Colectânea de poemas de elsefire

elsefire
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Colectânea de poemas de elsefire

Postby elsefire » 14 Aug 2010 07:43

depressão

às vezes
a chuva cai na calçada
e o coração está sentado
na soleira da porta.
um velho triste
chora dentro de casa
e tenta escrever estórias
nas palmas das mãos.
as janelas fecham as pálpebras
e o mundo lá fora
é algo que se espreita
muito, mas muito levemente.

Deus o poeta surrealista

reconheci Deus
num vinco de uma folha de papel
não lhe vi o rosto
ou senti a meteorologia do seu beijo


mas agora sei que Deus é
(entre muitas outras coisas)
um poeta surrealista
que traz grafadas no sopro
todas as páginas da bíblia

da verdade

"As bodas de figaro"
limpam o soalho. Deus
toca ao piano a equação de Shrodinger
e um professor sentado na primeira fila
ensina-a agora a crianças

(um poema inacabado
aguarda o ponto final
do leitor)
o poeta esgotou todas as palavras

o poeta esgotou todas as palavras
ainda que esgravate entre as unhas e a carne
nenhuma palavra atravessa o braço
(vereda transcendente da criação)
que escrevia antes, a nascença das palavras
no coração. nenhuma palavra encontrada cala
a vontade de sair à rua e mudar o mundo
para uma nova canção
que possa alterar o curso
das águas do rosto das cidades.
já não basta ao poeta
o icone da palavra, ou a voz arrastada
pelas memórias, ou o comodismo de uma
cadeira que segura toda uma redação
semi-inconsequente.

o poeta esgotou todas as palavras
e só a rua acende todos os poemas.

o poeta vai enfim, começar a sua missão.

se um galo cantasse
se um galo cantasse
no coração de um homem velho
sem rugas
a manhã viria devagar
amordaçar o silêncio frio
de uma lâmina milenar:
memórias a preto e branco,
fotografias espetadas
nos galhos de árvores nuas
que delimitam as veredas do pensamento.

se um galo cantasse

se um galo cantasse
arredar-se-ia a monotonia
voltar-se-ia a sentir as pulsações
da janela, ecoando no coração frio
de um homem velho sem rugas
e uma cruz antiga
esculpiria um sorriso na rocha fria

se um galo cantasse
o Mundo levantaria os braços
em harmónico despertar

se um galo cantasse.

gostava de ser tradutor

gostava de ser tradutor
tradutor das asas que me atravessam o peito
o longo espectro dos seus sorrisos
quando a voz
lhes sopra com o coração de Deus.

estarei eu no degrau mais baixo
enquanto o peito se eleva
a locais onde não consigo alcançar.
se pudessem ao menos
tocar a caligrafia de um beijo
assim tão alto, perceberiam
o quanto é doloroso não
vos poder levar esta voz
até aos vossos olhos.

o amor divino é assim tão indescritivel.

da monotonia.

se lhe apetece escrever?
olha a profundidade dos dedos
na garganta de uma esferográfica azul.
vê como se mexe a vontade
e os braços na argila interior do raciocínio humano.
uma es-fe-ro-grá-fi-ca azul
muda, depois do silêncio.

tudo pára ao sinal vermelho,
até a agilidade das palavras
sobre o papel ainda branco.
parece que a cidade adormeceu
no parapeito da janela
e os olhos são meros cabides
da monotonia.
se lhe apetece escrever?
claro que apetece,
mas o quê?

do aborto

a noite não me assusta
o que me assusta é o cair dos pássaros
das varandas tristes
como pétalas mortas em forma de lágrima.

beirute

ouvi uma lâmina rasgar os céus de beirute
e com ela a voz da água rubra.
vi uma criança mexer os lábios na escuridão,
estavam presos às sandálias
e ao pó de cisne de um avião assassino.

do peito de um homem caído, uma mão
veio ao de cimo, esbracejando velozmente
na argila interior, do raciocínio humano.
penso:
uma palavra bastava.

Páscoa

as luzes
também se acendem com as cicatrizes
assim como
existem jardins translúcidos
suspensos num sorriso
que são adubados pela dor

um tropeção
uma pedra,
simbolizando a noite
debruçada sobre o corpo
pode ser uma manhã
ainda descalça
fiando uma meia-volta
de uma borboleta.

sei leitor
que por vezes tropeças
em arco-iris
que elefantes terríveis
caminham entre os teus cabelos
e ombros.
mas vê a imagem magnífica
de um coração futuro
pedalando numa bicicleta
subindo
ao topo das árvores.

e sorri.



as gentes da minha aldeia

As gentes da minha aldeia
passam por mim
como um sorriso que passeia o corpo
não que este já esteja morto
ou que tenha nascido torto
mas porque o sorriso já não cabe no corpo
das gentes da minha aldeia.

As gentes da minha aldeia
passam por mim e acenam
não vejo que as suas mãos tremam
ou que a noite se esconda no seu rosto
quando o trabalho usa do seu corpo a seu gosto
ou a vida é uma madrasra ateia
para as gentes da minha aldeia.

As gentes da minha aldeia
terminam os dias com uma conversa de orelha ao pé
entre um cigarro e um café
entre uma risada larga como quem passasse por uma epifania
sim, porque até Deus sorria
com os seus braços no ar erguidos
pelos seus servos destemidos
que vencem a sua madrasta ateia
ali naquele lugar,
das gentes da minha aldeia.

poema do adeus

já estou de partida

aborrece-me este regresso ao passado
este barulho das acácias nas mãos,
este não sei o quê a silêncios interiores,
com cheiro a flores de incêndio,
irrompendo do solo fértil da alma.

Dentro de casa já não há mais histórias para contar,
toda a tristeza do mundo numa pétala aberta pelo sangue,
pela dor de um peito aberto sobre a mesa,
pelo esquecimento. Esqueci-me.

já estou de partida.

sobre as palavras

as manhãs cobriram-se de dedos
são encharcadas pelo estranho ruído
de uma letra que nasce nas suas pontas
assim como estando de frente para frente
com um papel alucinogénico-digital

o escritor transcreve a exacta curva do seu espírito
e com a cabeça sentada sobre este, mergulha
cada vez mais profundamente na palavra e na sua essência de magnólia.
o escritor degladeia-se com a palavra. luta com esta tão intensamente
que de frente para o espelho, vê uma faca a talhar o sangue e a carne,
escolhendo e arrancando as palavras soterradas no corpo
pois o escritor já não tem pele
não precisa de pele,
o escritor veste-se de palavras, como um vício
ou uma extensão do corpo, ou da alma.
irrita-se por não encontrar a palavra certa
e num gesto brusco
atira as outras para o chão.
-malditas, eu hei-de vencer.
e o escritor vai caindo e levantando-se
vencendo e perdendo
até alcançar o

Fim.

da luz

escondemos os candeeiros
no local mais remoto da casa
e as noites que colhemos
com os dedos,
colocamo-las dentro
dos nossos corações de corda.
somos assim como borboletas
no meio de um bosque frio e tenebroso
incendiado pelos fios de luz que
gaguejam entre as árvores.
a luz é uma paixão de cristal
que já habita dentro dos porões
esquecidos do corpo.
é só querer ser feliz.

um rim em poema

deixem-me escrever,
deixem-me dar-vos o meu rim.
não me queixo de pessoa, ou herberto,
que nos deram os seus corpos
ou acenderam cigarros
em poemas.

poderia enfim
roubar-lhes a pena
e escrever um corpo que não me pertence
e em vez de um rim
um corpo
um cisne altivo no meio do poema

a minha pena
sente o reumatico da minha caligrafia
as mãos andam dentro da caneta
como no meio de uma sala escura
e um rim
sai do seu bico.

mas não me queixo (nem de Pessoa nem de Herberto).

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