Violação

Lyquid
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Violação

Postby Lyquid » 22 Sep 2006 13:10

Um adeus despudorado foi o teu último gesto a que estes olhos raiados de sangue assistiram. A raiva para comigo própria incendeia-me as veias dando-me vontade de socar o meu rosto até nada mais restar do que uma massa sem forma palpitante de carne fresca, ensanguentada. Um rosto não mais feito para ser visto, um rosto difícil de esquecer pelas piores razões possíveis.

A cicatriz lívida da última tentativa de te esquecer mancha-me o pulso, relembra-me da minha estupidez, daquele gesto sem ser pensado em que pensei que não queria mais viver sem te ter a meu lado. Queria tanto saber o que é ser a tua mulher. Violo-te vezes sem conta nos meus sonhos. Tu dizes que não mas não é isso que o teu corpo me pede, quando sinto o teu sexo na palma da minha mão, palpitando com vontade de entrar em mim, de me tornar tua sem que o teu coração o queira.

Olho para os lençóis da cama onde nem há mais de uma lua fiz amor contigo e tu fizeste sexo comigo. O sangue já retesou os lençóis em teu redor, a tua mortalha. O teu corpo adquire uma lividez que me impressiona, tu que te orgulhavas sempre desse tom acobreado que ostentavas com vaidade durante o ano inteiro. Como ficarias triste por perceber que a morte nos torna todos iguais. Brancos, rijos e de boca escancarada.

Tu que nunca quiseste ser pai nem te chegaste a aperceber da ligeira curva que enternece o meu ventre, as paredes que guardam o nosso filho, o filho que te roubei sem que o soubesses. Não te posso ter mas desde o momento em que soube que carregava no corpo a materialização do meu amor por ti soube que não precisaria, nunca mais, de ti. Das tuas negações, das tuas não-respostas, dos teus silêncios, dos teus olhares de desprezo quando me fazias ver que não sou mais do que uma forma de saciares a tua fome de sexo que não matas na tua casa. Nessa casa da qual nunca farei parte. O teu círculo de amigos, a tua família, a tua vida, nunca a nossa ou o nosso.

Merda, já são quase horas de ligar para o 112 para chamar ajuda. Tantas vezes te violei eu nos meus sonhos, e agora serás tu o responsável pela tua própria morte, auto-defesa chamam-lhe eles. Tentaste violar-me, as marcas dos teus dedos ainda me marcam as costas, o meu lábio rasgado das dentadas que sempre gostaste de me dar para saborear o meu sangue mesmo antes de te vires. O olho negro da queda que acidentalmente dei ontem no parque enquanto tu te afastavas de mim mais uma vez.

Esta será a última imagem que guardo de ti, as pernas nuas encolhidas dentro das calças que te voltei a vestir. Os olhos esbugalhados da surpresa por afinal não ser a mulher fraca que te habituaste a possuir como quem masca uma pastilha barata. O pescoço anormalmente pendente para trás como que se quisesses uma única vez rezar a um Deus que se devia envergonhar por te ter criado. A floresta de cabelo negro petróleo que sempre penteaste da mesma forma está agora empapado com o sangue que irrompeu livremente quando te matei com o Buda. Irónico. Foste tu que me ofereceste a estatueta da primeira vez que vieste cá a casa. “Trar-te-á felicidade” disseste tu, sim porque não foste tu que a trouxeste.

Amei-te e jurei que serias meu até ao fim dos teus dias. E foste…
Amo todas as palavras... especialmente as que não podem ser ditas em voz alta para não quebrar o encantamento, por isso são escritas e são entregues de peito aberto a quem quiser entrar nos nossos sonhos, nas nossas dores.

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Re: Violação

Postby Samwise » 27 Sep 2006 18:16

Achei este trabalho espectacular!

O confuso molde de sentimentos e acções (amor-desejo-sexo-morte) que parece dominar a mente da narradora, acaba por não ser nada confuso, afinal de contas, quando surge essa frase final, tão calma e tão serena - tão "correu tudo como era suposto correr"-, com a felicidade a despontar de um acto de homicídio.

Há uma violência quase muda que liga as várias ideias deste texto: liga uma gravidez consentida a uma violação imaginada, liga o amor à vontade de vingança, liga o sonho à realidade...

Se por um lado este texto marca um determinado afastamento em relação aos teus outros mais pessoais, por outro não consigo deixar de pensar que isto é uma espécie de ficção relacionada, e nesse sentido é interessante a análise do estado de espírito da personagem principal, e da vingança associada... (mais ou menos isto).

Olho para os lençóis da cama onde nem há mais de uma lua fiz amor contigo e tu fizeste sexo comigo. O sangue já retesou os lençóis em teu redor, a tua mortalha. O teu corpo adquire uma lividez que me impressiona, tu que te orgulhavas sempre desse tom acobreado que ostentavas com vaidade durante o ano inteiro. Como ficarias triste por perceber que a morte nos torna todos iguais. Brancos, rijos e de boca escancarada.
:see_stars:

Está intenso!

Sam
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Re: Violação

Postby Thanatos » 27 Sep 2006 20:12

Esta foi a prenda de anos do Lyquid para nós. :wink: (sim, aqui no bbde são os aniversariantes que dão prendas).

Acima de tudo é um texto cru que define duma forma que creio acertada a personalidade feminina - tanto quanto eu possa perceber dela, entenda-se - nas suas complexas nuances emocionais. Claro que neste caso trata-se duma personagem que «não joga com o baralho todo», fruto da vivência e da forma como foi tratada. E claro que também aqui temos apenas um lado da questão. Pergunto-me como seria esta história contada do ponto de vista da personagem masculina.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

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Re: Violação

Postby Samwise » 28 Sep 2006 13:03

Creio que o Sr. D'O tem algo a acrescentar a este texto. Não sei é o quê ou em que formato...

Aguardemos.

Sam

Creio que o Sr. D'O tem algo a acrescentar a este texto. Não sei é o quê ou em que formato...

Aguardemos.

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