Sonhos De Papel

Lyquid
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Sonhos De Papel

Postby Lyquid » 05 Jul 2006 12:39

Olhas-me do outro lado desta janela suja de impressões digitais de todas as vezes que arranhei este vidro. Não me vês porque o vidro é espelhado. Eu continuo sem conseguir afastar-me da tua imagem por mais que isso me corroa a sanidade.

Afastas o cabelo do canto da boca com o à-vontade de quem é belo e irrepreensível.

Eu tento afastar o meu próprio reflexo do canto do olho com o desepero de quem se vê desfigurado por um amor que me rasga as veias, que me quebra os ossos, que me arrasta para uma vida insomne.

Amo-te tanto que te odeio. Odeio-te tanto que te amo. No final de contas não existem mais nenhuns sentimentos que sejam tão parecidos. Se não és minha não suporto a ideia de te ver ser pertença de outro. Odeio-te por não me amares e amo-te por me fazeres amar-te. Pois é, não faz sentido.

Uma sombra plácida aproxima-se do meu pulso e só sinto uma ligeira picada na veia, tento olhar para baixo para ver o que se passa, mas não consigo. Não consigo afastar os olhos das tuas formas que se afastam mais uma vez, a sensação de dejavu assalta-me com a voracidade de uma besta sanguinária. Parece-me ver vermelho, que cor odiosa esta que parece querer forrar o chão de morte líquida. Tudo isto vejo espelhado neste muro vítreo gelado do qual não consigo desviar o olhar. Sinto-me tonto, deve ser por me ter esquecido de comer mas não de enfiar mais um cigarro pelos pulmões dentro. Começa a doer-me a cabeça. Finalmente a fraqueza é tanta que já não consigo suster o pescoço e manter os olhos fixos em ti… minha perdição.

Na minha mão está um objecto que não me lembro de ter apanhado. Parece um pedaço de vidro e está pintado de vermelho, mas a tinta ainda está fresca e começa a molhar-me os pés. Consigo perceber que um canto desta janela está partido e consigo sentir o teu perfume que se desvanece… não me consigo lembrar de ter partido o vidro. A tinta do caco de vidro está a começar a enregelar-me os pés. Já tenho as mão sujas de tinta e cada vez tenho mais sono mas não consigo dormir. Está demasiado frio para fazê-lo.

Tento chamar-te mas tenho a boca dormente. Parece que também tenho tinta a escorrer do canto dos lábios. Tu olhas para trás só mais uma vez e sorris, não é para mim esse sorriso. Parece que vou conseguir levar este caco na mão para o sítio para onde vou. Será que me vais visitar na minha sepultura? Será que limparás das minhas mãos esta tinta de sangue que me leva para longe de ti, mais uma vez? Será que te lembrarás de me levar flores, quem sabe rosas e margaridas que sabes que gosto tanto? Ou então, não deixes que me enterrem com o meu nome numa lápide. Pede para me semearem perto de uma oliveira sem sepultura para ninguém se lembre onde fiquei. Deixa-me num sítio para o qual ninguém olhe com pena, com saudade, sem poesia. E enterra-me com tudo o que escrevi. Com todas as folhas de papel manchadas de sangue que guardo no coração. Com todos os poemas que te ofereci sem que passassem de sonhos de papel…

Jorge O.
Amo todas as palavras... especialmente as que não podem ser ditas em voz alta para não quebrar o encantamento, por isso são escritas e são entregues de peito aberto a quem quiser entrar nos nossos sonhos, nas nossas dores.

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Re: Sonhos De Papel

Postby Samwise » 05 Jul 2006 13:31

O que eu gostei mais no texto foi a alegoria (será que lhe posso chamar assim?) ao espelho de duas faces e o que representa estar fechado do lado de dentro... como um prisioneiro que anseia pela liberdade que vê todos os dias no sol do outro lado das grades... como um prisioneiro que clama, em vão, por essa mesma liberdade enquanto morre lentamente dentro da sua prisão. É um grito moribundo que se esvai com o sangue e voa para longe com os sonhos de papel.

Parece que também tenho tinta a escorrer do canto dos lábios.

Achei "piada" a esta frase....

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Re: Sonhos De Papel

Postby Lyquid » 05 Jul 2006 14:48

Para um das minhas raras incursões pela prosa, acho que não está mal de todo, mas me posso apelidar de imparcial, venham de lá as críticas.

Sam, não sei porquê mas estava à espera que achasses piada a isso nem que seja porque parece à primeira vista deslocado do sentimento do texto mas achei que precisava de uma pausa para descomprimir a tensão...

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Re: Sonhos De Papel

Postby Samwise » 05 Jul 2006 15:48

Pensei que o texto era A descompressão... mas compreendo o que queres dizer. Uma pessoa vive muito o momento, quando está a escrever uma coisa destas.

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Re: Sonhos De Papel

Postby Lyquid » 06 Jul 2006 08:39

Obrigado pela leitura Dark Angel. De facto queria que soasse a desepero, mas a um desespero já alucinado em que quase nada, tirando a visão dela fizesse sentido no "real", como um alheamento provocado pela ausência de resposta ao seu amor. Queria ao mesmo tempo (receio é que não tenha sido muito conseguido) que se espelhasse alguma amargura irónica do "amante" em relação à própria vida e ao facto de estar a acabar com ela quase duma forma "de fora do seu próprio corpo".

Quanto ao facto de ter sido desespero ou uma forma calculada de se fazer notado, o suicídio isto é, acho que consegui que fosse quem lê a ter o poder de decidir.

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