Estou a Teu Lado

Lyquid
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Estou a Teu Lado

Postby Lyquid » 20 Jul 2006 08:46

Pensei que te tinha perdido ontem. Entre esta neblina de mentiras e conversas meio-mastigadas, os rangeres de dentes tornaram-se demasiado audíveis. Um jogo do empurra em que o prémio para o vencedor e o vencido é o mesmo – a perda do outro. Nunca pensei ver desprezo nos teus olhos, raiva nos teus lábios num traço que desconhecia, que nunca quis ver manchar a tua face.

O amor de uns para os outros é repelente, uma felicidade que se deseja ver desaparecer, algo que como não é nosso ninguém pode ter.

Estou farto destes murmúrios lodosos que nos prendem os membros, que nos obrigam a olhar para trás, para o passado que só queremos deixar partir. As reuniões do café que se transmutam em opiniões, em olhares indiscretos, em poços de injúria e intriga. Estou farto!

Quanto mais remo no sentido da foz, do teu delta, mais estas correntes de fel me arrastam num sentido anti-natural, como salmões na desova. Não quero voltar à nascente, não quero ver brotar mais mentiras, mais farsas, mais razões para me levarem ao desepero. Quero o mar, o teu, o nosso mar, meu amor!

Quero emudecer todo o mundo e gritar o meu amor por ti aos quatro ventos, deixar que o que sinto no peito ganhe asas e voe, quero que escureça o céu como um eclipse solar. Quero que para onde quer que olhes, me vejas, me sintas, sintas os meus beijos, as minhas carícias, o meu desejo de tocar essa pele bronzeada do Verão que chegou, finalmente, e com ele o quebrar das minhas grilhetas. Quero deixar de ter razões para lavar a alma com a tinta desta caneta, se isso quiser dizer que estou contigo, que não tenho razões para chorar pelos dedos.

Beijaste ontem as minhas lágrimas pela primeira vez, meu amor. Viste ontem pela primeira vez o desespero que é estar suspenso da ponta deste promontório que é a fronteira da minha sanidade. Tocaste ontem pela primeira vez os meus olhos marejados de sal que não são o espelho da alma mas a Morte do Poeta. Abraçaste pela primeira vez este corpo que aqui jaz, no sítio onde me deixaste, neste deserto de indecisões em que só uma coisa importa – o amor das duas mulheres da minha vida, a que gerei e a que gerou em mim este amor.

Ver-te torcer os nós dos dedos numa raiva contida, em que os teus dedos te queriam obrigar a torcer-me o pescoço como um galho seco, fez-me morrer por dentro. Ouvir-te a voz tremer com a desilusão para com quem mais uma vez te falhou, faltar-te a voz para conteres as lágrimas de ódio, fez-me pensar que perder-te não era uma opção minha, não era só um pesadelo do qual acordo todas as noites banhado em suor, mas sim uma dura, crua e nua realidade à qual quero escapar a todo o custo.

Pedi-te uma vez que me dês o manual para te conquistar, meu amor. Tudo nesta vida traz intruções, porque não o amor? Disseste nessa altura que nunca me dirás o que sentes por mim… não por mim, não por ti, mas pelos outros. Pois bem, o amor que declarei, que declaro e que me recuso a deixar de declarar, é só mesmo por nós, meum mel. Os outros? Não quero dar a mão as outros, não quero fazer amor com os outros, não quero viver ao lado dos outros. O caminho é nosso para percorrer, ninguém os obriga a seguir-nos porque só nós podemos traçar o destino. O desfiladeiro que quero atravessar contigo em busca da nossa Terra Prometida é estreito, tem espaço para os nosso ombros lado a lado e para seguir o Relicário do meu Amor à nossa frente, abrindo o caminho com aqueles olhos de criança, de vida nova, de promessa de um melhor amanhã.

Vês aquela luz ao fundo? Foste tu que a geraste. Chama-se Felicidade e tem ao seu lado dois companheiros inseparáveis, o Amor e a Amizade. O Amor tem o meu nome escrito no peito e a Amizade ainda aguarde que a tatue com os nomes dos que não nos vão abandonar, alguns nomes começam já a aparecer e só esperam que o tempo os torne imutáveis, intransponíveis, intemporais. Já a Felicidade meu amor, essa não tem tatuagem nenhuma. A sua pele alva, quase transparente, mostra-nos com a clareza desta luz que dela emana que só de nós depende. Dá-me a mão uma vez mais e dá mais um passo na direcção do nosso lar. Estou a teu lado.

Lx, 2006
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Amo todas as palavras... especialmente as que não podem ser ditas em voz alta para não quebrar o encantamento, por isso são escritas e são entregues de peito aberto a quem quiser entrar nos nossos sonhos, nas nossas dores.

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Re: Estou a Teu Lado

Postby Samwise » 21 Jul 2006 10:07

Lyquid,

Já o li ontem uma vez... à primeira vista pareceu-me mais certito (do ponto de vista da prosa) do que o outro.

Mas deixa-me lê-lo hoje com mais atenção antes de dizer mais qualquer coisa.

Sam

P.S. Não me passou despercebida aquela referência que também tens num poema ("meum mel").
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

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Re: Estou a Teu Lado

Postby Lyquid » 21 Jul 2006 10:17

Samwise wrote:P.S. Não me passou despercebida aquela referência que também tens num poema ("meum mel").


Quando o escrevi no fórum lembrei-me que irias comentar isso... fico à espera de uma leitura mais atenta, até porque vais encontrar outras referências...

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Re: Estou a Teu Lado

Postby Samwise » 21 Jul 2006 18:43

Agora que o li com mais calma (e tempo), posso então dizer que gostei mais do resultado final deste, como texto.

Os sentimentos estão mais à flor da pelo no outro texto (Amor Basta), mas aqui, mais reservados e serenos, continuam a existir tão ou mais fortes (pese embora o facto dos textos retratarem duas situações diferentes - tendo por pano de fundo o amor).

Gsotei de ler algumas das tuas invnções/soluções de linguagem. Em certas alturas fazes lembrar a Blueiela nos poemas, quando liga a tinta e a carne.

I liked it! Está sereno à superficie (está domado pelas palavras), mas ribombante no interior.

Sam
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Re: Estou a Teu Lado

Postby Lyquid » 24 Jul 2006 12:19

Samwise wrote:
Gostei de ler algumas das tuas invenções/soluções de linguagem. Em certas alturas fazes lembrar a Blueiela nos poemas, quando liga a tinta e a carne.

Sam


Sam, assim não vale, isto não é uma crítica, é o melhor elogio do mundo...
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