O Primeiro

Lyquid
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O Primeiro

Postby Lyquid » 27 Oct 2006 13:23

A Sofia era a miúda tímida por excelência. O tipo de pessoa que passa pelas nossas vidas sem fazer mossa, aliás, a verdade seja dita, sem que dessemos por ela sequer. Os seus cabelos eram normais de mais, o seu corpo tinha peso a menos. Os ombros pareciam querer romper a pele. As mãos eram de uma pianista, ou de uma cirurgiã, coisa que quase chegara a ser antes de desaparecer da Faculdade de Medicina da Universidade Nova, sem que alguém desse por isso.

Tinha um apartamento pequeno no Lumiar, e se perguntassem aos vizinhos quem era ela, só vos saberiam dizer que era uma menina calma que nunca causava problemas. Saía todos os dias pontualmente ás 7h30 com aquele ar compenetrado de quem sabe para onde vai. Nunca recebia visitas, nunca fazia barulho. O único som audível nas escadas era um vago som musical de música clássica, especialmente Vivaldi.

Nunca se lhe conheceu um namorado, ou amigos para sermos sinceros. Não nos parecerá portanto estranho sabermos que desde a hora da sua morte e até ao momento da sua descoberta tenham decorrido duas semanas, três dias, sete horas, catorze minutos e nove segundos. Foi uma das "atenciosas" vizinhas que, ao achar estranho o despertador tocar todos os dias durante uma hora sem haver quem o desligasse, ligou para o 112.

Ainda hoje em dia no café da zona ninguém se atreve a comentar a descoberta que os agentes da PSP que encontraram o corpo relataram entre vómitos mal contidos.

Para descrever o cenário vamos ter que apelar a algumas recordações de infância dos caros leitores e também de alguns filmes protagonizados pelo Boris Karloff. Lembram-se as leitoras certamente do aspecto das bonecas de trapos que antecederam os componentes de plástico, assim como os leitores se recordam indubitavelmente dos filmes de terror que davam na RTP2 em que personagens estranhas e macabras apresentadas a preto e branco povoarão para sempre os nossos pesadelos.

No hall de entrada dois únicos objectos decoravam as paredes: um chaveiro e um quadro do Artur Bual. A entrada na sala era dificultada pelos tomos grossos de Medicina e Direito que pareciam protagonizar uma espécie de paisagem de trigo ondulante. Uma única característica dominava todo o apartamento, todas as divisões estavam pintadas de vermelho e tinham a um canto arcas frigoríficas. Pode o leitor mais atento pensar que é uma coisa estranha para se encontrar numa sala, num corredor ou até num quarto, mas não para a Sofia.

Encontraram-na na cama, exangue, com o ar lívido de quem cuspiu todo o sangue pelos rasgões que tinha nos pulsos. Sofia não estava sozinha, também não poderemos dizer que aquilo que estava de mão dada com ela fosse um homem, uma mulher ou um animal. Nem sequer uma coisa.

Chamemos-lhe então, por uma questão de clareza e/ou respeito, "aquilo". "Aquilo" já tinha em tempos sido homem, mulher e animal. Vamos tentar ser um pouco mais acurados na identificação d' "aquilo". "Aquilo" tinha o que podemos certamente apelidar de dois braços... desiguais. O braço direito, aquele cujo terminal continuava de mão dada com a defunta era um braço de homem, musculado mas não demasiado. Era um braço tatuado, um dragão chinês serpenteava desde a linha do pulso até ao ombro que terminava numa costura desumana, decorada a arame. O outro braço de "aquilo" era o de um homem idoso cujas rugas desenhavam intrincados esquemas sarapintados com a cor dos anos passados. O torso destoava de todo o conjunto. Era um tronco de mulher com uns seios perfeitos que o rigor da mortalidade tinha transformado em duas bolas de alabastro com uns mamilos também perfeitos.

"Aquilo" não tinha pernas, não tinha pernas porque só tinha uma, consequentemente, tinha perna. Mas essa perna não era uma perna qualquer, era uma perna de um animal, um cão Labrador, que mais tarde se soube estar embalsamada.

Nenhum dos enojados agentes soube explicar bem o que era aquilo que era suportado por um pescoço demasiado infantil para pertencer a qualquer uma das parte de "aquilo". Um olhar clínico e menos susceptível conseguiria identificar a cabeça de "aquilo" como um livro grosso com uma capa de duro cabedal aberto e manchado de sangue. Sangue esse, que após uma aturada análise demonstrava não ser uma mancha qualquer mas um conjunto de linhas, ou melhor, sublinhados. A inscrição era a seguinte:

"Eu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim, o primeiro e o derradeiro" - Apocalipse 22:13

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Re: O Primeiro

Postby Lazy Cat » 27 Oct 2006 13:53

Uuuhhhh! Oo Parece anda tudo numa onda criativa! Muito bem, muito bem! =D
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Re: O Primeiro

Postby Lyquid » 27 Oct 2006 14:01

Deve ter sido das poucas coisas (em prosa claro), que eu não pensei em nada antes de começar a escrever. E saiu tão estranho que ainda pensei por um segundo que estava a apenas um passo da demência...

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Re: O Primeiro

Postby Lazy Cat » 27 Oct 2006 15:15

Estar a um passo da demência é bacano. Conseguimos contemplá-la, sem cair nela.

(sim, foi uma frase atirada ao ar, sem pensar. Com certeza me vão provar por A + B que não é bem assim. :tongue:)
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Re: O Primeiro

Postby Lyquid » 27 Oct 2006 15:20

Lazy Cat wrote:Estar a um passo da demência é bacano. Conseguimos contemplá-la, sem cair nela.

(sim, foi uma frase atirada ao ar, sem pensar. Com certeza me vão provar por A + B que não é bem assim. :tongue:)


Não serei eu a faze-lo Lazy...

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Re: O Primeiro

Postby Samwise » 27 Oct 2006 15:33

Estou boquiaberto!

E de facto, foi com um fascínio crescente que fui lendo este texto - que me fui abeirando da demência, para falar ao mesmo nível dos comentários anteriores.

Aquele ambiente que prevalece, mais ou menos até meio do texto, de vida normal, banal, desinteressante - de um rosto perdido no meio da multidão -... está tão bem apanhado - e constrói de facto uma anti-preparação para algo que suspeitamos poder vir a ser brutal.

Adorei. Está espectacular!

Sam
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Re: O Primeiro

Postby Lyquid » 27 Oct 2006 15:41

O meu ego-demente está neste momento a salivar de tanto elogio...

Agora a sério, obrigado por lerem mais um devaneio.

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Re: O Primeiro

Postby Aignes » 29 Oct 2006 20:23

Eu também gostei...nunca conhecemos verdadeiramente as pessoas...

E isto só mostra que os textos não planeados são os mais emocionantes. :cool:
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»


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