Django unchained

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Anibunny
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Django unchained

Postby Anibunny » 27 Jan 2013 00:56

Django unchained
Quentin Tarantino

Jamie Foxx
Christoph Waltz
Leonardo DiCaprio
Samuel L. Jackson
Kerry Washington

Image

Isto será um texto com uma mera opinião, não sou crítica de cinema, nem percebo muito sobre a 7º arte (hey let me be honest), por isso este texto provavelmente estará cheio de erros técnicos, que levará qualquer cinematógrafo ou amante do cinema a contorcer-se no chão com as calinadas que dou (cope with me, friends, I also have to read crappy texts about books).

Para quem estudou a história da América, posso assegurar-vos que Tarantino com este filme deu uma violenta bofetada na cara dos americanos. Pegou numa ferida feia e espetou o dedo para sangrar ainda mais. Mas se durante o visionamento do trailer de "Lincoln" acusa o som demasiado tradicional de um filme, entende-se que Django é muito mais violento (e não falo das cenas com sangue). Se o trailer de Lincoln anuncia a luta do presidente em abolir a escravatura, durante o visionamento do mesmo não se vê um único escravo, vê-se indivíduos negros com vestimentas normais e um presidente branco a lutar por eles.

Em Django, citando Leonardo DiCaprio e a sua personagem Calvie Candie

"Why don't they (the black faces) just rise up and kill the whites?"

Basicamente é disto que se trata a história de Django, a vingança dos escravos contra os brancos, aquele entre muitos escravos que tentavam escapar e acabavam mortos de forma cruel, torturados, revendidos ou no mínimo marcados como animais, que os brancos acreditavam que eram. Tarantino começa por rebeliar-se contra a moral americana ao colocar um escravo, comparando-o à personagem dos Nibelungos: Siegfried. Django aparece como um paladino negro, em busca da sua amada na sua montanha rodeada por fogo (the whites, in case you did not understand). Dr. King Schultz (Christoph Waltz), um dentista e caçador de prémios alemão, vê-se incomodado com o facto de ter comprado Django, mas ao mesmo tempo confere-lhe a liberdade que os negros merecem. As situações narrativas são lineares, o que causa um pouco de impressão para quem assistiu a saltos temporais mais rebuscados (I shall forgive Tarantino due to the western label), talvez seja isso o que faltou no Django (se bem que no fim, já se começam a sentir mais traços característicos).

Bastantes vezes o "tell" teve de substituir o show, devido à duração longa do filme, que se utilizássemos todo o show, subiria para 3h30 (and I appreciate my lovely buttocks, thank you very much). Mesmo isso não impediu Tarantino de pegar em várias cenas de extrema violência envolvendo escravos e mostrar (sim, mostrar ao contrário do trailer do Lincoln que faz tell da escravidão) os maus tratos, a crueldade e mentalidade retrógrada e quase rude dos americanos. Tal como os alemães têm vergonha dos acontecimentos da 2º Guerra Mundial, também os americanos não se livram de quase dois séculos de maus tratos e segregação entre brancos e negros.

"What's wrong with them? Never saw a black man on a horse?"

A personagem de Dr. Schultz (juro-vos que por momentos o nome dele pareceu "Schuld", que para quem não sabe, it means guilt) funciona como uma espécie de moral ou então "Schutz" que, para quem não sabe significa protecção. Contra a escravatura (mas não se coíbe de matar um homem em frente do seu filho), sempre com a mão no gatilho pronto a disparar e com um carisma que transborda do ecrã para os nossos corações, Waltz é a alma do filme, embora não seja o seu herói. Através dele repensamos atitudes, rimos com a sua simplicidade e com as suas expressões faciais deliciosas. Mas Tarantino foi cuidadoso ao ponto de não nos fazer esquecer que a história é de Django e Broomhilda. Jamie Foxx não é um mau actor, e embora pouco confortável com o seu papel no início, é uma personagem que cresce com o filme. Ao passo que Waltz tem a tarefa facilitada desde o início ao criar um "bond" com o público, Foxx cria esse bond ao longo da película, fazendo com que a personagem só ganhe pontos no fim. Django é realmente o herói do filme e nunca o público deixa de torcer por ele.

Calvie Candy não é o único vilão da história. Embora o papel de DiCaprio esteja muito próxima de um Óscar (just give it to the lad already, he's been working his ass to get it!), existe algo no início que o torna pouco inconsciente do que se passa à volta, mais para o fim do filme, a sua actuação com Samuel L. Jackson torna-se memorável!

"Thank you, Stephen!
You're welcome, monsieur Candy!"


Basicamente a América é a verdadeira vilã, tal como os brancos (com a excepção da irmã de Candy) que encorajam e mantiveram pessoas como animais, advogando várias vezes que os negros não eram pessoas como eles.

Durante o filme, ainda que haja bastante banhos de sangue e cenas particularmente perturbadoras (especialmente por sabermos que algumas delas aconteciam mesmo), esperamos pela verdadeira vingança, o verdadeiro clímax sangrento (and of course you get one!)

Para finalizar, "Django unchained" é um dos melhores filmes de Tarantino, nota-se que ele está-se a esforçar para tirar do chapéu um novo Pulp fiction and he's getting there. Não é um filme agradável de se ver, mas o objectivo era mesmo esse, incomodar, não deixar que aquele pedaço de história que acompanhou a América durante tanto tempo cair no esquecimento. As críticas que apontam uma violência excessiva são um símbolo da hipocrisia americana, que vende armas que permitem massacres, mas não conseguem admitir que fizeram asneira e aprenderam com os erros do passado.

Texto/ opinião/ crítica/ coisa publicada em: http://illusionarypleasure.blogspot.pt/ ... erica.html

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Re: Django unchained

Postby Thanatos » 27 Jan 2013 02:59

não deixar que aquele pedaço de história que acompanhou a América durante tanto tempo cair no esquecimento. As críticas que apontam uma violência excessiva são um símbolo da hipocrisia americana



Já que se fala de hipocrisia e coisas que acompanham as nações tanto tempo convém ressalvar que aqui pertinho de casa a abolição da escravatura no Brasil ocorreu vinte anos depois da dos EUA.
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Re: Django unchained

Postby Samwise » 28 Jan 2013 00:14

Anibunny wrote:Isto será um texto com uma mera opinião, não sou crítica de cinema, nem percebo muito sobre a 7º arte (hey let me be honest), por isso este texto provavelmente estará cheio de erros técnicos, que levará qualquer cinematógrafo ou amante do cinema a contorcer-se no chão com as calinadas que dou (cope with me, friends, I also have to read crappy texts about books).


Repetindo algo que disse no DVDmania há uns tempos atrás: até prova em contrário (coisa que em 8 anos de BBdE não sucedeu), não há aqui especialistas em cinema, quer na vertente crítica/teórica/académica, quer na vertente profissional, mais ligada à produção e realização propriamente ditas. Portanto, aqui somos todos ao contrário do conto do Orwell, verdadeiramente iguais na ignorância e eloquência com que falamos de cinema. :mrgreen:

Dito isto, belo texto, Ani. :tu:

Infelizmente ainda não consegui ir ver o filme, mas quero resolver o assunto esta semana.

Acusar este filme de ser racista é como acusar o Inglorious Basterds de ser nazista - há pessoas que não entendem que retratar o racismo num filme é diferente de passar uma mensagem racista, ainda para mais quando a ideia do filme é proporcionar, ao abrigo de um certo revisionismo histórico, que as vítimas se vinguem dos seus agressores.
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Re: Django unchained

Postby Anibunny » 28 Jan 2013 00:54

Em compensação, ontem vi o Kill Bill e fiquei desapontada. Too many questions, very few answers. Há cenas muito boas, mas os diálogos são mais fraquinhos e a quantidade de sangue que sai das pessoas estilo fonte é mnhe. Dito isto o meu favorito está entre o Pulp fiction ou o Django!

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Re: Django unchained

Postby Sharky » 28 Jan 2013 11:24

Fui ver o "Django" e gostei, não houve aquele impacto que esperava e o ponto negativo a meu ver foi mesmo a participação de Tarantino como actor, mas gostei como morreu o personagem B)
Continuo a achar que o "Inglorious Basterds" está melhor, também já o vi umas 4 vezes :whistle:

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Thanatos
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Re: Django unchained

Postby Thanatos » 28 Jan 2013 22:57

Eu simplesmente tenho de partilhar esta review com vocês, a sério, ainda estou a rir-me: http://www.newrepublic.com/article/book ... othing-say

Best parts follow:

The blood in Quentin Tarantino’s Django Unchained (...). It leaps and turns; it has its own ballet movements; it’s Jackson Pollock on speed; and it spouts from bodies the way oil arrives in Giant or jism comes in a porno movie.


There is even a quote (or an homage) to the last shootout in Taxi Driver with an overhead tracking shot of all the bodies laid out. Quentin has more bodies than Scorsese had, and whereas Marty was obliged to tone down the blood hue to get a rating, it looks as if Tarantino has gone in with a gallon of crimson paint to highlight the blood. And he has nothing to say except the inability to stop talking.


You will hear that Django Unchained is a tribute to spaghetti Westerns in the school of Sergio Leone or Sergio Corbucci. (The latter actually made the original Django in 1966, with Franco Nero, who has a small part now in 2012). But that’s just what Quentin says, and he will say anything.


Tarantino cast him as Colonel Hans Landa in Inglourious Basterds, and chemistry started to bubble like blood. Landa is a rare variant on the Gestapo archetype: he tortures with talk.


In Django, Waltz plays Dr. King Schultz, a travelling dentist in the old, toothless west, who uses that job as cover for being a bounty hunter. He dresses rather like a Germanic Dr. Watson; he is a lethal gunslinger and a steadfast and altruistic abolitionist. He hunts bad guys dead or alive, and the nub of his anti-slavery philosophy is to assassinate as many slavers as possible. He has his own extermination policy, yet Quentin likes to admire the doctor. Waltz and Tarantino are having an intense affair, minus carnal knowledge, and entirely expressed in talk.


It would be wiser if Tarantino abandoned violent genres, blood-letting, and anything requiring adult experience.
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Re: Django unchained

Postby urukai » 04 Feb 2013 11:17

Hello,

fui ver o Django e, apesar de ter gostado de alguns pormenores/cenas, penso que tenha sido uma das obras menos conseguidas do Tarantino por duas razões:

1- O filme quebra na passagem da primeira parte para a segunda parte, tornando-se demasiado longo e, por momentos, chato (o que é inacreditável quando se fala do Tarantino). Essa quebra sente-se até na personagem do Dr. Schultz que, inverossivelmente, se torna num fantoche sem vida.

2- A segunda parte do filme, que acaba por ganhar algum do fulgor da primeira, está alicerçada numa premissa totalmente descabida e rídicula. Afinal nós temos um Django, cheio de papel (tipo só aquele gang deu-lhe um terço de 11500$, ou seja, perto de 4000$), e um branco, alemão e seu fiel amigo. Ambos querem resgatar uma escrava, pouco valiosa, que fala alemão e está numa fazenda terrível para escravos. Não teria sido mais fácil, o branco alemão ter levado 2000$ e, sozinho, comprado a escrava que fala alemão ao DiCaprio? Tinha um motivo e, mesmo que o DiCaprio extorquisse, era melhor que o banho de sangue que foi. Isto tudo apenas para poupar 1500$? Enfim, não me cabe na cabeça e aquela história de comprar cavalos e o dono não os querer vender é ridícula. Se precisas de um cavalo coxo e tens uma razão para comprar esse cavalo coxo, uma razão que ainda por cima só é válida para ti, qualquer dono de um cavalo coxo vende-to a ti, mesmo que um pouco inflacionado. Este nó do enredo não me saiu da cabeça e, de certa forma, estragou-me a experiência.
Gostei mt mais do Pulp Fiction ou dos Kills Bills.

E quanto aos diálogos, foram pouco memoráveis e não me ficou um único na cabeça. A não ser aquela tirada do Niggercules mas foi mais pela piada e é apenas uma palavra.

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Re: Django unchained

Postby Samwise » 04 Feb 2013 12:38

Eu achei um dos melhores filmes do Tarantino - ainda que te dê razão quanto ao ponto 2. ;)

Queria escrever qualquer coisa mais extensa sobre o filme, mas ainda não me dediquei a sério ao assunto.
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Re: Django unchained

Postby Sharky » 04 Feb 2013 13:27

Já vi o filme duas vezes e à segunda tirei as teimas, o filme é bom mas falta-lhe mais qualquer coisa, mais qualidade? Também concordo com o ponto 2 do Urukas, mas discordo com o Sam. Melhor filme para mim só mesmo o "Bastards," esse sim, qualidade/originalidade.

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Re: Django unchained

Postby nimzabo » 04 Feb 2013 13:40

Não comparo com outros Tarantinos mas sim com o True Grit que foi nomeado para 9 oscares e não ganhou nenhum.
Gostei muito mais do Django e gostei muito da personagem do Dr. Schultz. O Waltz é perfeito para este género de papeis.

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Re: Django unchained

Postby Samwise » 04 Feb 2013 13:41

Sharky wrote:Melhor filme para mim só mesmo o "Bastards," esse sim, qualidade/originalidade.


Eu disse "um dos melhores". :angel:

Por acaso penso que este e o Basterds têm fortes similaridades - temáticas, "políticas" e narrativas - para além de uma "persona" que os liga de forma engraçada, interpretada nos dois filmes pelo Waltz.
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Re: Django unchained

Postby Sharky » 04 Feb 2013 13:49

Samwise wrote:
Sharky wrote:Melhor filme para mim só mesmo o "Bastards," esse sim, qualidade/originalidade.


Eu disse "um dos melhores". :angel:


Quais são os teus dois melhores filmes de Tarantino? Estou curioso :pipoca:

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Re: Django unchained

Postby Samwise » 04 Feb 2013 14:08

Por ordem, neste momento está mais ou menos assim:

Jackie Brown - 10
Pulp Fiction - 10
Kill Bill I - 10
Django Unchained - 9
Inglorious Basterds - 9
Reservoir Dogs - 9
Death Proof - 7
Kill Bill II - 7
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Re: Django unchained

Postby nimzabo » 04 Feb 2013 14:12

Gostei mais do Kill Bill 2 que do 1.
Vi primeiro o 2 e depois quando vi o 1 fiquei desiludido com todas aquelas chinesices.

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Re: Django unchained

Postby Samwise » 04 Feb 2013 14:20

Achei o Kill Bill II o filme de maior "engonhanço" narrativo do Tarantino, e o primeiro o mais perfeito a nível cinematográfico/artístico. Muito em particular, o estilo em que está filmado/editado foi a vertente que mais peso exerceu sobra a minha apreciação. Suponho que sejam as "chinesices" de que estás a falar... :mrgreen:
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