David

Lyquid
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David

Postby Lyquid » 14 Jun 2007 22:38

David olhava para as suas mãos ensanguentadas e pensava como tinha sido possível chegar áquele ponto. A televisão continuava ligada com a merda da música do Noddy como se estivesse em modo automatic replay. O comando do DVD estava algures no meio daquela confusão que um dia tinha sido a sua vida. O sofá, aquele sofá em que tinha passado tantos e bons momentos estava machado... manchado de sangue e de tinta de canetas de cor.

A música do Noddy iria persegui-lo para sempre, mesmo no dia em que, como as pessoas da nossa idade cantarolam a música do Verão Azul ou do Tom Sawyer com um sorriso pateta, esta geração fizer o mesmo. E nesse dia, ainda nesse dia o David saberá que a perdeu. Talvez não para sempre pois se existe vida além disto a que alguns chamam vida, terá forçosamente que reunir as pessoas com as que mais se amam.

Pela primeira vez nesse dia David olhou-a bem fundo nos olhos, naqueles olhos que mais parecem oceanos de alegria e disse aquela frase que de tão usada, gasta e comercializada já não serve para descrever o que sente... Amo-te! Amo-te desde o dia em que te peguei ao colo pela primeira vez, ainda sem saber bem como o fazer. Amo-te desde a primeira vez que abriste esses olhos e me deste a ver o mundo através deles. Amo-te desde os primeiros sons, os primeiros risos, os primeiros passos, os primeiros disparates. Amo-te desde que descobri que, pelo simples facto de existires, provaste ao Universo que pelo menos uma coisa, uma só mas tão grande, eu consegui fazer bem. Amo-te na hora do "até já", este até já que nunca será um adeus enquanto viver.

David continua sentado no sofá sentindo o suor secar-lhe nas costas e provocar-lhe arrepios de frio. O seu coração não está vazio, nem nunca estará, a Tristeza e a Saudade disputam o lugar rodeando aquela imagem daquela criança tão pequena que ele se habitou a tomar como certa.

O sangue, que afinal não é sangue, mas que poderia sê-lo, é álcool, o álcool que lhe corre nas veias, o álcool que lhe enche o copo, o álcool que lhe move a pouca força que ainda lhe resta. David não é um alcoólico, nem um bêbedo, é um triste. Um triste marido, um pai triste, um triste em suma.

David é um pai.

Um pai a quem roubaram a filha.

Lx, 2007

Jorge O.
Amo todas as palavras... especialmente as que não podem ser ditas em voz alta para não quebrar o encantamento, por isso são escritas e são entregues de peito aberto a quem quiser entrar nos nossos sonhos, nas nossas dores.

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