Blade Runner

Rui Ramos
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Blade Runner

Postby Rui Ramos » 23 Apr 2012 13:06

Ontem no Tvcine3 para comemorar os 30 anos de Blade Runner, deu o filme antecedido por um doc. making of do mítico filme. Foi o primeiro doc que vi sobre este clássico do cinema que já vi várias vezes, várias versões até, e não consigo achar-lhe grande graça.

Minority Report consegue dar mais e melhor (e não tem nada que ver os efeitos especiais serem mais recentes ou mais espectaculares).

Blade Runner falha logo no título! Promete acção que não existe. Promete um herói dinâmico que não passa de um gajo monótono que mais não faz do que matar mulheres estéricas e fugir de gajos feios assassinos ou de brutos de cuécas com pombas e dependendo das versões fica com a mulher bonitona que no fundo, não passa de uma boneca insuflável sofisticada! Chato.

Mais! Alguns interiores (esquadra da polícia, prédio abandonado do técnico) não colam nada bem com os exteriores (parece um filme de retalhos, que tinha orçamento para umas coisas e não tinha para outras, resultando num Universo pouco credível). Edifícios daquele tamanho e com aquela arquitectura futurista, dificilmente teriam interiores iguais a edifícios do século XX. Isso sempre me fez confusão, mesmo quando o fui ver pela primeira vez no cinema, nas comemorações dos 10 anos, há 20 anos atrás! Só porque é visualmente interessante, não quer dizer que faça sentido no mundo criado. Mas o que esperar de um realizador que permite a inclusão de barcaças do desembarque da Normandia de 1944, num filme do Robin dos Bosques... :whistle:

Os carros voadores não foram bem aproveitados. Só andam de um lado para o outro, nem uma perseguição, nada. Teria sido bem mais interessante uma perseguição de carros voadores que uma caça à mulher de biquini e impermeável transparente, visto que o Blade Runner, volta a repetir a graça com outra mulher igualmente de roupa interior no final do filme. Chatice!

Voltando ao look. Os veículos terrestres são visualmente assustadores. Autênticas pilhas de sucatas. Num mundo onde existem carros voadores tão fixes, fazia sentido que os veículos terrestres fossem um pouco menos disparatados.

Em Logan's Run, Planeta Proíbido, Star Wars ou mesmo em Alien, filmes mais antigos que Balde Runner, existe uma maior congruência tecnológica e arquitectural. Em Blade Runner, as opções conceptuais nem sempre resulta a seu favor.

Nem mesmo a filosofia metafísica sobre os andróides serem mais humanos que os próprios humanos, salva o filme. Matrix ou Minority Report conseguem estimular a reflexão sobre temas igualmente "mais altos" e ao mesmo tempo proporcionar-nos bons momentos de cinema e de entretenimento. Ridley Scott esqueceu-se definitivamente do entretenimento.

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Re: Qual o último filme que viste e o que achaste

Postby Thanatos » 23 Apr 2012 13:18

Rui, só uma pergunta: preferes penas de pato ou de ganso com o teu alcatrão? :twisted:

Agora a sério, eu também durante anos meti o BR no topo dos meus filmes preferidos de FC (sim, porque doutros géneros nem passaria ao topo 10) mas algures entre o Director's Cut e o Inal Cut alguma da magia perdeu-se e hoje em dia é para mim um tremendo bocejo.

E sim, vi-o em estreia nacional no defunto Castil em Lisboa.
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Re: Qual o último filme que viste e o que achaste

Postby Samwise » 23 Apr 2012 13:37

Terceira perspectiva sobre o filme:

Rui, acho que te passou ao lado o "espírito" do filme. Não é um filme de acção (seja qual for a maneira como retiras essa "promessa" do título ) e nunca explora o sensasionalismo (à Spielberg) nas cenas em que de facto há acção - explora antes uma certa intimidade/empatia entre o perseguidor e os perseguidos, e frustração com a incapacidade de se estabelecerem relações humanas (pun intended :P ) para além daquilo a que situação social obriga.

Também acho que te passou ao lado a exploração desse futuro degradante em que a tecnologia camufla e se impõe como imagem arquitectónica nas grandes metrópoles, mas que esconde por baixo (e "lá em baixo", também, se pensarmos no cenário que vemos do céu e depois o comparáramos com o que se passa ao nível do solo) um substracto paupérrimo de fortes contrastes sociais - pelo menos é a forma como encaro o interior dos edifícios, os carros-sucata e a completa desordem e confusão que se vê nas ruas: é um espelho dos problemas sociais que vemos hoje, amplificados que foram para mostrar um futuro "pouco simpático", mas escondido por baixo da maquilhagem corporativa dos interesses económicos instalados...

Dito isto, também nuca foi um adepto incondicional e ferveroso do filme, mas considero que tem certos encantos que duas das obras mais recentes do Spielberg não têm (lá está - porque não foi essa a abordagem) - o Minority Report e o A.I (este último bastante próximo do Blade Runner, em termos de temática dominante).
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Re: Qual o último filme que viste e o que achaste

Postby Sofiushka » 23 Apr 2012 16:56

Nem de propósito, apareceu isto hoje no Facebook oficial do Philip K. Dick:

Letter to Jeff Walker regarding "Blade Runner"
"Philip K. Dick wrote this letter after seeing his first glimpse of Blade Runner in a television segment. To the best of the family's knowledge, this letter has never been previously released to the public."


E se fosse a ti, Rui, dormia com um olho aberto, que eu também sou do Porto e encontro-te, pá :catfight:

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Re: Qual o último filme que viste e o que achaste

Postby Thanatos » 23 Apr 2012 17:50

Sofiushka wrote:Nem de propósito, apareceu isto hoje no Facebook oficial do Philip K. Dick:

Letter to Jeff Walker regarding "Blade Runner"
"Philip K. Dick wrote this letter after seeing his first glimpse of Blade Runner in a television segment. To the best of the family's knowledge, this letter has never been previously released to the public."


E se fosse a ti, Rui, dormia com um olho aberto, que eu também sou do Porto e encontro-te, pá :catfight:



Pois, Sofi. O que escapou ao Rui (e escapa a muito boa gente) é que sem a estética Blade Runner não haveria Minority Report nem Matrix, nem Ghost in the Shell, pelo menos como hoje os conhecemos. ;)
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Re: Qual o último filme que viste e o que achaste

Postby grayfox » 23 Apr 2012 18:45

tinha feito uma resposta filosófica ao que o Thanatos diz mas falhou a postagem, e não me apetece repetir tudo. basicamente era isto:

será que o Blade Runner resulta de uma evolução natural da FC e se não tivesse surgido esse filme em particular, teria surgido outro que avançasse o cinema FC aproximadamente na mesma direcção?
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Re: Qual o último filme que viste e o que achaste

Postby Lazy Cat » 23 Apr 2012 18:59

Eu gostei do Blade Runner. É atmosférico.

Era só isto. :P
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Re: Qual o último filme que viste e o que achaste

Postby Thanatos » 23 Apr 2012 19:22

grayfox wrote:tinha feito uma resposta filosófica ao que o Thanatos diz mas falhou a postagem, e não me apetece repetir tudo. basicamente era isto:

será que o Blade Runner resulta de uma evolução natural da FC e se não tivesse surgido esse filme em particular, teria surgido outro que avançasse o cinema FC aproximadamente na mesma direcção?



Para mim o Blade Runner aconteceu por um daqueles acasos que acontecem uma vez de quando em quando. Como o alinhamento dos planetas, estava lá tudo para dar certo, e deu! syd Mead nos visuais, Vangelis na música, Peoples no argumento, Scott na realização, "inspiração" em Dick momentos antes do boom do cyberpunk, enfim, podia estar aqui um dia a escrever sobre BR e não esgotaria o porquê deste neo-noir sci-fi thriller ter sido marcante a nível visual. Os únicos pontos fracos foram o casting que desprezaram as potencialidades dos actores. Isso e o terem por completo subvertido a paranóia dickiana acerca dos simulacra o que fez deste filme inspirado numa obra algo de estranho. Seja como for o autor viu uma das rough cuts meses antes de morrer e deu o aval. Claro que nesse rough cut o twist era mais evidente...
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Re: Qual o último filme que viste e o que achaste

Postby Samwise » 23 Apr 2012 19:57

Gray, isso é uma pergunta que não tem resposta concreta - as possibilidades são antes especulativas, com uma infinidade de possíveis ramificações, e carregadas de "ses".

O facto é que o contrário aconteceu, ou seja: a obra marcou o cinema, definiu uma série de pilares e originou uma descendência que ainda hoje continua a "fazer nascer". Goste-se ou não, it's history!

Lazy Cat wrote:Eu gostei do Blade Runner. É atmosférico.

Era só isto. :P


Sim, concordo, muito atmosférico. O tal conjunto de personalidades que o Thanatos mencionou fizeram um bom trabalho de harmonização de qualidades no plano estético.
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Re: Qual o último filme que viste e o que achaste

Postby Rui Ramos » 23 Apr 2012 20:24

Thanatos wrote:Rui, só uma pergunta: preferes penas de pato ou de ganso com o teu alcatrão? :twisted:


:rotfl:

Epá já foram tantas as penas de diferentes aves de aviário e de zoológico que juntaram ao alcatrão que tanto faz. ^_^

Companheiro, Samwise. A tua terceira perspectiva que achas que me escapou, é aquela que ouço há 20 anos e que há 20 anos me levam a regressar a um filme que não tem volta a dar. Por mais vezes que tente tirar-lhe nabos da pucara e tente ver mais do que lá está, lamento, mas Blade Runner falha. E se não falhasse o Ridley Scott parava de mexer-lhe sempre que se lembra daquilo que fez! ;)

Um título é uma das peças mais importantes de uma obra. Deve conter a pista para o segredo dessa obra, isto, se à partida não é óbvia a relação do título com o conteúdo.

No caso de Blade Runner tens um título e uma introdução logo no início que te induzem em erro, pois dizem mais ou menos isto: Blade Runner força especial que caça andróides renegados assassinos e perigosos. Filme de acção na certa!

Ninguém vai chamar "Uma História de Violência" a uma história quando a violência não é nem nunca foi a sua temática e tudo o que há para mostrar é uma conversa sobre tricot entre avozinhas simpáticas à hora do chá.

O título inicial pensado para o primeiro argumento escrito de Blade Runner, fazia mais jus à história, que desde sempre foi pensada para ser intimista e filosófica: Dangerous Days. Com um título destes, então ok! Já faz mais sentido a história que nos é mostrada no filme: é perigoso ser um psiquiatra especializado em apanhar andróides disfarçados de humanos, num mundo caótico e decadente.

Blade Runner é um título demasiado cool para um filme pretende ser demasiado intelectual. E que no final, nem é carne nem peixe. É um caso clássico de publicidade enganosa.

Só para me situares no espaço e no tempo, considero 2001 a Odisseia do Espaço um dos melhores filmes de sempre, por isso, já sabes que tenho estaleca para aguentar com filmes filosóficos, herméticos e com várias camadas de leitura. Mas já lá vamos.

Falaste do mundo decadente, representado pelo contraste entre céu e nível quase subterrâneo da rua, prédios do futuro com interiores do século XX... percebo o que estás a tentar dizer,no entanto eu vejo antes, problemas de orçamento, limitações técnicas, falta de tempo (o filme teve muitos atrasos) e tudo mais.

Sou bastante compreensivo para com filmes e séries com limitações técnicas, epá eu adorei Babylon 5 e aquilo em termos de efeitos especiais era muito foleiro! Mas dedicaram especial atenção ao worldbuilding e à história, o título da série e os detalhes usados, mesmo com maus actores acabaram por vender o produto e conquistar a minha atenção.

Fui levado a acreditar que aquele universo existia e era credível. Com Blade Runnner, com maior orçamento, melhores actores, melhor realização, falhou parcialmente, nessa missão.

Blade Runner teria funcionado melhor em termos de worldbuilding, se criassem uma civilização do futuro e depois a desmembrassem para o estado decadente pretendido.

Para teres uma ideia do que estou a dizer lê este exemplo: imagina um bairro social construido de raíz nos dias de hoje, cujos inquilinos (refugiados, delinquentes e povos como ciganos) mais tarde desfigurariam. Apesar das adulterações e crimes arquitectónicos, burros e porcos a usar as banheiras como bebedouros, não irias ver no interior desses prédios, que outrora foram novos, tectos com estuque trabalhado à moda do início do século XX, ou elevadores com portas de ferro forjado? Ou ias? É isso que acontece em Blade Runner.

Estamos a falar de uma civilização que ergueu cidades tecnologicamente avançadas (a L.A. de Blade Runner, não é a LA que lhe serviu de base. É uma cidade bastante distante no tempo, cujo, traçado foi remodelado e modernizado). Entretanto a elite dessa civilização partiu, deixando o refugo dos refugos para trás. É a partir deste ponto que se deve decompor e construir a decadência que deveria ser mostrada no filme. Na minha humilde opinião de construtor de fantasias, claro está.

Podes alegar que mesmo nas cidades actuais existem prédios centenários que sobrevivem no meio de edifícios mais recentes, contudo, como apontas bem, não é o que acontece no filme. Tens a esquadra da polícia, por exemplo, um prédio gigantesto que serve de culmeia aos inúmeros carros voadores da polícia, cujo interior parece saído de um policial dos anos 60/70. Não cola!

Ora um prédio daqueles teria sido feito de raíz no Futuro. Quem seria o arquitecto que o teria desenhado e permitido um interior daqueles? Mesmo que decadente, a base teria sido algo criado no Futuro e não uma reconstituição histórica do século XX. Não faz sentido. Mau world building. Parece preguiça intelectual pois não houve o exercício de criar um mundo avançado para depois o tornar decadente. Mostrou-se uma esquadra banal do século XX para nos dizer: ei olhem que isto é suposto ser um filme noir, não se confundam, ok?

Eck! Fraco.

Claro, Uma história para ser boa vai muito além do world building e outras mariquices que apenas estão lá para dar credibilidade, mas no entanto, não deixam de ser importantes, especialmente, para um filme que vive do visual, como Blade Runner.

Blade Runner é no fundo o resultado mal amanhado (pois varia entre o genial e o mediano) entre a visão de um realizador e as vontades de um estúdio e as guerrilhas internas entre a equipa que se revoltava constantemente contra o realizador.

O seu impacto foi indiscutível, veio inspirar muito boa gente (pudera, quantos não imaginaram: "como deveria ter sido Blade Runner, se o tivesse feito") e na época em que foi feito, foi bastante inovador... (será que foi? A BD franco-belga já tinha explorado muitos desses cenários e com melhores resultados (minha opinião claro), e ainda, não vejo nenhuma daquelas tecnologias exploradas no filme aplicadas nos dias de hoje, ao contrário de Minority Report que nesse campo foi bem mais longe).

Quanto aos dilemas existênciais explorados em Blade Runner também não vi por ali nada que já não tivesse sido explorado, e de forma menos monótona, noutros lados.

Relativamente, à carta de Philip K. Dick é natural que se sentisse entusiasmado (basta pensar na FC que se fazia no seu tempo), mas isso, não invalida a minha opinião, especialmente, depois de termos visto que a sua profecia não se consumou! Blade Runner não foi o mega-êxito de bilheteiras que se adivinhava. Antes pelo contrário, tornou-se num objecto de culto obscuro amado por uma minoria. Tudo porque a publicidade foi enganosa (a começar pelo título) e ninguém gosta de comer gato por lebre. Ou gosta? ;)

Sofiushka não preciso de andar de olho aberto por causa da minha opinião acerca de um filme, ou não és capaz de aceitar que há pessoas com opiniões divergentes da tua? Falar de um filme e explicar porque motivo não se gostou assim tanto dele, não é um ataque pessoal a ninguém que tivesse gostado. Por isso, se moras no Porto, mais cedo te pago uma bebida à tua escolha para ouvir o que tens a dizer sobre Blade Runner do que calçar as luvas de boxe para defender a honra de um filme... :cheers:

Thanatos, esse comentário:

"O que escapou ao Rui (e escapa a muito boa gente) é que sem a estética Blade Runner não haveria Minority Report nem Matrix, nem Ghost in the Shell, pelo menos como hoje os conhecemos. ;)"

Partes do princípio errado que ando a dormir há 34 anos e que de repente descobri BR. Vi BR muito antes de imaginar que um dia realizariam Ghost in the Sheld, 5º Elemento, Minority Report, Star Wars I, II, III, Avatar, etc. E mesmo sem ter visto Metropolis na altura (vi-o muito depois), já sabia onde é que Ridley Scott, foi buscar algumas cenas de exteriores.

Defender a frase que defendes é o mesmo que dizer que Princess of Mars é bom só porque influênciou muita gente. Ninguém retira o valor histórico/sentimental que Princess of Mars teve e ainda tem. O mundo não seria o mesmo se Burroughs não tivesse escrito esta obra, mas à parte disso, continua a ser de fraca qualidade.

Blade Runner não tem fraca qualidade, contudo, não é assim tão fenomenal (como já disse: varia entre o genial e o mediano). E é neste ponto que divirjo dos fãs. Nunca disse que é o filme que não teve impacto no que veio depois. Apenas disse que não cumpre o que promete, entre outras coisas que me deixaram com um gostinho de "soube a pouco".

Como alguém disse, "o século XXI começou com BR". E então? - pergunto eu.

Nem sempre se começa da melhor maneira e a prova são as várias versões que existem do filme. As duas que vi não me convenceram (não vi a de 2007). Será que foi a que deu ontem? Quando tiver tempo vejo a gravação. Pode ser que desta vez mude de opinião e consiga ver o que não vi em 20 anos. Não seria inédito.

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Re: Qual o último filme que viste e o que achaste

Postby Lazy Cat » 23 Apr 2012 20:42

Rui Ramos wrote: lamento, mas Blade Runner falha. E se não falhasse o Ridley Scott parava de mexer-lhe sempre que se lembra daquilo que fez! ;)


Então o Star Wars também falha. Certo? =P
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Re: Qual o último filme que viste e o que achaste

Postby grayfox » 23 Apr 2012 21:54

Mau, querem ver que vou ter de ver o filme?
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Re: Qual o último filme que viste e o que achaste

Postby Sofiushka » 23 Apr 2012 22:44

Pronto, já que o Rui não aceita a minha declaração de guerra vejo-me obrigada a argumentar como uma pessoa civilizada. :rolleyes: Blhéc.

A começar pelo título: Blade Runner não é suposto ser um título tipo ROBOCOP, que mal se vê é para saber que vamos ter robôs-polícia que, muito provavelmente, vão andar aos tiros e a fazer explodir coisas (até porque é mentira, é um cyborg). Blade Runner é simplesmente a profissão do Deckard. Tal como a Pequena Sereia era um filme sobre uma indivídua que, efectivamente era pequena e era sereia, o BR é sobre um tipo cuja profissão é blade runner. Claro que tu não sabes isso à partida, mas aprendes no filme. E sendo um blade runner, o trabalho dele consiste em perseguir andróides foragidos, o que acaba por torná-lo numa espécie de detective privado com especialização - e aí tens a justificação para o tom policial-noir com taxa de acção moderada. Agora, o que tu queres interpretar a partir do título de um filme é lá contigo, mas lá que não foi escolhido com intenção de te aliciar com promessas Michael Bayescas, não foi.

Como a Lazy disse, e muito bem, é atmosférico. E a beleza da atmosfera do filme é que não é berrante, não ta forçam na cara; ao invés é sentida e descoberta por ti. São as coisas óbvias - a música, os espaços, as iluminações - e as pequenas coisas - os jogos de sombra, a presença/ausência de multidões, a cor geral da cena, o aspecto do cenário-, que te levam ao estado em que inconscientemente reconheces, aceitas e interiorizas o mood da cena e do filme no geral. Para mim, é a marca de um bom filme: que me faça sentir parte do seu universo sem me arrastar para lá aos puxões ou a tentar apelar ao sentimento.

Falas em mau worldbuilding, porque o cenário se agarra a elementos do nosso presente enfiados na arquitectónica futurista. Pegaste ainda por cima em dois edifícios bem simbólicos no filme, e que posso usar para argumentar precisamente o oposto do que disseste. Eles não são mostrados como são por preguiça ou carolice, Rui. Repara que o filme se passa numa cidade porca e devoluta, e o lindíssimo Bradbury Building, que é uma jóia arquitectónica da L.A. actual, caiu na ruína e está aos pardais. Não creio que seja por acaso que seja lá que se passe o confronto entre o Deckard e o Roy, sendo o Deckard um representante dessa sociedade que perdeu completamente o gosto pela arte, e o Roy uma criatura que na pouca vida que teve soube apreciar o belo. E agora contrastas isto com os edifícios futuristas que se ergueram pela cidade, o maior deles o da Tyrell Corp, em que os ricos e poderosos trocaram a beleza simples pela ostentação. Faz tudo parte da já referida atmosfera, e faz também parte intencional do worldbuilding que dizes ser preguiçoso. Como será mau se olhando para estes elementos posso logo tirar conclusões sobre a sociedade que o habita? Não é esse o objectivo do worldbuilding?
Quanto à esquadra, reparaste também com certeza que ela é toda angular, as salas são de cores frias e assépticas, não há ali nada que não seja dedicado à funcionalidade. O ofício de blade runner é assim mesmo, funcional e impessoal, e não há ali margens para "adornos", ou seja, não se pensa no trabalho, é para ser executado. A frieza dos interiores e a crueza do trabalho é suposto contrastarem com as questões éticas que o filme quer despertar em ti - trata-se efectivamente de despachar máquinas, ou eles terão direito a algo mais? Mais uma vez, faz parte da construção da atmosfera.

Quanto ao resto do teu argumento, director vs estúdio, e dilemas existenciais repetidos, acho que não posso comentar não sabendo que versão do filme viste. Mas acho que se vires a Final Cut, que é a mais fiel aos desejos do realizador e a que explora os dilemas como deve ser, vais compreender a ideia. Se já a viste e a tua opinião mantém-se, olha, lavo de ti as minhas mãos que já não tens remédio :P


P.S. - Oh T, tu não me digas mal do meu Rutger Hauer que eu bato-te é a ti.

Outro P.S. - Ok, por muito que goste do filme, até eu tenho que admitir que a pomba no fim foi over-the-top. :rolleyes:

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Re: Qual o último filme que viste e o que achaste

Postby Thanatos » 23 Apr 2012 23:07

Rui Ramos wrote:(...)
Estamos a falar de uma civilização que ergueu cidades tecnologicamente avançadas (a L.A. de Blade Runner, não é a LA que lhe serviu de base. É uma cidade bastante distante no tempo, cujo, traçado foi remodelado e modernizado). Entretanto a elite dessa civilização partiu, deixando o refugo dos refugos para trás. É a partir deste ponto que se deve decompor e construir a decadência que deveria ser mostrada no filme. Na minha humilde opinião de construtor de fantasias, claro está.

Podes alegar que mesmo nas cidades actuais existem prédios centenários que sobrevivem no meio de edifícios mais recentes, contudo, como apontas bem, não é o que acontece no filme. Tens a esquadra da polícia, por exemplo, um prédio gigantesto que serve de culmeia aos inúmeros carros voadores da polícia, cujo interior parece saído de um policial dos anos 60/70. Não cola!

Ora um prédio daqueles teria sido feito de raíz no Futuro. Quem seria o arquitecto que o teria desenhado e permitido um interior daqueles? Mesmo que decadente, a base teria sido algo criado no Futuro e não uma reconstituição histórica do século XX. Não faz sentido. Mau world building. Parece preguiça intelectual pois não houve o exercício de criar um mundo avançado para depois o tornar decadente. Mostrou-se uma esquadra banal do século XX para nos dizer: ei olhem que isto é suposto ser um filme noir, não se confundam, ok?
(...)



Epá, estou aqui a ler e a reler estes 3 parágrafos e não sei que pensar.. Prédio feito de raizo no futuro? Homem, tu vês bem a data que eles apresentam mal o filme abre? 2019, pá! Queres fazer crer que de vinte em vinte anos os prédios são todos derrubados e fazem-se cidade de raiz? Aliás não foste tu que apontaste as semelhanças estéticas e arquitéctónicas entre o filme e a BD do Moebius? Então na BD já estava tudo muito bem que a decadência fosse apresentada de mãos dadas com algum futurismo mas aqui no filme já não é bem assim? Je ne comprend pas. ;)

Bates bastante na esquadra da polícia. Bem decerto sabes que a "esquadra" é uma estação de comboios centenárias que, vê lá tu, mesmo em 1982 já era centenária. Ou seja ninguém a derrubou e criou de novo só porque na Alemanha, por exemplo, já têm gares de comboios ultra-modernas. Além disso quantos são os edifícios novos que tentam projectar um ar de antiguidade? E quantos não são reaproveitados? Eu compreendo que gostasses de ver um futuro à la Logan's Run com toda a gente vestida de togas brancas e tudo a viver em alvéolos brancos até ao limite dum THX em que se dispensa toda a mobília a favor dum minimalismo que esse sim vem diretamente das mentes de designers dos anos 70.

Eu por mim vivo bastante bem com a miscegenação entre antigo e moderno e um exemplo máximo disso vê-se na sala do Tyrrell quando ele baixa a "cortina". Ou no apartamento claustrofóbico de Deckard.

Não faço ideia se leste a novela do Dick mas... estranhamente aquele é mesmo o mundo que ele conta na novela. Prédios velhos e desabitados, elevadores de caixa metálica com portas de correr, canos rotos, etc. O grave problema do planeta terra é que toda a gente emigrou e só ficaram cá os inadaptados. E como inadaptados que são tratam o seu meio envolvente como o pessoal dos bairros sociais, dos project housings à la Cabrini-Green ou Pruitt-Igoe.
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Re: Qual o último filme que viste e o que achaste

Postby Thanatos » 23 Apr 2012 23:09

Sofiushka wrote:(...)
P.S. - Oh T, tu não me digas mal do meu Rutger Hauer que eu bato-te é a ti.

Outro P.S. - Ok, por muito que goste do filme, até eu tenho que admitir que a pomba no fim foi over-the-top. :rolleyes:


Opá estava a escrever no iPad porque queria dizer que o único que se aproveitava era mesmo ele.

Epá a pomba é linda com a música tears in the rain, aquela percussão, etc e tal quase que me traz a lágrima ao olho. Mas melhor ainda é a frase final do outro Blade Runner: Too bad she won't live, but then again who does?

Como que a prever um outro desfecho.
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