7º Conto BBdE - Texto

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Arsénio Mata
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7º Conto BBdE - Texto

Postby Arsénio Mata » 29 Mar 2010 01:56

A pior ressaca é a do vinho tinto. Acordo e não sei onde estou. Entro em pânico. Por não saber onde estou e porque o chão está a baloiçar. A adrenalina vai diminuindo nas veias à medida que me apercebo que não é um terramoto. Mas o chão e tudo à volta abana e eu não resisto e vomito. Acho que hoje não vou comer grande coisa.

Saio do quarto e apercebo-me que estou num navio, estou enfiado num corredor com aquelas janelinhas redondas e altas e posso ouvir e cheirar o mar. Vomito outra vez e mais intensamente. Isto já não é da ressaca. A questão é que eu odeio o mar.

Pelo corredor passa um homem, provavelmente da minha idade. Pergunto-lhe onde estamos e ele olha-me de lado, como se eu fosse um pedaço de lixo ou menos ainda, e segue caminho. O meu aspecto não é o melhor, mas a sua atitude não teve justificação. Não gosto deste gajo e sei que ele não gosta de mim. Duas raparigas estão numa conversa animada no fim do corredor, uma delas é toda sorrisos, conta à outra a sorte que teve em ganhar o bilhete para este cruzeiro. O desespero cresce dentro de mim como uma maré que enche. Os cruzeiros demoram tempo no mar e é preciso lidar com pessoas. Só há uma coisa que gosto menos do que o mar: pessoas. A insegurança aumenta em mim como um copo que se enche. Tenho que encontrar o bar. Preciso mesmo de uma bebida.
Only in the bloodline is this terror exposed
A knife to the eye of modern day times
Exactly what you've worked for.

A price for the pride
I can feel the distance coming
The holes in my lungs
Won't let me take this anymore.

http://umhomemsimpatico.tumblr.com/

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Samwise
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Re: 7º Conto BBdE

Postby Samwise » 29 Mar 2010 20:06

« - "La Esmeralda" - Diário de Bordo - dia #1 - 29 de Março de 20xx -

Partida da Gare Marítima de Lisboa, Tejo, às 23:36, sem atrasos ou complicações a assinalar. Condições meteorológicas favoráveis, vento a soprar de Noroeste a uma velocidade média de 5 nós, e excelente visibilidade na ponte de comando.

As coordenadas do Funchal foram inseridas na consola central de navegação e a cálculo de chegada ao destino é de 39 horas, com uma taxa de esforço nos motores na ordem dos 45%.

Ficaremos ancorados no porto-destino durante uma noite e um dia, com previsão de partida para Point-à-Pitre, Guadalupe, ao início da noite de dia 31 de dia 1 de Abril. A rota de travessia do Atlântico ainda não está determinada - com as vias #325 ou #362 em perspectiva - e será escolhida em função das condições meteorológicas registadas à saída do Funchal.

O primeiro dia decorreu sem incidentes, com a recepção aos passageiros da parte da manhã e o cocktail de boas-vindas e convívio durante a tarde, organizado no convés principal da proa, junto à piscina.

Ao fim da manhã detectámos uma anomalia técnica no aparelho de raios-X e detecção de metais nas bagagens: o aviso sonoro não estava a funcionar. Embora prontamente reparada, foi impossível determinar a extensão da avaria, bem como a quantidade de unidades de bagagem que terão passado sem a devida fiscalização, durante o período de inactividade.

Dos 232 passageiros inscritos, registaram-se 12 ausências imprevistas. A lista final seguiu para a Capitania do Porto Lisboa e para a sede da empresa.

A tripulação do Navio, que apenas conheço desde há uma semana - a semana de navegação para testes -, parece competente e simpática. Há uma excepção: um dos garçons do bar da piscina é um tipo rude e mal-encarado. Verifiquei que o seu comportamento se alterou substancialmente, para melhor, durante o evento de boas-vindas no convés. Aí revelou-se humilde e prestável perante as constantes solicitações de algumas passageiras mais idosas, visivelmente impressionadas com a sua figura de Hércules emproado. Já indiquei ao sub-alterno para o manter debaixo de olho.

É a primeira viagem desta embarcação desde que saiu do estaleiro, após um período de reparações que ascendeu a três anos. O relatório de verificações de pontos críticos indica que nesta primeira viagem não devemos submeter as máquinas a um esforço superior a 60%. Indica também que os mecanismos de lançamento de botes-salva-vidas, tendo-lhes sido substituídas as bombas pressurizados, não foram ainda devidamente testados.»
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Re: 7º Conto BBdE

Postby zé.chove » 30 Mar 2010 12:19

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Pag1 – Identificação: Tenente VB; Contacto:


Pag2 – Deixei todos os portos do mundo vazios e não me lembro em qual despejei o sentimento. Os cães escanzelados que se coçam demasiado nas docas ainda poisam um olhar vazio sobre o navio que parte mas nem um latir do coração.

Pag3 – Ainda tremo.
Fumava lá fora. A banda tocando frenética. As pessoas cruzam agitadas e satisfeitas. Irrita-me a dispersão. Os risos fúteis das velhas libidinosas com os seus cus gordos alapadas ao balcão.
Perto da meia-noite. O mar e o céu são um só. Serenidade. A lua exala uma luz azeitona realçando as arestas das coisas. Enquanto os homens acreditarem no infinito, o mar será tido como insondável... Debruçado sobre a amurada fumo. As gargalhadas no salão estão cada vez mais longínquas. Envolto na noite.

Pag4 – Liberta-se a imaginação. Só tenho medo do sobrenatural. Um arrepio. Um sopro frio varre o convés e insinua-se-me na nuca. Os olhos não acreditam se um espectro de nuvens negras se agiganta vindo não se sabe de onde e troça da lua. Uma primeira vaga varre o oceano mobilizando as hostes. As vagas espumam de raiva. Catatónico. Treme o navio. Estala um trovão. Oiço de novo os gritos no salão. Corro. Quase atropelo um bêbado que resmunga. Afasto um chinês. Corredores brancos.Uma mulher de olhar desesperado.Corredores. Claustrofobia. Tranco-me no quarto e tremo. O medo é sempre sobrenatural. Alguém grita lá fora...

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Sofiushka
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Re: 7º Conto BBdE

Postby Sofiushka » 30 Mar 2010 21:42

No camarote 217, onde alguém já tinha empilhado muito direitas num canto duas mochilas bem recheadas, entrou o novo ocupante. Alto, magro mas atlético, com espesso cabelo escuro e aquele tipo de olhos muito curiosos que, se numa criança são encantadores, num adulto tornam-se desconcertantes.
Paul Irwin tirou o chapéu de couro, olhou em redor e soltou um longo assobio apreciativo.

- Crikey, isto é melhor do que estava à espera!

Sentado na beira da cama, roeu lentamente o pequeno quadrado de chocolate que tirara de cima da almofada enquanto olhava para as mochilas sem vontade de as arrumar no armário. Decidiu que ficaria para mais tarde. Recostou-se, e com o cheiro do chocolate misturado com o cheiro salgado do mar e o cheiro industrial do porto, sentiu-se embalado e adormeceu.

Sonhou com imagens desconexas, fragmentos de memórias e caras antigas, uma ou outra mais recente, salteadas com eventos improváveis e diálogos que nunca tinham sido ditos. Sentiu-se perseguido por um urso, estrangulado por uma boa, a sufocar com o calor tropical, o cabelo húmido e os mosquitos e as sanguessugas e as aranhas e as formigas de fogo que o cobriam até ao pescoço e picavam picavam picavam e acordou. Suado e ofegante, abriu os olhos e fitou de volta a personagem que o observava no seu sono. Já estavam a navegar, e e este devia ser o seu companheiro de cabine.

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Re: 7º Conto BBdE

Postby croquete » 31 Mar 2010 09:50

“A confiança” Dizia o avô. “A confiança é o primeiro passo. É fácil tirar quando eles estão atentos mas é muito mais fácil quando estão distraídos. Para isso, lembrem-se, é preciso confiança.”
A cartilha continuava por várias horas, pela noite dentro, distribuída pelos netos de forma democrática, acompanhada de chapadas e, um ou outro pontapé para os menos acordados, sem lágrimas, órfãos de qualquer tipo de amor.
O buraco do Leste onde vivíamos era feito de humidade ascendente, janelas de vento e portas esburacadas, o chão de cimento, sujo de sopa aguada de sabor a alcatrão e a alface podre. Os mais fracos morriam. Até que um dia o velho foi o mais fraco. Ninguém chorou. Também não era nosso avô.

Aqui no “Esmeralda”, Irina, ontem miúda da rua, hoje mulher feita, um mistério, até para mim que a conheço desde pequena. Irina, loira quase até à raiz dos cabelos e sorriso quase até aos olhos. Irina que se aproxima desta matrona de óculos escuros na testa e seios generosos, que bebe cocktails de bebidas sem álcool como um camelo de Berbere junto a um poço do Sahara. Irina a mágica de circo que lhe tira uma pulseira de ouro, ali semeada, enquanto a outra devora o último livro da Sveva Casaty.
Irina que veio comigo até Portugal há vários anos onde comprámos documentos com nomes catitas e embarcámos em cruzeiros, personagens secundárias nas aventuras dos outros.

O Atlântico lá fora passa do azul profundo do cartaz da agência de viagens para um cinzento de enjoos, espuma amarelada e lixo flutuante. Entretanto a idosa, depois da leitura apercebe-se que lhe falta a pulseira. O navio vira-se um pouco ao sabor de uma onda maior. É a minha vez de dançar neste baile…

A menina deseja mais alguma coisa? Parece preocupada. O que se passa?
Perdeu a pulseira? Não pode ser. Esteve dentro da piscina? Vou pedir ao nadador salvador que a procure. Isto não pode ser. Nem que tenha de revirar o barco inteiro à procura dela. Vamos encontra-la. Tenho a certeza.
Mas. Olhe. Olhe ali menina. Será aquilo? Ali, ali, entre aquelas duas tábuas de Deck? É a sua pulseira?
Oh. Ainda bem. É mesmo menina?
Mas. Não tem de quê menina. Velha tonta? Não. Não. Acredite menina, acredite, a beleza interior é que conta, eu vejo uma jovem. A pulseira? Valor sentimental. Claro, claro. Volte, volte mais logo menina, ofereço-lhe uma bebida.
Sorri para a velha, Irina a um canto sorria, a mulher idosa também, piscando o olho enquanto me passa um bilhete indicando um Camarote da primeira classe.
Até logo menina.

“Não passa de um jogo, nem toda a gente é parva. Mas a confiança”. Repetia com o olhar de veias de sangue o falecido professor Korda. “A confiança é o primeiro passo. “

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Re: 7º Conto BBdE

Postby Sharky » 31 Mar 2010 22:31

Está uma noite espectacular, não está? Ainda bem que concordas comigo...sabes, estou contente por teres aceite o meu convite para esta viagem, já tinha saudades de partilhar o mar com alguém, alguém especial como tu. Não precisas agradecer, eu que agradeço. Já não fazia amor há algum tempo, por isso estava um pouco nervoso. Nem te apercebeste? Uau, obrigado. Tu também não? Que coincidência, não estava nada à espera.
Diz-me, que achas aqui do meu " velhinho " veleiro? Sim, não é mau, tem 20 pés, não é propriamente um veleiro familiar. Sabes, desde que me alistei na Marinha como voluntário, que o mar passou a ser a minha casa. Sim, fui marinheiro, como pensas que obtive este corpo? Hahaha. Bem que gostas. Voltando atrás, depois comecei a trabalhar numa empresa de Tráfego e Estiva, como operador de máquinas e fui juntando dinheiro. Não, foi através de um conhecimento na Marinha, trabalhei muitas horas para adquirir este veleiro, o " Salvador II ", pena já ter metido os papeis para o abate, já está velhinho. Está sim. Um dia comprarei outro bem melhor, e talvez te convida novamente. Pois, quem sabe...
Vou lá fora fumar um cigarro e já volto. Beijo. Não demoro, fica descansada.

Volto? Não me parece, está na hora de um churrasco. Ora deixa cá ver, porta trancada...balsa amarrada...jerrican com combustível...espalhar o dito...e já está.
Saltar para a balsa...acender o cigarro...haaaaa, que bom, soltar a amarra e...bingo, mesmo em cheio...arde, arde...


Que mistura de som, uma mulher a gritar em agonia, o som da madeira a arder, que espectáculo. Uma visão, talvez, 6/10 na minha escala, hahahahahaha.
Mesmo a tempo, o cruzeiro daqui a umas horas deve receber o sinal sos da balsa, agora é só relaxar e aguardar.

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Re: 7º Conto BBdE

Postby Leo Turilli » 01 Apr 2010 13:06

- Juro que vou escrever para a agência! Isto é inadmissível!
Alguns passageiros no corredor olham para mim, boquiabertos, enquanto outros tentam fazer passar as malas pelo curto corredor. Umas raparigas, que abriram a porta para ver quem gritara daquela maneira, lançam alguns risinhos, que opto por ignorar.
- Onde já se viu? Pago uma fortuna e este cruzeiro não é nada do que pedi!
Arrombo, literalmente, a porta do quarto. O capitão, que não tem nada mau aspecto, vai ficar chateado comigo, mas não me interessa. Estou furioso e atiro a bagagem para cima da cama apertada, junto a uma janela grande com vista para o mar.
Quando entrei neste cruzeiro vi muitos homens com bom aspecto. Nunca me passou pela cabeça que me tivesse enganado! Ou que a agência me tivesse dado as direcções erradas!
Olho com atenção para o meu bilhete- sim, estou no cruzeiro certo, o esmeralda ou lá como se chama. Rasgo o bilhete, ainda mais furioso, e deixo-me abater na cama, apertado entre a mala e a parede.

Umas horas depois já me sinto mais calmo. Opto por aproveitar a viagem, talvez encontre companhia...
Sim, aquele empregado no bar não tinha mau aspecto. Vou tomar um copo!

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Re: 7º Conto BBdE

Postby Samwise » 04 Apr 2010 00:18

O impacto do beijo, húmido e doce, foi como se ela tivesse sido empurrada gentilmente na direcção da cama. As pernas cederam e o seu corpo abateu-se sobre os lençóis de cetim. Um resfolegar de tecido que antecipava o que estava prestes a acontecer entre os seus corpos. Ao primeiro seguiram-se outros beijos pelo seu corpo. Os lábios dele eram vorazes e céleres colibris que faziam da pele dela um extenso jardim florido. Ela devolveu-lhe os beijos. Esquecera-se do decoro e um desejo que desconhecia invadiu-lhe a cabeça e inebriou-lhe os sentidos. Atrevida, percorreu os braços bronzeados e musculados dele com as suas mãos finas. Os seus dedos eram teclas de piano, claras e delicadas, num teclado de ébano feito de abdominais retesados. Sentiu o alazão dele a empinar-se em frente à porta do seu palácio. A masculinidade que dele emanava extravasou-lhe os sentidos e suspirou:

- Hmmm, Arturo…
- Sou teu minha querida e tu serás minha!

THUD!

Julieta fechou o livro e também os olhos. Sentiu uma gota de suor a percorrer-lhe a testa, depois o contorno dos olhos e, finalmente, perdeu-a para lá do queixo. O cheiro a maresia, intenso como nunca, quase a incomodava. Os sons de um barco em movimento, constantes e instintivamente esquecidos, eram partituras inusitadas e exóticas nos seus tímpanos. Levantou-se e admirou-se no espelho do enorme camarote que alugara no cruzeiro. O suor mesclava-se com a maquilhagem e decidiu refazer tudo de novo. O algodão desmaquilhante parecia desenhar-lhe rugas no rosto. As pestanas magras e esparsas eram fagulhas antigas de um fogo que os olhos baços já não transmitiam. O calor que sentia arrefeceu um pouco. A luxúria que lhe cavalgava a emoção do encontro da tarde foi refreada. A sua idade, avançada e experiente, surgiu-lhe despida e verdadeira na imagem reflectida ao espelho. Os seus dias já lá iam, sem dúvida, mas ainda era capaz de viver intensamente. De sentir o que sentia. De ser inundada por vida tal como a personagem do livro que acabara de fechar. E aqueles cruzeiros eram o objecto ideal para o efeito. Os homens da sua idade compravam carros desportivos e velozes para rejuvenescerem. Ela preferia navios gigantes e lentos repletos de jovens bonitos e prestáveis. Já vira uns quantos neste cruzeiro mas o que a ajudara esta tarde levava o prémio. Dera-lhe um cartão mas não sabia o nome dele. Era estrangeiro e o seu toque áspero e a voz rouca eram suficientes para lhe subirem a tensão e causar calores. Não lhe perguntara o nome, mas não precisava. Seria Arturo daqui para a frente e não via a hora de lhe domar o garanhão.
Apesar da brisa fresca que se levantava, pegou no seu leque antes de sair do camarote para ir ao banquete de boas-vindas no salão principal. Afinal de contas, tinha de se prevenir de eventuais afrontamentos.

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nota do editor: esta participação é do urukai.
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Re: 7º Conto BBdE

Postby Aignes » 07 Apr 2010 22:55

O céu à noite. De todas estas viagens intermináveis que faço sem qualquer prazer pessoal, o infinito do firmamento quando visto de um navio em alto mar é a única coisa que me conforta. Não gosto particularmente da ideia de estar num espaço flutuante sem saída possível caso alguma coisa aconteça. Tenho dificuldade em adormecer por saber que estou num navio, não importa quão majestoso este seja. E este nem sequer é dos melhores onde já estivemos. E, por fim, odeio o movimento constante, e a água imensa a toda a hora, para onde quer que olhe… só água. Sinto-me claustrofóbico no meio disto. Suspiro. Continua a ser um bom trabalho. E o céu é gigante sobre a minha cabeça, espesso e escuro, corre como tinta até pingar sobre o mar, onde solidifica num horizonte perfeito.

Ainda há coisas que tenho de fazer, verificar as últimas malas, confirmar os preparativos para a manhã, seleccionar alguns documentos que sei que ele irá precisar quando acordar. Mas quero estes momentos para mim, sozinho com a noite e o meu cérebro só para mim por uns momentos. Quase acendo um cigarro, quando reparo numa mulher já não muito nova que passeia pelo convés de forma artificialmente bamboleante. Fixa os seus olhos nos meus e de repente tenho a certeza que quero sair dali rapidamente. Guardo o cigarro que já ia nos meus lábios e volto para dentro. É já algo tarde, e eu devia realmente voltar ao camarote, mas passo em frente ao salão e o bar chama-me. Da minha experiência sei que nos cruzeiros a estas horas a zona do bar reserva sempre algumas pessoas interessantes. Peço um whisky sem gelo e sento-me. Hoje parece um dia pouco interessante. Não há muita gente: duas pessoas além de mim sentadas ao balcão. Um homem aí de cinquenta anos, completamente bêbado no canto do balcão; um homem mais novo bebe furiosamente uma bebida colorida qualquer. Algumas pessoas da tripulação atarefam-se com as últimas arrumações do salão. Houve um grande banquete de boas-vindas, há umas horas, e, apesar dele ter ido, eu fiquei a arrumar malas e afins. Sinceramente um jantar formal com turistas não era a minha ideia de diversão. Bebo o resto da minha bebida imerso nos meus pensamentos, esperando não ser interrompido. Os olhos predatórios da mulher do convés surgem-me na mente. Sinto um arrepio e tomo um grande golo do meu whisky barato.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Re: 7º Conto BBdE

Postby toiota » 08 Apr 2010 12:28

Florbela teve uma vida díficil e espera agora deixa-la para trás.
Assim que fugiu do orfanato viu anúncio a dizer que necessitavam de grumetes para um navio de cruzeiro, e decidiu tentar a sua sorte.
Mas parece que o seu plano saiu gorado, pois como nunca tinha andado de barco, sofreu do mal do mar, ou seja, enjoou, e para mal dos seus pecados, tem de dormir numa espécie de camarata com uma série de outros marinheiros da tripulação e tudo homens, e isso dificulta-lhe um pouco o ter de mudar de roupa e tratar da sua higiene.
Houve um membro da tripulação, nomeadamente o empregado do bar da piscina que tentou um estranha abordagem, para ver se tinha interesse em ver se juntamente com ele podíamos roubar os passageiros, estranho muito estranho.
Bem será que isto do mal do mar irá levar muito tempo a passar dizem que só se fica curado quando se sai do navio e isso eu não posso fazer.
Que irá ser de mim.

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Re: 7º Conto BBdE

Postby Anibunny » 09 Apr 2010 14:39

Já a minha mãe dizia “Maria Assunção para arranjar homem é preciso pores-te fina”, penso que neste cruzeiro o melhor que me pode suceder é arranjar tudo menos um homem. Um homem com farda é sempre bom de se ver, mas que dizer das mulheres da minha idade, jovens, atraentes ainda atentas à moda, pelo menos até o corpo permitir. É melhor desligar o telemóvel não vá alguém estragar-me a noite... Engraçado que não senti enjoos nenhuns até agora... Pois, a minha mãe disse que eu ia enjoar, para não entrar neste cruzeiro… ela vê telenovelas a mais. Agora vou ser livre, posso caçar mulheres ou homens… ninguém me conhece… O dinheiro é tudo nesta vida, só os pobres é que se refugiam nos sentimentos para disfarçar a falta de dinheiro. Para já ninguém poderá saber que eu ganhei o Euromilhões, depois se verá. Quando começar a gastar algum dinheiro talvez saberão quem eu sou, sou rica, bonita e também inteligente. Se não arranjar alguém neste cruzeiro para me divertir, tenho sempre o outro lado. O outro lado costuma ser sempre melhor que este. Tudo é melhor que… Ai credo! Ui alguém berrou ou estou a ficar maluca? Pareceu-me um homem. Se tiver em maus lençóis, tem os meus para se aquecer.

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Re: 7º Conto BBdE

Postby Pedro Farinha » 10 Apr 2010 23:01

Que seca!

Quando a minha mãe me disse que a Avó ia fazer um cruzeiro e me pagava o bilhete para ir com ela fiquei doido de alegria. Conhecer outros mares, navegar... imaginei paraus de velas desfraldadas ao vento como nos livros do Sandokan.

Ok, pronto. Eu sei que isso é imaginação e não devia imaginar essas coisas. Claro que um cruzeiro não ia ser num barco de piratas, mas pensei noutras coisas também. Em pessoal fixe. Em andar a passear no barco sem a minha mãe para me controlar e a fazer amigos e talvez mesmo uma amiga.

Ontem foi a festa para nos conhecermos uns aos outros. Bem que podiam ter feito um jogo quebra-gelo como fazem no campo de férias, mas era só cotas. Não vi mais ninguém da minha idade. A minha avó, toda contente, porque o Comandante Picado lhe deu um beijo na mão. A boca dele voou em Picado até aos refegos dos pulsos gordos da avó, e ela só risinhos.

Para a minha avó não é preciso mais nada. Isto foi ontem e já me contou essa história três vezes, como se eu não estivesse lá.

Que seca. O que é que eu vou fazer este tempo todo enfiado neste barco sem ninguém com quem falar. Aqui não tenho computador nem telemóvel. Tudo bem que o barco tem piscina mas acho que vou apanhar a seca da minha vida.

A única coisa com piada é observar os outros. Há cá cada cromo! Sim, na falta de melhor vou espia-los a todos. Bolas, duzentos e vinte passageiros e são só cotas.

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Re: 7º Conto BBdE

Postby Ripley » 11 Apr 2010 06:16

Doem-me os pés!
Detesto os jantares de gala da primeira noite... temos todos que estar impecavelmente vestidos e com um sorriso agrafado na cara enquanto os passageiros olham uns para os outros com ar desconfiado, curioso ou predador. Até nem costumo importar-me de andar de saltos altos durante umas horas, mas esta bolha aqui... raios, onde está o alfinete? Ah, caíste! Pronto, agora o álcool. Bolas!!!!! Deixei-o no armário! Ai... Ai... Aiiii, raio da bolha! Estúpida, estúpida, porque é que quis causar boa impressão no novo comandante e calcei os sapatos novos?

Sshhh... pronto, já a furei. Agora o penso? Caiu também. Irra, nada corre bem esta noite!

Este cruzeiro está cheio de mulheres, velhos e tipos de aspecto esquisito. O comandante fez-me sinal para ir dançar com Lord Iverson e o pobre velhote esforçou-se por não me pisar mas não conseguiu. [suspiro] Perdoei-lhe a pisadela mas não o tom com que ele falava comigo, como se eu fosse o tal James, o assistente dele! Estou curiosa de saber quem é esse, já que o velho não parou de falar do James, e de como não conseguia passar sem o James, que era uma pérola entre os criados e mais não sei o quê. E ainda por cima detesto essa palavra, criados. O coitado deve ser mas é um escravo. Aproveitei a indirecta do inglês sobre a drink que lhe apetecia (aposto que é a deixa que dá ao assistente para a ir buscar!) e escapuli-me. Com a desculpa das dores nos pés e de ter que vir ao camarote, pedi ao novo empregado da piscina para levar a bebida ao velho.
É um tipo estranho, o Korda. Parece que olha sempre de lado para as pessoas. Mas concordou logo e isso foi um alívio.

Deixa cá ver então. Bloco de notas. Caneta. Caneta? Querem ver que também caiu? Oh, raios me partam. Onde é que foi parar? Aaaaaaahhh!!!!!


PORCARIA DOS SAPATOS!!!!! Pus-me de gatas para procurar a caneta e o joelho assentou em cima do salto! Boa, uma ferida! Primeiro dia e já estou pronta para dar entrada na enfermaria! Ooooooh raios, raios, raios! Sujei o vestido com sangue! Será que o chinesito da lavandaria consegue tirar a mancha? Vou usar um lenço para limpar o joelho.
Acabou-se, vou mas é vestir o pijama. E sento-me no chão, já que parece que hoje tudo me cai das mãos. O alfinete, a caneta... e na recepção dos convidados ao salão deixei cair a folha de distribuição de lugares. Valeu-me o rapazito borbulhento que ia a entrar com um ar perfeitamente desconsolado. Coitado, deve ter vindo contra vontade. Tenho que ver se arranjo alguma coisa que o entretenha, já que o resto dos passageiros é capaz de preferir entretenimento mais sossegado.

Ora bem. Lista dos passageiros. Miguel Pinto... será o velhote da bengala? Brr, espero que não, esse quase me comia com os olhos. Ou o outro com aqueles tiques todos que se vê logo que é panilas? Mas porque é que não puseram as idades dos passageiros nesta bodega como das outras vezes? A Teresa lá do escritório deve estar de férias, é o que é. Julieta... ah, deve ser a velhota que piscava o olho ao Korda cada vez que o via! Maria da Assunção Telles Rap... pronto, é a nova-rica! Mas que rica colecção! O que vou eu inventar para esta gente?

O melhor é eu dar um salto à lavandaria agora. Ainda bem que o pijama parece um fato de treino... e espero não encontrar o comandante! Era capaz de ficar a pensar no que raio andei eu a fazer para passarinhar pelo convés com um vestido e um lenço sujos de sangue na mão a esta hora.
Na volta passo pelo bar. Preciso de uma bebida!
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: 7º Conto BBdE

Postby Bubbles » 11 Apr 2010 21:33

A cascata de caracóis ruivos era normalmente a primeira coisa que as pessoas notam quando olhavam para Marlene. Acabava muitas vezes por ser a única de que se lembravam. Não que ela fosse vulgar ou aborrecida, pelo contrario. O problema era a sua extrema timidez, que lhe complicava os primeiros contactos.

Quando ganhou o bilhete para o cruzeiro, num dos milhentos passatempos a que costumava concorrer, decidiu que aqui ia ser diferente. Era a sua oportunidade para se reinventar e tornar mais extrovertida. Nos dias anteriores a viagem tinha ido comprar bikinis reveladores, vestidos mais sensuais, saltos altos e maquilhagem. Esta convencida que ia conseguir seguir o seu plano a risca, ate entrar no salão para a festa da primeira noite.

De vestido bem curto e decotado, saltos de agulha de 10 centímetros e maquilhagem impecável, entrou no salão e imediatamente sentiu vários pares de olhos sobre ela. A maioria de homens que podiam muito bem ser da idade do seu pai! Pânico! Corou ate a raiz dos cabelos e tentou encontrar uma mesa vaga onde se pudesse sentar longe de olhares inquisidores. Mas o facto de não estar habituada aos saltos, nem aos balanços do barco, fê-la tropeçar a meio caminho e perder o equilíbrio. Valeu-lhe um senhor com ar respeitável que a apanhou antes de cair.

- Muito… muito obrigado. – Balbuciou Marlene, ainda meio abalada.

- De nada! Sou Lars, e você? – Disse com um sorriso divertido.

- Marlene. – E sentiu-se corar outra vez. Quem estava em frente a ela era um pedaço de mau caminho. Ao menos que o decote lhe servisse para alguma coisa nesta altura.
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Re: 7º Conto BBdE

Postby Bugman » 13 Apr 2010 08:00

Acordo com um grito e regresso a Istambul. Não, isso já lá vai. Pego no relógio. Duas da manhã dia trinta vinte e oito de Março. Faz agora dois meses. Istambul já ficou para trás, mais dois meses de repouso merecido e volto para Bergen e para os cruzeiros dos fiordes. Espero que o contacto esteja no Funchal para entregar as malas. Desde que os árabes se lembraram de usar aviões como armas é liminarmente impossível despachar este tipo de encomendas por via aérea. Se ao menos o contacto de Istambul se tivesse safo… e eis que me lembro porque estou neste barco. Preciso desesperadamente de desaparecer no meio da multidão, mas na multidão há sempre cadelas com o cio. Como esta que está ao meu lado. Agora dorme, é certo, mas há duas horas parecia uma leoa esfomeada. Vai ser difícil passar esta encomenda, se ao menos o cruzeiro não fosse um retiro de reformados…
“Karl, não dormes?” diz ela enquanto se vira para o outro lado. Demoro alguns segundos a perceber que é comigo que fala. Com a pressa do bilhete perdido não tive tempo de preparar a personagem. Está na altura de preparar a vinda das malas…

O sol bate-me na cara mas não está calor. Já estou em Lisboa há demasiado tempo e começo a necessitar de casacos, à semelhança dos locais. Mal posso esperar por chegar à cabine. O meu contacto de Lisboa passa por mim e faz-me sinal que as malas estão já no quarto. Óptimo. Posso ir entrando. Faço-lhe um sinal de despedida e ele vira costas e segue à sua vida. Pode ser que volte a parar por Lisboa.

Junto à piscina para o cocktail de boas vindas começo a ver as caras. Estou sentado ao balcão, na sombra, para não dar nas vistas, mas não pude evitar de reparar que alguns dos cabelos mais compridos e menos claros sempre que podiam iam olhando. Se não soubesse o que queriam ficava mais preocupado!
Este cruzeiro de facto é um manancial de personagens que só visto. Para começar aquela florzinha de camisa havaiana verde-alface, que está a comer com os olhos o barman.
(Lamento informar-te mas se sei ler bem multidões, por aí não te safas.)
Depois está ali a empinada. Aquela só ainda não lhe descobri a história, mas deve ter encontrado o pote de ouro no fim do arco-íris. Pena que não tivesse tenha alguma humildade. Olha está a falar com outra velhota. Aquilo é um miúdo? Está desgraçado! Não havia caça para ele nas docas e não parece que venha a aparecer. A menos que queira aprender umas coisas com quem já percebe da safra. Dizem que hoje em dia eles gostam das mais velhas…
(Hoje em dia! E tu como é que conheceste a vida no mar?)
Olho melhor para ele… Sim, à noite, com um copito a mais elas nem percebem bem o que têm em mãos. Talvez ainda fale com ele se o apanhar longe da avó.
Um tipo estrangeiro (três semanas em Lisboa e já penso como um deles) oferece-me uma cerveja. Declino. Ainda é cedo para mudar do Ice Tea.
Ei! Genial. A sério, adoro ver um profissional a trabalhar com categoria. Então a loira está feita com o empregado de mesa carrancudo. Tenho de me pôr a pau com estes dois.

O jantar de gala. Logo à entrada quase sou atropelado por uma ruiva. Atrapalhadíssima agradece-me por a ter segurado, apesar de não ter sido intencional. A verdade é que muita gente se conhece por acidente e connosco não foi diferente. Acabei por arranjar, naquele tropeção, companhia para o jantar. Os sapatos não eram dela, isso não era preciso ser-se um génio para perceber, e desconfio que o vestido curtinho também não. Nenhuma mulher disposta a usar um vestido daqueles corava como ela por cair em cima de mim. A conversa acaba por ser agradável. Chamava-se Marlene e acabou agora a faculdade. Na conversa rápida do “donde venho, para onde vou” relato-lhe a minha viagem de Istambul a Barcelona. Não pergunta porquê Istambul e eu agradeço, teria sido complicado remendar esta imprudência.
“Então e que fazes?” pergunta ela a olhar-me retraída. Rio-me para dentro. Respondo que trabalho como freelancer em comunicação.
(O que não deixa de ser verdade.)
Acabado o jantar convido-a para uma bebida no bar, mas ela queixa-se de cansaço e proponho acompanhá-la à cabine dela. À medida que vamos caminhando ela vai-se ora chegando, ora imediatamente afastando, em movimentos tão suaves que acho que nem ela se apercebe que os estava a fazer. Quando ela aponta uma cabine três portas antes da minha, ‘lembro-me’ que me esqueci das chaves na mesa do salão de jantar. Convido-a para tomar o pequeno-almoço e quando ela não responde imediatamente eu ataco com um “Então está combinado. Como me disse um amigo português: quem cala consente.” Ela cora e eu vou para o bar.

O bar tem o aspecto de um bar na primeira noite de um cruzeiro. Vazio. Três ou quatro almas penadas. Lá está o húngaro. Pelos visto no turno da noite é o responsável pelo bar. Dirijo-me a ele e peço-lhe uma cerveja. Ele resmunga, baixinho e em húngaro, qualquer coisa sobre onde eu podia enfiar a cerveja… Do outro lado do balcão está a florzinha a beber um Cosmo. Pelo ar dos copos vazios, podia fazer uma pequena cidade de vidro. Numa das mesas está um aperaltadinho, talvez inglês, à conversa com uma senhora já não muito nova. À conversa é uma força de expressão, parecia que ela conversava e ele educadamente ia acedendo a ouvi-la, mas não sem uma certa expressão de enfado. Olhei pelas janelas as últimas luzes costeiras e uma voz de trovão pediu ao barman “Mais uma de Alvarinho.” Olhei e diante de mim estava a figura embrutecida e claramente alcoolizada de Ernesto Malvindo, conhecido no mundo do tráfico de armas como “Fada-madrinha”. Apesar de ter negociado com ele várias vezes, não parecia reconhecer-me. Naquele estupor bêbado em que dizemos o que pensamos e não pensamos o que dizemos, olhava para mim como se eu não estivesse lá. De repente, um grito…
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Normalcy was a majority concept, the standard of many and not the standard of just one man. Robert Neville
O homem que obedece a Deus, não precisa de outra autoridade. Petr Chelčický
Ao mesmo tempo que ali estava tudo igual, não estava você lá, não está teu passado, não está nada. Quer dizer: só você sabe que esteve ali. A parede, os prédios, não guardam a gente. Nós só nos guardamos a nós mesmos. Só valemos nós connosco. Fora daí é literatura, é poesia, é arte. Ferreira Gullar
Yes, I am a woman of the law. And there are lots of laws. But if they don't offer us justice, then they aren't laws! They are just lines drawn in the sand by men who would stand on your back for power and glory. Sartana
"No, Señoría, no es lo mismo estar dormido que estar durmiendo, porque no es lo mismo estar jodido que estar jodiendo". Camilo Jose Cela


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