A Espera

Lyquid
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A Espera

Postby Lyquid » 26 Oct 2006 08:49

A noite chega mal-anunciada pela voz irritante do pivot do noticiário que ecoa da sala sempre com más notícias. Continuo de olhos colados na janela do quarto num ritual diário que grassa a loucura. Lá está ele, amarelecido pela iluminação pública. Sempre no mesmo sítio, nem um centímetro deslocado como se tivesse estado ali toda a sua vida, num fitar inconsolável, os olhos suplicantes, o queixo erguido para conseguir ver a minha sombra na janela do terceiro andar.

Há quase um ano que ele me visita todas as noites, nem uma palavra, já as sei todas. Nem uma expressão que não a petrificada espera que ostenta como um casaco pesado de inverno, que o aquece por dentro mesmo nos dias em que o tal pivot irritante anuncia que o País está em "alerta amarelo" por causa das sempre inevitáveis cheias.

Há quase um ano que sei que ele vai esperar o tempo que for preciso. Tenho a sensação que não saberá viver de outra forma. Mesmo nas noites em que chego tarde, ele lá está. Chego a passar a escassos metros dele antes de entrar no prédio e ele não mexe um músculo, nem um sorriso, nem uma palavra, só aquele olhar de quem foi despojado da própria existência.

Não sei como ele chega, não sei porque vem. Ganho coragem, muito devagarinho para descer a escada e ir ter com ele, confrontá-lo com a visão de outra coisa que não a minha sombra na janela, mas depressa o receio me enrijece os membros, o pânico começa outra vez a tomar conta de mim. E se ele fala? E se ele mo pergunta outra vez? E se começa tudo de novo? Não tenho coragem.

Por um segundo a minha mente parece querer pregar-me partidas. Pareceu mexer-se um pouco, como uma árvore açoitada por uma brisa irrequieta.

Não! Ele mexeu-se, deu um passo em frente. O mundo parece congelar num momento quase eterno enquanto o seu corpo avança inexorável na direcção dos meus olhos. Não afasta o olhar nem por um segundo e sinto-me incapaz de afastar o meu. Os passos sucedem-se como a contagem decrescente das descolagens a que se assistem em filmes americanos patrocinados pela NASA. Consigo ver-lhe o rosto e vejo uma expressão de dor que nunca tinha visto, um estrangular lento e prolongado.

Ele desapareceu. Não consigo vê-lo da minha janela pela primeira vez desde há quase um ano. O desconhecido atinge-me como uma pistola de atordoar. Sinto as forças abandonarem-me quando a campaínha da porta soa, anunciando aquilo que sempre temi. O encontro, o confronto com os meus próprios sentimentos, o desfecho de uma espera que não quero que termine.

Com dedos tremidos abro a porta e vejo-o á minha frente, pareço nunca o ter visto apesar de já ter conhecido cada centímetro daquela pele.

O cabelo negro em desalinho, escorrendo água da chuva que cai incessantemente. Os olhos castanhos, demasiado normais com aquele brilho de insanidade que transforma os homens em profetas, génios, ditadores ou apaixonados. Os ombros descaídos pelo peso do casaco ou da vida. A mão estendida na minha direcção como um convite ao abandono da segurança. Os lábios, aqueles lábios que já saboreei tantas vezes entreabertos numa palavra que teima em não sair.

Já chega? - pergunta ele numa voz de quem já fumou demasiado hoje e não devia estar à chuva.

Já chega o quê? - pergunto eu com quase tanto medo da minha pergunta como da resposta.

De não ser feliz...


Jorge O.
Amo todas as palavras... especialmente as que não podem ser ditas em voz alta para não quebrar o encantamento, por isso são escritas e são entregues de peito aberto a quem quiser entrar nos nossos sonhos, nas nossas dores.

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Re: A Espera

Postby Samwise » 26 Oct 2006 12:21

Afinal de contas está muito melhor que o que pensei (quando li o teu aviso).

A opção de colocares uma espécie de alter-ego (um ser que se contorce com a dor que sofres) a fazer de "sentinela" é muito boa.

Mudava uma coisa neste texto, que era o passar de uma questão para uma afirmação... em vez do "Já chega?", colocaria on "Já chega!". Mas são as tais coisas que soam melhor apenas do ponto de vista de quem não participou na elaboração de um trabalho.

Bottom Line: Muito Bom!

Sam
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