Os Falhados

Ordie
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Os Falhados

Postby Ordie » 29 May 2006 21:39

“O que é que tu queres de mim?” – disse ela, a sua voz calma e fria; crua.

Ele hesitou por um segundo.

–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

Ele caminhou pelas ruas molhadas da chuva dessa mesma tarde, as suas botas negras deslizando lentamente pelo passeio sujo. No fundo da rua avistava-se o horizonte do Sol poente, e aclamando o fim do dia, os sinos da catedral ouviram-se por sete vezes. Para David, o fim anunciava também já a sua chegada.

Do alto da catedral, acima das salas superiores, acima até da torre dos sinos, corvos voavam para quem os quisesse ver, exibindo-se aos restritos humanos; abençoados com o vislumbramento aéreo da metrópole. No lado Oeste, um ninho está mal equilibrado.

David era um fraco. Sabia-o, e dizia-o a quem quer que cometesse o erro crasso de o ouvir. Quando viu o pôr-do-sol, pensou em ir para casa. Não o apanhariam na rua, de noite, de livre vontade. Mas lembrou-se, e murmurou ainda mais uma vez, “Que merda.” – dos seus olhos esguelhados rolou uma lágrima, que ele recolheu com a ponta da língua e bebeu. Na sua pequenez, tentou atribuír ao gesto insignificante que acabara de cometer algo que ele gostaria de chamar “significado negro e simbólico”, mas cedo se reduziu à sua existência mínima; deu um pontapé num pacote vazio de batatas fritas que estava no caminho e continuou. Aquele dia cada vez mais se assemelhava a um qualquer tenebroso engenho de tortura: trazia-lhe memórias do ano que tinha passado.

–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

David abriu o email de título sugestivo com expectativa. Este continha a simples mensagem, “Quero conhecer-te em pessoa”, seguido de uma morada que ele reconheceu como a duma esplanada bastante frequentada. Especado, o órfão de pais ricos releu a frase algumas vezes e soltou um riso-grito agudo. Nunca tinha tido uma namorada, mas mesmo desesperado, nunca tinha sequer imaginado que as longas noites de cyber-namoro trouxessem qualquer resultado.

Uma rajada de vento abana o pequeno ninho de paus secos e folhas, que apenas muito a custo consegue manter os seus conteúdos contidos nas cascas amarelentas intactos.

Chegando ao local combinado à hora combinada, David olha à sua volta, procurando algum sinal daquela que lhe tinha dado a sua descrição e modo de identificação da seguinte maneira: “sou alta, morena, peitos salientes ;) e vou vestir uma camisola verde e calças de ganga”. Não viu ninguém, e o seu ego hiperbolizado desceu à Terra. Derrotado, iniciou a penosa caminhada que o levaria até fora da esplanada, e “depois disso, quem sabe”, murmurou. Mas nada disso estava destinado. Antes de chegar à porta, viu-a. O seu aspecto correspondia exactamente ao descrito. Cruzaram olhares, e ela desviou o cabelo dos olhos. Tudo o que aconteceu após disso correu pelos olhos de David como um filme em fast forward. As conversas; os beijos; o sexo; aquela noite em que ela o fez beber de mais, e ébrio, o fez assinar documentos que lhe transferiam todos os seus bens e a herança dos seus pais; e a miséria. A cabeça dele doeu, e levou as mãos às têmporas.

A decadência do astro solar mostrava-lhe apenas dois caminhos: um para a ponte e o outro para a casa da sua tia-avó, a única que o acolhera após todos os seus eventos desgraçados. Se se dirigisse para a ponte, sabia qual o único resultado de tal fatídica caminhada poderia ser. Escolheu a ponte. Andou e andou, e finalmente avistou as torres de ferro distantes que se erguiam sobre o rio. Foi surpreendido por uma voz gritante que lhe pareceu familiar. “Não! Porquê a mim?!” vindos dum bar de aspecto quase asqueroso cujo topo da porta carregava as palavras néon verdes “Super Nights”. Decidindo-se fazer uma alteração no seu percurso (até porque a cobardia intrínseca na sua personalidade recomeçava a levar a melhor, e David duvidava já da sua força de vontade, que temia insuficiente para levar a cabo a sua intenção suicida).

Entrou. Ao contrário do que aparentava pelo exterior, era um estabelecimento bastante aprazível, se não fosse pela silhueta feminina que berrava lamúrias ao balcão, observada com indiferença desconfortante pela meia dúzia de frequentadores, e a quem o barman despejava já um olhar de desprezo. David abordou-a pela direita, tentando aperceber-se se ela era verdadeiramente quem ele acalentava esperanças que fosse. Gaguejou umas palavras incompreensíveis quando se apercebeu que tinha acertado. Ali estava ela, Raquel, sua paixão secreta dos tempos do secundário; musa efémera a quem muitas pseudo-enfatuantes cartas mal escritas tinham sido dedicadas, apenas para acabarem amachucadas no caixote do lixo ou queimadas pela chama fraca dum isqueiro.

“Raquel?”

Ela ergueu os olhos chorosos da madeira do balcão já húmida de lágrimas, e interrompendo os gritos por alguns instantes, perguntou numa voz fraca, “Quem és tu?”

O batimento cardíaco de David parou por meio segundo: ela não se lembrava dele. “Mas que ilusão é que me levou sequer a conjecturar a possibilidade de que ela poderia sequer ter retido algum registo dele na sua memória?” - contemplou.

“David... David Alvim. Fomos colegas de liceu.”

Ela pareceu interrogada por alguns segundos, finalizando, “Desculpe, não tenho memória...”

Engolindo o ressentimento, David sentou-se ao lado dela; tirou um pacote de lenços do bolso e entregou-lhe um, que ela prontamente utilizou para limpar as lágrimas. “Não faz mal, é irrelevante. Mas conta-me, por favor, o que se passa contigo?, o que aconteceu?”

Raquel não aparentava ter ficado convencida de que tinha alguma vez, em tempos, conhecido este rapaz, mas algo no olhar dele a fez sentir que possuíam ambos alguma coisa em comum. Talvez fosse a mediocridade. “O meu namorado deixou-me, após 3 anos, após promessas de casamento... Eu amava-o. Eu amava-o!” - o tom de voz que havia começado num sussurro havia-se já erguido em embaraçosos gritos que David tentava acalmar sem sucesso.

“Calma, calma... não estás muito mal, comparativamente.” - começou ele, numa falta de tacto e de bom-senso ainda mais óbvia do que o habitual. - “Não és a única a sofrer, mas tens de conseguir ultrapassar isso e a continuar... como eu fiz.” - tentou convencer-se a ele mesmo da veracidade das suas palavras, mas foi impedido pela consciencialização da sua hipocrisia. Raquel, porém, acreditou, e foi convencida. Parou novamente de chorar, e limpou uma lágrima com o polegar.

Vem uma rajada de vento e um pequeno ovo cai e estilhaça-se no chão longínquo. Os pais estão distantes e nem se apercebem. Se soubessem, importar-se-iam?

A partir dessa noite, tudo mudou; para ambos. Ganharam uma nova rotina, decididos como estavam em ajudarem-se mutuamente, numa simbiose humana. Raquel havia autorizado David a habitar na sua casa, no quarto de hóspedes. Todas as noites depois do serão dirigiam-se cada um para o respectivo quarto; Raquel, procurando manter uma frieza distanciante entre o rapaz; David pensando unicamente em quando é que a conseguiria levar para a cama. Uma noite, estavam ambos sentados lado a lado, e David curvou o corpo para a beijar. Raquel afastou-se por um instante, cerrou os olhos e os lábios, e beijou-o levemente. De seguida, levantou-se e retirou-se, deixando para trás um David embasbacado a ponderar exactamente o que é que tinha acontecido. Na noite seguinte, ele não a viu em lado nenhum quando chegou a casa. Numa pequena mesa do hall de entrada, ao lado dum jarro de flores que implorava por ser regado, um papel escrito a letra fina com caneta vermelha, “Vem ter comigo ao meu quarto. - Raquel”

David quase que não consegui manter o auto-controlo (nunca tinha entrado no quarto da sua amiga, por pedido específico que não o fizesse), mas com um certo esforço, acalmou a respiração e subiu as escadas lentamente, os seus dedos acariciando o corrimão. Quando finalmente chegou à porta do quarto, “compôs-se” e bateu.

“Entre.” - foi a única resposta da voz familiar.

David abriu a porta, e o que viu só o podia satisfazer. O quarto estaria às escuras se não fosse pela luza de um candeeiro com abajour púrpura na mesa de cabeceira. A cama suava conforto, e algo brilhante lá reluzia. Do lado da cama, triunfante, estava Raquel, vestindo um robe encarnado. David deu dois pequenos passos em direcção a ela, os seus braços já ligeiramente erguidos em preparação para o abraço que antecipava. Mas Raquel tinha outros planos.

“O que é que tu queres de mim?” - perguntou, com voz hesitante.

David parou, estupefacto, sem saber o que responder; Raquel respondeu por ele quando desapertou o robe e o fez cair, revelando-se: estava nua, e os seus contornos perfeitos eram agora o novo foco da atenção de David.

“Parece que é isto que queres de mim. É verdade?” - David nada respondia, apesar de ter parado, consumido pela luxúria.

“Não é? Não é?!” - Raquel levou as mãos à cama, pegando no objecto metálico lá poisado. Era uma arma, e estava apontada a David. “Responde-me, cabrão! É isto que queres de mim?” - gesticulando na direcção do seu peito, com a mão esquerda, livre. “Responde-me!!”

David apercebeu-se que ainda não tinha dito uma simples palavra desde que entrara no quarto, tal tinham sido os acontecimentos, tão rápidos e consecutivos. Engoliu em seco, e paralisado pelo terror da arma, balbucionou alguns vocábulos inteligíveis.

“Responde-me! É isto que queres de mim?” - a sua voz agora já não tão fervorosa, mas calma e fria; crua, a arma ainda apontada a ele.

Ele hesitou por um segundo. Ela disparou dois tiros; David teve morte instantânea. Virando a arma para si, a demente disparou de novo. Dirão que foram crimes passionais, mas o que sabem eles? O que sabemos nós?

Os transeuntes e os fiéis passam ao lado dos estilhaços do ovo, evintando-os. Um executivo, de mala de couro e barba perfeitamente apurada, pisa a massa líquida que se não fosse o vento, poderia ter sido um dia abençoada com o dom do voo. Sussurra um palavrão, e continua o seu caminho.
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Re: Os Falhados

Postby Samwise » 31 May 2006 17:50

Ó Sr.Ordie, valha-nos Deuze-ze...

"Faz o que eu digo e não o que eu faço.", parece-me uma boa frase para lançar no ínicio deste comentário.

Acaso leste este texto depois de o teres escrito? Tens ideia das gralhas que andam por lá espalhadas (são gralhas, pura e simplesmente, não são erros)?

Há frases que deixam de fazer sentido assim sem mais nem menos, há outras que ficam penduradas à espera de uma continuação, e há mesmo uma onde aparece um "smilie" - numa posição nada confortável, digamos...

O teu estilo de escrita é um pouco "elaborativista" (nem sei de esta palavra existe) demais, especialmente na parte da construção de frases.

Um exemplo:

"Uma rajada de vento abana o pequeno ninho de paus secos e folhas, que apenas muito a custo consegue manter os seus conteúdos contidos nas cascas amarelentas intactos"

Isto pode tornar a leitura cansativa.

Em relação ao texto: até está interessante, consegue-nos manter presos o tempo suficiente para o acabarmos de ler, pelo menos. Pareceu-me, no entanto, haver uma certa deambulação e arrastamento na história, dando a ideia de que não há um propósito/objectivo claro a suportar o todo.

Podias pegar no texto e submete-lo ao teu próprio "controlo de qualidade". Isto não é para ser irónico. Parece-me que o colocaste aqui sem o rever.

Sam
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Re: Os Falhados

Postby Ordie » 31 May 2006 17:58

:X

Correndo o risco de humilhação... sim, li o texto. E sim, reli-o :P Porém, não vi assim nenhum erro de maior como tu dizes, embora talvez esteja à procura nos lugares errados. Importas-te de me dar um exemplo, for favor? De qualquer maneira, como é óbvio, vou agora mesmo relê-lo de novo.

Em relação ao smile, é completamente intencional. Supostamente, "ela" manda-lhe um e-mail, e referente à... característica que "ela" aponta, "ela" julgou por bem colocar um smile. É como, sei lá, "Quando vires alguém extremamente bem vestido a entrar, sabes que sou eu ;)" Mas talvez não tenha cumprido o seu propósito.

Em relação ao estilo de escrita "elaborativista". Gosto de descrever, e isso normalmente só é possível com orações bastante e prolongadas. Porém, nunca me pareceu que prejudicasse a fluidez da leitura. De qualquer maneira, vou-lhes dar outra vista de olhos.

Obrigado pela crítica! :D

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Re: Os Falhados

Postby Samwise » 31 May 2006 18:18

A do smilie foi claramente desatenção minha (lol). Nessas circustâncias, faz todo o sentido, portanto.

Os exemplos de frase meias esquisitas:

Tudo o que aconteceu após disse correu pelos olhos de David como um filme em fast forward


Se se dirigisse para a ponte, sabia qual o único resultado de tal fatídico caminha poderia ser.


Decidindo-se fazer uma alteração no seu percurso (até porque a cobardia intrínseca na sua personalidade recomeçava a levar a melhor, e David duvidava já da sua força de vontade, que temia insuficiente para levar a cabo a sua intenção suicida).
Esta última é a que ficou pendurada...

. David abordou-a pela direita, tentando aperceber-se se ela verdadeiramente que ele acalentava esperanças que fosse.


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Re: Os Falhados

Postby Ordie » 31 May 2006 18:25

Tudo o que aconteceu após disse correu pelos olhos de David como um filme em fast forward


Se se dirigisse para a ponte, sabia qual o único resultado de tal fatídico caminha poderia ser.


. David abordou-a pela direita, tentando aperceber-se se ela verdadeiramente que ele acalentava esperanças que fosse.


3 erros de spelling.

Tudo o que aconteceu após disso correu pelos olhos de David como um filme em fast forward


Se se dirigisse para a ponte, sabia qual o único resultado de tal fatídic[a] caminhada poderia ser.


. David abordou-a pela direita, tentando aperceber-se se ela era verdadeiramente quem ele acalentava esperanças que fosse.


E pronto :X Que tristeza. Eu fiz spellcheck, é tudo o que posso dizer :P Mas esses erros falharam-me.

Decidindo-se fazer uma alteração no seu percurso (até porque a cobardia intrínseca na sua personalidade recomeçava a levar a melhor, e David duvidava já da sua força de vontade, que temia insuficiente para levar a cabo a sua intenção suicida).


Erro de conjugação.

Decidiu-se [a] fazer uma alteração no seu percurso (até porque a cobardia intrínseca na sua personalidade recomeçava a levar a melhor, e David duvidava já da sua força de vontade, que temia insuficiente para levar a cabo a sua intenção suicida).


De novo, muito obrigado por tudo! :)

Com estes erros corrigidos, espero que já esteja tudo melhor.
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Re: Os Falhados

Postby Ordie » 01 Jun 2006 21:03

É melódico e tem substância... (e a propósito de substância... é isso um pouco que também falta no teu texto "Os Falhados"...)


Não pretendi que este texto passasse de um relato embelezado da vida de alguém que falhou. Ao contrário de outros trabalhos, não tem nenhum significado final, nenhuma lição de moral. É uma história não possuidora de algo que nos transcende; de algo espiritual.

Mas talvez não tenha sido isso que quiseste dizer. Nesse caso, talvez ainda haja espaço para melhoramento. Foi?, e se sim, será que podes ser mais claro na tua descrição de "substância"?

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Re: Os Falhados

Postby Samwise » 02 Jun 2006 10:27

Substância... sumo... sentido...

Eu percebo que as coisas da vida às vezes são desprovidas de qualquer sentido, mas este texto salta de assunto em assunto sem parecer ganhar nada em cada transação.

No final fica uma sensação de vazio (não decorrente da escrita, mas decorrente da abstracção que sinto em relação à história).

Tens ali uma metáfora com o ninho e os ovos. Eu percebi-a, só que não a enquadro muito bem no contexto geral do texto (acho até que não há grande contexto geral).

Quanto à escrita...

Sabes que a tua escrita (a deste texto, pelo menos) faz-me lembrar um pouco a minha? Há coisas que sabes que não deves colocar nos textos, mas gostas de o fazer (aliás, não consegues evitar fazê-lo)... sabe bem escrever como nos apetece e não ligar a certas regras e imposições - mesmo que o resultado final possa ficar mais pesado ou menos harmonioso.
Não sei se me consegues entender, nem se também pensas assim, mas é uma interpretação que faço.

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