As Cartas Da Minha Paixão 1

Lyquid
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As Cartas Da Minha Paixão 1

Postby Lyquid » 19 Aug 2006 14:36

Aluguei um pequeno mundo. Tem uma pequena casa e uma grande mulher que queria tomar para mim. Não passa um dia que não tenha medo que me despejem, aluguei este quequeno mundo sem pensar que não tenho condições para pagá-lo.

Este meu pequeno mundo tem uma porta e uma janela para o passado. A janela serve só para ver os meus amigos porque cabem todos naqueles quatro quadrados de vidro espelhado. A porta é a porta para a minha filha, aquela porta que queria que ela atravessasse de vez para nunca mais partir, mas dizem os outros que fui eu que e a abandonei por este lugar, por esta busca da felicidade sem meios para alcançá-la.

Beijas a minha boca, deitas-te na minha cama mas não me pertences. A culpa é minha que não soube ler as letras pequenas do contrato que assinei. Não te beijo a boca, não me deito na tua cama mas pertenço-te. A minha entrega está escrita nos meus olhos, gravada a lágrimas no meu peito, escorre de cada gota de suor das minhas costas. Nem forças tenho para parar.

Acordo mais uma manhã e tropeço no monte de correspondência (sem dúvida um sem-número de pré-avisos de despejo), estatelo-me em frente à porta da rua escancarada. Aberta? Como aberta, se ainda ontem depois de teres entrado a tranquei? Olho para a linha imaginária do meu horizonte que é a nossa cama e não te vejo. Foi hoje...

Consigo arrastar-me de volta para os lençóis que ainda cheiram à tua pele e deixo-me imergir pela realidade e afogar-me devagarinho nesta dormência. Deixem-me dormir para sempre até não ser mais do que uma sombra nesta casa. Sinto uma mão pequenina puxar-me a orelha com carinho e a única palavra que me eleva como nenhuma outra. Amo-te filha. Perdoa o pai por não conseguir ser feliz, por não conseguir fazer depender apenas de ti a minha vontade de viver, de sorrir. Perdoa o pai por ter que te amar com um calendário numa mão e um cronómetro na outra. Perdoa o pai por ter tentado ser um bom pai apesar de não dormirmos sob o mesmo tecto. Perdoa o papá por se ter convencido que seria possível alguém como ele querer a felicidade só para si. Perdoa-me filha porque de toda a minha vida és a única coisa que vou deixar que me faça sorrir no dia em que ela partir. Amo-te para sempre!

Lx, 2006
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Re: As Cartas Da Minha Paixão 1

Postby Samwise » 22 Aug 2006 15:09

Quase que apetece chamar este texto "Carta a um Pequeno Mundo Filho da Mãe".

Apesar de uma acentuada vertente intimista e pessoal (que o torna comovente), gostei muito de o ler - logo a partir da primeira linha, está recheado de originalidade.

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Re: As Cartas Da Minha Paixão 1

Postby Lyquid » 22 Aug 2006 16:01

Sam, como sempre uma crítica concisa e cheia de intenção. Eu sei que sendo cartas não são comparáveis às minhas primeiras incursões pela prosa a que assististe mas parece-te que estão a "soar" melhor?

às vezes quando as releio sinto que no meio das cartas escrevo versos e não frases propriamente ditas, mas depois fico sem perceber se se nota.

P.S. Quanto à tua proposta quanto a mim daria um belíssimo sub-título.

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Re: As Cartas Da Minha Paixão 1

Postby Venom » 06 Sep 2006 01:16

Intimista,mas original como o Sam disse. Alias, estão os quatro textos estão originais. Não notei qualquer "verso" no texto( nem nos outros três). Penso que tens um "i" a mais no "que" na segunda linha do ultimo paragrafo(maldito seja por notar nestas coisas).Gostei de ler o texto, e da forma como abordas o "amor"de uma forma original.
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Re: As Cartas Da Minha Paixão 1

Postby Lyquid » 06 Sep 2006 08:57

Venom, obrigado pela correcção (editado) e especialmente pelo comentário quer neste quer nos outros textos. É bom saber que, por vezes, o que queremos dizer é compreendido (sem ser só pelo Sam que é o meu "leitor gémeo").

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Re: As Cartas Da Minha Paixão 1

Postby Aignes » 12 Sep 2006 00:07

Credo, isto é mesmo comovente. O discurso emocionado, o amor que aprisiona, a filha no meio desse mundo..

"Perdoa o pai por ter que te amar com um calendário numa mão e um cronómetro na outra"

Gostei bastante :thumbsup:
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Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»


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