As Cartas Da Minha Paixão 4

Lyquid
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As Cartas Da Minha Paixão 4

Postby Lyquid » 23 Aug 2006 12:04

Esperaste (como é hábito) que me viesse embora para me dizeres o que sentes, e só depois de me vir embora (como é hábito) foste capaz de me dizer que te fiz feliz. Pergunto-me como pode um homem como eu fazer feliz uma mulher como tu. Ao leres estas linhas deves estar a rilhar os dentes (como é hábito) e a perguntar porque me diminuo. A esta hora (como é hábito) a tua vida já não é comigo.

Os teus amigos flutuam á tua volta como borboletas em redor de uma vela acesa, essa vela que nunca se apaga. Que todos os dias clama por mais pavio, que todos os dias vejo engrandecer em luz pura, cálida, nesse calor que me enternece e me arrasta para a escuridão de amar-te sem retorno.

Pedi-te de manhã que não te zangasses comigo. Falámos de trabalho e discutimos (como é hábito) sobre os outros, por causa dos outros, nunca por causa de nós.

Estou aqui deitado na minha cama com uma garrafa de vodka barata aninhada no meu colo, no colo que te pertence como cada milímetro do meu ser. Acaba por ser mais fácil assim, quando o torpor do álcool me faz sentir menos calmo, menos sózinho, menos amoroso, menos simpático, menos eu... e me torna mais zangado, mais revoltado... menos eu, mais mais o que é preciso.

Não me apetecia sair do Metro, o troar das rodas nos carris estava a conseguir (como é hábito) afastar-me de mim, trazer-me de volta a casa. Esta casa forrada de quadros inócuos, de gavetas cheias de mim, folhas de papel amarrotadas com poemas que não tive a coragem de te dar, nem de destruir. Concluo (algo alcoolicamente) que sou os meus poemas, estou aqui sem ninguém o saber. Choro por ti sem ninguém o ver, meio amarrotado na cama á espera que me peguem e me deitem fora. E o mais triste (como é hábito) é que ninguém vai saber.

Agarro-me ao telefone como se fosse a minha salvação, a minha ponte para ti, o metálico objecto que de quando em vez me traz notícias tuas, a tua voz ensonada. Tocou há pouco e ainda senti o coração disparar antes de ver que não era a ti que anunciava.

Não atendi... sou só um poema amarrotado na minha cama.

2006, Lx
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Amo todas as palavras... especialmente as que não podem ser ditas em voz alta para não quebrar o encantamento, por isso são escritas e são entregues de peito aberto a quem quiser entrar nos nossos sonhos, nas nossas dores.

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Re: As Cartas Da Minha Paixão 4

Postby Samwise » 01 Sep 2006 12:25

Aqui pareces regressar à boa forma da minha carta favorita (a 2ª), embora as tonalidades desta sejam um bom bocado mais negras e deseperadas.

Tem aqueles pedacitos de ligação entre a vida real e a vida na escrita que, quando bem empregues, são um colírio sobre os olhos...

Gostei de ver a repetição do (como é hábito). Não sei se a perferiria ver entre vírgulas, mas não á algo que faça diferênça quando se está a ler.

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Re: As Cartas Da Minha Paixão 4

Postby Lyquid » 01 Sep 2006 13:52

Optei pela solução dos parêntesis e não das vírgulas porque quis que soasse mais a um pensamento de quem escreve que é permitido ver a quem lê do que a mais uma frase do texto, presumo que não seja totalmente compreendido como tal. Sabes quando alguém te está sempre a dizer a mesma coisa e dás por ti a pensar - "outra vez" mas não o dizes em voz alta, era um bocadito isso...

De resto esta é uma das minhas cartas preferidas porque foi mesmo a quente e foi escrita em garatujar (iunouuótáimin).

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Re: As Cartas Da Minha Paixão 4

Postby Aignes » 12 Sep 2006 00:29

Gostei de duas coisas neste acabar de uma longa carta. Primeiro, do primeiro parágrafo, que me fez render aos dois personagens, o narrador e a outra. Não sei nem quero saber se estes textos são fingidos ou a expressão dos sentimentos do autor, mas quero apenas deixar claro que gostei da maneira como descreveste as pessoas. E o primeiro parágrafo ilustra precisamente essa maneira. Segundo, como disse o Sam, gostei da ligação entre a vida escrita e a vida real. Mais uma vez, penso que se adequa perfeitamente ao narrador. Gostei bastante das 4 cartas :thumbsup:
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»


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