Ninguém

Lyquid
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Ninguém

Postby Lyquid » 21 Jun 2006 08:56

Na calma cálida da noite
os uivos de dor abundam,
mas ninguém quer ouvir.
Quando os corpos se afundam
na cama, a noite é para dormir.

Ninguém
se preocupa com nada,
com um homem que dorme
ao relento na noite gelada,
com uma criança que chora
pela chuva que cai, desapontada.

Ninguém
quer saber
da criança que morre
sem sequer ter mãe,
do velho que quer comer
sem ter um vintém.

Ninguém se rala
com a chuva que deixa de cair,
com uma criança
que já não sabe rir
só porque ninguém a quer ouvir.

Esta criança, este homem e este velho são eu...

1993, Lisboa
Jorge O.
Amo todas as palavras... especialmente as que não podem ser ditas em voz alta para não quebrar o encantamento, por isso são escritas e são entregues de peito aberto a quem quiser entrar nos nossos sonhos, nas nossas dores.

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Re: Ninguém

Postby Samwise » 14 Jul 2006 12:23

Gosto de quase todos estes teus poemas do antigamente.

Este é dos mais interessantes, e tem uma variação final de que não estava à espera... :thumbsup:

Não sei se sim ou se não, mas vejo neste texto uma expressão ao mesmo tempo muito real e muito metafórica.

Sam
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Re: Ninguém

Postby Lyquid » 14 Jul 2006 13:11

Sam, existem imensos poemas antigos meus que eu opto por não partilhar por serem como eu digo, poemas para crescer. Mas gosto das tuas palavras não só porque sei que são elogios, se fossem críticas gostaria delas à mesma por não seres, como disseste uma vez, um amante do género poético mas arranjas sempre um tempinho para passara pelos cantinhos de quem escreve. Obrigado mais uma vez

Jorge O.

P.S. O final (o último verso) é posterior ao poema...
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