Qual o último filme " Banhada " ou da " Treta ", que viste?

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Samwise
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Re: Qual o último filme " Banhada " que viste?

Postby Samwise » 16 Oct 2011 23:57

Ignatius Wao wrote:Amanhã coloco um comentário sobre todas as banhadas que referi no post acima :P


Sobre o Slumdog Millionaire, cheguei a escrever um texto, que admito não ter sido dos mais felizes na forma com expõe o meu desagrado. Não vai ao fundo dos problemas e não dá uma dimensão rigorosa do meu sentimento enquanto pessoa ofendida... :mrgreen:.

urukai, apesar de ter uma opinião contrária à tua, gostei de ler o teu "porquê", em especial esta parte:

Mas voltando ao tema principal, é de uma ironia extrema e de uma simplicidade desarmante que todos os habitantes da India (uma população extremamente envelhecida) quisessem estar na pele de Jamal por uma razão totalmente oposta aquela porque ele está nesse lugar. Ele fá-lo por amor e todos os outros o fariam por dinheiro. Todos os outros falharam (nunca ninguém ganhara o concurso) e ele ganha! Porque está destinado. Porque o amor tudo vence. Porque realidade sentimental suplanta a realidade material.


Não suportei o filme mas reconheço que a história tem ideias interessantes e com grande potencialidade.
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Ignatius Wao
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Re: Qual o último filme " Banhada " que viste?

Postby Ignatius Wao » 17 Oct 2011 00:35

Samwise wrote:Sobre o Slumdog Millionaire, cheguei a escrever um texto, que admito não ter sido dos mais felizes na forma com expõe o meu desagrado. Não vai ao fundo dos problemas e não dá uma dimensão rigorosa do meu sentimento enquanto pessoa ofendida... :mrgreen:.


Belo Texto Sam. :tu:
Em relação ao "Slumdog Millonaire" também elaborei um pequeno texto, que coloquei no DvdMania. Tem alguns pontos em comum com o teu. Amanhã faço copy paste.
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Re: Qual o último filme " Banhada " que viste?

Postby nimzabo » 17 Oct 2011 07:08

A propósito do Slumdog Milionaire deixo aqui uma crónica que a Arundathi Roy escreveu:


NÃO GOSTEI DO FILME

Desde que ''Quem quer ser bilionário'' ganhou vários óscares, todos reivindicam uma participação neste triunfo. Até o Partido do Congresso (no poder) se orgulha de ter presidido ao surgimento da ''Índia bem sucedida''. Mas bem sucedida em quê? A principal contribuição do país e dos partidos para o filme é terem fornecido um autêntico e dramático ambiente de pobreza e violência como cenário. Chamam a isso sucesso? E é motivo para se congratularem? Têm de que se orgulhar? Francamente é mais do que ridículo. O filme não acusa ninguém, não pede contas. É por isso que todos estão contentes. E é isso que me incomoda.
''Quem quer ser bilionári'' não contradiz o mito da ''Índia que brilha'' (mote usado em 2004 pelo BJP, partido nacionalista hindu, hoje na oposição). Contenta-se em ''glamorisar'' a Índia que não brilha. Este filme não tem o mesmo garbo, humor ou vertente politica que o realizador (Danny Boyle) e o autor do livro (Vikas Swarup) testemunham noutras obras. Não merece os arroubos apaixonados que suscita. O guião é simplista e os diálogos mais do que medíocres, o que me surpreendeu, pois gostara muito de ''Ou tudo ou nada'' (do mesmo guionista - Simon Beaufoy). A acumulação de estereótipos, frases feitas e deslocadas fazem do filme uma versão para cinema de ''Alice no País das maravilhas'': ''Jamal no País dos Horrores''.
Este filme tem como unico efeito tornar asséptica a realidade. Os ''maus'' que raptam e mutilam crianças antes de as venderem a bordéis lembra-me Glenn Close em ''101 Dálmatas''. Do ponto de vista politico, o filme descontextualiza a pobreza, fazendo dela um simples acessório dramático. Dissociada dos pobres, é uma paisagem, tal como um deserto, uma cadeia de montanhas ou uma praia exótica. A pobreza é tratada como uma fatalidade, não como um produto dos homens.
A câmara passeia pelos bairros-de-lata e selecciona a dedo as criaturas que os povoam. Escolher um homem ou uma mulher com marcas fisicas da infância nos bairros sem condições não teria dado um cartaz atractivo. O realizador escolheu, por isso, uma modelo indiana (Freida Pinto) e um jovem britânico (Dev Patel). A cena de tortura na esquadra é um insulto à inteligência do espectador. A confiança que emana deste ''rafeiro'' tão manifestamente britânico nada tem que ver com o policia tipicamente indiano, que deverá ter ascendente sobre o rapazinho. O problema não está em serem bons ou maus actores, é uma questão de tom. É como se os jovens negros dos guetos de Chicago falassem com sotaque de Yale. Muitas das mensagens ficam completamente baralhadas.
Não se trata de contestar o realismo da produção, dizer que o filme não devia ser em inglês ou cometer a tolice de afirmar que os estrangeiros nunca compreenderão os mistérios da Índia. ''Quem quer ser bilionário'' é apenas a versão barata do grande sonho capitalista, em que a politica é substituida por um jogo televisivo em que se realiza um sonho, enquanto o de milhões lhes é recusado. Ficam agarrados a uma quimera: trabalhem duro, sejam amáveis e, com sorte, podem tornar-se milionários.
Segundo certos especialistas, este êxito assenta no facto de as histórias de pobres bem sucedidos serem, numa época em que os ocidentais cada vez mais ricos são ameaçados pela miséria, mensagens de esperança. A ideia aterroriza-me. A esperança devia basear-se em algo mais sólido.

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Re: Qual o último filme " Banhada " que viste?

Postby grayfox » 17 Oct 2011 10:15

Fiquei mais chocado por ver o The Fountain metido ao barulho.
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Re: Qual o último filme " Banhada " que viste?

Postby nimzabo » 17 Oct 2011 10:24

Fiquei mais chocado por ver o The Fountain metido ao barulho.

Ainda não perdi a esperança de alguém me explicar esse filme e que raio fazem lá os Maias.

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Ignatius Wao
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Re: Qual o último filme " Banhada " que viste?

Postby Ignatius Wao » 17 Oct 2011 22:43

As Banhadas :devil:

300

Tenho que reconhecer, que não foram poupados esforços para fazer de “300”, um filme visualmente fiel a Bd de Frank Miller, e esse aspecto, é o descalabro do filme. Visualmente rígido e narrativamente oco, com diálogos a roçar o ridículo, Snyder não pretende adaptar a Bd ao grande ecrã, ele pretende unicamente criar um universo pictórico e nada mais. Nada, verdadeiramente nada é criado, não existe nada de criação e como tal não existe nada de arte. Tudo o que existe é compatibilizado para o contexto estético do filme.

E o que dizer da forma como Snyder filma? Basta olharmos para os seus takes em câmara lenta (Slow Motion). A acção depois é retomada não a velocidade normal, mas sim a uma velocidade acelerada. Podemos verificar este efeito em vários momentos do filme, quando Leônidas escala a montanha para encontrar os Ephors, quando a rainha Gorgo vai-se encontrar com um dos conselheiros, caminhando por uma espécie de estábulo, num determinado momento em que a câmara acompanha uma luta lateralmente, com os soldados correndo. Em cada um delas, a câmera fica lenta ou acelerada apenas para mudar de velocidade. Não tem nenhum valor simbólico intrínseco. Isto é Uwe Boll no seu melhor, câmara lenta e acelerada alternam-se longamente sem qualquer critério além do fato de Snyder pensar: “Assim vai ficar fixolas!” E esta é a filosofia pela qual se rege todo o filme.

Poderia ainda falar da cena de sexo do rei Leonidas e da rainha Gorgo, ou da cena do oráculo que mais parecem sequências de flashes envergonhados de um filme porno.

Muita gente defende que o filme é de puro entretenimento, como se entretenimento fosse sinónimo de mediocridade, como se entretenimento anulasse qualquer possibilidade de contextualização.


Slumdog Millionaire

Slumdog Millionaire é aquilo que eu chamaria um filme telenovelesco. E é um filme telenovelesco pelas seguintes razões:

- Se levantarmos o “véu” do argumento, aquilo que temos por baixo é uma estrutura simplista, igual a 90% dos filmes do Bollywood (ou das telenovelas Latino-americanas), ou seja, temos – Um herói pobre - Órfão (ou que fica órfão logo no início do filme) – que passa por muitas, muitas, dificuldades – mas no final é recompensado, fica rico e com a rapariga gira.

- Este argumento simplista, é tratado com a ajuda de flashbacks, que na primeira vez em que se utiliza o recurso até chega a ser interessante, mas a sua repetição torna o filme enfadonho. Ou seja o que temos é basicamente isto: - o apresentador faz uma pergunta, em seguida temos um flashback explicando como o Jamal sabe a resposta a pergunta. E a cada nova pergunta, um novo flashback. E é assim até o final do filme, pergunta-flasback, pergunta-flashback.

- O filme e retractado com uma superficialidade aterradora. Todos os infortúnios ocorridos na vida do pobre Jamal são mostradas apenas com a profundidade necessária para fazer com que o telespectador sinta pena dele, apenas para identificar quem são os “bons” e os “maus”, E desta forma, fazer com que todos passem a torcer pelo rapazinho.
Recorrendo a todos os truques melodramáticos das novelas mexicanos ou indianas, para captar a atenção das plateias, Quem quer ser Bilionário? repete todos os clichés imagináveis: meninos pobres que passam por desgraças terríveis causadas por vilões muito (mas muito) maus (que cegam crianças com chumbo quente para que ganhem mais dinheiro nas ruas). A sua amiguinha Latika, tornasse-a prostituta nos bordéis de Mumbai e, o seu irmão ira juntar-se ao crime. E o filme vai assim, de desgraça em desgraça até a vitória final. Mas no fim Jamal tudo irá vencer. Os personagens são retratados como extremos de bondade ou maldade, sem espaço para um meio-termo. O intuito de todas as cenas é apenas criar o estereótipo/chliché telenovelista, da pessoa que passa por muitas dificuldades, mas que no final será recompensada.

- Não existe a mínima contextualização. Por ex. a morte da mãe. Jamal vê mãe ser morta a paulada num conflito entre muçulmanos e hindus que chegam a queimar gente viva. Esta sequência, rápida como tudo, passa, obviamente, sem qualquer contextualização histórica ou religiosa sobre os conflitos étnicos, pelo total desinteresse de Boyle no assunto. A única “coisa” que interessa a Boyle naquela cena é “despachar” a mãe. Já não bastava o miúdo ser pobre, era necessário que ele também se tornasse órfão, a boa cartilha telenovelesca. A mãe é “despachada” com tal rapidez, com tal leveza, que arrepia de insensibilidade.

- O próprio Boyle não sabe que rumo dar ao seu filme, se um drama com forte cunho social ou uma fábula romântica. São quase dois filmes distintos misturados no mesmo saco para agradar a gregos, troianos e votantes da Academia de Hollywood. Pelo lado do drama social, tudo é mostrado (como já referi anteriormente ) de forma superficial, ajudado por clichés e simplificações.
No lado da Fábula (um jovem que vai a um concurso televisivo, no qual todas as pergunta são sobre aspectos da sua vida, e ainda por cima sequenciais (ou seja, as perguntas feitas a Jamal surgem na ordem exacta em que as respostas cruzaram sua vida) só pode ser uma fábula), o argumento jamais consegue escapar da natureza esquemática de sua estrutura artificial, e além do mais Boyle filma tudo de uma forma hiper-realista, que trai todo o possível espírito de fábula romântica. O problema está na histeria visual de Danny Boyle, que constrói uma narrativa sem uma única ideia de cinema a servi-la. Para Boyle, o cinema não é diferente de um videoclipe.

- Como se isto já não bastasse, o filme ainda oferece-nos uma das cenas mais desagradáveis dos últimos anos. Uma cena, que numa comédia escatológica feita para adolescentes, já seria ridícula, num filme com uma abordagem supostamente mais séria… enfim.
Estou a falar da cena, em que o nosso protagonista esta preso num WC público, e mergulha nas fezes, na ânsia de conseguir um autografo do seu actor favorito. Existiram mil e umas maneiras diferentes, de fazer com que Jamal conseguisse o autógrafo do seu actor favorito, então porque assim?
Porque na visão de Boyle, uma criança coberta de fezes da cabeça aos pés, correndo para conseguir um autógrafo do seu actor favorito é algo engraçado. É Boyle no seu simplismo.


Cast Away

Com o Náufrago o cinema americano criou "um novo tipo de filme": o filme publicitário com mais de duas horas de duração.

Tom Hanks é Chuck Noland, um funcionário exemplar da FedEx, é um homem que vive obcecado pelo relógio, pelo tempo e que de um momento para outro, devido a um acidente aéreo, é "obrigado" a passar 4 anos isolado numa ilha deserta.

Zemeckis "pegou" na história de Robinson Crusoé e adicionou um gigantesco "merchandising" de uma multinacional transportadora de mercadorias. O filme não é nada mais que um longo comercial da FedEx, uma empresa de transportes de encomendas, com ramificações em todo o mundo. Eu diria mesmo que o filme parece ter sido encomendado pela Federal Express (FedEx). Desde o primeiro segundo do filme somos bombardeados por uma descarada propaganda, a qual não falta a participação do presidente da FedEx, Fred Smith, na parte final do filme, com "direito a um discurso" onde exalta a dedicação dos funcionários da FedEx.

Deste filme publicitário só se salva mesmo a sequência do acidente, que é bastante realista e angustiante e o facto de Zemeckis ter optado pela ausência de banda sonora, durante todo o tempo em que a acção se desenrola na ilha. Tudo o que ouvimos são os sons naturais da ilha: o vento, a chuva, as árvores o barulho das ondas. Mesmo assim, os produtores conseguiram continuar com o ritmo de um merchandising a cada cinco minutos, mostrando providenciais pacotes que o mar trazia para a praia, com o logotipo estranhamente intocado.

De resto os diálogos de Chuck com a bola "Wilson" são aborrecidos. O drama sentimental de Chuck, que alimenta a primeira e a terceira parte do filme, é banal, chato e sonolento. O final é mesmo decepcionante, com a tentativa forçada de fazer o espectador sair do cinema com uma sensação de "final feliz" e usando um velho cliché nostálgico de "ligar a primeira cena do filme à última".

Quanto a Tom Hanks.. é um grande actor. Mas este filme nada acrescenta à sua carreira. A sua interpretação é feita essencialmente de um desfile de caretas e alguns esgares.


Dancer in the Dark

Estamos perante, na minha opinião, de um dos filmes mais sobrevalorizados, não só do ano 2000, mas de toda a década de 90.

O senhor Lars Von Trier é um "homem curioso", por um lado desconfiado das novas inovações da industria cinematográfica, por outro desesperado para criar algo novo; por um lado faminto por público e por outro orgulhosamente desprezador da aprovação das suas plateias.
Fundador do Dogma 95, subverteu o próprio dogma. Pelas regras do "documento", não são permitidos filmes de género. Von Trier, ex-dogmático, mistura logo dois. O filme é um musical, e um melodrama. E em todos os capítulos, apesar das câmaras digitais, o filme aponta muito mais para o conhecido e o já visto do que para o radicalmente novo.

No campo do musical, Dancer in The Dark é um musical hollywoodiano-dinamarquês, o que não significa lá grande coisa. Tal como nos tempos áureos da Metro-Goldwyn-Mayer os personagens "interrompem as suas actividades" para cantarem, dançarem. O problema é que Lars Von Trier, não sabe construir as cenas de seu musical de forma a torná-las boas – o que é um musical aonde não há glamour algum, onde não há charme narrativo, onde não há não há prazer, nem mesmo no trabalho do elenco?

No campo do melodrama o destaque vai para a cantora islandesa Bjork. Ela está no filme, "está", porque interpretar seria pedir um pouco demais. Ela simplesmente está lá como uma imigrante checa quase cega, mãe solteira, operária. Mas o destino tece sua trama e eis que a heroína acaba presa por assassinar um policia. O homem na verdade roubou o dinheiro que ela economizou durante anos para a operação que poderá evitar a cegueira do filho. Como se vê, nada mal como melodrama.

Afirmando nunca ter pisado solo americano, Lars Von Trier criou (ou pensou ter criado) a história de uma imigrante checa radicada nos Estados Unidos, que sonha com um futuro melhor para o seu filho – um mero pretexto para o realizador dinamarquês oferecer uma visão estereotipada e tacanha (mais uma, de um realizador Europeu) da América, segundo a qual as pessoas que emigram para os E. U., cheias de planos, não realizam nenhum, antes pelo contrário, as suas vidas se transformam num autêntico inferno. (Já não há paciência.)

A escolha do elenco foi má: Catherine Deneuve, por exemplo, recebe um papel ridículo (estava bem melhor cantando e dançando sob a batuta de Jacques Demy, nos anos 60, nos "Chapéus de Chuva de Cherbourg" esse sim, que grande filme); por sua vez, o "desempenho" de Bjork é de um nível absolutamente constrangedor: a cantora islandesa não consegue apresentar uma única inflexão correcta durante todo o filme, e não é difícil que sua "interpretação" seja das piores entre todas as que já ganharam o prémio de interpretação em Cannes. De Bjork, só me vem a memória, quando ela canta qualquer coisa como "Eu já vi tudo, não há mais nada para vêr..." e acrescenta "Para ser totalmente honesta, eu não me importo". Mas lembro-me, apenas por ser irónico. A canção expressa um sentimento que parece atacar os fundamentos básicos do filme, e até mesmo os do próprio cinema, que, afinal, é uma arte construída em torno do "miraculoso" acto de ver.

A fotografia é má, e numa altura que o cinema digital (técnica usada pelo filme) vive um boom, o próprio filme, enquanto fruto dessa técnica, nada mais faz, que de certa forma depor contra essa prática. Não há um único cenário interessante ou uma música acima do razoável, a realização de Von Trier não consegue criar um único momento interessante... enfim, penso que estamos perante um dos maiores equívocos, de toda a história do Festival de Cannes.

E a "segunda metade do filme"... bem, o filme transforma-se numa "imitação" desagradável, de tudo o que o melodrama oferece de mais previsível, na lógica do quanto mais manipulador, quanto mais puxar a "lágrima para o canto do olho", melhor... e o julgamento, que parece ter sido baseado, na visualização de episódios dobrados, de alguma série americana do género, na televisão dinamarquesa.
É fico por aqui, que isto já vai longo.


The Blair Witch Project

Foi um dos grandes acontecimentos cinematográficos de 1999, muito por culpa de uma excelente campanha de marketing, que soube (e muito bem) vender o seu produto. Depois gerou-se um efeito tipo bola de neve, todos queriam vêr o filme, que supostamente contava uma história verdadeira, diga-se de passagem que numa inteligentíssima jogada de marketing, Myrick e Sanchez deram aos personagens os próprios nomes dos actores criando entre público, a ilusão que a história era verídica .Por ex. a IMDB (A Internet Movie Database), chegou a classificar Heather Donahue como "morta" em 1994.

Como filme o resultado é decepcionante, tudo é filmado como um espécie de reportagem muito amadora, não muito diferente de um qualquer vídeo caseiro, de um casamento qualquer. E neste sentido é um dos piores filmes que eu já vi.

No entanto, não era este aspecto que estava em questão, o que era exaltado era a sua capacidade de "assustar", de mexer com as nossas emoções; "Um dos filmes mais assustadores da história do cinema" era uma frase associada a Blair Witch. E depois tinha ainda a tão falada originalidade "Um filme completamente inovador" outra frase muito usada.

Na minha opinião, este é um daqueles casos que se pode dizer que "a montanha pariu um rato". A sua capacidade de assustar (para quem a priori já sabe que se trata de uma obra de ficção) é nula. Ficamos a espera de um susto, de uma cena mais assustadora...e nada. E quando damos por nós o filme já acabou. Uma hora e meia de aborrecimento e um bocejo de 5 em 5 minutos.

Digamos a este respeito que o filme só poderia funcionar se não soubéssemos nada dele e pensássemos que era realmente uma história verdadeira.
O filme em si, simplesmente brinca com o medo de ficar perdido na floresta (neste caso bosque). Não é mais do que a história do João e da Maria, só a casa da floresta (bosque) é que não é feita de doces.
Quanto a tão falada questão da originalidade, esta mesma ideia (apresentar a obra de ficção, como um documentário supostamente real) já foi usada em mais do que um filme, sendo o mais conhecido "Canibal Holocausto".

De certa forma os realizadores (Daniel Myrick e Eduardo Sanchez), tentaram produzir um terror psicológico, ou seja, o medo daquilo que não se vê, mas que está sempre presente. Mas neste aspecto houve uma clara falta de talento. Um bom exemplo deste tipo de terror é "Piquenique em Hanging Rock" de Peter Weir.


Os "Documentários" do Senhor Moore

Tenho dificuldades, em chamar cinema documental aquilo que o sr. Moore faz. Se tivesse que catalogar as suas obras, chamaria de "Tempo de Antena" ou "Propaganda". Na verdade existem apenas duas diferenças, entre as obras de Moore e um tempo de antena de um qualquer partido político: Moore trabalha com orçamentos gigantescos, e técnicos bastante talentosos.

As duas principais características dos documentários de Moore são o simplismo e maniqueismo. Tudo é manipulado no sentido que Moore deseja. Se no cinema de ficção até poderia ser aceitável, no cinema documental é degradante.

A base fundamental de um bom documentário, é partir para o objecto de estudo sem um julgamento prévio, é conquistar a informação, é não fazer juízos de valor, é deixar os espectadores concluírem por si próprios.

O cinema documental de Moore é o oposto. O homem quando inicia um projecto já decidiu quem é o culpado, tenta arrancar literalmente a informação, faz todo o género de juízos de valor e manipula todas as entrevistas que realiza. E como se tal não fosse suficiente, conclui pelos espectadores (tratando os espectadores quase como atrasados mentais). E ainda por cima, não acredita na força das imagens; os seus documentários são palavrosos até dizer chega.

Ao pé do senhor Moore a Leni Riefenstahl era uma inocente


The Fountain

Em relação ao Fontain, vou abrir uma excepção, e em vez de colocar um comentário meu, coloco a crítica do Eurico de Barros, porque reflecte a minha opinião em relação ao filme:

Se quisermos dar uma definição aproximada, minimamente rigorosa, de The Fountain, a nova realização do americano Darren Aronofsky (Pi, Requiem por Um Sonho), em competição, diremos que é um filme que parece ter sido escrito e realizado após um excesso de exposição às obras de Paulo Coelho e de Carlos Castañeda, sob a influência de substâncias alucinogénias de pureza mais do que duvidosa e tendo como pano de fundo sonoro contínuo um best of do rock psicadélico em caixa de dez CD. Aterrou na Mostra um ovni com matrícula New Age e o seu nome é The Fountain. Pensem em misticismo de Loja dos Trezentos. Pensem em erva adulterada. Pensem num triplo álbum ao vivo dos Santana. The Fountain é tudo isso em cinema, e muito mais.

Hugh Jackman interpreta um médico que está a pesquisar a cura contra o cancro, Rachel Weisz faz de mulher dele a morrer de cancro, e a escrever um livro passado na Espanha do século XVI, sobre um "conquistador" que procura a árvore da vida eterna entre os maias para salvar a sua rainha e o seu país de caírem nas garras do Grande Inquisidor, ganhando assim a imortalidade. Jackman também faz de "conquistador" e Weisz (casada com o realizador) de rainha na história do livro, que Darren Aronofsky filma como se fosse uma aventura de série B, com dois cenários, seis actores secundários e diálogos escritos durante uma noite brava de copos com os amigos.

Não contente com isto, Aronofsky arranjou um terceiro nível para a história, passado num efeito especial comprado nos saldos de refugo de Battlestar Galactica: uma bolha a flutuar no cosmos, dentro da qual se encontram Hugh Jackman careca e uma árvore. Isto porque estamos no século XXVI, e a personagem de Jackman, além de ter descoberto a imortalidade e passado a um estádio superior da consciência, leu livros de ioga e viu episódios a mais da série Kung Fu. Mas onde quer que estejamos em The Fountain, no mundo "real", dentro do livro ou na bolha sideral, a nossa reacção é uma de duas: ou estamos de boca aberta e de olhos esbugalhados, ou então não conseguimos parar de rir. Ambas porque o que estamos a ver é incomensuravelmente mau, descomunalmente ridículo, solidamente pateta, mas ao mesmo tempo profunda e sinceramente convencido da sua "profundidade" e do seu "significado". É como olhar para um tontinho que tenta discorrer sobre o sentido da vida e o lugar do homem no universo, só que com actores de Hollywood e efeitos digitais a enfeitar.

Uma coisa é certa: The Fountain está destinado a transformar-se em filme de culto. Porque haverá sempre, algures no planeta, um ganzado militante, um místico de carteirinha, um viciado de acid rock, que depois de assistir a The Fountain rasgará um sorriso de beatitude e exclamará: "Grande trip, meu!", passando a olhar para Darren Aronofsky não apenas como um cineasta, mas como um xamã.
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Re: Qual o último filme " Banhada " que viste?

Postby grayfox » 17 Oct 2011 23:03

Se para ti os filmes banhada sao com bons orcamentos e gente talentosa o blair witch project fica fora à partida

Esse ultimo paragrafo do eurico é de um preconceito atroz.
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Re: Qual o último filme " Banhada " que viste?

Postby Ignatius Wao » 18 Oct 2011 00:07

grayfox wrote:Se para ti os filmes banhada sao com bons orcamentos e gente talentosa o blair witch project fica fora à partida

Esse ultimo paragrafo do eurico é de um preconceito atroz.


Dou-te razão nesses dois pontos. :)
Mas o "Blair Witch Project" gerou-me grandes expectativas, fruto da campanha de marketing que vendeu o filme.

Mas em relação ao Fontain eu diria que é um dos filmes mais pretensiosos que eu já vi. Não tenho nada contra os filmes pretensiosos, quando estes tão a altura da sua pretensão, o que não é o caso do "Fountain".
Depois, não sendo uma adaptação de uma obra de Paulo Coelho, é o filme, entre todos os que vi até hoje, que melhor capta a essência da obra do escritor brasileiro. Se alguém me pedisse, para em imagens, descrever a escrita de Coelho, eu mostrava-lhe "The Fountain". A propósito, eu não gosto nada de Paulo Coelho.

Mudando de assunto, mas seguindo esta linha de raciocínio, existem filmes que me fazem lembrar escritores. Por ex. "Shotgun Stories" não sendo uma adaptação de nenhuma obra de Cormac McCarthy, é o filme que esta mais próximo do universo deste escritor norte americano. Desde as personagens, passando pelos diálogos, tudo grita McCarthy.
Assim como "Lights in the Dusk" de Aki Kaurismäki relembra muito a escrita de "Fyodor Dostoevsky.
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Re: Qual o último filme " Banhada " que viste?

Postby Bugman » 18 Oct 2011 08:36

O Blair Witch faz companhia ao X-Files e ao SW: Episode 1 no pódio do dinheiro mais mal empregue para se ver em grande écran. Vi o filme no dia da estreia e entre o grupo havia aqueles que se riam (nada bom sinal para o "filme mais aterrorizador de sempre") os que se levantavam a meio do filme para reabastecer bebidas e um ou outro que adormeceram. No final uma enorme sensaçao de tempo perdido e a certeza que qualquer um de nos ja tinha passado por cenas mais "aterradoras" num qualquer acampamento de fim-de-semana.
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Re: Qual o último filme " Banhada " que viste?

Postby urukai » 18 Oct 2011 09:01

Ignatius discordo genericamente da tua crítica ao Slumdog e vou rebater os pontos em que discordo mas só logo. Que agora estou a atrabalhar e não posso comprometer a minha produtividade.

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Re: Qual o último filme " Banhada " que viste?

Postby grayfox » 18 Oct 2011 09:13

É claro que ver um filme de terror na galhofa e com gente a abastecer de pipocas resulta mal. Como queres criar ambiente nessas condissoes? A culpa nao é do filme.
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Re: Qual o último filme " Banhada " que viste?

Postby Bugman » 18 Oct 2011 09:26

O pessoal nao foi para lá fazer isso. The movie made us do it! :D
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Yes, I am a woman of the law. And there are lots of laws. But if they don't offer us justice, then they aren't laws! They are just lines drawn in the sand by men who would stand on your back for power and glory. Sartana
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Re: Qual o último filme " Banhada " que viste?

Postby Samwise » 18 Oct 2011 10:35

Ignatius Wao wrote:
The Blair Witch Project
...
Digamos a este respeito que o filme só poderia funcionar se não soubéssemos nada dele e pensássemos que era realmente uma história verdadeira.


Aqui não concordo. Saber ou não saber alguma coisa sobre o filme não alteraria em nada a completa boçalidade narrativa e incapacidade em "criar medo". O filme falha até ao nível de nos criar irritação pela porcaria que é. :mrgreen: . Como disseste, quando damos por nós o filme já acabou e parece não se ter passado nada (para além de hora e meia de tempo perdido).

Quanto à definição de "filme banhada", não sou exigente, olho para as coisas de uma perspectiva abrangente. :rotfl:
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Re: Qual o último filme " Banhada " que viste?

Postby Sharky » 18 Oct 2011 12:29

Ignatius Wao wrote:"Blair Witch Project"


Qual é a diferença entre esse e o " Paranormal 1 e 2 " ?

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Re: Qual o último filme " Banhada " que viste?

Postby Bugman » 18 Oct 2011 13:04

Samwise wrote:Quanto à definição de "filme banhada", não sou exigente, olho para as coisas de uma perspectiva abrangente. :rotfl:


Será banhada quando é tao mau, tao mau, que dá a volta e se torna lendário?
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