7º Conto BBdE - Texto

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Bugman
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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby Bugman » 26 May 2010 07:54

“Que significam?” perguntou-me Marlene quando me sentei na berma da cama. O sol de final de tarde, em tons de laranja carregado, apelando à torpeza dos sentidos, ilumina a cabine da ruiva. Em simultâneo com a pergunta sinto uma mão a passar-me nos ombros. Que significam dois corvos tatuados num norueguês? Pergunto-me, completando a pergunta dela. “São os corvos de Lisboa! Passo cá muitas férias e decidi levar uma recordação da cidade.” Minto-lhe, com um sorriso que grita falsidade.
“Parvo… Que significam? Ou simplesmente gostas de corvos?” insiste. Hesita. “Bom, em várias culturas os corvos são vistos como uma ligação ao mundo dos mortos. Na mitologia nórdica, existem dois corvos em particular, Huginn e Muninn, que são uma forma de comunicar directamente com Odin, o líder dos deuses.”
“E tu precisas de comunicar com Odin?” pergunta, não sem evitar uma certa entoação de escárnio. Ontem mal conseguia articular duas palavras sem ficar mais vermelha que o sol que ilumina a cabina. Hoje dá-se ao luxo de gozar com o que não conhece. Pior! Eu deixo e rio-me com ela e gozo com coisas demasiado sérias e para as quais não a quero arrastar. Raios! Este tipo de preocupações são perigosas e já nem me refiro ao meu dia-a-dia, refiro-me a este cruzeiro em particular.
Ponho um ar o mais sério possível, levanto-me e enquanto visto os calções e a t-shirt digo-lhe que “Devia ir para o meu quarto arranjar-me. Se calhar é melhor jantares sem mim.” e saio do quarto. Não lhe dei tempo de me seguir, mas não estranho quando menos de um minuto depois ela me bate à porta do quarto. “Que foi aquilo?” pergunta entre o choque e a raiva. “Para saberes vais ter de pensar muito bem no que foi o nosso fim de tarde. Amanhã vou almoçar com um amigo no Funchal. Se o nosso fim de tarde foi só isso, um fim de tarde, não esperes por mim ao meio-dia no cais. Hoje tenho assuntos pessoais para tratar e se calhar não devia ter sido tão brusco contigo, mas amanhã falamos melhor. Pode ser?” Vejo ainda alguma indecisão e espero que tenha parecido estúpido o suficiente para ela não esperar por mim. Despeço-me e encosto a porta.
Debaixo da cama duas malas iguais. Numa delas uma etiqueta diz Gungnir, a lendária lança de Odin. Na outra, Huginn e Muninn, os corvos de Odin, que em algumas culturas representam uma ligação ao mundo dos mortos. Lembro-me da conversa de ontem com o Malvindo e abraço-as…

Um náufrago não é um acontecimento habitual, mesmo para quem passa a vida no mar, mas um náufrago que, sem articular palavra, cura a bebedeira de Ernesto Malvindo, a “Fada-Madrinha”, é um náufrago que até a mim me interessa. E deixa nervoso! Procuro segui-lo, mas a comoção chamou gente de todo o barco e Marlene interpela-me. Não consigo dizer que não àqueles caracóis ruivos e ficamos para mais uma bebida, ou duas, ou três... Finalmente acompanho-a à porta do quarto. Carrego-a até à porta, pelo braço, seria um termo mais correcto. Pelo caminho peço a uma das tripulantes que me acompanhe “para a deitar”. Após alguma relutância fingida lá nos acompanha.
Perto do convés da tripulação cruzamo-nos com a flor-de-estufa. Parece que já entregou o seu peixinho a quem de direito e anda agora à pesca doutro atum. O olhar desiludido com que me olha diz-me que podia muito bem ter sido eu. Deixo a Marlene no quarto com a Joana, uma simpática tripulante que tem a nobre tarefa de fazer as camas. Quando ela sai do quarto pergunto-lhe se há camas muito desfeitas e ela responde-me que a dela “está sempre pronta para ser desfeita” porque “sempre serve de treino fazê-la”. O sorriso perverso que me deita fala por ela e convido-a para irmos até à amurada apanhar ar. Ela esquiva-se com um “é demasiado fresco. Sei de um sítio onde podemos apanhar ar mais quente.” Sigo a deixa e vou atrás dela.
O quarto dela fica na outra ponta do barco. No regresso ao meu barco aproveito mesmo o ar fresco da amurada. No salão o piano electrónico foi esquecido e continua a tocar. Dirijo-me lá dentro e vejo que na mesa de honra alguém se esqueceu de uma caixa de charutos. Cohiba. Reformulo, alguém com bom gosto esqueceu-se de um caixa de charutos. Tiro quatro, os que cabem no bolso da camisa e os fósforos que ali estão ao lado e continuo para o meu quarto. Na amurada, ainda junto ao bar uma voz rouca e familiar. “Fodidos, estamos todos fodidos”. O barman… Ou melhor outro barman “Tem de se ir embora. Qual o seu quarto?”
“Você não percebe? Estamos todos fodidos!” afinal parece que a bebedeira não está totalmente curada. Dirijo-me ao bar e digo ao barman que o levo para o quarto. Encosto-o à amurada e estendo-lhe um charuto.
“Cohiba! Sabes o que é bom miúdo!” Diz-me com o ar embevecido dos bêbados. Olha para mim um bocado à luz do terceiro fósforo. “Eu não te conheço de algum lado?” Respondo-lhe com o nome da cidade. “Berlim” Ele fica um bocado ocupado com o seu charuto até que me pergunta “Asgard?". Respondo afirmativamente. “Um caso complicado. Muito sujo. Mal feito. Não que a culpa fosse vossa, simplesmente não deu para melhor. Fiquei um ano fora da Alemanha e sabe Deus a quantidade de barris que lá se beberam nesse ano…” Agora era um bêbado a recordar o passado, algo que eu queria evitar. Acima de nós havia pelo menos mais dois conveses, antes de se chegar à ponte. A última coisa que eu queria era alguém a ouvir conversas camufladas.
“Grande noite, esta!” soltei.
“Só te digo uma coisa: estamos todos fo-di-dos!”
“Então porquê?”

Quando chego ao meu quarto, depois de deixar o Malvindo no quarto dele, tiro duas malas debaixo da cama. Verifico que o conteúdo está completo e amaldiçoo a hora em que não trouxe uma ligação satélite segura.
Last edited by Bugman on 07 Jun 2010 08:59, edited 1 time in total.
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Normalcy was a majority concept, the standard of many and not the standard of just one man. Robert Neville
O homem que obedece a Deus, não precisa de outra autoridade. Petr Chelčický
Ao mesmo tempo que ali estava tudo igual, não estava você lá, não está teu passado, não está nada. Quer dizer: só você sabe que esteve ali. A parede, os prédios, não guardam a gente. Nós só nos guardamos a nós mesmos. Só valemos nós connosco. Fora daí é literatura, é poesia, é arte. Ferreira Gullar
Yes, I am a woman of the law. And there are lots of laws. But if they don't offer us justice, then they aren't laws! They are just lines drawn in the sand by men who would stand on your back for power and glory. Sartana
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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby azert » 29 May 2010 03:24

Lembro-me como se fosse ontem. O fato domingueiro, a camisa branca engomada, as botas de cano curto engraxadas e o chapéu um pouco inclinado. No braço, um sobretudo que a minha mãe fizera com um cobertor do enxoval. Uma mala de cartão com os meus parcos pertences e o bilhete de barco na mão que treme. Dezanove anos. Pela frente, muitos dias de mar e uma terra de abundância, diziam, do outro lado do oceano.

- Pai, precisa de alguma coisa? - pergunto ao espreitar pela porta entreaberta.
Como resposta, um vago aceno de mão, mais para dizer-me que quer voltar aos seus pensamentos, do que para elucidar-me sobre as suas necessidades.
- Se precisar de alguma coisa, toque o sininho e eu venho logo. - Silêncio.

Tenho a impressão de que o seu corpo deitado na cama é uma ilusão. Já partiu em viagem,
a viagem.
Recordo-me do meu pai sempre assim - ausente. Claro que havia os regressos e as prendas, os abraços enquanto as saudades duravam, mas depois voltava a deixar-me entregue à minha única fiel companhia - a minha.
Talvez depois de voltar a ver as terras americanas ele sossegue e regresse de vez. Sinto muita falta dele. Há muito tempo.

Escureceu. Volto a entrar no quarto com um prato de canja num tabuleiro.
-Tem de comer alguma coisa, pai, senão, como é que vai aguentar a viagem que nos espera?
Ajudo-o a sentar-se, ponho-lhe o guardanapo ao pescoço e inicio a paciente tarefa de alimentá-lo. Cada vez come menos. Dir-se-ia que a comida já vai começando a ser supérflua.

- Pus as coisas que me indicou na mala, já está tudo pronto. Amanhã o Jaime passa aqui para levar-nos ao aeroporto. - Olha-me por um momento e apressa a comida garganta abaixo, como se com isso apreçasse também o tempo. Aperto-lhe o braço.
Finda a quantidade de canja que o seu estômago suporta, limpo-lhe a boca. Sorrio-lhe. Desta vez vou de viagem com ele.
- Já sabe, qualquer coisa, toque o sininho que eu venho.

O sininho não vai tocar, a única coisa de que o meu pai parece precisar é dos seus pensamentos, mas mesmo assim, não lhe digo já "até amanhã", para que fique claro que estou à disposição dele, se ele quiser. Mas sei que não vai querer. Amanhã. Amanhã começa
a viagem.
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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby João Arctico » 30 May 2010 16:37

- Quem vem lá? Ah! Seles tu, jovem Quim. Vens cá ajudá’? Tá bem. Chega-me aí esse monte de toalhas, se faz favô’. Isso… entlega-me aqui…
(e no momento em que as toalhas passam de braços para braços… dois olhares se cruzam…)
- Não suporto mais… tu…tu não me reconheceste ainda? Eu… eu sou o Tó Manel, pá!!!
(enquanto retirava os óculos redondos e esfregava a maquilhagem que lhe dava uns traços de oriental.)
- O Tó Manel do Cacém, não te lembras?!... O quintal da minha casa dava para os fundos do orfanato onde tu cresceste. Sim, Florbela, sou eu: o Tonecas que gozava com os teus totós. Passados estes anos, muita água correu debaixo da ponte… Tornei-me detective privado e aqui estou… a proteger-te! Sim, a proteger-te. Muitos segredos embarcaram também neste cluzeilo… Bolas, com tanto tleino torna-se difícil perder estes tiques de linguagem… Desde já, te posso dizer que corres um grande perigo… Alguém neste navio constitui uma grave ameaça para ti… e eu estou a ser pago por alguém da tua família que se encontra a bordo também… sim, eu vou-te contar tudo o que sei… senta-te aqui… Shiu! Que barulho foi este lá fora?... Espera aqui… Calma.
(Como um felino Liu Ping, ou melhor, o Tó Manel, saiu para fora da lavandaria)
Tu?!... O que queres? O que fazes aqui?... Ei qu’é isso aí na tua mão?... Nãaaoooo. Arghhhh!....
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
"Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois de algum viés da lembrança" Chico Buarque in Estorvo

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby Samwise » 06 Jun 2010 11:24

«Atenção Senhoras e Senhores passageiros, é o vosso comandante quem fala. Devido a um problema técnico, o La Esmeralda vai ter de imobilizar a sua marcha durante tempo indeterminado. Por este motivo, não poderemos cumprir o horário previsto de chegada ao Funchal. Encontramos-nos neste momento a cerca de quinhentas milhas do nosso destino. Apesar de não vos poder dar uma previsão quanto ao tempo que vamos demorar a resolver o problema, asseguro-vos que a avaria não é grave e que não há quaisquer motivos para preocupações. Enquanto aguardamos, tomei a liberdade de pedir à nossa animadora de bordo , a "Tenente" Fernanda Gomes, para organizar um torneio de críquete ao luar, iniciativa inédita neste navio e que creio que será do vosso agrado. Comprometo-me a manter-vos informados regularmente do avanço dos trabalhos. Agradeço a vossa compreensão e tenham um bom resto de noite.»

Três da manhã. Esfrego os olhos com alguma insistência, como se pretendesse com o gesto afastar a realidade para o lado fazendo-a transformar-se em devaneios da minha imaginação. Mas a mensagem não deixa. A mensagem codificada. A mensagem enviada pela Interpol que seguro nas mãos e à qual a minha atenção volta insistentemente, fazendo-me lê-la vez atrás de vez, à procura de alguma saída de emergência. Como se a objectividade das palavras nela contidas pudesse de alguma forma ser subvertida.

«ATT. Comandante Picado. Descrição física do Indivíduo resgatado corresponde a sujeito extremamente perigoso. É conhecido por vários aliases e muda de visual frequentemente. Procurado há anos por todo o mundo, até agora sem sucesso de captura. Responsável por crimes hediondos. Ordem para imobilizar o navio imediatamente. Não deve atracar em nenhum destino nem permitir que outras embarcações se aproximem da sua localização. Enviaremos dois helicópteros com um força especial de intervenção. Até lá, não deve dar nenhuma indicação de que suspeita do indivíduo.Effective Immediately. STOP»

Esfrego os olhos novamente. Que devo fazer?

... É durante este momento de indefinição que sinto uma fria e dolorosa picada no tornozelo... A dor é insuportável e faz-me soltar um berro agonizante... um ser aracnídeo escapa-se para debaixo da cama... não posso deixar que vejam... a ... mensagem... pancadas na porta... ouço o meu nome... mais pancad... *
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby Sofiushka » 12 Jun 2010 15:41

Paul instalara-se de novo no balcão do bar a observar pessoas, mas desta vez não por mera curiosidade. Enquanto beberricava distraidamente do copo que tinha na mão, perscrutava as pessoas que por ali passavam, fazendo notas mentais. Era já noite, o jantar assentava placidamente nos estômagos dos passageiros e não havia muitos que circulassem pelo bar, preferindo apanhar ar e conversar pela amurada. A comoção pela chegada do náufrago passara e não era agora mais que motivo de referência casual nas conversas vespertinas. Ao fim de um par de horas, decidiu voltar para a cabine.
À falta de melhor escrivaninha, sentou-se na cama e tirou de uma mochila um velho bloco de notas de folhas estaladiças e manchadas, que pousaram com um plop na mesa de cabeceira. Começou a anotar:

NÁUFRAGO -> camisa cheira a querosene
->incêndio?
-> expressão estranha - não típico de sobrevivente (alegria de estar vivo?)

|-> Recolha: Comandante Picado -> não pareceu muito competente. Fernanda diz que é um pouco estranho.
Ping da lavandaria -> ajudou a levar para enfermaria, nada fora do usual
Quim, jovem grumete -> idem

BAR, HOJE:
- Korda -> barkeep, circula muito entre as mesas, frequentemente faz contacto visual com «rapariga» (perguntar nome à Fernanda)
-> não fala muito, evita, olhar fugidio. suspeito?
-> por sua vez recebe olhares faíscantes de «senhora idosa, passageira». nome? - perguntar ao James

- «senhora idosa, passageira» -> talvez meter conversa? pode ser interessante? maybe

- Malvindo -> bêbado no bar, sempre. não diz mais do nome. o tal que mudou de expressão quando viu o náufrago.
-> hoje mais falador. nada de esclarecedor, mas! "Foda-se" e "Vamos todos com o caralho, é o que é" -> preocupante? quem é Malvindo?

- Nórdico -> distante, mas educado.
-> however!, olhares estranhos à chegada do náufrago, contacto visual com Malvindo. conhecidos? não vi mais contacto, talvez coincidência.
-> ligação com ruiva dos caracóis? estava com ele na recolha do náufrago, hoje pareceu indiferente. conhecidos há mais tempo? ou apenas aqui? ligação com o evento?
-> recebe muitos olhares de «jovem elegante», não corresponde. ligação?

- Pedro -> rapaz que ajudou com a camisa. inquieto, viaja com a avó, raramente visto com ela, só às refeições.
-> parece inteligente, deverá ajudar? possivelmente perigo, muito novo? maybe, mas! - mais fácil passar despercebido pelo navio

- «loira da piscina» -> sempre muito arranjada, olha muito em volta. curiosa? não parece ter ligação com o evento. meter conversa, maybe? parece atenta, poderá ter ouvido alguma coisa. James saberá nome? talvez Fernanda?

- «homem do caderno» -> muito fechado. não vi falar com ninguém. escreve, sempre. mistério. ligação? mero escritor?


Enquanto escrevia, pinçava com os dedos a cana do nariz entre os olhos, como se tentasse espremer mais detalhes da memória, ou fragmentos de informação registados no incosciente. Era já noite avançada, e não se conseguia lembrar de mais nada. Pousou a caneta com o logotipo do La Esmeralda, e saiu a procurar a cabine de James, para lhe mostrar as suas anotações e tentar completar com mais informação.
Pelo caminho, cruzou-se com vários membros da tripulação, corriam pelos corredores, entrando e saindo de portas e de recantos.

- Paul! - disse uma voz atrás de si, ao mesmo tempo que uma mão lhe agarrava o braço e o puxava para uma esquina do corredor.
- Fernanda? Que se passa aqui?
- Estamos a fazer uma busca. O chinês da lavandaria, o Ping Li, não respondia ao walkie-talkie e agora ninguém o encontra em lado nenhum. Não há sinais de queda ao mar, mas também não está em nenhuma das áreas comuns ou da tripulação.
- Haverá ligação? Eu ia agora procurar o James, fiz um chart que...

«Atenção Senhoras e Senhores passageiros, é o vosso comandante quem fala. Devido a um problema técnico, o La Esmeralda vai ter de imobilizar a sua marcha durante tempo indeterminado. Por este motivo, não poderemos cumprir o horário previsto de chegada ao Funchal. Encontramos-nos neste momento a cerca de quinhentas milhas do nosso destino. Apesar de não vos poder dar uma previsão quanto ao tempo que vamos demorar a resolver o problema, asseguro-vos que a avaria não é grave e que não há quaisquer motivos para preocupações. Enquanto aguardamos, tomei a liberdade de pedir à nossa animadora de bordo , a "Tenente" Fernanda Gomes, para organizar um torneio de críquete ao luar, iniciativa inédita neste navio e que creio que será do vosso agrado. Comprometo-me a manter-vos informados regularmente do avanço dos trabalhos. Agradeço a vossa compreensão e tenham um bom resto de noite.»

- Agora isto? Mas que raio... tenho de ir falar com o Comandante Picado.
- Certo. Eu vou ter com o James. - breves momentos depois acrescentou: - não me saberá dizer qual é a cabine?
- 154. Venham ter ao torneio de críquete, haveremos de arranjar maneira de falar quando todos estiverem distraídos.

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby Sharky » 17 Jun 2010 01:18

- Miguel, por favor, entre e feche a porta.
- Obrigado. Finalmente um pouco de sossego, já estava a desesperar.
- Sim, desde que cheguei que sou abordado por tudo e mais alguém, que porra. O lado bom é que deixaram aqui um belo prato de carne com talheres chiques, e uma garrafinha de vinho. O Miguel aceita partilhar a refeição comigo?
- O prazer é todo meu, Miguel.
- Posso tratar-te por tu?
- Óptimo, pareces ser uma pessoa bem acessível, não?
- Foi o que pensei, além disso és atraente...olha, se não te importas e para eu me mexer um pouco, podiamos comer no teu quarto, pode ser? Ou estás a viajar acompanhado?
- Isso é óptimo, nunca se sabe para o que se vem, não é? Depois de um dia destes, bem que preciso de relaxar...vamos então.


O que gosto nos homosexuais, é que são tão previsíveis, e tão fáceis nestas condições, tudo por uma boa noite...


- A tua cama é bem melhor que a minha, não te importas que eu me ponha à vontade? É que esta roupa às três pancadas está um pouco apertada, não achas?
- Hum, gostas de ver as formas não é? Vem cá, mais perto, isso, prova lá esta carne...magoei-te com o garfo? Peço desculpa, deixa-me dar-te um beijo para passar...
- Beijas bem, Miguel, inocente e doce, como eu gosto, além de atraente, tens um brilho nos olhos que me deixa...
- Sim, dá-me um pouco de vinho, tenho sede.
- Eu sou professor de ginástica, como podes confirmar, tenho este corpinho saudável, muitas horas de treino. Gosto de me sentir bem, e os meus parceiros agradecem.
- Tenho dois, gosto de relações abertas.
- E tu?
- Não acredito. ninguém? Como é possivel?
- Jamais gozaria contigo. Escuta, não te acho nada de deitar fora, como já disse, acho-te atraente, e giro, tens algo que me atrai, não sei o que é mas...estou a gostar.
- Bom, já comi carne suficiente, agora só falta a sobremesa, que dizes de nós os dois trocarmos umas carícias?
- Parece que temos algo em comum, gosto de pessoas directas ao assunto e sem rodeios, sem joguinhos mentais, gosto disso, Miguel.
- O vinho? Acabamos depois, querido...fecha os olhos.


Vou gostar mais quando te começar a cortar a goela, como a matança do porco, a diferença, é que não vais fazer barulhinho nenhum...Miguelinho...hahahaha, mas mais tarde, agora vou aproveitar para relaxar um pouco, ele até tem um rabinho jeitoso e tal...

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby Leo Turilli » 21 Jun 2010 10:22

Ao acordar, não vejo ninguém. No entanto, a camarata não é a minha. Onde estarei?
Faço um esforço de memória... Ah, já sei! É a cama do náufrago. Mas onde estará ele?
Levanto-me, visto-me e abro a porta, espreitando para o corredor. Não se encontra ninguém... que estranho! Com "pézinhos-de-lã" (como está escrito n'O Romance de Amadis... como vêm, não sou burro de todo), atravesso o longo corredor apertado. Não se ouve um único som...
Uma sombra passa a correr à minha frente. Salto para trás, assustado! Será um fantasma? Não, é apenas o adolescente, aquele que veio com a avó (que triste!)! E parece em pânico, com a cara lívida...
Olho na direcção de onde ele veio e percebo que o corredor vai dar a uma última sala. Penso que será a casa das máquinas, embora não se ouça nenhum barulho- pudera, se estamos parados no meio do mar!
Abro a porta, curioso. Quando era miúdo, tinha sempre curiosidade em ver como funcionavam as máquinas e porquê.
Parece-me tudo normal e resolvo explorar. Abro uma porta, uma janela- que grande máquina! É um barco mesmo antigo, embora pintado e arranjado por fora para parecer novo.
Até que descubro um alçapão. Devem guardar as ferramentas lá, visto que não vejo um único sítio onde as possam guardar. Abro... e grito! Grito tão alto que devo ter acordado toda a gente no barco! Tenho de chamar o capitão! Está aqui uma rapariga, e está morta!
Sinto-me desmaiar. Mas antes de cair no chão, ouço uma voz familiar que diz:

Não vais dizer nada a ninguém... Nem vais poder, visto que vais ser o próximo a perder a vida neste jogo! Não passas de um peão...

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby Sharky » 21 Jun 2010 12:06

Aquela mistura de medicamentos no vinho, não devia ter a dose que merecia, acordou demasiado cedo...

- Parece que vou ter que te esmurrar ainda mais, meu paneleiro...queres mais desgraçado? Com tanto pontapé nessa boquinha, aposto que já não pias...

- Mas quem é esta gaja no alçapão??? Não me lembro de...mau Maria que o gato já mia...pelo que vejo, está aqui um belo serviço, parece que não estou sozinho na matança. Tenho companhia, ou concorrência? Esta viagem está a ser deveras interessante, ai está, está.

Merda, tenho que agir depressa, aquela gritaria de bichana com o cio deve ter acordado alguém, não me vou fiar no som das máquinas. Vou ter que o levar para o meu quarto, enquanto o Miguel está quente e inconsciente, assim termino o que comecei, com mais calma, sim, mais calma.

- Miguel, que achas de eu te cortar aos bocadinhos, com a faca que usaste para fatiar a carne do jantar? Parece-te bem? Hahahaha, vais adorar...Miguelinho...

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby Aignes » 09 Jul 2010 23:05

Muito estranho. Tudo muito estranho. Por agora o náufrago tinha sido levado para um local qualquer, as pessoas regressavam às suas cabines, as coisas pareciam encaixar lentamente na rotina de um navio. No entanto o navio estava parado por um qualquer motivo, e não conseguia afastar um sentimento de inquietação. Resolvi ir buscar a garrafa das emergências. Bebi um golo e abri a porta de comunicação com a cabine dele, silenciosamente, se bem que as gotas, as milagrosas gotas, não permitiriam que acordasse com o meu barulho. Aproximei-me da pequena mesa de apoio e, na semi-obscuridade, o grito que se ouviu pareceu-me ecoar durante minutos. Virei-me, esperando uma palavra assustada, um acordar repentino. Nada. A forma imóvel continuou profundamente adormecida. As gotas, pensei. Afinal eram bem melhores do que eu julgara a princípio. Peguei no pequeno tabuleiro e voltei para o meu compartimento, a mente descansada pela resposta mais simples e plausível, outras coisas me preocupavam a mente. Fechei a porta entre os compartimentos. O tabuleiro na minha mesa. Apoiei as mãos na mesa e contemplei aquele conjunto de objectos, como quando vemos algo estranho e a lógica não nos permite perceber. Os vários comprimidos do dia continuavam intactos na pequena caixa de medicamentos. O frasco na posição em que o tinha deixado. A colher limpa e meticulosamente paralela ao tabuleiro. Não respirava, não tinha pulsação. Sinto as roupas molhadas junto ao colarinho. Acendo a luz. Uma mancha negra estende-se sobre a roupa de cama, ensopada na almofada branca, e pinga para o chão. Sangue por todo o lado. A minha mão molhada de sangue. Recuo em choque para o meu lado, sento-me na cama. Vislumbro por entre a porta que não fechei o cobertor sem vincos puxado para cima. Alguém o matou e puxou-lhe os cobertores para cima. Sem querer a morte dela veio-me à mente, e a face lívida dentro do caixão, e todos os pensamentos puxados para outra pessoa me ter morrido. Não é a mesma coisa, mas ainda assim é alguém com quem passamos tanto tempo. Alguém de quem eu devia cuidar e cujo sangue manchava os meus dedos, como se de certa forma a responsabilidade fosse minha, os meus olhos e ouvidos longe, sem poder ajudar, sem poder cumprir a minha função. E alguém o matou e puxou os cobertores para cima. Quem quereria tal coisa? Quem conceberia tal forma de matar um homem velho que mais uns anos e morreria certamente pelo seu próprio viver? Pancadas na porta, “You there, mate?”. Levantei-me e abri a porta. Fiquei a olhar fixamente para a maçaneta manchada de sangue. Paul começa a falar rapidamente de algo, nomes, críquete e um papel a abanar na mão, até que eu levanto os olhos e digo

Someone killed him, then tucked him in.

De olhar sombrio, mas resoluto, Paul afasta-me e passa por mim. Volta de mãos na cabeça, umas quantas expressões interessantes escapando-lhe da boca. Bebo um golo da minha garrafa.

- É preciso avisar alguém, isto é um navio, alguém há-de ter visto algo, deve ter havido barulho, daquela maneira, tanto sangue... - Paul falava sem respirar.
- Foi logo no início da noite, ele nem sequer tomou os comprimidos...
- Chamar alguém, a tripulação, o comandante.. se calhar a Fernanda, ela parece de confiança, e já estava com aquele caso do naúfrago...
- E ele não acordou com o grito.. o grito! O que é que se passou lá fora?
- "Dunno, mate."

Saímos ambos, a porta fechada atrás de nós. Hoje a noite não acabava.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby toiota » 10 Jul 2010 15:49

Bem qual não foi a minha surpresa quando cheguei à lavandaria e o chinês afinal não é chinês é o meu grande amigo Tó Mane, quem diria, mas deixou-me com a pulga atrás da orelha veio com uma história esquisita a dizer que era um detective privado e que me estava a proteger, e que estava a ser pago por alguém da minha família para me proteger, a minha família como se ela exitisse, se existisse não tinha passado a vida miserável que passei no orfanato, mas se fôr verdade tenho que ter cuidado pois ele diz que está a borod alguém da minha família, cá para mim andou mas foi a beber.
Depois desaparece assim sem mais nem menos e deixa a conversa, qual conversa qual quê eu não cheguei a dizer nada só ouvi, realmente ouvi um espécie de grito, um barulho estranho, mas não tive coragem de ir ver e pisguei-me dali para fora.
Mas será que é verdade? Tenho que ver se o encontro outra vez, para me explicar tudo tin-tin pot tin-tin.

Devia ficar escondida, mas até o barco, navio ou o raio que é está parado, estou a ficar verdeiramente assustada que faço agora, não posso voltar a esconder-me no camarote da tripulação, senão começam a desconfiar.

Que será feito daquele empregado do bar, pode ser que se eu lhe disser que estou interessada em ajudá-lo a roubar os passageiros, me possa ajudar.

Também vi que o miúdo que viaja com a avó me olhou de uma maneira, parece que quer estabelecer contacto, será que é a tal pessoa da minha família a bordo? Nã e logo e tinha de calhar uma família rica e eu tanto tempo naquele pardieiro.

Vou mas é voltar à lavandaria está lá o chinês velho, será que é mesmo chinês? Pode ser que o Tó já tenha voltado.

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby Bugman » 18 Jan 2011 15:40

O mar bate ritmicamente no cais e sinto-me uma criança a ser embalada. Olho em redor o porto e vejo os turistas descontraídos, a aproveitar os últimos raios de sol de um dia prolongado. Para muitos não o será certamente, mas o longo Inverno é mais fácil de encarar se esquecer dias mais soalheiros. É fácil passar despercebido na nossa própria terra, mas o mesmo não acontece quando se é alto e moreno e se marca um encontro num porto turístico da Noruega. Estranho, mas é verdade, que alguém tão alto e moreno se destaque neste mar de gente.
"Odin não está satisfeito." diz-me ele enquanto se senta. Já sentado levanta o meu copo e aponta para ele, olhando a empregada. "Nada satisfeito." acrescenta.
"Odin nunca está satisfeito, mas era bom que percebesse que por vezes as coisas não são como planeamos." digo calmamente. Penso em beber um gole de cerveja, mas ele olha-me intensamente e percebo que aquela é uma competição que não posso perder. "Surgiram contratempos, memórias do passado. Berlim." A última palavra, dita assim, seca, sem oração, uma palavra só, daquelas que comportam, em si, todo um conto, faz com que se lhe arregalem os olhos.
"Ainda Berlim?"
"Ainda Berlim."
Uma pausa prolongada. Aproveitamos ambos para aproveitar o ar fresco que vem do fiorde e perdemo-nos por instantes a olhar o reboliço do porto de turistas.

<continua>
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Ao mesmo tempo que ali estava tudo igual, não estava você lá, não está teu passado, não está nada. Quer dizer: só você sabe que esteve ali. A parede, os prédios, não guardam a gente. Nós só nos guardamos a nós mesmos. Só valemos nós connosco. Fora daí é literatura, é poesia, é arte. Ferreira Gullar
Yes, I am a woman of the law. And there are lots of laws. But if they don't offer us justice, then they aren't laws! They are just lines drawn in the sand by men who would stand on your back for power and glory. Sartana
"No, Señoría, no es lo mismo estar dormido que estar durmiendo, porque no es lo mismo estar jodido que estar jodiendo". Camilo Jose Cela

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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby Bugman » 10 May 2011 17:04

O camarote de Malvindo estava abafado e decidimos procurar o náufrago para lhe fazer umas perguntas. Marlene é uma inconveniência e tenho de lidar com ela no Funchal. A maneira airosa seria sair com as malas e não voltar, mas o mais certo é que ela estranhasse e ainda punha a ilha em alvoroço, o que significa mais atenção. Definitivamente, uma inconveniência e daquelas que têm de ser geridas com luvas.

O náufrago também é uma inconveniência. A julgar pelo que disse o Malvindo é preciso muito cuidado. O facto de a maior parte dos passageiros se preparar para um original cricket ao luar tem de estar relacionado com o desaparecimento da figura, porque não pode ser coincidência o barco ter uma avaria e aquele fulano estar a bordo. Quer dizer... O desaparecimento pode não ser mais que um simples não-aparecimento!

"Assim não vamos a lado nenhum!" resmunga Malvindo pouco depois de começarmos e estranhamente concordo com ele.
"Tens razão. Volta para a tua cabine e prepara uma mala. O que quer que seja comprometedor e duas mudas de roupa. Eu vou fazer o mesmo e tratar de arranjar maneira de sairmos daqui. Vem ter à minha cabine daqui a..." uma pausa para olhar para o relógio e calcular quanto tempo para ir fazer a mesma coisa, encontrar um bote resguardado e voltar à cabine "quarenta minutos." Pelo ar, desconfia de mim. Claro! Um homem não sobrevive neste ramo a confiar em cada bom samaritano que nos salta ao caminho. "Trabalhei durante uns tempos em navios de cruzeiro e se há coisa que sei é que não se tiram os passageiros da cama à meia-noite por causa de avarias, a menos que o barco esteja a ir ao fundo." ainda nada " Pára e pensa um bocado: barco parado, passageiros todos concentrados... Não parece um bom argumento para uma caça ao homem? Se for, eu quero estar do lado dos caçadores, não dos caçados." Ainda hesitou uns segundos antes de, sem qualquer sinal, começar a andar em direcção ao seu quarto.

-----//-----

Estava já a voltar à minha cabina quando um vulto dobra a esquina do meu corredor. Pensei, pela figura, que pudesse ser Marlene e decidi segui-la. Face ao aconchego das armas com o silenciador à cintura, não consegui melhor do que ver a figura a dobrar um outro corredor. Num passo apressado, decidi chamá-la enquanto dobro a segunda esquina. A figura parou, virou-se e vi que afinal havia perseguido a figura de Fernanda, a animadora de bordo e que deveria estar a orientar os passageiros no seu original cricket nocturno.

"Os passageiros..." cortei-lhe a palavra ainda antes que ela pudesse chegar ao verbo.
"Você sabe tão bem como eu, ou melhor, que não há avaria nenhuma! Quer-me contar o que se passa ou procuro o capitão?" a julgar pela expressão facial, só a menção ao capitão virou a conversa para o meu lado.
"O capitão não está disponível de momento." disse com voz tremida.
"O imediato então..." acrescentei, tentando perceber algo da disponibilidade e virando costas como quem vai embora. Felizmente não precisei de me ir mesmo embora, embora se o fizesse talvez me tivesse limitado a dobrar a esquina.
"Espere!" disse enquanto me agarrava um braço. "O capitão está trancado no seu quarto e não responde. O capitão Picardo não costuma fazer isto, costuma passar as primeiras noites na ponte e é homem de sono ligeiro. Algo se passa! Pode-me ajudar?"

Acedi mais para poder chegar ao capitão do que pela voz entaramelada. Chegado à cabine do capitão ela bateu duas vezes à porta sem resposta. Na ausência de resposta, e deduzindo que não seriam as primeiras tentativas, dei violentamente com uma das solas na fechadura. A porta mal estremeceu, ao contrário da minha perna! "Blindada?" perguntei a Fernanda. "Não. Em caso de necessidade o capitão fica com a tripulação na ponte." Pois, em caso de necessidade todos saem dos quartos a correr e portanto as portas abrem para fora. Como pude ser tão parvo? Olho em redor e vejo que o extintor mais próximo se encontra a cerca de 50 metros, o que é estranho quando os procedimentos de segurança mencionam 30. "Pode-me ir buscar aquele extintor?" Ela vira costas e eu rapidamente tiro uma das armas, dou três disparos certeiros onde penso estarem as dobradiças e volto a guardar a arma. Ao fundo do corredor ela acaba de remover o extintor da parede e parece-me que não se apercebeu.

Uma vez dentro da cabine do capitão, Fernanda correu para o quarto enquanto eu me preocupava mais com um fax com o timbre da Interpol.
"Não!" gritou ela no quarto e pensei eu ao ver o fax com o currículo do náufrago. Desliguei-me daquele momento e transportei-me para uma casa a arder em Berlim, dois prisioneiros na cave e uma pequena fortuna em armas, prestes a irem pelos ares e a chamar muita atenção para uma operação discreta...

Cambaleei para o quarto. A tenente era agora uma carpideira cobre o corpo pálido do capitão.
"O náfrago?" perguntei, sem convicção e acabei por ficar sem resposta, ocupada que estava. Voltei a perguntar. Voltou a não responder. Levantou o olhar. Vermelhos de dor e encarnados de raiva, assim estavam os seus olhos, como se vermelho e encarnado fossem duas cores diferentes, a mesma manifestação de dois sentimentos distintos.
"O capitão não vai acordar, está demasiado pálido." disse-lhe com aquilo que mais tarde percebi ser uma frieza que só se adquire passando muito tempo com cadáveres. Demasiado tempo, na opinião de alguns. "Nós estamos vivos, mas a julgar por isto" passo-lhe o currículo para a mão "não sei por quanto tempo. Volto a perguntar: onde está o náufrago?" Enquanto ela lia o fax eu perguntava-me como podia ter sido tão parvo. Malvindo tinha-o reconhecido mesmo sem a barba e com o bronze e a fuligem. E estaria o cabelo pintado?
"Isto é terrível! O Paul desconfiava de algo, mas isto vai para lá do imaginável." e continuou a contar-me o que Paul imaginara. O que Paul, ela e mais um grupinho engraçado imaginaram!
"Fernanda, " interrompi " ainda não me disse onde posso encontrar o náufrago!"
"Mas você quer enfrentar um louco? Tem de ser..." a frase ficou em suspenso porque entretanto eu tirara as armas. Ainda ameaçou gritar mas o som não saiu.
"Isso! Não vale a pena estarmos a chamar a atenção." respiro fundo "Não vale a pena fazer de conta que sou dos tipos bons, mas se quiser ver o mundo a preto e branco, basta-lhe saber que estou consigo, enquanto estiver comigo. Há no mundo pessoas como eu, más por necessidade, e outras más por natureza. O nosso amigo Salvador está na segunda categoria. Eu estava de férias, mas acontece que o nosso amigo tem muita gente má à procura dele. É o chamado mau entre os maus." o olhar dela não era agora tão esbugalhado, mas ainda parecia bloqueado no cano da arma. Ainda! Inconscientemente apontara-lhe uma das armas...

-----//-----

A explicação ainda demorou um pouco mais, mas finalmente acedeu a ajudar-me. Quando cheguei à minha cabina já o Malvindo lá estava, com ar de libelinha perdida. Quando nos viu esbracejou. Quando os apresentei bufou. Quando contei o que aconteceu passou-se, mas o pior tinha sido mesmo o apresentá-los, o ela saber.
"E o que se faz com ela depois?" chegou mesmo a perguntar, enquanto eu tomava a dianteira para o bote onde guardara a minha espingarda e a roupa.
"O que se faz é deixá-la para poder voltar à vidinha dela. Estou de férias e não tenho ninguém marcado."
"Mas e o que ela sabe? Quem sabe tanto não pode andar por aí à solta!"
"Isso não é da minha responsabilidade. Vai connosco na balsa e depois logo se vê, mas se não houver espaço para ela, você fica já aqui!" Se não fosse o que ele disse a seguir, com um sorriso de escárnio, penso que era capaz de lhe ter apontado a arma.
"Balsa? Meu menino, tens menos de uma hora para fugires ao heli! De balsa nem chegas a ver as luzes do Funchal. Aprende com os mais velhos e ouve-me." e, esquecendo Fernanda, prosseguiu contando o plano para fugirmos daquele barco.
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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby Bugman » 13 May 2011 14:31

Atirei a cabeça para trás e senti o sal do fiorde a bater-me no rosto.
"No heli da polícia?" perguntava-me estupefacto "No heli sem matar ninguém?"
"Sim. Eu próprio quando ouvi o plano não queria acreditar, mas funcionou lindamente."
"Onde o deixaram?"
"Na Madeira. Aterrámos lá num pico, pegámos fogo àquilo e descemos à boleia para o Funchal. Já estava tudo apalavrado com o contacto e foi só tratar das formalidades."
"E a gaja?"
"Ela e o Malvindo pintaram um quadro de rapto e voltaram para o barco. Da última vez que ouvi falar nela tinha-se despedido da companhia de navegação. Não sei se há relação, mas conta-se que para se chegar à Fada Madrinha agora tem de se falar com um tal de Duende de Saias, mas não confirmo." gargalhada!
"Espera, aí! O Duende trabalhava num paquete?" encolho os ombros e ponho um ar de falsa inocência. "E estão-se a dar bem?"
"Não mantive contacto. Das duas vezes que me cruzei com aquele fulano as coisas tomaram um rumo que só vejo em filmes, e dos maus!"
"E Berlim? Fechaste Berlim?"
"Berlim está fechado. Com um bocado de sorte fica com as culpas do rapto, do heli, do massacre a bordo. Acho que planeado não ficava mais limpinho."
"Mexe com muita gente..."
"Mais do que recomendável para ser bem feito."
"Mas... Assim do nada?"
"Se fosse um poeta ou um skald dizia-te, por palavras cantadas, que apareceu à minha frente e que reagi tão depressa que foi só atirar. Não foi tão poético, mas podemos passar essa história."
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Re: 7º Conto BBdE - Texto

Postby Sharky » 09 Sep 2011 20:32

- Gostaste da pequena viagem? Gostas de ser arrastado pelo chão, não gostas? Claro que gostas...

Antes de te fazer em pedacinhos, isto porque estás um pouco animado, vou-te dar uns pontapézinhos nessa tua cabecinha, querido...

...isso, cospe a peçonha que saí dessa boca nojenta...


- Olha, Miguel, fica aí quietinho e deitado enquanto vou defecar, não demoro nada, mesmo nada, vou só aliviar a tripa em três tempos. Até já.


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