7º Conto BBdE - Texto

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João Arctico
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Re: 7º Conto BBdE

Postby João Arctico » 17 Apr 2010 23:57

“Socorro! SOCORRO! Homem no mar. Homem no mar. Ali… ALI! Está ali numa balsa. Avisem o comandante!”

Ai i á. Estes tulistas são mesmo blincalhões. Não há cluzeilo que faça que não apaleça um englaçadinhoBlincalhões e polcalhões… Tanta loupa suja, se não fosse o callinho como podelia callegal isto tudo?...
Ola deixa cá entlal na lavandalia… Pai, ajuda aqui, pol favol
Lou Tao, Lou Tao. Ai i á. Este tempo todo aqui fechado, no meio desta loupa toda suja e o pai nada dizel? Ainda pleocupado com a minha ilmã? Lá pol ela tel entlado naquele veleilo velho na doca de Locha Conde D’Óbidos, não quel dizel nada. Ela apenas tel mudado de sexo, não mudou o céleblo nem pintou o cabelo de loulo, ai i á. A minha ilmã, quel dizel, o meu ilmão… ai i á… já nem sei bem o que ele ou ela é. Já velho sábio dizia: “Quem nascel pala macieila não devia dal lalanjas”… ou como dizem os eulopeus: “cada macaco no seu galho”… Ih! Ih! Ih! Mas estava eu a dizel que ela é bem espeltinha. Se calhal ele ela o novo namolado dela…. Ui!... Lou Tao, não batel nesse blaço… um malcliado tel me afastado à bluta e tel me magoado muito… ele sel flanzino mas bem lijo. Ah! Pai sabel quem está também embalcado? Aquele mafioso que nos allanjou os passapoltes falsos… tenho que fical de olho nele.
Hei! Que papel sel este no meio da loupa?... Ola deixa cá lel: “Quando Pélola do Atlântico fical nas costas, Madame X develá sel Pélola no Atlântico”. Culioso… o que quelelá dizel… vou entlegal ao comandante. Já cá volto.
Hummmm… Um lenço caído… Sangue?!... Mau, mau Malia. Ai i á. Vai dal coisinha má ao comandante quando soubel disto tudo… Olha! O balco está a guinal… vamos voltal atlás?!... Selá que estava mesmo um homem numa balsa?!...
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
"Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois de algum viés da lembrança" Chico Buarque in Estorvo

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azert
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Re: 7º Conto BBdE

Postby azert » 18 Apr 2010 04:00

Exmo. Sr. Comandante de La Esmeralda,

Como já deve ser do seu conhecimento, o meu pai, que já só dispõe de um pulmão, teve uma crise fortíssima, sendo necessário o seu internamento. Neste momento, a saúde do meu pai estabilizou e ele faz questão de apanhar o barco na primeira escala que façam e que, segundo entendi, será no Funchal, no dia 31.
Dado que o estado de saúde do meu pai, apesar de estabilizado, é bastante frágil, terá de ser acompanhado, pelo que peço que providenciem acomodações para a minha irmã. Naturalmente, serão recompensados pelas alterações de última hora.

Respeitosamente,
Mário Ribeiro
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Arsénio Mata
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Re: 7º Conto BBdE

Postby Arsénio Mata » 19 Apr 2010 03:13

Estou sentado no bar e já vou no quarto ou quinto whisky. Jack Daniel's. Só bebo Jack Daniel's. Evidentemente faltei ao jantar de gala. Preferi vir para aqui, afogar as minhas memórias em álcool. Lembro-me de uma música que reza: "when the bottoms of bottles no longer ease the pain" e rio-me, ironicamente. Se atingires os fundos suficientes acabas por chegar lá. O silêncio de um salão cheio de pessoas voa suavemente pelo ar. Os seus risos vazios, as suas conversas ocas transportam-me para sítios onde não quero estar. Peço outro whisky. Jack Daniel's. Este rapaz que me está a atender é verdadeiramente simpático. Aquele tipo de simpatia que só pode vir acompanhada de interesse. Ele julga que me engana e eu nem me importo muito. Misery Loves Company. Peço outro whiskhy. Jack Daniel's. Estou francamente bêbado. O desfile plástico no grande salão já acabou. Pouco a pouco começam a chegar pessoas ao bar. Altura de bater em retirada. Estou prestes a pedir uma garrafa de Jack para levar comigo para o quarto quando vejo uma cara familiar. Fico na dúvida durante breves segundos se não será uma alucinação provocada pelo álcool, mas cedo essa dúvida se dissipa... É a filha de Natália, Irina. A que eu entreguei ao velho Korda, quando ela era ainda uma criança. Na altura em que ainda estava no negócio. Nunca me vou esquecer daquele olhos, cobertos de sangue, medrosos, olhando de mim para o corpo inerte da mãe, e voltando a olhar para mim. Isto é demasiado surreal. Peço outro whisky. Jack Daniel´s. O rapaz diz-me que já não há Jack, mas para beber outro. 4 Roses diz ele. Digo que não, obrigado. Ele insiste, diz que é um bourbon muito parecido, diz para confiar nele. Rio-me e respondo-lhe: "A confiança, a confiança é o primeiro passo meu rapaz. Dá-me um Alvarinho". Os seus olhos transformam-se em gelo, mas aceita as minhas instruções e dá-me o copo. Bebo num só gole e peço-lhe outro. A rapariga mete a mão ao bolso de alguém e rouba-lhe a carteira. Mais um copo. Ensinou-lhe bem o Korda. Começo a perder noção de algumas coisas. "Mais uma de Alvarinho". Um gajo olha para mim como se me conhecesse. Bebo o copo e quase me engasgo com o grito que vem lá de fora. Todos correm para lá e eu acompanho-os, meio a correr, meio a cambalear.

Encontraram alguém no mar. Os esforços para o resgatar foram muitos mas lá conseguiram. O Comandante andava lá de um lado para o outro, dava ordens, vociferando, e a sua atitude faz-me pensar que há ali alguma coisa que não bate certo. O seu ar galanteador não condiz nada com a forma como agiu esta noite. Parecia um ditador em potência.
O naufrago agradece a todos, muito obrigado, muito obrigado são as suas únicas palavras. Mas esta voz... Levanta a cara e olha para mim. A bebedeira desaparece completamente. Este gajo não. Estamos todos fodidos.
Only in the bloodline is this terror exposed
A knife to the eye of modern day times
Exactly what you've worked for.

A price for the pride
I can feel the distance coming
The holes in my lungs
Won't let me take this anymore.

http://umhomemsimpatico.tumblr.com/

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby Samwise » 20 Apr 2010 15:38

Observem, camaradas, o comandante do navio com atenção.

Um náufrago esfarrapado, com uma barba de cinco dias e sintomas evidentes de desidratação, acaba de ser içado a bordo e descansa deitado no convés, de olhos fechados e barriga para cima, a cabeça apoiada no colo do chinês da lavandaria – este que agora lhe passa as mão pelos cabelos, como que a reconfortá-lo, dizendo-lhe que o pesadelo telminou.

Vindos do salão-restaurante, chegando ao convés em vagas sucessivas que parecem não ter fim, os passageiros do navio formam uma roda em torno do acontecimento. Atropelam-se para ver o que se passa. As informações e as manifestações de perplexidade passam de boca em boca, do centro para a periferia, as cabeças a virarem-se para trás numa coreografia de grupo que parece ensaiada tal é o acerto no sincronismo, - gestos que se repetem a cada suspiro, a cada lamber de lábios gretados do moribundo. Lá em baixo, amarrada à escada extensível, a flutuar de encontro ao casco da Esmeralda, a carcaça de um bote quase desfeito baloiça na ondulação.

Mas observem, camaradas, o comandante com mais atenção.

O comandante, que até há poucos minutos era todo ele uma estátua de confiança e boa disposição, ajoelha-se junto ao náufrago, recolhe uma das mãos deste entre as suas, e pergunta-lhe suavemente quem é e de onde vem. O miúdo de apelido Baptista, que chegou ao local logo após Ping Li, deita as mãos à cabeça, revira os olhos nas órbitas, e disfarçadamente atira para o ar se não valerá a pena chamar o médico de serviço, ao que Picado se levanta num pulo e berra aos imediatos: "Chamem o Dr. Lopes, chamem o Dr. Lopes! E rapidamente, que o caso é de vida ou morte". Enquanto todos seguem o gesticular frenético do comandante, e enquanto alguns membros da tripulação tentam atabalhoadamente dar com os walkie-talkies que deviam ter presos ao cinto, um sorriso matreiro surge e desaparece no rosto do náufrago, quase revelando a dentição branca e afiada que aguarda agora novas presas. É um gesto-fracção-de-segundo, quase como um impulso nervoso, que passa despercebido a toda aquela plateia.

"Talvez queila água," sugere o chinês, ao que Picado pára fazer figura de malabarista de circo e volta focar a vista naquele trapo de gente. "Água? Sim, está claro, água. Mas não pode ser muita, senão o organismo rejeita e pode entrar em colapso. Alguém que traga água do restaurante! Já!!!". Alguns dez ou vinte passageiros (ninguém conta ao certo), acabados de chocar contra as costas da última fileira deste monte de curiosos, aproveitam o balanço do ricochete para inverter a marcha e correm de volta para local de onde chegam.

Observem, camaradas, o comandante, desta feita com toda a vossa atenção, para que o Korda e a sua felina cúmplice, os rostos perdidos no anonimato da mole compacta, possam aproveitar para explorar em paz e sossego, longe do olhar curioso, os bolsos interiores de casacos e calças dos passageiros em seu redor.

O náufrago sorve a água em pequenos goles, sentindo breves queimaduras a caírem-lhe o estômago. Apoiado em Ping Li, que não o larga do braço por um momento, ensaia levantar-se e escorrega – a multidão leva as mãos à boca e é toda ela varrida por “Aaahs” e “Ooohs” -, consegue ao segundo impulso – e a multidão, já recomposta do susto, afasta-se e abre um carreiro estreito de acesso ao interior do navio. Ao fundo está um tipo com mau aspecto encostado à ombreira de uma porta, prestes a estatelar-se no chão vergado pelo peso do álcool. Larga o copo da bebida e endireita-se como se lhe tivessem enfiado uma mola coluna acima. A visão do náufrago devolve-lhe a sobriedade mais depressa que um duche frio. Sem perder tempo, afasta-se para dentro do navio e desaparece nas entranhas do gigante.

Observem, camaradas, o comandante a seguir atrás do cortejo em direcção à enfermaria, tentando convencer as pessoas a aguardarem lá fora. Corredores onde mal se podem cruzar duas pessoas em sentidos opostos são agora o cárcere de cento e tal passageiros em alegre romaria de cochichos, espevitados por haver novidade no horizonte, sabendo que o caso não é tão grave como aparentou ao princípio. Bendita ignorância.

Observem tudo, camaradas, observem com atenção, enquanto a lua cheia, esse olho de Deus cego de cataratas, nos observa por seu turno a todos.
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby zé.chove » 21 Apr 2010 02:32

Pag5 - As pessoas são parvas. São parvas e expõem-se. Eu tento ser cordial e manter a calma, mas as pessoas são estúpidas. Ouve-se um grito e as pessoas correm para lá. Ouve-se um tiro e as pessoas ficam paradas. As pessoas são imbecis e andam em manada. Como varas de porcos atiram-se das falésias possuídas por um espírito de ignorância.

Pag6 - Eu procuro ser racional mas a ira cega-me. Só os exércitos me enchem de paz. A ordem da parada, o rigor da lei do quartel. Na selva alguns soldados têm tendência para abandalhar. Eu não. Para mim a ordem é a verdade e a verdade é um trilho que rasga o caos. A verdade é violenta.

Pag7 - Fujo das multidões e ajo na sombra. Já tive tempo de estudar as pessoas. Sei comandar a revolta. Alguns vão morrer. Um cruzeiro não é menos temível que uma selva. Quando a futilidade das madames for decepada e os chacais se alimentarem no convés da sua carne apodrecida, brilharão no fundo do porão as lâminas da vingança.

Pag8 – Oiço as vozes e os passos treslocados nos corredores. Movimentam-se já as forças. O pânico revela as pessoas... Eu espero.

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Sofiushka
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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby Sofiushka » 23 Apr 2010 01:05

Depois de uma discussão longa demais para convencer o tipo dos olhinhos piscantes de que não estava no devido camarote, Irwin decidiu socializar.

Dirigiu-se para o bar de mãos nos bolsos e sorriso despreocupado, o mesmo ar afável que usava sempre que encontrava outros aventureiros de mochila às costas e que predispunha qualquer um a aceita-lo no grupo. Pelo corredor cruzou-se com uma mulher apressada, de trouxa de roupa nas mãos, cujo cabelo, impecavelmente arranjado, destoava terrivelmente do fato de treino de moletão.
- G'd'evenin', miss! - cumprimentou, levantando um pouco com os dedos a aba do akubra, e ficou um nada desiludido quando ela apenas lhe dirigiu um meio sorriso e um aceno distraído enquanto acelerava corredor fora.

Sentou-se ao balcão, separado por um banco vazio de um tipo rubicundo que sorvia whisky entredentes com uma velocidade muito pouco saudável, e que lhe lançou um olhar desafiador quando notou que estava a ser observado. Paul era até capaz de jurar que o homem tinha arreganhado os dentes como se fosse rosnar, de maneiras que se voltou para o outro lado onde encontrou um sujeito com ar nórdico incrívelmente estereotípico. "Provavelmente chama-se Lars, ou Sven, ou coisa parecida.".
- Barkeep, uma Fosters, por favor. Vai uma fresca, mate?
O nórdico declinou educadamente, enquanto lançava a vista pelos convivas. Paul fez o mesmo. Poucas mesas tinham um só ocupante, quase todos tratavam de travar conhecimento entre si. Obviamente, foram esses poucos desengajados de actividade social que lhe atraíram a atenção. Fez sinal ao empregado do bar para enviar uma bebida à moçoila bem arranjada e de ar confiante que olhava para toda a gente em redor, e fez questão de fazer o mesmo para a mulher do fato de treino, que entretanto se tinha aproximado discretamente do extremo do balcão. Não se passou nada de extraordinário, e, uma vez que ninguém lhe ligava nenhuma, acabou sossegado a cerveja e foi dar uma volta pelo convés.

O jantar de gala decorria animado, ou assim cria, a julgar pelos sons que lhe chegavam de vez em quando. Sem fato apropriado, tinha-se baldado à cerimónia e contentado em mastigar um pratinho de canapés surripiados do buffet, enquanto lia numa espreguiçadeira debaixo de um foco. Ignorou o ruído da comoção que lhe chegou do outro lado do convés, pensado que se tratava de algum party game do jantar. Só quando ouviu gente a chamar por médicos e tripulação a passar a correr à sua frente é que se levantou e foi espreitar.
Não viu grande coisa. A multidão acumulava-se em semi-círculo perto da amurada, e alguém desconhecido logo tratou de lhe comunicar, ao vê-lo chegar curioso, que tinham recolhido um náufrago, e que o iam levar para enfermaria. De facto, momentos depois, a multidão apartou-se qual mar bíblico e de entre eles saiu um homem desgrenhado apoiado num tripulante franzino e efeminado e noutro com ar chinês, ambos fazendo um evidente esforço para manter a carga de pé, enquanto o capitão, bem mais encorpado que os outros dois desgraçados, seguia atrás. Paul avançou para oferecer ajuda, mas parou de repente. Pareceu-lhe ter visto o náufrago trocar olhares com o bêbado do bar, que mudara de expressão como se tivesse levado um estalo. E a olhar fixamente para esse par, estava o nórdico, de narinas a resfolegar, ignorando a ruiva que olhava para o séquito e lhe dizia qualquer coisa com uma mão no ombro.
Olhou novamente para o náufrago. Algo estava errado. Em 20 anos a correr o globo em todo o tipo de aventura, já tinha muitos sobreviventes de muita coisa, e havia algo naquele que não batia certo. Afastou-se para apanhar a camisa esfarrapada que tinha sido deixada no chão. Um míudo, encostado ao corrimão a ver o circo com ar cínico, deu uma fungadela.
- Você cospe fogo?
- Hm?
- Perguntei se cospe fogo. Tem ar de artista de rua, e pareceu-me que me cheirou a... sabe, tenho uma amiga na escola que pega fogo a umas bolas num fio e faz uns malabarismos e...
- Lampião...
- Desculpe?
- Tens razão, cheira a querosene.
- Será uma fuga?
Puseram-se os dois a cheirar o ar, mas era um cheiro ténue demais. Foi só quando abrigou a boca no cotovelo para espirrar que Paul notou que o cheiro vinha da camisa que tinha na mão. Abriu-a à sua frente e cheirou-a. Não era forte o cheiro, mas era lá que estava.
- Rapaz, faz-me um favor. Vê se me encontras alguém da tripulação com ar responsável. Passa-se aqui algo suspeito.

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby croquete » 23 Apr 2010 22:35

Nem aqui no meio do Atlântico posso-me esquecer como detesto Portugal e os portugueses. Trata-se de um povo pequeno e quase todos usam óculos.
Vivem obcecados pelo mar. Os supermercados cheiram a peixe seco e a camarão cozido. Os homens cheiram a Old Spice de contrabando. As idosas, a Halibut Creme que destaca o odor a peixe podre do resto dos líquidos íntimos, ao ponto de se pensar que é a mulher que está podre de velha e não o creme ou sequer os dois.
Não é raro ter de olhar para baixo, para uma pobre desculpa de gente e um inevitável hálito a peixe ultrapassa umas lunetas de fazer inveja a garrafas de Don Perignon.

Ainda me sinto agoniado pelo tresandar dos cremes da velha, o Scanner 3 D portátil fez o seu trabalho nas jóias dela.
Ui!! E o raio daquele estafermo que não se cansava? Foi-se embora para o Lounge. Graças ao Céu.
Um pequeno telefone por satélite enviará via internet os ficheiros para a mágica fresa do Senhor Lee no Funchal. A máquina trabalha latão e vidro como artesão suíços trabalham o ouro e pedras preciosas. O senhor Lee, a que todos chamam de Bruce em homenagem aos seus 150Kg de diabetes é homem de comissões fortes, baldes de galinha frita e trabalho competente, não me vai deixar ficar mal.
No final da viagem, quando aquela viciada em sexo sair do navio, vai levar as suas jóias com valor sentimental vai. O sentimental até que vai, mas o valor fica. Fica mesmo, fica.

Há qualquer coisa neste naufrago que não está bem, não sei bem o que é, deve ser o queixo que treme de mais ou as pernas que mexem de menos ou então será, talvez, aquela expressão de felicidade quando seria de esperar alívio. É um gigante, perto dele não passo de um empregadito com músculos. Aproveito a confusão para sacar a carteira de um bêbedo. Uma espécie de garrafa de whisky com pernas. Deve ter conhecido o velho Korda…

Irina utiliza a velha táctica de sempre e devolve uma carteira a um tipo qualquer como se a tivesse achado no chão. O homem agradece, deixando ver no pulso um Rolex novinho que me faz lembrar de novo a grande colecção de cópias do Bruce Lee no Funchal.

No lounge, o pianista já não se importa em deixar a música do piano no automático. O náufrago foi transportado para a enfermaria com a solenidade de um herói e meio esquecidos do incidente todos parecem cantar de felicidade:

Looooove,
Exciting and new
Come Aboard. We're expecting you.
Love, life's sweetest reward.
Let it flow, it floats back to you.

Love Boat soon will be making another run
The Love Boat promises something for everyone
Set a course for adventure,
Your mind on a new romance.

Love won't hurt anymore
It's an open smile on a friendly shore.
Yes Looooooooooooooove! It's Looooooooooooooove! (hey-ah!)

Love Boat soon will be making another run
The Love Boat promises something for everyone
Set a course for adventure,
Your mind on a new romance.

Love won't hurt anymore
It's an open smile on a friendly shore.
It's Looooooooooooooove! It's Looooooooooooooove!! It's
Looooooooove!
It's the Love Boat-ah! It's the Love Boat-ah!


Que nojo!
O que dizer de um povo que nem sequer canta na sua própria língua?

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby Sharky » 28 Apr 2010 01:34

...mas que merda...tanto tempo para ser socorrido??? Devem ter saído do porto mais tarde que o previsto...

- Eu estou bem...eu estou bem...obrigado...

porra...quase todos estão com cara de dólares sedentos...e já não bastava este chinês a trasandar a roupa lavada, como agora tenho que ter a cabeça deitada ao colo dele, que cheira mais a outra coisa que sei lá o quê...não vais esperar muito seu taradão...

- Meu nome é...Salvador...saí de Sesimbra...com o meu veleiro...naveguei...só me lembro de ver o barco em chamas...talvez um curto-circuito...
- Naveguei sozinho, só eu e o mar...
- Não sei...como aconteceu...tenho fome...estou fraco...

isso, levem-me para um camarote...óptimo, finalmente porra...

- Não é preciso...deixem-me descansar um pouco...eu tomo banho sozinho...dê-me um tempo, por favor...
- Sim, já estou melhor...muito obrigado.

estaca zero, nada como um fresh start

- Comandante, como posso lhe agradecer? Eu devo-lhe tudo, qualquer coisa, é só dizer.
- Oiça, eu posso ser órfão, mas sei dar valor e retribuir a quem me salvou a vida...

quem é aquele tipo que está a olhar para mim com ar de desconfiado??? E ali...um pote de banhas com cara de porco...pobre desgraçado...uau, um gay a fazer-me olhinhos...tanta curiosidade, tanta escolha, que ricas férias estas...

-Para compensar, deixe-me fazer-lhe uma proposta, comandante.

preciso de ter acesso a ferramentas...sim...como umas facas bem afiadas para começar, hahahaha

- Comandante, eu sou chefe de cozinha, sou dono de quatro restaurantes, foi pelo stress e fadiga que fiz a viagem, deixe-me ao menos ajudar na cozinha e preparar-lhe alguns pratos de outro mundo, se gostar, poderei ajudar os seus cozinheiro até chegar-mos a terra, e aí poderei organizar a minha vida e voltar, por favor.

- Muito obrigado, estou sem palavras...sim, irei descansar como diz, falamos amanhã, muito obrigado novamente, devo-lhe tudo...


chiça, que bife delicioso, o vinho, do melhor que já bebi, agora com pança cheia, vou dormir que nem um cavalo...amanhã vou rondar o mercado, hahahahaha

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby Leo Turilli » 29 Apr 2010 09:51

Temos um passageiro novo no barco, que veio do mar. Que poético, não? Quando o resgatei do mar ainda murmurei "Que bela sereia que veio dar à costa!", mas não sei se me ouviu. Claro que tive de o ajudar, pois nenhuma das ladys quis sujar as suas belas mãos... pensando bem, nem eu me queria sujar!
Pergunto-me se terá família. Talvez uma filha como eu. Com a diferença, talvez, que a minha foi fruto de uma noite de copos na faculdade... Agora tenho de aturar de duas em duas semanas um prodígio de 9 anos, de óculos fundo de garrafa e nenhuma noção de estilo, com dois livros publicados sobre dragões e mundos inventados por ela...

Olho com pena e, ao mesmo tempo, interesse, mas o naufrago desvia o olhar. Parece-me suspeito, mas também pode ser a minha mente a funcionar, como sempre. Como será que aquela pirralha se limita a copiar todas as obras de magia que já existem edita um livro e eu, com o meu talento natural para escrever sobre temas "sérios", sempre recebi a rejeição?

Depois de levarem a novidade para um camarote, dirigi-me para o apertado corredor. Foi neste momento que passou por mim o nórdico, acompanhado por duas raparigas, fazendo-me perceber, mais uma vez, que não teria companhia no barco...

- Miguel!- ouvi chamar- É esse o seu nome, certo?

Olho e vejo o naufrago, a sua cabeça espreitando da porta do camarote.

- Tenho uma proposta para lhe fazer, quer ouvir?

Não vi porque não e entrei para dentro.

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby urukai » 03 May 2010 21:03

Julieta estava deitada no seu camarote.
O peito, farto, subia e descia ao sabor da sua respiração mas era também influenciado pelo suave baloiçar do navio. As subidas da inspiração imiscuíam-se das quebras da ondulação e o comportamento era errático e estranho. Tal como os seus seios também os seus pensamentos eram desprovidos de um padrão organizado. Tão depressa se lembrava dos músculos inebriantes do empregado como os seus olhos enfastiados lhe enchiam a memória. Julieta não era parva nenhuma. Sabia que estava a ser usada e até já dera por falta de uma jóia. Mas este era um jogo que jogava-se a dois e ela não se importava de ser um objecto se, em contrapartida, também pudesse brincar com algo. Mas o estupor tinha de representar bem o papel! Que tomasse banho depois e se diverti-se com a pirralha que lhe andava sempre a fazer olhinhos mas enquanto estava com ela que a enganasse com esperteza e vontade. Se não se tivesse vindo embora ainda era capaz de ter visto nojo na expressão dele e isso era algo que nunca toleraria.
Levantou-se de rompante e dirigiu-se para os seus perfumes. À sua frente tinha uma imensidão de frascos e frasquinhos e frascões. Para todos os gostos, olfactos e carteiras. Os seus dedos, ingurgitados pelo calor e constrangidos pelos inúmeros anéis, percorrem as tampas que tilintam ao tocarem nas suas longas unhas vermelhas. Escolhe um pequeno frasco de cristal resplandecente que contém um liquido incolor. No rótulo lê-se Latrodectus mactans. Julieta sorri com um olhar embaçado pelo passado. Volta a colocar o frasco no local e volta para a cama. Lá fora o alvoroço esmorecia depois de naufrago ter sido encontrado mas para Julieta tudo isso era secundário. O jogo a sério começara e ela não seria, de certeza, a presa.

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby Aignes » 06 May 2010 00:13

Um tumulto, gritos, e de repente éramos todos uma multidão de pessoas bem vestidas a ver um homem ser resgatado do mar. Muita gente junta incomoda-me, principalmente quando em pânico, pelo que me deixei ficar mais para trás. Também não tenho o meu sentido de curiosidade mórbida assim tão apurado quanto isso, nada que justifique ouvir o primeiro relato do náufrago. Por isso fiquei algo espantado quando me apercebi que tinha perdido a carteira. Digo a mim mesmo que foi por isso que fiquei ligeiramente perturbado pela mulher loira que me abordou para ma devolver. O facto de um sorriso genuíno me ter sido dirigido por uma mulher pela primeira vez desde há muito tempo não tem nada a ver, digo. Nem o facto de já ter passado tanto tempo desde a morte dela que de qualquer forma me sentiria demasiado estranho, sem saber o que fazer, e a memória dela para sempre na ponta dos meus dedos, acho.

Resolvi ficar pelo convés enquanto levavam o náufrago para dentro. Um grupo de pessoas aglomeravam-se ainda a comentar e tentar comparar bocadinhos de rumores sobre o estranho, como é que o acontecimento ainda não tinha cinco minutos e já havia teorias e olhares arregalados e vozes murmuradas. Não precisava de saber português para saber do que falavam. Aproximei-me da amurada e reparei num homem moreno vestido descontraidamente e num rapaz, que se atarefavam à volta de algo. Acendi um cigarro e aproximei-me. O rapaz olhou-me de olhos arregalados e levantou as mãos, frases em português ditas rudemente e bastante depressa.

- Get the’thin out of here, mate.

Alguém a falar inglês, e percebi que era o meu cigarro. Desperdício de um cigarro novo, mas atirei-o para o mar de qualquer forma. A curiosidade tinha ganho, por uns momentos. Era a camisa do náufrago, o objecto sobre o qual se atarefavam. O rapaz foi buscar alguém da tripulação. O homem era claramente aussie, o sotaque denunciava-o muito antes que precisasse de explicações, mas não tivemos muito tempo de conversa até o rapaz voltar com uma mulher. O rapaz e o homem discutiam algo, onde não percebi mais do que as palavras crew, party girl e umas palavras interessantes que mostravam a sua frustração. Olhei para a mulher recém-chegada e o seu olhar confuso parecia espelhar o que seria o meu, apesar de parecer algo irritada. Disse algumas palavras, e o aussie lá lhe estendeu a camisa que segurava na mão, a mulher fez uma expressão desconfiada, mas para meu espanto cheirou o tecido. Olhares surpresos e eu sem perceber nada.

- Could any of you kind people just explain what’s happening here?
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby toiota » 06 May 2010 11:34

No meio de todo este azar parece que tive sorte e o chinês da lavandaria teve pena de mim ou então já está farto de lavar as roupas que eu vomito, mas uma coisa é certa o chá que ele me deu para o mal do mar está a fazer efeito já me consegui levantar.
Mas primeiro que eu conseguisse perceber o que ele estava a dizer parece o cebolinha daqueles livros da banda desenhada que só muito raramente eu conseguia pôr as mãos em cima no orfanto, e que muitas das vezes a história já me estava completa, pois alguém havia arrancado páginas ao livro.
Mas parece que o chinês é muito prestável só espero que toda esta ajuda não traga água no bico, já que ele percebeu que não sou nenhum rapaz e com a ajuda até me consegui lavar sem ter de me preocupar com os outros membros da tripulação, já que ele os mandou embora para diz ele puder limpar a cama se é que aquilo se pode chamar cama, mas também quem dormiu naquele catre lá no orfanato também não se pode queixar, visto este beliche ser muito melhor, o que importa é que finalmente consegui fazer a minha higiene como deve de ser.
Assim que acabei as minhas abluções, ouvi uma grande barulheira e qual não é a minha surpresa quando vejo um naufrágo a ser içado para bordo, mas algo me diz que aquele homem não é aquilo que parece.
Estranho também é o capitão o homem mete-me medo, tem um carácter muito instável deve sofre de algum sindroma, agora é moda toda a gente tem sindromas para explicar os desvios de comportamento, mas também devia era estar calada e acho que nem sequer vou a terra na próxima paragem não andem eles à minha procura.
Bem o melhor é ir limpar toda aquele porcaria deixada pelo naufrágo no convés senão ainda alguém repara em mim por estar a não fazer nada e isso é a última coisa que eu quero que reparem em mim, quanto mais passar despercebida melhor.
Até estou a pensar ir ajudar o chinês a lavar a roupa para assim não me verem tanto, e também puder conhecer melhor o dito, qual será o interesse dele em mim?

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby Anibunny » 11 May 2010 17:43

Só agora entendi o quão secante uma porra de um cruzeiro pode ser. Os dias passam sem tentar sequer aproximar-me das pessoas, mas sinto, de alguma maneira que deveria meter conversa com um e com o outro, especialmente com o rapaz de tique esquisitos que se tiver sorte vai dar para os dois lados. Qualquer pessoa inteligente sabe que com os gays aprendemos várias coisas sobre a vida. Em especial sobre homens, o que eles gostam, o que eles verdadeiramente sentem. De repente sinto vontade de voltar para terra e para junto das pessoas que sempre conheci. A excitação do náufrago já acabou. Agora é voltar aos dias horrorosos onde tiro fotos e mando MMS às minhas amigas dos homens na piscina de tronco nu. Guardo as das mulheres nos seus bikinis. Mantenho-me longe de tudo que tenha água. Podia afogar-me ou então ter um belo homem a salvar-me pelos braços… ou uma mulher. Uma mulher com os seios pequenos, mas bem-feitos para encostar de noite. De uma maneira ou de outra isto só tem um homem como nadador salvador e o fato de banho que comprei antes de vir para aqui foi demasiado caro para o sujar com o cloro. Arrisco a entrar na água? Se eu arriscar, quem é que me salva? Sou uma estranha aqui dentro, tal como no resto do Mundo. Prefiro ficar aqui deitada a apanhar banhos de sol e a ler a “Maria” do que arriscar… ver os senhores da telenovela de um lado e os homens na piscina do outro. Pode ser que algum meta conversa comigo um dia…

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby Pedro Farinha » 16 May 2010 00:49

Finalmente algo de bom para interromper a pasmaceira. Não foi só a recolha de um náufrago mas descobri que não sou o único adolescente a bordo. No meio da confusão reparei num outro rapaz que pertence à tripulação, acho que o nome dele é Quim e é amigo do chinês.

Quando passaram por mim, a arrastar o Robinson Crusoé mal cheiroso, pude olhar na cara dele e pisquei-lhe o olho. Tenho de o fazer meu amigo. Um rapaz da tripulação! Vocês já viram as oportunidades? Poder ir aos sítios proibidos do barco, espreitar o camarote do Comandante Picado... esse é estranho. Porque não chamou logo o médico.

Mas hoje assisti a algo ainda mais estranho, uma espécie de reunião secreta. E digo secreta porque bem vi os olhares em volta a ver se ninguém os observavam enquanto se esgueiravam para a casa onde é depositada a roupa suja.

Primeiro foi o australiano, depois o criado do Lord inglês e por fim a Fernanda que é a animadora de serviço ainda que a mim ela não me anime nada.

Nunca os tinha visto sequer a conversarem o que torna isto tudo muito estranho. Tenho mesmo de travar melhor conhecimento com o Quim. Com quem mais eu hei-de comentar estas coisas? Só se for com a Marlene que parece simpática ainda que se tente mascarar de gaja boa e mais velha.

Bem, acho melhor ver onde anda a minha avó. Se bem a conheço está à espera de uma oportunidade para desmaiar nos braços do comandante Picado.

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby Ripley » 17 May 2010 10:38

Mesmo num convés meio às escuras devo manter a postura. Nada de correrias, só passo apressado. Um sujeito de chapéu cumprimenta-me com um sotaque que me faz lembrar o Crocodile Dundee. Sorrio-lhe mas estou com pressa.

Humm... O chinês não está aqui. Como é que ele se chama? ... Já me lembro. Ling Pi. Não, Ping Li. Bolas, estou mesmo cansada. Vou deixar o vestido aqui de parte mais a toalha, as nódoas de sangue não se lavam juntamente com o resto da roupa. A minha mãe passava a vida a dizer-me isso quando trazia as calças ou a t-shirt sujas de alguma queda ou de andar à pancada no recreio.
Epá! Pode ser impressão minha, mas acho que há aqui mais alguém. Mexe-se muito de mansinho. Oh, um velhote! Chinês também. Deve ser pai do Ping Li, são parecidos.
São muito cerimoniosos, estes velhotes orientais, hehe. Faz-me uma vénia e estende-me as mãos para receber o vestido. Estendo-lho e correspondo à vénia acrescentando um “M’koy”. Mais uma vénia e responde-me “M’koy sai”. Sorrio para ele enquanto me curvo novamente. Lembra-me o meu bisavô.

O bar está mais cheio do que pensava. Esta gente toda debandou da festa... sim, aquilo estava a tornar-se um bocadinho secante. O Comandante Picado... é um sujeito estranho. Tão depressa se ri como toma um ar terrivelmente austero e de vez em quando parece perdido nas memórias de algo, a expressão apaga-se e os olhos ficam fixos. Brain freeze. Não sei o que pensar dele, mas deixa-me inquieta por algum motivo.
O Korda serve-me uma bebida sem que eu tenha pedido seja o que for. Faz-me sinal de que foi o aussie que a ofereceu. Um gesto simpático da parte dele, como um cavalheiro do outback. Fico a olhá-lo discretamente sobre o rebordo do copo alto enquanto parece tirar as medidas a todos os presentes, bebendo... Fosters, já calculava.
Deslizo do banco alto para lhe agradecer mas já está de saída. É pena. Tem uns olhos intrigantes, sempre em movimento, claros em contraste com a pele morena.

Lá fora há uma comoção súbita. Afinal a história do náufrago era verdade? Bem, qualquer membro da tripulação, mesmo que não esteja de serviço tem o dever de se apresentar imediatamente! Saio do bar sem terminar a bebida. O comandante aproxima-se a passos largos e pára no meio da pequena multidão. Num momento deixo de o ver, deve ter-se baixado; no momento seguinte eleva a cabeça acima de toda a gente berrando pelo Dr. Lopes. O Franco e o Pereira estão lixados, têm a mania de andar sem os walkie-talkies à cintura achando que não são precisos para nada.

Meto-me pelo corredor de acesso à enfermaria e bato à porta.
- Gabriel?
A enfermeira abre-me a porta com ar embaraçado e a farda ligeiramente descomposta. Não consigo evitar um sorriso.
- Por favor avise o Dr. Lopes que recolhemos um náufrago e vão trazê-lo para aqui.
Atrás dela, Gabriel Lopes mete a camisa para dentro das calças e sorri-me com ar cúmplice. Já nos conhecemos de há alguns cruzeiros. Já tivemos as nossas noitadas de copos e não só. Pobre Lena, não sabe que é apenas a mais recente da lista do Doutor.

Saio dali e deparo-me com um verdadeiro cortejo em sentido contrário. Afasto-me para lhes dar passagem, vendo o Comandante pedindo inutilmente à multidão de curiosos para aguardar fora do corredor.
Nisto o rapaz borbulhento aproxima-se de mim.
- Pode chegar aqui? É importante!
A voz treme-lhe, ver o náufrago deve ter sido algo excitante numa viagem que imaginava enfadonha. Caminha a passos rápidos e tenho dificuldade em acompanhá-lo. Maldita bolha no pé.
O australiano de olhos desconcertantes espera junto da amurada. O rapaz dirige-lhe algumas palavras de forma atabalhoada, inglês misturado com português e ele responde num português de sotaque tão cerrado que me custa a perceber seja o que for.
- Que se passa aqui afinal? Qual é o problema?
Estende-me algo que parece um trapo. – Perrtence à crew, right? Porr favorr cheirre.
Que raio... pego no trapo e aproximo-o do nariz. Mas... que cheiro é este? Parece... parece o cheiro do candeeiro de petróleo da minha avó!
De repente oiço uma voz mesmo ao meu lado.

- Could any of you kind people just explain what’s happening here?
Brit. Nem precisava de olhar para o nariz fino, o stiff upper lip. Puro sotaque brit. Deve ser o assistente de Lord Iverson, acho que são os únicos ingleses a bordo.

- I’m sorry, sir. Apparently this old rag has been in contact with some sort of fuel.
O aussie explica-nos que é a camisa do náufrago. Abano a cabeça. É estranho. Ia perguntar uma coisa ao inglês mas acho que este não é o tipo de coisa que se fique a discutir em pleno deck. Antes de reportar seja o que for ao comandante, preciso de mais informações... combino com os dois irmos falar para um local mais recatado. O bar? Não. O anexo da lavandaria será melhor, não é suposto andar por ali gente. Faço-lhes sinal para seguirem à minha frente enquanto observo as movimentações em redor e dou com o rapazito a olhar para nós de esguelha.

Tenho pena de não o poder incluir no grupo, parece-me atilado. Mas tenho a sensação de que se passa algo e não quero correr o risco de pôr o garoto em perigo.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]


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