colorc--> <!--coloro:#9932CC--><span style="color:#9932CC"><!--/coloro-->maloveci@jamaicans.com<!--colorc--></span><!--/colorc-->

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Cerridwen
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Re: O Adeus

Postby Cerridwen » 26 Apr 2005 00:01

Se esse dia chegar, olha para cima porque eu já estou lá há muito tempo, mas se esse dia não chegar ... olha para o lado que eu dar-te-ei forças para continuares a sorrir . 


Obrigado pelo apoio. :P

Maloveci wrote:Ai ai ai ai ... então onde está a menina que me disse para eu escrever outras coisas sem ser sobre o meu EU  e afinal faz o mesmo ???   :pissed:  :pissed:

Beijos   :blush:


Eu a ver se passava despercebida.. :P
POis é, também não consigo deixar a temática do EU. Que se pode fazer, textos como este ajudam-me a passar os problemas para o papel e por algum tempo esquecer que eles existem.
Este texto também é um caso à parte, não o escrevi "por escrever" tem um grande significado por detrás.

Mas já prometi a mim mesma que ia tentar debruçar-me sobre outras temáticas. :blush:


Obrigado a ambos (Pedro Farinha e Maloveci) por terem comentado o texto. :)

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Re: O Adeus

Postby Samwise » 26 Apr 2005 11:38

Cerridwen wrote: Consigo agora ver o teu corpo. Pareces confortável aí, no meio dessa erava verde e fresca, donde crescem algumas flores brancas como a tua pele pálida e vermelhas como o sangue que a cobre.

Parece-me que a imagem é mais espiritual que física, mas esta parte fez-me lembrar a letra de uma canção do Nick Cave e da Kylie Minogue: "Where the Wild Roses Grow"...

Imagens à parte, quando acabei de ler o texto fiquei com uma sensação que tu mais tarde confirmas... que o significado dele tem algo a ver contigo. É um retratro aglomerador de alguns sentimentos que ainda não encontrarm descanso.

O Maloveci tem alguma razão sobre a temática... mas não total. Por vezes escrever é isso mesmo... libertar (desabafar?) forças interiores. Mesmo quando são alguns sentimentos mais sensíveis e mesmo se na escrita eles aparecem revestidos de palavras bonitas.

Um bonito texto.

Sam
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Re: O Adeus

Postby Cerridwen » 26 Apr 2005 20:41

Samwise wrote: Parece-me que a imagem é mais espiritual que física, mas esta parte fez-me lembrar  a letra de uma canção do Nick Cave e da Kylie Minogue: "Where the Wild Roses Grow"...

Imagens à parte, quando acabei de ler o texto fiquei com uma sensação que tu mais tarde confirmas... que o significado dele tem algo a ver contigo. É um retratro aglomerador de alguns sentimentos que ainda não encontrarm descanso.

O Maloveci tem alguma razão sobre a temática... mas não total. Por vezes escrever é isso mesmo... libertar (desabafar?) forças interiores. Mesmo quando são alguns sentimentos mais sensíveis e mesmo se na escrita eles aparecem revestidos de palavras bonitas.

Um bonito texto.

Sam

Tens razão essa imagem é mais espiritual, tal como algumas das outras imagens. O texto reune aquilo que sinto desde que perdi alguém que me era muito querido. :blush: :unsure:

Obrigado por comentares o texto. :)

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Re: O Adeus

Postby blueiela » 27 Apr 2005 12:19

Cerridwen


Já disseram tantas palavras para descrever o teu texto que não restou nenhuma para mim... :P apenas um ADOREI!!

Li este teu desabafo enquanto ouvia musica,gosto de ler com os ouvidos embalados e ainda consegui sentir a brisa do teu mar misturada com a melodia que ecoava.

Belas palavras, tristes mas espero passageiras...obrigado pela partilha deste teu momento! :rolleyes:



beijos


blue
<!--coloro:#0000FF--><span style="color:#0000FF"><!--/coloro-->É nas palavras que encontro o meu ninho de repouso...<br />nas suas asas alcanço o limite do imaginário!<!--colorc--></span><!--/colorc--><br /><br /><br /><!--sizeo:5--><span style="font-size:18pt;line-height:100%"><!--/sizeo--><a href="http://devaneiosazuis.blogspot.com/" target="_blank">Devaneios</a><br /><br /><a href="http://cortarpalavras.110mb.com" target="_blank">Cortar palavras num só golpe</a><!--sizec--></span><!--/sizec-->

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Re: O Adeus

Postby Cerridwen » 27 Apr 2005 20:11

Por vezes a música dá uma ajudinha à imaginação.. :)

Há alguns "tipos" de tristeza que são permanecem sempre por mais que nos esforcemos por ultrapassá-los, tal como a tristeza que passei para o texto, quem sabe, talvez um dia consiga ultrapassar esta mágoa. :unsure:

Ainda bem que gostaste do texto (bem como os outros que o comentaram), parece que valeu a pena colocá-lo aqui.

Obrigado pelos comentários que aqui deixaste, blueiela. :)

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Re: O Adeus

Postby Thanatos » 27 Apr 2005 20:29

Estive muito tempo para comentar este texto. Da primeira vez que o li não percebi bem do que se tratava. Esperei uns dias e reli-o. Continuei sem enteder. Não faço ideia se a compreensão é uma condição sine qua non para gostar ou não de um texto mas na dúvida... reservo o meu comentário.

Talvez a Cerridwen me possa esclarecer sobre o intuito dele.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Pedro Farinha
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Re: O Adeus

Postby Pedro Farinha » 27 Apr 2005 20:51

Entre o que alguém escreve e o que outro lê, vai um grande passo.

E o que importa é o que nós, leitores deste bonito texto, sentimos ao lê-lo e não qual a mensagem que a autora quis transmitir.

Eu convicto que se Camões ressuscitasse morreria de riso ao ver as dissertações feitas sobre os seus intuitos ao colocar dada palavra nos lusíadas quando a verdade é que foi a única que ele encontrou que "encaixava" matematicamente na métrica alexandrina.

No entanto aquilo que eu "senti" ao ler este texto, foi a de alguém que só após a morte de um ente querido volta a ser inteiramente livre ainda que lastime e muito a morte desse mesmo ente. Se é isso quie a Cerridwen queria dizer... não sei e acho que não importa.

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Re: O Adeus

Postby Cerridwen » 27 Apr 2005 23:48

Estive muito tempo para comentar este texto. Da primeira vez que o li não percebi bem do que se tratava. Esperei uns dias e reli-o. Continuei sem enteder. Não faço ideia se a compreensão é uma condição sine qua non para gostar ou não de um texto mas na dúvida... reservo o meu comentário.

Talvez a Cerridwen me possa esclarecer sobre o intuito dele.


É um texto difícil de explicar. Basicamente contém um pouco do meu passado com os senimentos do presente, tudo misturado com um pouco de imaginação (tipo receita de culinária). Daí ser um texto de díficil compreensão para quem quer que o leia. Como já referi, este texto está directamente ligado à morte de alguém que me era muito querido. No fundo, é mais um dos meus desabafos, mas em forma de despedida (como se o texto fosse uma carta dirigida a essa pessoa). :unsure:

Espero que com esta pequena explicação consigas compreender um pouco do texto. :blush:

Entre o que alguém escreve e o que outro lê, vai um grande passo.


Como Fernando Pessoa escreveu:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.


Embora não saibamos ao certo o que queria ele dizer, dá a entender que tentava explicir esta questão.

Eu convicto que se Camões ressuscitasse morreria de riso ao ver as dissertações feitas sobre os seus intuitos ao colocar dada palavra nos lusíadas quando a verdade é que foi a única que ele encontrou que "encaixava" matematicamente na métrica alexandrina.


Quando estudei Fernando Pessoa, sempre que tentava dissecar um poema imaginava qual a reacção do senhor, se ele visse o que nós estávamos para ali a dizer.. :)


No entanto aquilo que eu "senti" ao ler este texto, foi a de alguém que só após a morte de um ente querido volta a ser inteiramente livre ainda que lastime e muito a morte desse mesmo ente. Se é isso quie a Cerridwen queria dizer... não sei e acho que não importa.


Por acaso era mais ou menos isso que pensava, quando escrevi o texto. :blush:


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